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Cefaleia por uso excessivo de medi­ca­mentos

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Dr. Marcus Yu Bin Pai, de blazer, explica um modelo anatômico na tela de um notebook a duas pessoas sentadas à mesa, vistas de costas
Neste artigo
Como contar os dias de uso, confirmar o diagnóstico e retirar cada classe com segurança.

O que é

Cefaleia por uso excessivo de medicamentos é a dor de cabeça presente em 15 dias ou mais por mês em quem já tinha enxaqueca, cefaleia do tipo tensional ou outra doença de dor de cabeça e, há mais de três meses, usa medicamentos de crise em muitos dias.[1]

A pergunta central é se o remédio está mantendo a dor. A resposta vem do calendário: quantos dias de dor houve no mês, em quantos dias cada classe de medicamento foi usada e há quanto tempo esse padrão se repete. Ressonância e tomografia não fazem esse diagnóstico.[12] A consulta decide se o critério foi preenchido, se existe enxaqueca crônica ao lado do sobreuso, se a retirada pode ser feita de uma vez ou precisa de redução supervisionada e qual prevenção começa junto. A urgência muda quando aparecem sinais de outra causa, reunidos no quadro de sinais de alerta.

Sobreuso mede frequência: conta em quantos dias o medicamento de crise foi usado. Superdosagem é outra questão, ligada à quantidade tomada e à toxicidade da substância. Os dois problemas podem coexistir e respondem a perguntas clínicas diferentes.[1]

Dependência também é avaliada à parte, sobretudo quando há opioide, barbitúrico (um sedativo presente em algumas fórmulas combinadas) ou benzodiazepínico (um tranquilizante). Ela pode surgir como efeito do uso continuado dessas classes e não atribui culpa ao paciente.[13]

Como a dor aparece

Não existe uma dor exclusiva da cefaleia por uso excessivo. As características da dor costumam acompanhar a doença prévia: na enxaqueca, continuam aparecendo dor pulsátil, piora com atividade, náusea e sensibilidade à luz ou ao som.[10]

Na cefaleia do tipo tensional, pode predominar pressão dos dois lados da cabeça. A mudança mais comum é a frequência: surge uma dor de fundo em muitos dias, com crises mais fortes por cima.[2]

Alguns relatos chamam minha atenção: o remédio alivia por poucas horas e a dor volta, o efeito parece menor, a pessoa acorda com dor e já calcula quando poderá repetir a dose. Esses relatos levantam a suspeita de sobreuso, mas ainda não confirmam o diagnóstico.[10]

Na consulta, eu comparo o padrão atual com a cefaleia antiga, conto a exposição por classe e procuro mudanças que apontem para outra causa. A qualidade da dor, sozinha, não separa enxaqueca crônica de cefaleia por sobreuso.[10]

Diagnóstico clínico

Na avaliação, o diagnóstico começa pela história e por um calendário. Para cada dia, anotam-se presença de cefaleia, sinais de enxaqueca, impacto nas atividades e todo medicamento de crise, prescrito ou comprado sem receita.[12] A contagem separa dias de dor, dias com sinais de enxaqueca e dias de exposição por classe. É essa contagem que mostra se o critério foi preenchido e qual retirada é segura.[11]

Na história, eu confirmo qual cefaleia existia antes, quando a frequência aumentou e há quanto tempo o padrão de medicamento se repete. Um produto para gripe pode conter paracetamol; uma combinação para dor pode trazer cafeína ou codeína. Também verifico se o padrão atual continua compatível com a cefaleia conhecida ou se precisa de investigação separada.[12]

Para medir a frequência atual, o diário deve cobrir pelo menos oito semanas. Esse período mostra a variação entre semanas, as crises prolongadas e os dias sem dor que a lembrança do mês costuma apagar.[12]

Dr. Marcus Yu Bin Pai à mesa do consultório, olhando um modelo anatômico em 3D no monitor, com modelos de coluna e de acupuntura sobre a mesa
Modelo anatômico em 3D no monitor do consultório.

O critério de mais de três meses de uso não obriga a esperar três meses novos. Receitas, histórico de compras, mensagens, registros de pronto atendimento e a descrição do padrão anterior ajudam a reconstruir a exposição. Quando a memória é incerta, o diagnóstico pode ser revisto depois de um período documentado, sem inventar uma contagem precisa.[11]

A classificação internacional das cefaleias permite fazer o diagnóstico sem exigir melhora após a retirada.[1] Depois, a queda dos dias de cefaleia e de resgate, a persistência da enxaqueca crônica e a tolerância ao preventivo servem para acompanhar o caso; nenhum desses dados, isolado, prova a causa.[12]

Critérios do diagnóstico

A classificação internacional exige três componentes ao mesmo tempo: uma cefaleia prévia, dor em pelo menos 15 dias do mês e uso regular acima do limite da classe por mais de três meses. A contagem precisa representar um padrão repetido. Uma semana isolada de crise prolongada ou um único mês atípico não preenche o componente de tempo.[1]

Uma grande quantidade tomada em um único dia pode trazer risco de intoxicação. Para o diagnóstico, porém, conta a frequência mensal: o termo regular descreve exposição distribuída por mais de três meses. A classificação também exige que outro diagnóstico não explique melhor o quadro, verificação que continua necessária mesmo quando a contagem de medicamentos parece típica.[1]

Enxaqueca crônica e cefaleia por uso excessivo podem coexistir, e o paciente pode receber os dois diagnósticos. Essa dupla identificação evita dois erros opostos: retirar o medicamento de crise e deixar a enxaqueca crônica sem prevenção, ou iniciar um preventivo e ignorar uma exposição diária capaz de manter instabilidade, efeitos adversos ou dependência.[2]

Dias por classe

O limite mensal depende da classe e da composição do produto. Triptanos (remédios específicos para a crise de enxaqueca), opioides (como a codeína), ergotamínicos (remédios de crise à base de ergotamina) e analgésicos combinados contam a partir de 10 dias por mês; paracetamol, aspirina e anti-inflamatórios, a partir de 15. Nomes comerciais diferentes podem esconder a mesma substância ou uma combinação, por isso eu conto pelo princípio ativo.[4][5][6][3][7]

CONTAGEM MENSAL
10
dias ou mais
TriptanosUm ou vários da classe
OpioidesInclusive combinações com codeína
ErgotamínicosUso agudo recorrente
CombinadosCafeína, opioide ou barbitúrico na fórmula
15
dias ou mais
Paracetamol ou aspirinaSomar exposição na família não opioide
Anti-inflamatóriosIbuprofeno, naproxeno, diclofenaco e equivalentes
Limite de cada classe na classificação internacional das cefaleias: ergotamínicos, triptanos, analgésicos não opioides, opioides e combinados.

Cada dia de exposição conta uma vez, qualquer que seja o número de comprimidos: três tomadas do mesmo analgésico na terça-feira representam um dia para a classificação, embora a dose total continue importante para a segurança.[1] Paracetamol e anti-inflamatórios não esteroides se somam dentro da família dos analgésicos não opioides, e trocar o nome do produto sem reduzir os dias tratados não reinicia a contagem.[5]

Quem mistura classes precisa de uma segunda soma. Mesmo que nenhuma classe isolada alcance o próprio limite, a soma dos dias de tratamento de crise pode caracterizar sobreuso atribuído a várias classes. Num dia com dois produtos, o dia entra na coluna de cada classe usada, mas aparece uma única vez na soma de dias com qualquer resgate.[8]

Diagnósticos parecidos

Os mesmos registros podem sustentar mais de uma conclusão. Confirmar a cefaleia por uso excessivo não apaga a enxaqueca crônica: as duas permanecem no diagnóstico e no plano de tratamento.[1][2]

QUATRO LEITURAS DIFERENTES
EXPOSIÇÃOUso frequenteO calendário mostra muitos dias tratados; a relação com a dor ainda será testada.
DIAGNÓSTICOCefaleia por sobreusoHá cefaleia prévia, alta frequência e padrão de classe compatível.
COEXISTÊNCIAEnxaqueca crônicaCrises de enxaqueca continuam identificáveis no mês e recebem prevenção própria.
OUTRA ROTACausa secundáriaHistória ou exame trazem elemento novo que exige investigação dirigida.

Uma enxaqueca frequente e mal controlada também aumenta o uso de resgate. O medicamento pode ser consequência da frequência, pode ajudar a mantê-la ou pode ter os dois papéis. A retirada mostra quanto o sobreuso participava; a prevenção trata a enxaqueca que continua produzindo crises. Por isso, acompanho em separado os dias de exposição, os dias de cefaleia e a incapacidade.[16]

O uso frequente de medicamento também não encerra a busca por outra causa. Se a cefaleia atual tem alguma característica do quadro de sinais de alerta, a investigação dessa causa vem antes da retirada em ambulatório, e as duas condições podem coexistir.[12]

Inventário dos medicamentos

Entra no inventário tudo o que foi usado para cefaleia e para outras dores: medicamentos prescritos, produtos sem receita, fórmulas para gripe, associações com cafeína, combinações com codeína, gotas, injetáveis e medicamentos recebidos em pronto atendimento.[11] Em quem já tem cefaleia episódica (dor de cabeça em crises, em menos de 15 dias por mês), o analgésico tomado repetidamente para a coluna, uma articulação ou outra dor também conta na exposição.[10]

Os preventivos ficam em outra coluna. São tomados de forma programada para reduzir a frequência futura e, em geral, não entram na definição de sobreuso de tratamento de crise. Separá-los também evita confundir efeito adverso de um preventivo com cefaleia por sobreuso. Para cada medicamento de crise, anote princípio ativo, combinação, dias de uso, número de tomadas, horário, resposta, retorno da dor e sintomas entre as doses.[10]

Jardim interno da clínica com espelho d'água, janela redonda e bonsai
Jardim interno com janela redonda.

Fotografar caixas e bulas antes da consulta reduz erros com nomes comerciais, porque formulações parecidas podem ter composições distintas. Cafeína em medicamentos, sedativos, opioides e benzodiazepínicos também são registrados, porque alteram a segurança da retirada. Decompor cada produto combinado em seus princípios ativos evita suspender um analgésico e manter a mesma classe em outra marca.[11]

Exames de imagem

Com o diagnóstico de cefaleia primária ou por sobreuso já estabelecido, pedir imagem apenas para tranquilizar não é indicado.[12]

A imagem ganha função quando a história ou o exame levantam uma pergunta sobre outra causa, e então o exame é escolhido para essa causa. Como uma pessoa pode ter sobreuso e outra condição ao mesmo tempo, um calendário compatível não encerra a avaliação.[12]

Sinais de alerta

Uma cefaleia nova ou claramente diferente exige reavaliação mesmo em quem já tem diagnóstico de uso excessivo. Sinais neurológicos, infecciosos, de trauma e da gestação podem mudar a urgência, a investigação e onde procurar atendimento, e qualquer mudança no plano de medicamentos é definida com a equipe.[12][18]

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DESTINO POR URGÊNCIA
Emergência agoraDor súbita e inexplicada que atinge intensidade máxima em até cinco minutos, sobretudo com redução do nível de consciência. Fraqueza ou dormência súbita de um lado, dificuldade súbita para falar ou entender exigem atendimento de emergência imediato, mesmo sem dor súbita.[9] Ligue para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo telefone 192, ou vá ao pronto-socorro imediatamente.
Avaliação médica sem alterar o esquema sozinhoMudança cognitiva, febre com piora, trauma recente, imunidade comprometida, vômitos sem causa aparente ou mudança substancial da cefaleia. Procure avaliação médica para definir a urgência, a investigação e os próximos passos. Não altere o esquema de medicamentos por conta própria.
Gestação ou puerpérioNo puerpério, período após o parto, cefaleia nova ou diferente precisa de avaliação obstétrica. Cefaleia persistente ou progressiva, súbita e intensa, ou acompanhada de alteração visual ou neurológica exige contato imediato. Nos sinais urgentes, contate a equipe obstétrica imediatamente. Se não conseguir contato, procure um pronto-socorro.

Retirada por classe

Analgésicos simples, triptanos e ergotamínicos

O plano começa pela lista de princípios ativos e dias de uso, incluindo os medicamentos combinados. Em casos sem complicação, analgésicos simples, triptanos e ergotamínicos em geral podem ser suspensos de uma vez ou restringidos, com um resgate definido e tratamento da cefaleia de base. Na escolha, eu considero a intensidade das crises, as tentativas anteriores, outras doenças e a possibilidade de acompanhamento nos primeiros dias.[10]

Opioides, barbitúricos e tranquilizantes

Essas substâncias pedem redução lenta e supervisionada, especialmente após uso prolongado, pelo risco de abstinência.[10] Benzodiazepínicos e outros medicamentos associados à dependência não devem ser interrompidos de forma abrupta fora de situações graves excepcionais.[13]

A velocidade depende da dose atual, da duração do uso, da formulação e dos sintomas de cada etapa. Codeína e barbitúricos podem estar presentes em combinações vendidas como analgésicos, e benzodiazepínicos usados para dormir entram na revisão mesmo quando não foram prescritos para cefaleia. Cada etapa fica registrada e o ritmo se ajusta à tolerância.

Primeiros dias

A dor de cabeça pode aumentar por um período após a suspensão do medicamento de crise. Essa fase costuma durar de dois a dez dias, pode ser mais longa com analgésicos do que com triptanos e pode vir com náusea, vômitos, alteração do sono e inquietação.[10] Antes de começar, o paciente sabe como falar com a equipe, como tratar a náusea e o que fazer se não conseguir se hidratar. Sintomas neurológicos novos, dor muito diferente da habitual ou piora importante do estado geral exigem avaliação antes de continuar o plano, mesmo no meio da retirada.

Ambulatório ou internação

Muitos pacientes que usam analgésicos simples ou triptanos, sem complexidade clínica relevante, podem fazer a retirada em ambulatório. O plano, o resgate e o acompanhamento ficam definidos antes da primeira mudança.[10]

Supervisão especializada ganha prioridade com opioides, barbitúricos, várias substâncias, dependência, depressão ou ansiedade instável, doença clínica grave, falha repetida de retirada ou ambiente doméstico sem suporte. Esse cuidado pode ser organizado com hospital-dia, consultas mais próximas, coordenação entre profissionais ou internação, conforme a necessidade de monitoramento.[10]

A internação não é rotina. Ela é considerada com uso de opioide forte, outra doença importante ou tentativas repetidas e malsucedidas de retirada, e o nível de cuidado fica definido antes de mexer numa substância de maior risco.[12]

Crises durante a retirada

Plano de resgate

O plano de retirada já traz o tratamento para náusea e para crises incapacitantes. Antes do primeiro dia, ficam anotados a classe disponível, as circunstâncias de uso, os medicamentos suspensos e a forma de registrar cada exposição. A alternativa precisa ter baixo risco de repetir o mesmo padrão, respeitar as contraindicações de cada pessoa e ter um limite de dias de uso.[11] Se o novo resgate começa a passar do combinado, eu reviso diagnóstico, retirada, prevenção e nível de suporte antes que ele ocupe muitos dias do mês.[16]

Tratamento de ponte

Tratamento de ponte é uma medida transitória para os primeiros dias da retirada. Antieméticos que bloqueiam a dopamina (remédios contra enjoo) podem ser considerados para a náusea, e a di-hidroergotamina intravenosa é uma opção de protocolos especializados.[10] Essas opções foram testadas sobretudo em estudos pequenos, e nenhum esquema de ponte serve para todos os medicamentos e pacientes.[16]

Corticoide não é ponte de rotina: nos estudos, ele não reduziu de forma consistente a dor nem os sintomas dos primeiros dias da retirada, e também não ajudou a sair do sobreuso.[17]

Metoclopramida para náusea

Quando a metoclopramida é considerada, reação distônica anterior, doença de Parkinson, epilepsia e uso de outros medicamentos que bloqueiam a dopamina mudam a escolha. Distonia aguda pode causar contrações involuntárias de face, olhos ou pescoço; acatisia é uma inquietação motora intensa. Esses efeitos exigem suspender o medicamento e avaliar, por isso apresentação, via e local de uso são definidos antes da ponte.[26]

Di-hidroergotamina

A di-hidroergotamina intravenosa fica restrita a pacientes selecionados, em ambiente monitorado. Gestação, doença das artérias do coração, espasmo das artérias, hipertensão não controlada, doença arterial periférica e uso de medicamentos que bloqueiam com força uma enzima do fígado que participa da eliminação de vários remédios (CYP3A4) excluem seu uso. O risco cardiovascular pode exigir avaliação específica antes da primeira aplicação. Ela não serve para uso diário e não substitui a retirada da classe em sobreuso.[27]

Prevenção da cefaleia de base

Quando começar

O preventivo reduz a frequência da cefaleia de base e a necessidade de resgate, e pode começar junto com a retirada do medicamento em sobreuso.[12]

Não é preciso esperar o fim da retirada para começar a prevenção: iniciar as duas juntas reduziu os dias de dor de forma parecida às outras estratégias e, nos resultados secundários do estudo, ajudou mais pessoas a sair do sobreuso e a voltar a um padrão de crises esporádicas.[14]

Trocar o remédio de crise usado em excesso ajudou mais a sair do sobreuso, que persistiu em 53,5% de quem trocou e em 72,9% de quem não trocou. Os dias de dor, porém, melhoraram de forma parecida com ou sem a troca. Opioides e barbitúricos quase não entraram nessas comparações e continuam pedindo redução supervisionada.[15]

Topiramato

O topiramato é uma opção de prevenção oral na enxaqueca crônica com sobreuso, usada quando o perfil clínico permite uso regular e revisão da tolerância.[11] Formigamento, redução do apetite ou do peso e dificuldade de memória ou concentração são motivos frequentes para ajustar ou trocar o preventivo, por isso cognição, humor e peso são revistos durante o tratamento.[23]

O topiramato não deve ser usado para prevenir enxaqueca durante a gestação. Em pessoas que podem engravidar, o risco para o feto, o teste de gravidez e a contracepção eficaz são resolvidos antes da prescrição.[22]

Toxina botulínica

A toxina botulínica tipo A é um preventivo da enxaqueca crônica, inclusive quando existe uso excessivo.[11] Ela age sobre a enxaqueca de base; os sintomas de abstinência seguem o plano de retirada. Em geral, ela entra depois de pelo menos três preventivos anteriores que falharam, não foram tolerados ou eram inadequados, e quando o sobreuso já está sendo manejado. A resposta é medida pelo calendário: redução menor que 30% dos dias de cefaleia após dois ciclos sustenta mudar a estratégia, e a conversão sustentada para enxaqueca episódica também muda a indicação.[21]

Dor no pescoço, fraqueza muscular localizada e efeitos nos locais de aplicação entram na revisão de tolerância.[24]

Anticorpos monoclonais

Os anticorpos monoclonais contra o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), ou contra o seu receptor, também são uma opção de prevenção na enxaqueca crônica com sobreuso.[11] Entram quando preventivos anteriores falharam, não foram tolerados ou são inadequados. Na enxaqueca crônica, redução menor que 30% da frequência após 12 semanas sustenta interromper ou trocar a estratégia.[12]

A via e os riscos variam conforme o produto. No erenumabe, constipação intestinal, reação no local da injeção, alergia ao medicamento, pressão alta e fenômeno de Raynaud (dedos que ficam brancos ou arroxeados no frio) mudam a seleção e o monitoramento. Esses riscos são próprios desse medicamento e não devem ser atribuídos automaticamente a toda a classe.[25]

Acupuntura médica

Indico acupuntura médica como prevenção da enxaqueca quando propranolol, topiramato e amitriptilina falharam, não foram tolerados ou não são seguros para aquela pessoa, com um curso de até dez sessões em cinco a oito semanas. Na cefaleia do tipo tensional crônica, considero o mesmo curso como prevenção desse diagnóstico.[12] Nos dois casos, o alvo é a cefaleia de base; a abstinência dos primeiros dias segue o plano de retirada.

Antes do curso, o calendário registra o padrão clínico e o diagnóstico que está sendo tratado. Ao fim do ciclo, eu comparo os dias de dor, a necessidade de resgate e a capacidade de manter as atividades para reconhecer benefício preventivo e tolerância. Durante as sessões podem ocorrer pequenos hematomas e dor local, e a técnica usa material estéril.

Como escolher e rever

A escolha começa pelo diagnóstico da cefaleia de base e pelo motivo de falha de cada tentativa anterior, porque ineficácia, efeito adverso, contraindicação e uso irregular são problemas diferentes. Antes de iniciar, registro dias de cefaleia, dias com sinais de enxaqueca, incapacidade e uso de resgate. No retorno, comparo benefício e tolerância com esse registro inicial: melhora insuficiente com uso adequado favorece a troca, e benefício clínico com efeitos aceitáveis sustenta a continuidade.[12]

Apoio sem medicamentos

O diário mostra em quais dias houve dor, qual resgate foi usado, se a dor voltou e como ficou a função. Com ele, a equipe encontra exposição escondida, verifica se o preventivo reduz as crises e intervém antes que os dias de uso subam de novo. O registro diário é mais confiável que reconstruir o mês de memória.[10]

Quando ansiedade antecipatória, medo de ficar sem resgate ou dificuldade de seguir o plano atrapalham a retirada, intervenções comportamentais podem complementar o tratamento. A terapia cognitivo-comportamental trabalha as respostas e os comportamentos ligados às crises. Outra opção é um treino com sensores que tornam visível a tensão dos músculos (biofeedback eletromiográfico). Nesse diagnóstico, esses métodos funcionam como apoio à prevenção e ao acompanhamento.[11]

Acompanhamento e recaída

Recaída é o retorno sustentado ao padrão de exposição. Um dia isolado em que o resgate foi necessário, dentro do limite combinado, não entra nessa definição. A recaída ocorre principalmente nos primeiros meses e continua relevante durante o primeiro ano, por isso a consulta de melhora não encerra o acompanhamento. O calendário continua ativo, e o limite do resgate permanece explícito mesmo quando as crises ficam menos frequentes.[10]

O risco de recaída é maior quando opioides participaram do sobreuso. Cefaleia ainda frequente, doença psiquiátrica associada e falhas anteriores de retirada também se associam a recaída e definem a intensidade do acompanhamento.[10]

Uma tendência de aumento dos dias de resgate me leva a revisar o plano antes que o padrão de sobreuso volte a se estabelecer. Se a incapacidade continua apesar de menos resgate, o preventivo ou o diagnóstico precisam de revisão.[11]

Tempo de melhora

A piora da retirada é avaliada em dias; a nova frequência da cefaleia de base, em semanas. Uma primeira semana difícil ainda pertence à fase aguda, e a resposta do preventivo e a estabilidade do novo padrão pedem acompanhamento mais longo.[10]

Durante a retirada, o acompanhamento e o suporte ficam mais próximos, conforme a necessidade de cada pessoa.[12]

Depois da retirada, a enxaqueca crônica pode continuar exigindo tratamento próprio. Com menos exposição, a frequência da cefaleia de base e a resposta ao preventivo ficam mais fáceis de medir. Alguns pacientes têm queda nítida dos dias de dor; outros mantêm cefaleia frequente e precisam de ajuste do diagnóstico ou da prevenção.[2]

Calendário de medicação

O diário cobre todos os dias do período, inclusive os dias sem cefaleia e sem resgate. No registro inicial, o modelo de quatro semanas abaixo se repete por pelo menos dois meses, o mesmo período de oito semanas usado para medir a frequência atual. Depois, cada mês completo permite comparar o período atual com o registro inicial e separar melhora da dor, redução do uso de crise e recuperação da função, que podem evoluir em ritmos diferentes.[12]

CALENDÁRIO DE 4 SEMANAS
Dia Cefaleia Sinais de enxaqueca Remédio de crise / tipo / motivo Função
01 ___ ___ ________________ ___
02 ___ ___ ________________ ___
03 ___ ___ ________________ ___
Repita uma linha para cada dia, inclusive nos dias sem dor ou sem remédio de crise.
Dias com cefaleia___
Dias com sinais de enxaqueca___
Dias com remédio de crise (por tipo)___
Dias sem resgate___
Modelo organizado a partir das orientações de avaliação da cefaleia e de manejo do uso excessivo de medicamentos.

Na coluna de medicamento, escreva também o motivo do uso, inclusive quando o analgésico foi tomado para outra dor, e decomponha os produtos combinados em princípios ativos.[10]

Na revisão entre quatro e oito semanas, comparo o calendário anterior com o período após a retirada. Queda dos dias de resgate com cefaleia ainda frequente aponta para ajuste da prevenção. Muitos dias de medicamento que persistem exigem revisar o resgate e a execução da retirada. A comparação usa os totais mensais, e a impressão da última semana fica em segundo plano.[12]

Referências

  1. Headache Classification Committee of the International Headache Society. ICHD-3: 8.2 Medication-overuse headache. (abre em nova aba)
  2. Headache Classification Committee of the International Headache Society. ICHD-3: 1.3 Chronic migraine. (abre em nova aba)
  3. ICHD-3: 8.2.1 Ergotamine-overuse headache. (abre em nova aba)
  4. ICHD-3: 8.2.2 Triptan-overuse headache. (abre em nova aba)
  5. ICHD-3: 8.2.3 Non-opioid analgesic-overuse headache. (abre em nova aba)
Ver todas as 28 referências
  1. ICHD-3: 8.2.4 Opioid-overuse headache. (abre em nova aba)
  2. ICHD-3: 8.2.5 Combination-analgesic-overuse headache. (abre em nova aba)
  3. ICHD-3: 8.2.6 Medication-overuse headache attributed to multiple drug classes not individually overused. (abre em nova aba)
  4. CDC. Signs and Symptoms of Stroke. Updated May 19, 2026. (abre em nova aba)
  5. Diener HC et al. European Academy of Neurology guideline on the management of medication-overuse headache. Eur J Neurol. 2020;27:1102-1116. PMID 32430926. (abre em nova aba)
  6. Diener HC et al. Management of medication overuse and medication overuse headache – S1 guideline. Neurol Res Pract. 2022;4:37. PMCID PMC9422154. (abre em nova aba)
  7. NICE. Headaches in over 12s: diagnosis and management. CG150. Updated 3 June 2025. (abre em nova aba)
  8. NICE. Medicines associated with dependence or withdrawal symptoms. NG215. 2022. (abre em nova aba)
  9. Carlsen LN et al. Comparison of 3 Treatment Strategies for Medication Overuse Headache. JAMA Neurol. 2020;77:1069-1078. PMID 32453406. DOI 10.1001/jamaneurol.2020.1179. (abre em nova aba)
  10. Schwedt TJ et al. Patient-Centered Treatment of Chronic Migraine With Medication Overuse. Neurology. 2022;98:e1409-e1421. PMID 35169011. (abre em nova aba)
  11. de Goffau MJ et al. The Effectiveness of Treatments for Patients With Medication Overuse Headache: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Pain. 2017;18:615-627. PMID 28007591. (abre em nova aba)
  12. Gomes da Silva E et al. Corticosteroids in withdrawal therapy following medication-overuse headache: a systematic review. Expert Rev Neurother. 2026. DOI 10.1080/14737175.2026.2692440. (abre em nova aba)
  13. American College of Obstetricians and Gynecologists. Headaches in Pregnancy and Postpartum. Clinical Practice Guideline No. 3. Obstet Gynecol. 2022;139:944-972. PMID 35576364. (abre em nova aba)
  14. American College of Obstetricians and Gynecologists. Urgent Maternal Warning Signs. Patient Safety Resources. (abre em nova aba)
  15. NICE. Subarachnoid haemorrhage caused by a ruptured aneurysm: diagnosis and management. NG228. 2022. (abre em nova aba)
  16. NICE. Botulinum toxin type A for the prevention of headaches in adults with chronic migraine. TA260. 2012. (abre em nova aba)
  17. MHRA. Topiramate: introduction of new safety measures, including a Pregnancy Prevention Programme. Drug Safety Update. 20 June 2024. (abre em nova aba)
  18. US FDA. TOPAMAX (topiramate) prescribing information. Revised March 2025. (abre em nova aba)
  19. DailyMed. BOTOX (onabotulinumtoxinA) prescribing information. (abre em nova aba)
  20. DailyMed. AIMOVIG (erenumab-aooe) prescribing information. Revised March 2025. (abre em nova aba)
  21. DailyMed. Metoclopramide Injection, USP prescribing information. (abre em nova aba)
  22. DailyMed. Dihydroergotamine Mesylate Injection, USP prescribing information. (abre em nova aba)
  23. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Headaches in over 12s: diagnosis and management. Clinical guideline CG150 (2025). (abre em nova aba)

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