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Uma lesão do labrum pode causar dor profunda na virilha, estalo doloroso, sensação de prender e piora ao girar, sentar baixo ou agachar. O labrum é um anel de fibrocartilagem na borda do acetábulo, a cavidade do quadril. Ele aumenta a profundidade do encaixe e ajuda a distribuir pressão dentro da articulação. Ainda assim, uma alteração no labrum vista na ressonância não prova que seja a origem da dor. O achado se torna relevante quando coincide com a dor habitual, o exame, a limitação funcional e o restante da anatomia do quadril.[12][6]
Labrum, impacto e estabilidade
Impacto femoroacetabular e lesão do labrum descrevem problemas relacionados. O impacto é um contato entre o fêmur e a borda da cavidade do quadril. Na forma cam, uma proeminência na transição entre cabeça e colo do fêmur favorece esse contato; na forma pincer, a cavidade cobre excessivamente uma região da cabeça femoral. O labrum é o tecido que pode sofrer com essa mecânica. Uma lesão labral também pode existir sem essas formas ósseas. Reparar o tecido sem avaliar o mecanismo que o sobrecarrega pode deixar parte do problema sem tratamento.[5][6]
O corte atravessa o anel do labrum em dois pontos, destacados em verde. A cartilagem articular aparece em azul, acompanhando as superfícies que se encontram dentro da articulação.[12]
Esquema sem escala; as espessuras foram ampliadas para separar as estruturas.
O labrum também participa da vedação que mantém o líquido articular no contato entre a cabeça do fêmur e o acetábulo. Esse mecanismo contribui para a estabilidade e a distribuição de carga. O labrum contém terminações nervosas que podem participar da dor e da percepção da posição do quadril. A intensidade, porém, também é influenciada pela cartilagem, pela cápsula e pelos músculos ao redor. O tamanho descrito da ruptura não mede sozinho o sofrimento nem a necessidade de operar.[13][14]
Na displasia, a cavidade oferece cobertura insuficiente à cabeça do fêmur e aumenta a exigência sobre o labrum. Nesse contexto, uma lesão pode ser consequência de instabilidade. Apenas retirar tecido ou suturar a ruptura, sem avaliar a cobertura e a estabilidade, deixa parte do mecanismo sem tratamento. Por isso, a avaliação considera o conjunto da articulação antes de definir o procedimento.[2][6]
Sintomas e estalos
O padrão mais comum é dor profunda na virilha ou na frente do quadril, agravada por flexão e rotação. Algumas pessoas indicam a região envolvendo a frente e a lateral do quadril com a mão em formato de C. A dor pode aparecer ao sair do carro, levantar de cadeira baixa, agachar ou praticar esporte com giro. Em outros casos, surge após permanecer sentado. Estalos podem acompanhar, mas também ocorrem pelo deslocamento de tendões ao redor da articulação. Dor predominantemente lateral exige avaliar estruturas como os tendões glúteos, além de verificar o labrum.[6][12][15]
O começo também orienta. Queda, torção com carga, luxação ou movimento brusco podem trazer uma lesão aguda. Em outros casos, os sintomas crescem sem um episódio único, ligados a flexão repetida, esporte ou uma forma do quadril que limita a rotação. A presença de artrose muda muito a interpretação: se há rigidez importante, dor ao caminhar e desgaste visível na radiografia, uma fenda do labrum pode fazer parte do desgaste; nesse caso, o alvo principal do tratamento é a artrose.[6]

Um clique indolor que ocorre ocasionalmente tem valor diferente de um travamento doloroso repetido que interrompe a caminhada ou obriga a mudar o movimento. O médico procura saber se há apenas um som, sensação de ressalto superficial de tendão ou dificuldade real para completar a rotação. Na consulta, o exame procura o gesto que reproduz a dor habitual. Essa descrição orienta quais estruturas serão examinadas e evita que todo ruído seja atribuído ao laudo.[6]
Lesões labrais também aparecem com frequência na ressonância de pessoas sem dor, o que mostra que ruptura e sintoma nem sempre andam juntos. Se o quadril funciona bem, a imagem isolada não cria indicação de infiltração ou cirurgia. Quando há dor, o achado só passa a pesar quando localização, exame e imagem concordam entre si.[8]
Exame do quadril e da virilha
O exame avalia flexão e rotação do quadril, força de glúteos, adutores e flexores, marcha, coluna lombar e a tarefa que reproduz a dor conhecida. A manobra de flexão, adução e rotação interna aproxima a coxa do tronco e a leva para dentro; ela pode provocar sintomas da articulação, mas não identifica sozinha uma lesão labral. Dor ao contrair os adutores ou sensibilidade perto do púbis orienta a investigação de estruturas fora do quadril. Queimação, dormência e perda de força também exigem avaliação dos nervos e da coluna.[6]
| Achado | Outra possibilidade | Por que muda o plano |
|---|---|---|
| Rigidez progressiva, inclusive no exame passivo | Artrose | O estado da cartilagem tem prioridade sobre uma lesão labral isolada. |
| Dor junto ao púbis com chute ou sprint | Adutores ou pubalgia | Reabilitação e investigação focam parede abdominal, adutor e pelve. |
| Dor lateral ao deitar sobre o lado | Tendões glúteos | O tratamento costuma mirar os tendões, fora da articulação. |
| Queimação, formigamento ou dor abaixo do joelho | Coluna e nervos | Uma aplicação no quadril não trata a dor originada em uma raiz nervosa. |
Esses padrões orientam o exame. Fontes de dor do quadril, da coluna e dos tecidos ao redor podem coexistir.
Radiografia, ressonância e injeção diagnóstica
Radiografias avaliam a forma dos ossos, cobertura do acetábulo e sinais de artrose, estabelecendo o contexto da lesão labral. A ressonância examina labrum, cartilagem e tecidos próximos. Em situações selecionadas, a artro-ressonância, com contraste introduzido na articulação por uma punção, esclarece uma dúvida que persiste.
Essa escolha considera a pergunta clínica e a qualidade das imagens disponíveis; não é uma etapa obrigatória para toda dor na virilha. O exame precisa mostrar se há uma lesão compatível com os sintomas e se a cartilagem e a anatomia permitem uma estratégia de preservação articular.[6]
A cartilagem articular reveste as superfícies que deslizam uma sobre a outra; ela é diferente do anel labral na borda. Quando existe perda importante desse revestimento, tratar apenas o labrum não recupera toda a superfície de apoio. Por isso, estreitamento do espaço articular na radiografia e dano de cartilagem na ressonância podem mudar o prognóstico e o tipo de tratamento discutido. Mesmo com uma ruptura presente, a avaliação verifica se uma artrose explica melhor a rigidez e a dor para caminhar.[6][7]
Uma injeção de anestésico dentro da articulação é utilizada quando ainda existe dúvida sobre a origem da dor. Registra-se uma tarefa dolorosa antes da aplicação e observa-se como ela muda durante o efeito. Alívio temporário apoia a participação do quadril, mas não distingue sozinho labrum, cartilagem e outros tecidos internos. Falta de melhora também exige interpretação da técnica e da possibilidade de fontes simultâneas de dor. O teste acrescenta informação ao exame e às imagens.[6]
Reabilitação e recuperação da função
A fisioterapia busca reduzir dor e recuperar capacidade funcional, embora não restaure por si só a continuidade anatômica de uma ruptura. O programa começa pela posição que provoca sintomas: profundidade do agachamento, giro sob carga, altura da cadeira ou tempo sentado. Essas demandas são ajustadas enquanto se trabalha força de glúteos, quadríceps, adutores e tronco, além do controle da pelve.
Um quadril doloroso no fim da flexão pode começar com menor amplitude e uma cadeira mais alta, mantendo outras atividades toleradas. Conforme melhora, resistência e apoio em uma perna avançam para tarefas como escadas, agachamentos e mudanças de direção. Alongamentos forçados que reproduzem o contato doloroso ficam de fora: não garantem mobilidade útil.[6]
O acompanhamento compara tarefas definidas no início: calçar o sapato, sentar durante o trabalho, subir escadas ou praticar um movimento esportivo. Algum desconforto pode ocorrer durante o exercício, mas piora sustentada, redução progressiva da rotação e travamentos dolorosos recorrentes exigem ajuste e reavaliação. Ganhar força sem recuperar a tarefa principal indica resposta incompleta.
Antes de declarar falha da fisioterapia, a equipe verifica se houve progressão de carga, se a amplitude respeitou a anatomia e se a hipótese diagnóstica permanece consistente. Quando dor e função melhoram ao longo das semanas, uma lesão ainda visível na imagem não obriga abandonar a estratégia. A evolução clínica orienta continuar ou discutir outra intervenção.[6][7]
Medicamentos e infiltrações
Remédios podem aliviar a dor, sem reparar o labrum. Analgésicos ou anti-inflamatórios podem ser considerados por curto período para permitir sono, trabalho e participação na reabilitação, levando em conta histórico de úlcera, doença renal, pressão alta, anticoagulantes, gestação e outros fatores. Uso repetido de anti-inflamatório exige revisão de tolerabilidade, necessidade e evolução da dor; a persistência dos sintomas pode indicar que o alvo do tratamento está incorreto.[12][16]
A infiltração com corticosteroide pode aliviar por algum tempo um componente inflamatório da articulação, quando existe uma meta concreta, como viabilizar uma fase da reabilitação. Se o benefício for muito breve ou não houver ganho funcional, repensamos sua utilidade antes de repetir. Com plasma rico em plaquetas e outros produtos biológicos, não há demonstração de que a aplicação reconstrua o labrum, e ainda não está claro quem se beneficia do uso sem cirurgia.[6]
O anestésico age por um período curto, enquanto o efeito anti-inflamatório do corticosteroide costuma aparecer depois. Uma piora transitória da dor pode ocorrer após a aplicação. Antes do procedimento, são revistos sinais de infecção, medicamentos que interferem no sangramento e condições como diabetes, pois a glicose pode subir temporariamente. Sangramento, reação ao medicamento e infecção são riscos mesmo com orientação por imagem. O alívio nesse período não significa que o labrum cicatrizou; o que se acompanha é quanto as atividades planejadas avançam.[10]
Indicação de artroscopia
Artroscopia é considerada quando há dor e limitação persistentes, avaliação consistente de origem intra-articular, imagens que mostram uma lesão tratável e uma articulação com cartilagem e anatomia adequadas para preservação. O procedimento pode reparar ou regularizar o labrum e, quando existe impacto associado, tratar a forma óssea responsável pelo contato. Displasia, instabilidade, artrose estabelecida, expectativa funcional, resposta à fisioterapia e condições para reabilitação depois da cirurgia mudam o risco e o benefício.[6]
Os riscos da artroscopia incluem infecção, trombose, lesão de nervos, rigidez e dor persistente. A necessidade de afastamento e de ajuda nas primeiras tarefas também participa da decisão. Mesmo após um procedimento tecnicamente adequado, a cartilagem previamente comprometida ou outra fonte de dor pode limitar o resultado. O ganho pode ser caminhar com menos dor, tolerar melhor o trabalho sentado ou retomar uma modalidade esportiva. A recuperação dessas atividades pode ser parcial.[6]

Reparar significa fixar tecido labral aproveitável para recuperar sua continuidade e função. O desbridamento remove seletivamente fragmentos danificados quando a preservação daquele tecido não é possível; reconstrução utiliza enxerto em situações de deficiência labral mais extensa. Esses procedimentos não são intercambiáveis. O estado do tecido, a estabilidade, a cartilagem e eventuais cirurgias anteriores influenciam a escolha.[6][13]
Em pessoas com mais de 40 anos e pouca artrose na radiografia, a artroscopia seguida de fisioterapia pode trazer mais alívio da dor e melhor função do que começar só com fisioterapia. Tentar a fisioterapia primeiro não prejudicou o resultado de quem operou depois e permitiu que alguns evitassem a cirurgia. Por isso, a idade acima de 40 anos não exclui o reparo; já uma ruptura qualquer ou uma artrose avançada não justificam, por si, a artroscopia.[7]
Recuperação e retorno às atividades
Na recuperação, o que foi efetivamente reparado determina a proteção inicial. Liberação para apoiar peso, amplitude permitida e retirada das muletas devem seguir o procedimento feito e a avaliação da equipe. Para a volta ao esporte, os intervalos mínimos habituais são de três meses após desbridamento e de quatro a seis meses após reparo labral.
Esses prazos pressupõem avaliação funcional: ausência de dor, mobilidade recuperada, força próxima à da perna não operada, equilíbrio e resistência para os movimentos da modalidade. Esportes com mudanças de direção ou flexão profunda do quadril podem exigir mais tempo.[6] Se a limitação persiste, a reavaliação inclui cartilagem, estabilidade, alvo tratado e outras fontes de dor, além de uma nova ruptura do labrum.[6]
Sinais de alerta
Dor intensa no quadril após queda ou trauma exige pronto-socorro imediatamente. Incapacidade de caminhar ou apoiar a perna também exige esse atendimento. Uma perna que parece mais curta ou fica em posição anormal após o trauma também precisa de pronto-socorro imediatamente.[17]
Mesmo sem queda ou trauma recente, dor súbita muito forte no quadril requer avaliação presencial no mesmo dia. Quadril quente e inchado, ou dor no quadril acompanhada de febre e mal-estar, também exige avaliação no mesmo dia. A avaliação investiga causas como fratura ou infecção, conforme os sintomas.[9]
Nesses quadros agudos, se o deslocamento não for seguro ou houver gravidade importante, acione o SAMU pelo 192.[18]
Referências
- Mayo Clinic. Hip labral tear: Diagnosis & treatment (abre em nova aba)
- Johns Hopkins Medicine. Hip Labral Tear (abre em nova aba)
- Cleveland Clinic. Hip Labral Tear (abre em nova aba)
- HSS. Hip Pain Frequently Asked Questions (abre em nova aba)
- AAOS OrthoInfo. Femoroacetabular Impingement (abre em nova aba)
Ver todas as 18 referências
- Management of Labral Tears in the Hip: A Consensus Statement (2025) (abre em nova aba)
- Hip Arthroscopy Versus Physical Therapy for the Treatment of Symptomatic Acetabular Labral Tears in Patients Older Than 40 Years: 24-Month Results (abre em nova aba)
- Prevalence of abnormal hip findings in asymptomatic participants (2012) (abre em nova aba)
- NHS. Hip pain in adults (abre em nova aba)
- AAOS OrthoInfo. Cortisone Shot (Steroid Injection) (abre em nova aba)
- NHS. Ibuprofen for adults (abre em nova aba)
- A comprehensive review of hip labral tears. Groh and Herrera, 2009 (abre em nova aba)
- Acetabular Labral Reconstruction: Review of Techniques and Outcomes. Rosenthal et al., 2023 (abre em nova aba)
- The innervation of the human acetabular labrum and hip joint. Alzaharani et al., 2014 (abre em nova aba)
- Evaluation of the Hip: History and Physical Examination. Byrd, 2007 (abre em nova aba)
- Ibuprofen Tablets USP: prescribing information. DailyMed (abre em nova aba)
- NHS. Broken hip. Revisado em 29 de julho de 2026. (abre em nova aba)
- Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192). (abre em nova aba)
