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Quadril estalando: ressalto no quadril, tendão ou problema articular?

O estalo no quadril pode ser ressalto do trato iliotibial, na lateral, ou do iliopsoas, na virilha; dor ou sensação de prender mudam a conduta.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai examina a mobilidade do quadril e do joelho de uma pessoa deitada na maca
Neste artigo

O estalo que pode ser observado

O quadril pode estalar porque um tendão muda de posição ao passar sobre uma saliência óssea. Quando esse ressalto é indolor e a pessoa continua caminhando, treinando e movimentando a perna normalmente, frequentemente basta observá-lo. A conduta muda quando aparecem dor, perda de força, limitação ou sensação de a articulação realmente prender. Nessa situação, é necessário localizar a estrutura responsável: um tendão que desliza por fora da articulação e uma lesão dentro dela podem produzir queixas semelhantes, mas exigem investigações e tratamentos diferentes.[1]

De onde vem o ressalto

Na lateral do quadril, o ressalto costuma envolver o trato iliotibial, uma faixa resistente de tecido que percorre a face externa da coxa. Ao dobrar e estender o quadril, essa faixa pode passar de um lado para outro do trocânter maior, a saliência do fêmur que se consegue palpar na lateral. Às vezes, o movimento é visível sob a pele. A sensação de algo saindo do lugar assusta, mas esse deslocamento do tecido superficial não significa que a cabeça do fêmur esteja saindo do encaixe da bacia.[2]

Na frente do quadril, perto da virilha, o tendão do iliopsoas pode produzir um estalo ao passar de uma posição de flexão para extensão. O iliopsoas reúne músculos que ajudam a levantar a coxa, como ao subir um degrau. Seu tendão pode mudar de trajeto junto ao osso ou às fibras musculares vizinhas. Por isso, ouvir o som na virilha não basta para afirmar que existe uma lesão do labrum. A demonstração do movimento durante o exame, eventualmente acompanhada de ultrassom, ajuda a reconhecer o ressalto anterior.[6]

Quando o sintoma vem da articulação

Dor profunda com sensação de prender, especialmente ao girar o quadril, pode ter origem dentro da articulação. O labrum é um anel de fibrocartilagem que acompanha a borda do encaixe da bacia; suas lesões podem produzir sintomas parecidos com os do iliopsoas. Fragmentos de cartilagem ou osso soltos também podem interromper o movimento. Essa possibilidade ganha relevância quando há bloqueio, limitação persistente ou uma dor que o exame do tendão não consegue reproduzir. A coexistência de duas alterações exige esclarecer qual delas explica a limitação atual.[7]

A localização direciona o raciocínio, mas precisa ser cruzada com o comportamento da dor. Desconforto lateral pode vir de tendões e bursas, pequenas bolsas que facilitam o deslizamento dos tecidos. Dor na virilha pode acompanhar problemas articulares, uma lesão muscular ou outras condições. A coluna lombar também pode produzir dor percebida no quadril. Por isso, um estalo antigo e uma dor nova podem ter causas diferentes. A avaliação se concentra na mudança que prejudicou caminhar, dormir ou usar a perna.[17]

O que o exame físico esclarece

Na consulta, procuro o movimento que produz o ressalto e verifico se ele reproduz a dor habitual. No ressalto anterior, levo o quadril dobrado, aberto e rodado para fora até a extensão, com a mão na virilha; no lateral, palpo o trocânter enquanto o quadril dobra e estende. Também testo os flexores contra resistência.

Dor ou fraqueza ao levantar a coxa ajudam a investigar o iliopsoas; isoladamente, porém, esse achado não exclui uma alteração articular. Em bailarinos, por exemplo, a repetição de elevar a perna com o quadril rodado pode irritar esse conjunto muscular. O gesto que provocou o problema informa qual carga precisa ser modificada no tratamento.[7]

A avaliação também observa a amplitude disponível, a força em diferentes direções e como a pelve se comporta durante as tarefas. Um quadril com limitação de flexibilidade pode precisar de uma abordagem diferente daquele que já alcança grandes amplitudes, mas tem dificuldade de controlar o movimento. Essa distinção define se a fisioterapia trabalha a flexibilidade ou o controle do movimento. Cirurgias anteriores, mudanças recentes no treino e dor ao caminhar ajudam a escolher quais testes e movimentos são seguros e úteis para aquela avaliação.[8]

Ultrassom e ressonância

O ultrassom dinâmico permite acompanhar o tendão enquanto a pessoa executa o movimento que produz o ressalto. Essa é sua principal vantagem sobre uma imagem obtida apenas em repouso: um tendão com aparência habitual pode mudar bruscamente de posição durante a tarefa. O examinador procura relacionar esse movimento à queixa e pode avaliar inflamação da bursa ou alterações do tendão. A qualidade do resultado depende da técnica e da possibilidade de reproduzir o gesto. Um ultrassom estático normal, portanto, não encerra a investigação de um ressalto anterior doloroso.[6]

Também existe o problema inverso: o ultrassom pode provocar um movimento semelhante em pessoas sem sintomas. A imagem precisa coincidir com o incômodo que motivou a consulta. A radiografia responde principalmente a dúvidas sobre os ossos e o formato da articulação; costuma ser normal no ressalto exclusivamente tendíneo. A ressonância pode ser útil quando há suspeita de lesão profunda, sintomas persistentes ou necessidade de esclarecer estruturas que o ultrassom não avaliou bem.[6]

Como reduzir a irritação sem perder função

Quando a dor foi atribuída ao iliopsoas, o primeiro passo costuma ser reduzir a exposição ao gesto que o irrita. Na dança, isso pode envolver diminuir temporariamente a repetição ou a altura de determinados movimentos; no treino, rever séries que levantam e abaixam a perna repetidamente. A finalidade é criar uma carga tolerável para que a força e o controle sejam recuperados. Em bailarinos, esse ajuste de carga associado à fisioterapia trouxe melhora; o ritmo da progressão segue a resposta de cada quadril.[7]

Durante a redução de carga, parte do condicionamento pode continuar. O profissional pode selecionar atividades com menor provocação da dor, conforme a tolerância ao movimento de flexão e à sustentação do peso. Bicicleta, exercício na água ou outra atividade podem funcionar para algumas pessoas e incomodar outras; a escolha se baseia na tarefa que irrita o quadril. A reintrodução do gesto original acontece de forma gradual. Se uma progressão traz de volta a dor que estava cedendo, o plano precisa rever a amplitude, a resistência ou a quantidade de repetições antes de avançar novamente.[8]

Reabilitação para o movimento que dói

A reabilitação do iliopsoas procura recuperar a capacidade de levantar a coxa sem dor limitante e com controle do tronco e da pelve. Uma possibilidade é começar com movimentos de menor exigência, nos quais o joelho fica dobrado e a perna oferece uma alavanca mais curta. Quando essa etapa é bem executada, a progressão inclui posições sentadas ou em pé, maior extensão da perna e resistência adicional. Essas progressões aumentam demandas diferentes; a dificuldade é escolhida conforme a avaliação, sem obrigar o paciente a atravessar um estalo doloroso para completar a série.[8]

Glúteos e músculos que afastam a coxa também participam do controle do quadril. O treino trabalha a sustentação da pelve e a distribuição do esforço durante movimentos mais exigentes. O fisioterapeuta observa quais déficits realmente estão presentes e seleciona posições em que a pessoa consegue produzir força sem compensações excessivas. Para quem sente o ressalto na lateral, essa avaliação precisa localizar a faixa ou o tendão envolvido e diferenciar a dor da bursa ou de outros tendões próximos antes de definir os exercícios.[8]

Sala de reabilitação da clínica com tablado, barras paralelas e vista para a parede de seixos
Sala de reabilitação da clínica.

Alongamento entra quando o exame identifica uma limitação de flexibilidade que contribui para o problema. Em um quadril já muito móvel, a dificuldade principal é controlar a carga dentro do movimento disponível. Técnicas manuais podem aliviar sintomas ou melhorar a mobilidade; o que decide o avanço é a função: levantar a perna, subir degraus e executar o gesto esportivo com melhor controle. A revisão compara essas tarefas com o ponto de partida, verificando se a dor diminui e se a atividade tolerada aumenta.[8]

O papel dos remédios

Anti-inflamatórios como ibuprofeno ou naproxeno podem reduzir dor e inflamação durante uma fase sintomática. Eles não modificam, por si, o trajeto que produz o ressalto. A escolha exige revisar problemas renais, histórico de úlcera ou sangramento, uso de anticoagulantes e outros medicamentos. Combinar dois anti-inflamatórios aumenta riscos sem resolver essa causa mecânica. Se o remédio provoca efeitos adversos ou continua necessário para realizar tarefas simples, a conduta é rever o tratamento e a origem da dor.[16]

O paracetamol tem uma função principalmente analgésica e pode ser considerado em determinadas situações para aliviar sintomas. A redução da dor após tomá-lo não demonstra que o tendão já recuperou a capacidade necessária para treinar. Medicamentos podem tornar a fase inicial mais tolerável, enquanto o exame e a resposta às mudanças de atividade mostram se a estratégia adotada está funcionando.[18][8]

Quando uma infiltração ajuda

Uma infiltração pode ter uma finalidade diagnóstica, terapêutica ou ambas. Ao aplicar anestésico em uma bursa próxima ao iliopsoas, o médico verifica se reduzir temporariamente a sensibilidade dessa região modifica a dor habitual. Isso é diferente de infiltrar dentro da articulação, que testa outro possível local de origem. Em quem tem suspeita de ressalto doloroso, essa aplicação pode aliviar a dor mesmo quando o ultrassom em repouso foi normal. A resposta pesa no diagnóstico junto com o exame e a imagem.[9]

O corticoide pode ser discutido quando a dor atribuída à bursa ou aos tecidos ao redor do tendão persiste apesar das medidas iniciais. Seu objetivo é reduzir inflamação e facilitar a recuperação da função; ele não garante que o som desapareça. A orientação por imagem ajuda a posicionar a medicação e evitar vasos e nervos próximos. Antes do procedimento, são avaliados infecção local, alergias e fatores como diabetes, porque pode ocorrer elevação temporária da glicemia. Outros riscos incluem reação dolorosa passageira e alterações da pele ou do tecido subcutâneo.[10]

A avaliação após infiltrar precisa separar o alívio inicial da possibilidade de voltar a fazer a tarefa que estava limitada. Se a dor retorna rapidamente, ou se o procedimento não modifica a queixa, cabe rever o alvo e os diagnósticos associados antes de repetir a aplicação. A decisão de repetir depende de quanto tempo o alívio durou e do que ele permitiu fazer.[9]

Quando se discute cirurgia

A cirurgia costuma ser reservada para dor e limitação relevantes que persistem depois de tratamento dirigido e reavaliação do diagnóstico. No ressalto lateral, técnicas endoscópicas podem liberar ou alongar parte do tecido que passa sobre o trocânter e, quando indicado, abordar a bursa dolorosa. A endoscopia utiliza pequenas incisões e uma câmera para orientar o procedimento.

Pacientes bem selecionados podem melhorar com a endoscopia, e nenhuma técnica se mostrou superior para todas as causas de ressalto lateral. Depois da operação, o que conta é conseguir retomar a atividade pretendida; dor ou estalo persistentes, limitação residual e possíveis complicações entram nessa avaliação.[11]

No ressalto anterior, alongar ou liberar o tendão do iliopsoas pode diminuir a tensão associada ao estalo doloroso. A mesma estrutura, porém, participa da elevação da coxa; por isso, a possibilidade de fraqueza após a operação precisa ser discutida, especialmente quando o trabalho ou o esporte exige esse movimento.

A literatura também descreve redução do volume muscular e persistência ou retorno dos sintomas. Um resultado favorável inclui recuperar a função pretendida, além de reduzir a dor ou o som. Se, depois da operação, fraqueza, dor ou estalo doloroso ainda impedem essa tarefa, a consulta de revisão deve registrar esses três resultados e comparar a limitação atual com a tarefa que se queria recuperar.[12]

Sala de espera da clínica com vista para o átrio: cadeiras, escada, parede de tijolos vazados e ripado de madeira
Sala de espera, com vista para o átrio.

O iliopsoas também contribui para estabilizar a cabeça do fêmur. Essa função pesa na decisão quando o quadril já apresenta risco de instabilidade, situação em que a articulação tem dificuldade de manter um encaixe estável durante o movimento. Antes de liberar o tendão, o cirurgião precisa analisar a anatomia e as outras estruturas que sustentam o quadril.[13]

Retorno ao treino e reavaliação

O retorno ao esporte acompanha a recuperação do movimento necessário para praticá-lo. Na reabilitação do iliopsoas, interessa completar a progressão de força e controle sem sintomas que limitem a execução. Uma pessoa que voltou a caminhar confortavelmente ainda pode não tolerar a repetição exigida por corrida, dança ou chutes. A etapa seguinte acrescenta essa exigência gradualmente, observando a resposta à tarefa. Um estalo residual indolor pode ser compatível com boa função; a decisão de avançar deve considerar a dor, o controle e a capacidade recuperada.[8]

Quando semanas de tratamento não produzem melhora funcional, a consulta de revisão investiga se a carga foi realmente ajustada e se o exame continua apontando para o mesmo local. Dor profunda persistente ou bloqueio pode exigir reconsiderar uma causa articular. Esse raciocínio é particularmente relevante quando o iliopsoas foi inicialmente suspeitado, pois seus sintomas podem se confundir com os de lesões do labrum. A mudança de estratégia parte dessa comparação entre diagnóstico, tratamento realizado e resposta observada.[7]

Sinais que exigem atendimento

Depois de uma queda ou outro trauma, dor intensa com incapacidade de apoiar a perna, deformidade ou dificuldade importante para mover o quadril exige pronto atendimento imediato. Não tente destravar ou recolocar a articulação com movimentos forçados. Se não houver condição de transporte seguro, acione o SAMU pelo 192. Esses sinais precisam ser avaliados como possível lesão aguda, mesmo que o quadril já estalasse antes.[4]

Dor aguda no quadril acompanhada de febre, calafrios ou mal-estar também requer pronto atendimento imediato, mesmo sem queda ou lesão recente. Calor, vermelhidão e inchaço reforçam a necessidade de avaliação. Uma infecção pode comprometer rapidamente a articulação e não deve ser tratada em casa como um episódio habitual de ressalto.[15]

Referências

  1. Snapping Hip Syndrome. Cleveland Clinic (abre em nova aba)
  2. Snapping Hip. AAOS OrthoInfo (abre em nova aba)
  3. Is Your Hip Popping? It Might Be Snapping Hip Syndrome. HSS (abre em nova aba)
  4. Hip pain: When to see a doctor. Mayo Clinic (abre em nova aba)
  5. Snapping Hip. West Suffolk NHS (abre em nova aba)
Ver todas as 18 referências
  1. Internal snapping hip syndrome in dynamic ultrasonography. Piechota et al., 2016 (abre em nova aba)
  2. Iliopsoas Syndrome in Dancers. Laible et al., 2013 (abre em nova aba)
  3. Rehabilitation of Soft Tissue Injuries of the Hip and Pelvis. 2014 (abre em nova aba)
  4. Sonography of the iliopsoas tendon and injection of the iliopsoas bursa. Blankenbaker et al., 2006 (abre em nova aba)
  5. Ultrasound-guided bursal injections. 2023 (abre em nova aba)
  6. Can we encourage the endoscopic treatment for external snapping hip: systematic review, 2024 (abre em nova aba)
  7. Iliopsoas Tenotomy During Hip Arthroscopy: systematic review, 2021 (abre em nova aba)
  8. Is the Iliopsoas a Femoral Head Stabilizer: systematic review, 2021 (abre em nova aba)
  9. Snapping Hip Syndrome. Sports Medicine Today / AMSSM (abre em nova aba)
  10. Hip pain. Mersey Care NHS (abre em nova aba)
  11. NSAIDs. NHS (abre em nova aba)
  12. Hip Pain in Adults: Evaluation and Differential Diagnosis. Chamberlain, AFP2021 (abre em nova aba)
  13. Acetaminophen: Human OTC Drug Label. DailyMed (abre em nova aba)

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