Neste artigo
O que é Flancox
Flancox é o nome comercial do etodolaco, um anti-inflamatório não esteroidal (AINE). Ele reduz a formação de prostaglandinas, substâncias que participam da inflamação, da dor e da febre, mas que também protegem o estômago, mantêm o fluxo de sangue nos rins e regulam as plaquetas. O mesmo mecanismo que alivia a dor pode irritar o estômago, sobrecarregar o rim e elevar a pressão.[1]
Na dor na coluna, o etodolaco pode diminuir dor e sensibilidade no curto prazo em quadros musculoesqueléticos comuns. Ele não altera a estrutura: vértebra, disco e raiz nervosa continuam como estavam. Quando o paciente melhora, o sintoma respondeu naquele período; ainda falta saber qual estrutura doeu e o que manter depois que o comprimido acabar.[3]
No Brasil, Flancox existe em comprimidos revestidos de 300, 400, 500 e 600 mg, que não devem ser partidos nem mastigados. Concentração e intervalo entre doses saem da prescrição, que considera idade, função renal, os outros remédios em uso e por quanto tempo o tratamento precisa durar.[10]
O etodolaco carrega os riscos de toda a classe: úlcera e sangramento digestivo, alteração renal, retenção de líquido, eventos cardiovasculares e reações alérgicas. A fama de ser mais leve para o estômago vem de uma preferência parcial pela enzima ciclo-oxigenase 2, e essa preferência não elimina nenhum desses riscos. O que muda o risco é quem toma, em que dose e por quanto tempo, e o nome na caixa não dispensa conferir contraindicações, advertências e interações da apresentação dispensada.[1]
Dor lombar e ciática
Na lombalgia aguda comum, a dor fica concentrada nas costas, piora ao levantar peso, girar o tronco ou manter a mesma posição, e não desce pela perna. Nesse quadro, a melhora média de dor e incapacidade com anti-inflamatório no curto prazo é pequena: algumas pessoas sentem alívio claro, outras não percebem diferença, e a intensidade inicial não prevê quem vai responder.[3]
Ciática é outra situação. A dor percorre a perna porque uma raiz nervosa lombossacra está irritada, e pode vir com formigamento, área dormente, fraqueza ou reflexo alterado. Nessa dor de origem nervosa, os anti-inflamatórios orais não mostraram redução clara da dor e trouxeram mais efeitos adversos. Etodolaco não trata hérnia de disco, e na dor que desce pela perna a escolha dos remédios para dor ciática segue outra lógica.[4]
Existe ainda a dor que só parece lombalgia. Doença reumatológica, fratura, infecção, tumor, cálculo renal e doença vascular podem começar nas costas, e um anti-inflamatório pode aliviar algumas delas e atrasar a percepção de piora. História e exame separam a dor mecânica comum do quadro que pede investigação ou tratamento específico.[5]

Dor na panturrilha ou na coxa que aparece depois de alguns quarteirões pode ter origem arterial. A dor arterial costuma passar quando a pessoa para, mesmo em pé; a que só alivia ao sentar ou inclinar o tronco aponta para a coluna, como na dor lombar ao caminhar que melhora sentado.
Ainda assim, essa diferença, a temperatura do pé ou o alívio com etodolaco não descartam doença arterial. Pergunto pelos sintomas, examino pernas e pés e palpo os pulsos femoral, poplíteo e do pé; quando há suspeita, meço o índice tornozelo-braquial. São os pulsos e esse índice que orientam a investigação vascular.[9]
Avaliação antes da prescrição
A primeira decisão é sobre a dor. Quero saber como começou, se houve trauma, se desce pela perna, se há febre, perda de peso, alteração urinária ou fraqueza. Na avaliação da dor, observo a marcha, peço para andar na ponta dos pés e nos calcanhares, testo flexão e extensão lombar, quadril, força, sensibilidade e reflexos. Se o conjunto não se comporta como lombalgia mecânica, o anti-inflamatório sai do centro do plano.[5]
A segunda decisão é sobre segurança. Pergunto por úlcera ou sangramento digestivo, doença renal, desidratação recente, insuficiência cardíaca, pressão alta, infarto ou derrame (AVC), doença do fígado, asma desencadeada por aspirina ou outro anti-inflamatório, alergia, gestação e tentativa de engravidar. Idade avançada, fragilidade e uso prolongado somam risco; um exame normal antigo não descreve o rim de hoje.[1]
A terceira é a lista de remédios. Ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco, cetoprofeno e aspirina duplicam o anti-inflamatório sem que o paciente perceba. Anticoagulantes, antiplaquetários, corticoides e antidepressivos serotoninérgicos aumentam o sangramento. Diuréticos, inibidores da enzima conversora de angiotensina e bloqueadores do receptor de angiotensina, somados ao anti-inflamatório, aumentam o risco de lesão renal, e o anti-inflamatório reduz o efeito desses remédios sobre a pressão. Lítio e metotrexato sobem de concentração no sangue.[2]
O risco digestivo pode existir sem azia. Sangramento anterior, idade, anticoagulante, corticoide, dois anti-inflamatórios ao mesmo tempo e álcool em quantidade mudam a decisão mesmo em quem nunca sentiu nada no estômago. Protetor gástrico reduz parte do risco de úlcera, sem proteger rim nem coração. Em alguns desses casos, a escolha mais segura pode ser deixar o anti-inflamatório sistêmico de fora.[2]
Exames
Lombalgia recente sem trauma importante, sem déficit neurológico progressivo e sem sinais sistêmicos não precisa de radiografia nem de ressonância no primeiro momento. A ressonância mostra disco e nervos com detalhe, mas protrusões e desgaste aparecem em muita gente sem dor. Peço imagem quando a resposta muda a conduta: fraqueza que progride, dor fora do padrão mecânico ou suspeita de fratura, infecção ou tumor.[5]
Os exames de sangue e urina, quando entram, protegem o paciente do remédio. Creatinina faz sentido em quem tem doença renal, idade avançada, risco de desidratação, insuficiência cardíaca, diurético ou tratamento previsto além de um período breve; urina e eletrólitos mostram a função renal e o efeito de combinações de remédios; hemograma, quando há suspeita de anemia ou sangramento; enzimas do fígado, em pacientes selecionados.
Durante o uso, também acompanho a pressão e os sinais de retenção de líquido. Um curso breve em pessoa de baixo risco não exige exames de rotina. No uso prolongado, a bula pede avaliação periódica renal, hepática e hematológica, e cursos repetidos ao longo do ano merecem a mesma revisão.[2][10]
Tratamento
Etodolaco em teste curto
O alvo do etodolaco é a dor mecânica e inflamatória da fase aguda de uma lombalgia, quando a dor impede dormir ou trabalhar. O candidato adequado é o adulto sem doença renal, cardíaca ou digestiva relevante, com dor axial recente, exame neurológico normal e um objetivo funcional claro. Espero um alívio de curto prazo, porque a segurança do uso prolongado não foi demonstrada.[3]
Mesmo quando o etodolaco é usado na ciática, a pessoa pode melhorar enquanto toma o remédio porque o quadro natural também muda ao longo das semanas. Para saber se o etodolaco ajudou, observo quando o alívio começou, quanto durou, que função voltou e o que aconteceu depois da interrupção planejada.[4]

Por isso prescrevo o etodolaco como um teste com objetivo definido: dormir a noite inteira, caminhar até o trabalho, começar os exercícios. Se o remédio não muda a tarefa combinada, a exposição não se justifica. Se muda, o período de alívio serve para tratar os fatores que mantêm a incapacidade.[6]
A sensação de que o anti-inflamatório anterior “não era forte” muda com a dose, a formulação e o curso natural da dor, e nenhum anti-inflamatório, incluindo o etodolaco, se mostrou superior na lombalgia aguda. Quando um falha em dose e prazo adequados, trocar várias vezes dentro da classe pode acrescentar exposição; nesse caso, eu revejo o diagnóstico.[3]
Cuidados durante o uso
A regra é a menor dose que funciona pelo menor tempo necessário, na apresentação prescrita. Tomar com alimento reduz a azia em algumas pessoas, mas não previne úlcera nem sangramento. Dose esquecida não se compensa com dose dupla, e o efeito não se amplia somando outro anti-inflamatório.[1]
Quando o rim está sob estresse, ele depende das prostaglandinas para manter o fluxo de sangue; o etodolaco retira essa proteção. Vômito, diarreia, febre, pouca ingestão de líquido, diurético e insuficiência cardíaca deixam o rim mais vulnerável. Queda importante do volume de urina, inchaço rápido ou falta de ar pedem interrupção e avaliação; beber mais água não corrige o problema.[2]
O etodolaco pode elevar a pressão, piorar retenção de líquido e aumentar o risco de infarto e derrame. A preferência pela ciclo-oxigenase 2 não dá base para chamá-lo de seguro para o coração. Em quem já tem doença cardiovascular ou acumula fatores de risco, discuto alternativas com menor exposição sistêmica.[8]
Ganho rápido de peso, tornozelos inchados, pressão acima do habitual, cansaço novo ou menos urina podem anteceder uma complicação maior, e um sangramento digestivo pode acontecer sem dor de estômago antes.[2]
Álcool em excesso, jejum prolongado e remédios para gripe ou dor comprados por conta própria acrescentam irritação gástrica ou duplicam o anti-inflamatório sem que a pessoa note; confira o princípio ativo na caixa. Quem usa aspirina em dose baixa por indicação cardiológica não deve suspendê-la por conta própria; a combinação com o etodolaco precisa ser revista por quem prescreveu as duas.[1]
Gestação e situações especiais
A partir de cerca de 20 semanas de gestação, os anti-inflamatórios podem reduzir o líquido amniótico por alteração do rim do bebê, e no fim da gravidez trazem riscos adicionais. Gestantes, mulheres tentando engravidar e quem amamenta precisam informar isso antes da prescrição. A sobra de uma receita antiga não serve para a dor lombar da gravidez.[7]
Etodolaco é contraindicado em quem já teve reação alérgica importante a ele ou a outro anti-inflamatório e no período da cirurgia de revascularização do coração (ponte de safena). Úlcera ativa, sangramento em curso, insuficiência renal ou hepática importante e insuficiência cardíaca descompensada podem impedir o uso, e o peso de cada uma eu avalio caso a caso.[1]
Na amamentação, antes de procedimentos e no pós-operatório, reviso risco de sangramento, função renal e exposição do bebê.[10] Colite ulcerativa, distúrbio de coagulação, anticoagulante e consumo alto de álcool também podem aumentar o risco. Além das contraindicações da bula, a consulta identifica situações em que evitar o etodolaco é prudente mesmo sem proibição formal.[10]
No idoso, a reserva renal menor, a lista longa de remédios e a chance maior de sangramento pedem cautela adicional, prazo curto e acompanhamento. Em crianças e adolescentes, indicação e apresentação não se copiam de uma receita de adulto. Ter tolerado o etodolaco no passado não garante a mesma segurança depois de mudança de idade, doença ou tratamento associado.[2]
Reabilitação e outras opções
Exercício estruturado
Quando a dor lombar se torna crônica sem causa específica, o exercício estruturado passa a ser parte central de um plano não cirúrgico, integrado e centrado na pessoa, e o remédio vira coadjuvante. A modalidade se ajusta à capacidade, ao contexto e ao objetivo funcional de cada pessoa.[6] Se a limitação principal é pouca tolerância ao esforço, sem déficit neurológico, e há risco renal, cardiovascular ou digestivo, esse risco pode limitar o anti-inflamatório sistêmico e deixar a reabilitação como prioridade do plano.[6]
O benefício do exercício se mede em função: sentar mais tempo, carregar compras, voltar ao treino. O resultado funcional orienta a reavaliação.[6]
Durante a reabilitação, sintomas novos reabrem o diagnóstico. Dor que muda de trajeto, perda de sensibilidade nova ou fraqueza que aparece exigem novo exame, mesmo com o etodolaco reduzindo a dor. O alívio farmacológico mede a dor daquele momento; ele não diz se a raiz nervosa está se recuperando.[5]
Outros analgésicos
Quando o anti-inflamatório é contraindicado, mal tolerado ou ineficaz, um opioide fraco pode ser considerado na lombalgia aguda. Paracetamol não se usa sozinho na lombalgia; ele pode entrar associado ao opioide fraco quando essa via é escolhida.[5]
Infiltração epidural na ciática
Na ciática aguda e intensa, em que a raiz comprimida é a causa identificada, pode ser discutida a infiltração epidural com anestésico local e corticoide, que leva o corticoide ao redor da raiz; o objetivo é aliviar a dor da perna o bastante para dormir, caminhar e iniciar a reabilitação. O alvo é a dor radicular. O alívio pode não durar e o procedimento tem riscos próprios, por isso reviso antes quem pode se beneficiar e quais cuidados a infiltração exige.[5]
Cirurgia
Cirurgia entra em três cenários: síndrome da cauda equina, déficit motor progressivo e radiculopatia incapacitante que persiste apesar do tratamento adequado, com imagem compatível com o exame. Dor lombar que não respondeu ao etodolaco, por si só, não leva à operação.[5]
Reavaliação
O teste termina no prazo combinado, quando o objetivo funcional foi alcançado ou antes disso diante de efeito adverso. Restar alguma dor não obriga a manter o remédio. Depois da suspensão, observo se a função se mantém e se o exercício sustenta a melhora sem exposição contínua.[5]
Se a dor volta ao mesmo nível logo depois de cada curso, o problema está no diagnóstico, na carga ou na estratégia, e cursos intermitentes frequentes somam risco renal, digestivo e cardiovascular ao longo do ano. Fraqueza nova, alteração de sensibilidade, febre, sintoma urinário ou perda de peso mudam a direção da investigação.[2]
Sinais de alerta
Interrompa o etodolaco e vá ao pronto-socorro ou à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ou chame o SAMU 192 se não conseguir se locomover, diante de falta de ar, inchaço de face ou língua, desmaio, dor no peito, vômito com sangue, fezes pretas e pegajosas (melena) ou dor abdominal intensa. Leve a caixa e informe dose e horário da última tomada.[1]
Procure avaliação no mesmo dia se houver pouca urina[13], inchaço súbito, falta de ar ao deitar[2] ou manchas na pele com bolhas.[2] Suspenda as próximas doses até ser avaliado[10] e informe concentração, horário, duração do uso e todos os medicamentos associados.[11] Uso frequente, azia persistente ou ausência de ganho funcional pedem consulta programada.[11]
Pele ou olhos amarelados, urina muito escura ou coceira difusa podem indicar lesão do fígado. Interrompa as doses e procure avaliação levando a caixa, a dose usada e a lista dos demais remédios.[1]
Referências
- Flancox patient leaflet. Approved 27/08/2021. https://bula-anvisa.s3.sa-east-1.amazonaws.com/1011801460043_paciente.pdf (abre em nova aba)
- Etodolac prescribing information. 2025. https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/drugInfo.cfm?setid=bf1afcd5-e1da-4874-981f-f252cb0b32c2 (abre em nova aba)
- Non-steroidal anti-inflammatory drugs for acute low back pain. 2020. https://www.cochrane.org/evidence/CD013581_anti-inflammatory-drugs-acute-low-back-pain (abre em nova aba)
- Non-steroidal anti-inflammatory drugs for low back pain with sciatica. 2016. https://www.cochrane.org/evidence/CD012382_non-steroidal-anti-inflammatory-drugs-low-back-pain-sciatica (abre em nova aba)
- Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management NG59. 2020. https://www.nice.org.uk/guidance/NG59/chapter/recommendations (abre em nova aba)
Ver todas as 13 referências
- WHO guideline for non-surgical management of chronic primary low back pain. 2023. https://www.who.int/publications/i/item/9789240081789 (abre em nova aba)
- FDA recommends avoiding NSAIDs in pregnancy at 20 weeks or later. 2020. https://www.fda.gov/safety/medical-product-safety-information/nonsteroidal-anti-inflammatory-drugs-nsaids-drug-safety-communication-avoid-use-nsaids-pregnancy-20 (abre em nova aba)
- Cardiovascular safety of non-steroidal anti-inflammatory drugs: network meta-analysis. 2011. https://www.bmj.com/content/342/bmj.c7086 (abre em nova aba)
- Peripheral arterial disease: diagnosis and management CG147. 2024. https://www.nice.org.uk/guidance/cg147/chapter/Recommendations (abre em nova aba)
- Flancox (etodolaco): bula para profissional de saúde. Apsen Farmacêutica S.A. 2026. https://produtos.apsen.com.br/flancox (abre em nova aba)
- Medicines optimisation: the safe and effective use of medicines to enable the best possible outcomes NG5. NICE. https://www.nice.org.uk/guidance/ng5/chapter/Recommendations (abre em nova aba)
- Acute kidney injury (AKI). NHS, page last reviewed 11 March 2026. https://www.nhs.uk/conditions/acute-kidney-injury/ (abre em nova aba)
- Acute kidney injury: prevention, detection and management NG148. NICE. https://www.nice.org.uk/guidance/ng148/chapter/Recommendations (abre em nova aba)
