Neste artigo
O que é Dexa-Citoneurin
Dexa-Citoneurin NFF é uma associação intramuscular de dexametasona, um corticoide anti-inflamatório potente, com tiamina, piridoxina e cianocobalamina, as vitaminas B1, B6 e B12. Ela não é uma infiltração na coluna nem uma injeção dentro do nervo. O medicamento entra no músculo, alcança a circulação e produz efeitos sistêmicos, isto é, em diferentes partes do organismo.[1]
A dexametasona é o componente que pode reduzir a inflamação ligada à dor que desce pela perna, e o efeito muda conforme o tipo de dor: o benefício médio é pequeno na dor radicular, não está demonstrado de modo confiável na dor lombar sem irradiação para o trajeto de um nervo e provavelmente não ajuda na estenose. As vitaminas precisam ser avaliadas à parte.[2] Por isso, antes de aplicar ou repetir a injeção, eu preciso saber se a dor é radicular ou não, quais riscos a pessoa carrega, se existe algum sinal de alerta que muda a prioridade e o que a aplicação anterior realmente mudou.
A composição exata deve ser conferida na caixa e na bula do produto dispensado, porque formulações antigas e atuais não devem ser tratadas como equivalentes apenas pelo nome comercial. A bula também mostra a via correta, quantas ampolas compõem cada aplicação e quais substâncias podem duplicar vitaminas ou corticoides que a pessoa já usa.[1]
Qual dor está sendo tratada
Três padrões mudam o que se pode esperar do corticoide: a lombalgia axial, a dor radicular e a estenose lombar. Outras origens de dor na coluna e fora dela entram na comparação quando o exame não se encaixa em nenhum dos três.
Lombalgia axial é a dor concentrada na região lombar, às vezes com extensão para nádega ou coxa sem seguir o trajeto de um nervo. Pode envolver disco, articulação, músculo e outros tecidos, e muitas vezes não existe uma única estrutura comprovada. Nesse grupo, o corticoide sistêmico não mostrou benefício consistente, e a intensidade da dor, sozinha, não justifica a injeção.[2]
Dor radicular ocorre quando uma raiz nervosa é irritada ou comprimida. O padrão mais útil é a dor que sai da coluna e percorre uma faixa da perna, às vezes com formigamento, redução de sensibilidade, fraqueza ou reflexo alterado. Ciática é o nome usado quando esse trajeto envolve as raízes que formam o nervo ciático. Dor só na nádega não confirma radiculopatia (comprometimento de uma raiz nervosa).[3]

Estenose lombar é o estreitamento do canal ou das passagens dos nervos. Costuma causar peso, dor, formigamento ou fraqueza nas pernas ao ficar em pé e caminhar, com alívio ao sentar ou inclinar o tronco. Nesse quadro, o corticoide sistêmico provavelmente não traz melhora, e uma resposta breve à injeção não muda a anatomia do canal.[2]
A dor na região lombar também pode vir do quadril, da articulação sacroilíaca (junção da coluna com a bacia), do rim, de vasos ou da parede abdominal. A neuropatia periférica, como a do diabetes, produz queimação e dormência que não seguem necessariamente uma raiz lombar. Nesses casos, corticoide e vitaminas podem mudar o sintoma sem tratar a origem. Dor localizada fora da coluna, sintomas urinários, pulsos reduzidos ou perda de sensibilidade simétrica mudam o exame que eu faço.[3]
Avaliação antes da injeção
Eu começo a avaliação pela história: como a dor começou, se houve trauma, qual é o trajeto, o que piora, e se há febre, perda de peso, câncer prévio, infecção recente, imunossupressão (defesas reduzidas por doença ou remédio) ou uso de anticoagulante. Depois examino marcha, mobilidade, força, sensibilidade e reflexos. Os testes de tensão neural, manobras que colocam o nervo sob tensão, podem reproduzir a dor radicular, mas nenhum teste isolado identifica a causa com certeza.[3]
A lista de medicamentos precisa incluir anti-inflamatórios, anticoagulantes, remédios para diabetes, diuréticos, vacinas recentes, outros corticoides e suplementos de complexo B. Cada item muda o risco: a dexametasona pode elevar glicose e pressão, alterar humor e sono, reter líquido e reduzir a resposta imune; somar um anti-inflamatório aumenta o risco digestivo; e repetir vitamina B6 eleva a exposição acumulada.[1]
Quando já houve aplicação anterior, pergunto o que mudou na função. O que me orienta é saber se a pessoa voltou a dormir, caminhar, trabalhar ou iniciar reabilitação, por quantos dias e com quais efeitos adversos. Se a dor volta no mesmo ritmo depois de cada aplicação, o plano não modificou o fator principal.
Quando pedir imagem
A maioria das lombalgias recentes sem perda progressiva de força ou sensibilidade nem suspeita de doença grave não exige imagem imediata. A radiografia mostra ossos e alinhamento, mas não define bem discos e raízes. A ressonância magnética mostra disco, canal e tecidos nervosos, porém encontra protrusões (abaulamentos do disco) e desgaste também em pessoas sem dor. Por isso, peço o exame quando a história e o exame físico levantam uma dúvida que ele pode esclarecer.[3]
A ressonância ganha prioridade diante de fraqueza progressiva, de alteração no controle da urina ou das fezes ou dormência no períneo (região entre as pernas que encosta no assento), de suspeita de infecção ou tumor, de trauma relevante, ou de radiculopatia persistente quando o resultado vai mudar a indicação de um procedimento ou de uma avaliação cirúrgica. Ela não é pré-requisito automático para todo tratamento conservador, mas repetir a injeção não deve adiar a investigação de uma perda neurológica.[3]
A indicação de corticoide combina a imagem com o exame físico. Uma protrusão pequena pode coincidir com radiculopatia importante, e uma hérnia volumosa pode não causar sintoma algum. Lado, raiz, distribuição da dor e achados do exame precisam ser compatíveis. Se o exame físico mostra apenas dor axial e a ressonância traz desgaste comum, o laudo não cria indicação para a injeção.[3]
Efeito esperado da injeção
O efeito vem da dexametasona e muda conforme o padrão de dor; as vitaminas têm papel separado.
Na dor radicular
Na dor radicular que não vem de estenose, o corticoide sistêmico traz, em média, melhora pequena da dor no curto prazo e algum ganho de função, sem reduzir a necessidade de cirurgia. Os estudos usaram corticoides, doses e vias diferentes, e poucos correspondem à formulação, à dose e à sequência de aplicações de Dexa-Citoneurin. Por isso, não há demonstração de que a associação supere outro corticoide nem de que uma série fixa de aplicações seja necessária em toda ciática.[2]
Na lombalgia axial e na estenose
Na lombalgia sem sinais radiculares, não há vantagem confiável demonstrada. Na estenose lombar, o corticoide sistêmico provavelmente é ineficaz. Uma receita baseada apenas em “dor na coluna” fica imprecisa, porque mecanismo, resultado e chance de resposta mudam de um padrão para outro.[2]
Vitaminas B1, B6 e B12
Um estudo pequeno e antigo testou apenas vitamina B12 (metilcobalamina) aplicada no músculo contra placebo, em pessoas selecionadas com dor lombar, e encontrou melhora da dor e da incapacidade no curto prazo.[6] Esse estudo não avaliou a associação com dexametasona, B1 e B6 e não basta para indicar uso rotineiro.
A vitamina trata a deficiência quando ela está presente, e a injeção não serve para descobrir se ela existe. Também não há comparação robusta mostrando que acrescentar B1, B6 e B12 ao corticoide melhora o resultado em quem não tem deficiência.[2] Formigamento não é indicação automática de vitamina: compressão de raiz, diabetes e outras neuropatias precisam ser diferenciadas primeiro.
Riscos e contraindicações
Mesmo uma exposição curta à dexametasona pode elevar a glicose e a pressão, causar azia, retenção de líquido, agitação, insônia ou alteração de humor. Também pode mascarar febre e reduzir parte da resposta imune. Diabetes descompensado, infecção ativa, úlcera, sangramento digestivo, glaucoma, doença cardiovascular, uso de anticoagulante e reação anterior ao produto pedem revisão individual antes da aplicação.[1]
Em adultos que usaram cursos curtos de corticoide por via oral, houve associação com eventos graves, como infecção, tromboembolismo (coágulos que se formam nas veias e podem migrar) e fratura. Esse dado não mede o risco de uma aplicação intramuscular específica, mas mostra que alguns dias de corticoide não equivalem a risco zero. O risco individual depende de dose, repetição, idade, doenças associadas e exposições simultâneas.[7]
A piridoxina, vitamina B6, pode causar neuropatia sensitiva, lesão dos nervos da sensibilidade, quando a exposição suplementar é excessiva e prolongada. Uma série curta prescrita não tem o mesmo risco do uso crônico de suplementos, mas repetições, fórmulas manipuladas, multivitamínicos e energéticos podem somar doses. Dormência progressiva, desequilíbrio ou queimação depois de uso repetido pedem a suspensão da automedicação e a revisão da exposição total.[5]

A bula brasileira descreve esta apresentação como solução intramuscular para adultos, com aplicação profunda no músculo, e lista dor e irritação no local e reações alérgicas entre os efeitos.[1] Essa aplicação profunda deve ser feita por um profissional qualificado, e, em quem usa anticoagulante, o risco de hematoma no local entra na decisão.
A bula contraindica o produto em infecção grave e pede que o médico seja informado sobre infecção generalizada ou tuberculose. Dor de garganta, febre, tosse ou catapora durante o uso são sinais de possível infecção e pedem contato com o médico responsável. Quando a suspeita é de infecção na própria coluna, a investigação diagnóstica é outra.[1]
Reabilitação
O alívio temporário serve para abrir espaço à recuperação da função. Na lombalgia axial, a reabilitação identifica quais movimentos e cargas estão reduzidos, como levantar, inclinar, caminhar, permanecer sentado ou carregar, e inicia uma exposição progressiva a eles. Eu escolho o exercício pela tarefa limitada e pela resposta que ele provoca depois.[4]
Na crise de lombalgia, com ou sem ciática, o exercício faz parte do cuidado, e um programa em grupo pode ser considerado. Ele pode ser biomecânico, aeróbico, mente-corpo ou combinado, escolhido pelas necessidades, preferências e capacidades de cada pessoa.[3] Para saber se houve ganho, comparo a tarefa que estava limitada no início.
Na dor lombar crônica primária, aquela sem uma doença específica que a explique, o exercício estruturado faz parte do cuidado não cirúrgico, dentro de um plano integrado. A dose é definida pelo programa escolhido, pela capacidade e pelo objetivo funcional daquela pessoa. Trabalho, tempo sentado e tarefas de carga entram como metas do plano.[4]
Outros medicamentos
Anti-inflamatório
Um anti-inflamatório pode ser considerado por curto período na lombalgia aguda, em quem não tem alto risco renal, digestivo ou cardiovascular. Ele não deve ser somado a outro anti-inflamatório nem servir para compensar uma atividade que continua tirando função. Paracetamol isolado tem benefício limitado na lombalgia e não trata compressão de nervo.[3]
A proteção gástrica não torna segura, em toda pessoa, a combinação de corticoide com anti-inflamatório. Ela pode reduzir parte do risco digestivo em pacientes selecionados, mas não previne lesão renal, retenção de líquido, pressão alta ou alteração de glicose.
Corticoide oral
Trocar a injeção por comprimidos de corticoide não resolve a questão da indicação. Na ciática, a melhora pequena e curta que o corticoide sistêmico pode trazer não compensa os riscos para uso de rotina. Por isso não indico corticoide em comprimido nesse quadro, e os danos de cursos curtos descritos acima foram observados justamente com a via oral.[3]
Remédios para dor neuropática
Formigamento, por si só, não indica remédio para dor neuropática. Vários remédios desse grupo usados na dor ciática causam sedação, tontura ou ganho de peso sem benefício relevante. Quando prescrevo um deles, defino antes o sintoma-alvo, o período de teste, a função esperada e o critério para suspender.[3]
Quando não somar remédios
Em dor persistente, acrescentar um remédio atrás do outro sem revisar sono, humor, trabalho, carga física e sinais neurológicos aumenta o risco e não esclarece o mecanismo. Esses fatores mudam intensidade e incapacidade e entram na avaliação, junto com o exame da coluna, do quadril, da articulação sacroilíaca e do sistema nervoso quando o padrão pede.[4] Por isso reviso todas as receitas em conjunto, para que prescrições diferentes não se sobreponham.
Quando a dor vem de doença inflamatória
Se a dor tem componente inflamatório de outra doença, como a espondiloartrite, doença inflamatória crônica que atinge a coluna e as articulações sacroilíacas, o tratamento pode incluir anti-inflamatório ou medicamento modificador da doença, que controla a atividade da inflamação, com acompanhamento reumatológico. Uma injeção isolada de dexametasona pode aliviar por um tempo e deixar a doença ativa. Rigidez prolongada pela manhã, inflamação nos olhos, psoríase ou doença intestinal mudam o encaminhamento e o plano de medicamentos.[3]
Procedimentos e cirurgia
Infiltração epidural
A injeção de Dexa-Citoneurin no músculo age no corpo todo e não equivale a uma infiltração epidural. A infiltração epidural coloca o medicamento perto das raízes nervosas e pode ser considerada na radiculopatia selecionada, depois de correlacionar trajeto, exame e imagem. O objetivo é reduzir a dor radicular por um período limitado para recuperar função; ela não remove a hérnia nem garante que a cirurgia será evitada.[3]
O cenário com apoio mais claro para o anestésico local com corticoide é a ciática aguda e intensa. Essa indicação não se estende à lombalgia axial, à estenose sem esse quadro nem à aplicação intramuscular de Dexa-Citoneurin, e dor forte, sozinha, não é critério para fazer ou repetir a epidural.[3] Depois do procedimento, o que eu reavalio é se a dor na perna cedeu o bastante para a reabilitação avançar e se força e sensibilidade se mantêm.
Cuidado integrado na dor crônica
Na dor lombar crônica primária, depois de uma avaliação adequada, o cuidado não cirúrgico é integrado e escolhido pela limitação funcional. Educação, exercício e outras opções selecionadas precisam compartilhar uma meta mensurável, como caminhar, ficar sentado ou retomar carga, e são revistos pela resposta.[4]
Avaliação cirúrgica
A avaliação cirúrgica é prioritária na síndrome da cauda equina, a compressão do conjunto de raízes no fim do canal lombar, na perda de força progressiva ou na compressão estrutural compatível com incapacidade persistente apesar de tratamento adequado. A decisão de operar considera função, exame, tempo de evolução, imagem e a preferência informada da pessoa, além da intensidade da dor.[3]
Reavaliação
No retorno, comparo as medidas do início do plano e pergunto pelos efeitos adversos. Como o efeito esperado, quando existe, é pequeno e curto, um alívio breve não prova que o problema lombar foi corrigido.[2]
Quando surgem sintomas novos ou o padrão muda, reconsidero o diagnóstico. Mudança na distribuição da dor, nova perda de sensibilidade ou fraqueza pedem nova avaliação diagnóstica antes de repetir qualquer tratamento.[3] Nessa revisão, comparo lado, a área da pele com alteração de sensibilidade, reflexos, marcha e evolução. Repetir cursos da injeção sem essa revisão soma corticoide e vitamina B6 sem esclarecer a causa.
Sinais de alerta
Se depois da aplicação surgirem vermelhidão ou coceira na pele, mal-estar geral, dificuldade para respirar, tontura ou sensação de desmaio, não faça novas aplicações e procure atendimento imediatamente.[1] Vá a um pronto-socorro ou a uma unidade de pronto atendimento (UPA); com falta de ar ou desmaio, chame o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo 192. Vômito com sangue ou fezes pretas e pegajosas (melena) também pedem atendimento imediato, porque podem indicar sangramento digestivo.[8] Leve a caixa e informe dose, via e horário da última aplicação.
Alteração no controle da urina ou das fezes, dormência na região do períneo ou fraqueza progressiva pedem avaliação imediata no pronto-socorro. Nova perda de força, perda de sensibilidade que avança ou suspeita de outra causa grave também mudam a rota da lombalgia e pedem avaliação diagnóstica urgente, em vez de outra aplicação.[3]
Referências
- Dexa-Citoneurin NFF patient leaflet. 2025. https://bula-anvisa.s3.sa-east-1.amazonaws.com/121420670_paciente.pdf (abre em nova aba)
- Systemic corticosteroids for radicular and non-radicular low back pain. 2022. https://www.cochrane.org/evidence/CD012450_systemic-corticosteroids-radicular-and-non-radicular-low-back-pain (abre em nova aba)
- Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management NG59. 2020. https://www.nice.org.uk/guidance/NG59/chapter/recommendations (abre em nova aba)
- WHO guideline for non-surgical management of chronic primary low back pain. 2023. https://www.who.int/publications/i/item/9789240081789 (abre em nova aba)
- Scientific opinion on the tolerable upper intake level for vitamin B6. 2023. https://efsa.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.2903/j.efsa.2023.8006 (abre em nova aba)
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- Vitamin B12 in low back pain: a randomized double-blind placebo-controlled study. 2000. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11558625/ (abre em nova aba)
- Short term use of oral corticosteroids and related harms among adults in the United States. 2017. https://www.bmj.com/content/357/bmj.j1415 (abre em nova aba)
- Gastrointestinal bleeding. MedlinePlus Medical Encyclopedia, U.S. National Library of Medicine. 2025. https://medlineplus.gov/ency/article/003133.htm (abre em nova aba)
