Neste artigo
Hérnia de disco em poucas linhas
Uma hérnia de disco preocupa quando deixa de ser apenas um achado de imagem ou uma dor estável e passa a produzir perda neurológica, compressão da medula cervical ou síndrome da cauda equina. Por isso, a primeira coisa que eu defino é a região: uma raiz lombar comprimida dá sintomas na perna; uma raiz cervical, no braço; a medula cervical altera mãos, marcha e vários membros ao mesmo tempo. Cada uma dessas situações tem prazo e tratamento próprios.
Dor que desce para o braço ou para a perna, dormência e fraqueza sugerem sofrimento de um nervo quando seguem uma distribuição coerente com o exame. Dor apenas no pescoço ou na lombar pode conviver com uma hérnia que não é a causa do sintoma. Na consulta, eu meço primeiro a função e o déficit neurológico; depois decido urgência, imagem, reabilitação, procedimento ou cirurgia.
Sinais de emergência
Procure um pronto-socorro ou uma unidade de pronto atendimento (UPA) agora se surgir dificuldade nova para urinar, retenção urinária, perda de controle da urina ou das fezes, alteração nova da função sexual, dormência entre as pernas, no períneo (a região entre os genitais e o ânus) ou ao redor do ânus, ou fraqueza importante nas duas pernas.
Esse conjunto pode indicar síndrome da cauda equina, a compressão do feixe de raízes nervosas da parte baixa da coluna, que exige avaliação e imagem urgentes. O que define a urgência é essa alteração neurológica nova na região pélvica acompanhando a dor lombar irradiada; a intensidade da dor, por si, não a define.[1][25]
Acione o SAMU 192, o serviço móvel de urgência, quando o déficit for súbito ou incapacitante, houver trauma importante, perda de consciência ou não for possível chegar com segurança a um serviço de emergência; a central regula o atendimento e o transporte. Diante de qualquer sinal deste quadro, não espere a consulta marcada nem a próxima sessão de fisioterapia.[15]
Na hérnia cervical, procure avaliação no mesmo dia diante de marcha instável, quedas, mãos cada vez mais desajeitadas, rigidez nas pernas, fraqueza em mais de um membro ou alteração urinária acompanhada de outros sinais neurológicos. Esse quadro sugere mielopatia, o comprometimento da própria medula, e pede reconhecimento e encaminhamento em tempo hábil. Se a piora neurológica for importante, vá direto ao pronto-socorro.[12][26]
Fraqueza nova ou em piora no braço ou na perna, como pé caído ou dificuldade recente para andar, e perda da capacidade de ficar em pé pedem exame neurológico no mesmo dia. Febre junto com dor irradiada, suspeita de infecção, imunossupressão, câncer com metástase já conhecido ou suspeita clínica de câncer, dor que começou depois de uma queda relevante e trauma em quem tem fragilidade óssea também pedem avaliação urgente. O serviço e o exame de imagem dependem da região e do exame físico, mas nenhum desses contextos combina com uma espera prolongada em casa.[1][21]
Se você usa anti-inflamatório por via oral e surgir dor no peito, falta de ar, melena (fezes pretas e pastosas), vômito com sangue, inchaço importante ou redução da urina, suspenda o remédio e procure avaliação.[13]
Sem déficit em piora, alteração de bexiga ou intestino, sinais de medula, trauma ou suspeita de infecção ou câncer, uma dor irradiada estável pode começar tratamento conservador com acompanhamento. A condição é continuar conferindo força, sensibilidade e função; uma piora objetiva muda o prazo na hora.[4]
Disco, raiz e medula
Hérnia de disco é o deslocamento focal de material do disco intervertebral para além do seu espaço normal.[24] O disco fica entre duas vértebras e tem um núcleo central e um anel fibroso por fora. Com fissuras e degeneração, parte desse material pode se deslocar para o canal vertebral ou para o forame, a abertura lateral por onde sai a raiz nervosa. A imagem descreve forma e posição; o sintoma só aparece quando inflamação ou compressão atingem uma estrutura nervosa de modo compatível.[1]
Na coluna lombar, as raízes descem para formar os nervos da perna, e a compressão de uma delas pode causar ciática, alteração de sensibilidade e perda de força. Na cervical, a raiz segue para o braço e a mão, enquanto a medula atravessa o canal e pode afetar braços e pernas. Por isso, dor irradiada, déficit de uma raiz e sinais de medula são avaliados como padrões diferentes.[14]
Termos do laudo
O laudo descreve a forma do deslocamento. Na protrusão, a parte deslocada não é mais larga que a base e ocupa menos de 25% da circunferência do disco. Na extrusão, o material que ultrapassa o disco é mais largo que a base em pelo menos um plano ou perde continuidade com o interior.
Se o fragmento extruso já não mantém ponte com o disco de origem, o termo é sequestro.[17] Esses nomes descrevem a forma do disco; a intensidade da dor e a indicação de cirurgia dependem de outros dados. Protrusões e abaulamentos, as alterações do contorno do disco, aparecem com frequência em ressonâncias de pessoas sem dor.[19]
Origem da dor
A dor resulta de uma combinação de inflamação, pressão mecânica e resposta do sistema nervoso, e o tamanho da hérnia não define sozinho a intensidade da dor nem a incapacidade. O que decide é a concordância entre lado, nível, território, exame neurológico e evolução ao longo do tempo.[4]
Padrões cervical e lombar
Na lombar, a radiculopatia, que é o sofrimento de uma raiz nervosa, costuma dar dor que sai da nádega e desce pela perna, às vezes com formigamento, dormência e fraqueza. Para localizar o déficit, comparo tarefas ligadas a cada miótomo, o conjunto de músculos que depende principalmente de uma raiz: levantar a ponta do pé, ficar na ponta dos pés, estender o joelho e caminhar. Essas tarefas orientam o raciocínio, e o exame completo continua necessário.[7]
Parestesia (formigamento ou sensação de choque), redução da sensibilidade, perda de força ou reflexo diminuído: nenhum desses sinais, sozinho, identifica o nível com segurança, e a coerência entre trajeto, força, sensibilidade e reflexo pesa mais que um mapa simplificado das raízes da lombar baixa (L4, L5 ou S1).[20]
Formigamento isolado é um sintoma sensitivo e não equivale a fraqueza. Déficit motor aparece como perda funcional nova ou progressiva, por exemplo dificuldade nova para elevar o pé ou para sustentar a marcha. Déficit sensitivo é uma redução demonstrável da sensibilidade no território examinado. Dor intensa pode existir sem perda neurológica, e perda objetiva de força pode aparecer com dor menos intensa. Quando esses achados progridem, a prioridade muda, mesmo que a dor irradiada seja suportável.[21]
Na cervical, a radiculopatia dá dor que desce para o braço ou a mão, com possíveis mudanças de sensibilidade, força e reflexo, e o diagnóstico usa a distribuição junto com vários testes. Compressão do nervo no túnel do carpo, outros nervos periféricos, o plexo braquial (a rede de nervos entre o pescoço e o braço) e problemas do ombro podem imitar esse quadro ou coexistir com ele.[14]

A mielopatia cervical é outro problema: a compressão atinge a medula. Hiper-reflexia (reflexos exagerados por lesão da via motora central, o trajeto do comando dos movimentos dentro da medula), perda de destreza, desequilíbrio, rigidez nas pernas e sinais em vários membros apontam para a medula, e a dor no pescoço pode ser discreta mesmo quando a perda de função já é relevante.[12]
Dor axial é a que fica no pescoço ou na lombar e varia com posição e carga, sem déficit neurológico. Nesse caso, a hérnia descrita no laudo não prova que o disco seja o gerador da dor na coluna. Eu procuro quais movimentos, território, tarefas e sinais neurológicos concordam com o nível descrito; sem essa concordância, as outras causas continuam em aberto.[1]
A distribuição da dor ajuda a escolher o próximo teste, mas ainda não fecha o diagnóstico. Na lombar, dor que desce para a perna com déficit concordante pesa mais do que dor lombar isolada. Na cervical, dor que passa do cotovelo com alteração de reflexo ou de sensibilidade pesa mais do que dor na borda da escápula. A radiculopatia cervical pode levar a dor a um ou aos dois braços.[27] Ainda assim, quando os sintomas ocupam os dois lados, vários membros ou não seguem uma raiz, investigo o canal central, doença sistêmica ou nervo periférico.[14]
Outras causas semelhantes
Ciática descreve um padrão de dor, e a hérnia lombar é apenas uma das causas possíveis. Estenose do canal lombar pode dar peso ou dor nas pernas ao caminhar, e fratura, tumor, infecção, espondilolistese (escorregamento de uma vértebra sobre a outra), doença do quadril e neuropatias periféricas mudam a conduta.[2]
No braço, lesão do manguito rotador (os tendões do ombro), capsulite (inflamação da cápsula que deixa o ombro rígido), artrose do ombro, compressões de nervos periféricos e neuropatias podem coexistir com alterações cervicais. Examino o ombro quando ele próprio perde movimento e investigo a mão e os nervos periféricos quando a distribuição não corresponde a uma raiz.[8]
Na perna, dor que nasce no quadril, na articulação sacroilíaca, em músculos ou em um nervo periférico também pode irradiar. O exame local, o território sensitivo, a força e a resposta aos movimentos ajudam a ordenar essas hipóteses antes de atribuir a dor à hérnia.
Medo, sono ruim, trabalho e contexto emocional mudam o grau de incapacidade e o ritmo de recuperação. Levo esses fatores em conta na conversa e no retorno às atividades depois de definir urgência, déficit e diagnóstico regional, e eles nunca servem para explicar uma perda de força ou um sinal de medula.[7]
Exame neurológico dirigido
Na consulta, registro o início, a região, a distribuição da dor, o que piora e o que alivia, a função e a mudança de um dia para o outro. Pergunto diretamente sobre bexiga, intestino, sensibilidade na região da sela (períneo e face interna das coxas), marcha, mãos e força. A cronologia separa um episódio estável de um déficit em evolução e direciona o exame antes de qualquer imagem.[1] Ajuda muito chegar à consulta sabendo onde o sintoma começa e termina, se há formigamento, sensação de choque ou dormência, e qual tarefa deixou de ser possível.[24]
Na lombar, comparo força, sensibilidade e reflexos por território e por tarefa, incluindo andar nos calcanhares e na ponta dos pés quando isso é seguro. A elevação da perna estendida, com as manobras de Lasègue e de Lasègue cruzado, testa a mecanossensibilidade, ou seja, a resposta do nervo ao movimento e à tensão; sentir apenas o alongamento na parte de trás da coxa não confirma radiculopatia.
Esse tipo de teste de tensão neural aumenta ou alivia a carga sobre uma raiz, mas também provoca músculo e outros tecidos sensíveis. Ele ganha peso quando reproduz o sintoma habitual, muda com um componente neural e concorda com território, força ou reflexo.[7]
Lidas em conjunto, essas manobras aumentam ou reduzem a probabilidade de hérnia lombar com radiculopatia. Os reflexos completam o padrão, mas a ausência de um reflexo, sozinha, não diagnostica hérnia nem indica o nível.[24]
Na cervical, comparo a força de ombro, cotovelo, punho e mão, os reflexos e a sensibilidade, e uso manobras que reproduzem ou aliviam a dor irradiada. Os testes de tensão do membro superior pertencem a essa região e são lidos junto com a história, separados dos testes lombares.[14]
Quando suspeito de mielopatia, examino marcha, equilíbrio, destreza das mãos e sinais de via motora central. O objetivo é reconhecer o comprometimento da medula e documentar se ele progride.[12]
Na suspeita de cauda equina, o exame procura os sinais descritos no quadro de emergência nas duas pernas, na sela e no controle urinário e intestinal, sem atrasar o encaminhamento e a imagem urgente.
Documento o déficit de forma repetível: comparo os lados, uso a mesma posição e anoto a tarefa que falha. A dor pode inibir a força, então repito uma contração que saiu fraca depois de ajustar a posição, quando isso é apropriado. Perda persistente em um miótomo, mudança de reflexo e sensibilidade concordante formam um conjunto mais útil do que a intensidade da dor.
Para acompanhar, escolho uma medida regional e funcional, como distância de caminhada, uma tarefa da mão, a força de um grupo muscular ou o tempo tolerado sentado. A dor pode oscilar antes da função, e uma perda objetiva de força ou de marcha, ou uma nova alteração urinária ou intestinal, pesa mais do que qualquer melhora subjetiva e muda a prioridade.[1]
Exames de imagem
Na lombar, a ressonância magnética não é necessária no início de toda radiculopatia. Ela é indicada de imediato quando há suspeita de cauda equina ou de outro risco grave e, fora da urgência, quando os sintomas persistem ou progridem depois de cerca de seis semanas de tratamento e o resultado vai mudar a decisão sobre procedimento ou cirurgia. Diante de déficit neurológico, essas seis semanas não são uma espera obrigatória.
O pedido informa qual pergunta lombar a imagem deve responder: sem pergunta definida, aumenta a chance de encontrar alterações que não explicam o sintoma. Na suspeita de cauda equina, a ressonância lombar é o exame de escolha, em geral feita primeiro sem contraste; a equipe acrescenta o contraste quando também investiga tumor maligno, infecção ou inflamação. Essa escolha é feita no hospital e não deve atrasar a ida ao pronto-socorro.[2]
Na cervical, a ressonância é usada quando há suspeita de compressão da medula, infecção, tumor ou déficit progressivo, e pode ser considerada na radiculopatia persistente quando o resultado vai mudar o encaminhamento.[3] Sinais de medula antecipam a ressonância mesmo quando a dor é pequena, porque marcha, destreza e sinais de via motora central orientam a busca por compressão medular.[12]
A radiografia não mostra a hérnia, mas responde a perguntas sobre fratura, alinhamento ou instabilidade em situações selecionadas. A tomografia ganha valor para avaliar osso ou quando a ressonância não pode ser feita. A discografia, injeção de contraste no disco para tentar relacioná-lo à dor, não é exame de rotina para confirmar uma hérnia já visível.[1]
Leitura do laudo
Na leitura do laudo, confronto cinco elementos: nível, lado, raiz provável, sintomas e exame neurológico. Uma hérnia à esquerda explica mal uma dor exclusivamente do lado direito, a menos que haja outra justificativa.[19] Um achado do lado ou no nível que não corresponde ao quadro perde força como causa. É essa concordância entre clínica e imagem que define quanto peso o laudo recebe no plano, e a indicação cirúrgica na hérnia lombar depende dela.[5]
Repetição da ressonância
A ressonância é repetida diante de uma pergunta nova, como persistência com possível procedimento, progressão neurológica ou suspeita de outra condição. Repetir o exame só para acompanhar o tamanho da hérnia não traz benefício demonstrado. A imagem não precisa normalizar para que dor e função melhorem, e uma mudança no exame sem correspondência clínica não substitui a reavaliação neurológica.[2][19]
Reabilitação e atividade
Atividade no início
Na hérnia lombar sem sinais de emergência nem déficit em piora, o tratamento inicial mantém a caminhada e as atividades toleráveis e reduz, por um período, somente o que piora muito a dor na perna. Repouso prolongado reduz a capacidade física sem criar espaço previsível para a raiz. Quando uma atividade deixa a irradiação ampliada nas horas seguintes, a dose diminui. A carga é ajustada pela distribuição do sintoma e pela função; a aparência da ressonância não define essa dose.[4]
Na fase mais irritável, caminhadas curtas e frequentes podem substituir uma saída longa, e o tempo sentado é fracionado conforme a reação da perna.[7]
Dose do exercício
O exercício terapêutico entra quando a dor radicular limita as atividades ou a participação no trabalho e na vida diária e a pessoa precisa de orientação para retomá-las. O alvo é recuperar capacidade de movimento e de carga. O ponto de partida depende de quão facilmente a dor na perna é provocada e de quanto tempo ela leva para voltar ao nível anterior.
Se qualquer esforço acende a irradiação e ela demora a ceder, o início é mais leve e o foco é reduzir a dor. Se a dor sobe um pouco durante o exercício, mas volta ao nível anterior no mesmo período e a função continua avançando, esse aumento breve pode ser aceitável.[20]
Para medir o avanço, escolho com a pessoa uma tarefa limitada, como caminhar, sentar ou trabalhar, e registro a tolerância atual. Frequência, intensidade ou tempo aumentam quando a tarefa melhora e o sintoma volta ao nível anterior; a carga diminui se a irradiação permanece maior. Quando a evolução é boa, as atividades são ampliadas ao longo de seis a doze semanas.[20]
Movimentos direcionais na lombar
Na dor lombar com irradiação, testo movimentos em direções diferentes. Centralização é quando a dor recua da perna para perto da coluna; periferização é quando ela avança para mais longe no membro. Se um movimento centraliza a dor e preserva a força, ele pode ser repetido; se periferiza cada vez mais ou reduz a função, sai do plano. A direção escolhida permanece no programa enquanto melhora um padrão repetível.
Deslizamento neural
O deslizamento neural é um exercício suave que alterna posições para mover o nervo com pouca tensão, bem diferente de um alongamento forçado. Ele é interrompido se aumentar a dor na ponta do membro, a dormência ou a fraqueza.[8]
Fortalecimento e retorno ao trabalho
Passada a fase irritável, entram resistência de tronco e quadril, transporte de carga e exposição às tarefas do trabalho, conforme movimento, controle e demanda funcional. Progrido uma variável por vez: tarefa, duração ou carga. A escolha dos exercícios acompanha o déficit e a tarefa que a pessoa precisa recuperar. Uma perda neurológica durante o treino interrompe a progressão e pede reavaliação.[7]
Reabilitação cervical
Na radiculopatia cervical, o primeiro objetivo é encontrar posições e movimentos que reduzam o sintoma no braço sem piorar força ou destreza. Os exercícios são escolhidos pelo padrão do braço, pela força e pela tolerância do pescoço, e uma tarefa do membro superior serve de medida. Depois, a resistência de pescoço, cintura escapular e braço avança por tempo, carga e amplitude, seguida de tarefas da mão ou de trabalho acima dos ombros quando a rotina exige. Perda de força, destreza ou marcha interrompe a progressão e leva a nova avaliação neurológica.
A tração pode ser um componente selecionado na dor cervical crônica com irradiação para o braço. Ela não corrige o disco e é abandonada se agravar o déficit ou os sintomas no braço ou na mão.[8]
Reavaliação durante a reabilitação
Cada reavaliação compara marcha, distribuição da dor, força e atividade.[4]
Medicamentos
Anti-inflamatórios
Na ciática lombar, um anti-inflamatório não esteroide pode ser considerado em adultos selecionados, mas o benefício é limitado e precisa ser pesado contra os danos. Quando prescrito, usa a menor dose eficaz pelo menor tempo necessário. O objetivo é aliviar o sintoma o suficiente para recuperar sono, movimento e participação na reabilitação.[6]
Os riscos incluem eventos cardiovasculares, sangramento digestivo, lesão renal, retenção de líquido e interações, por isso confiro produto, formulação, contraindicações e indicação para cada pessoa. Os sinais que mandam suspender o remédio estão no quadro de emergência.[13]
Quando a dor está concentrada na lombar, sem descer pela perna, o anti-inflamatório por via oral também pode ser considerado, depois de avaliar o risco para estômago e intestino, fígado, coração e rins, a idade, as interações com outros remédios e a necessidade de monitoramento e de proteção gástrica. Isso não vale automaticamente para a dor cervical, e o laudo de hérnia não basta como indicação de remédio.[6]
Quando prescrevo o anti-inflamatório, ele sai com um objetivo funcional e uma data de revisão ao fim de um teste curto, sem duração fixa para todos. No retorno, benefício e tolerância decidem se o remédio continua, muda ou é suspenso, e um efeito adverso ou uma mudança neurológica antecipa esse retorno.[22]
Remédios que não entram de rotina
Vários remédios usados para dor ciática não devem ser iniciados de rotina: gabapentinoides (gabapentina e pregabalina), outros anticonvulsivantes, corticoide por via oral e benzodiazepínicos (sedativos usados para ansiedade ou insônia), por falta de benefício global e possibilidade de dano.
Opioide também não é indicado na ciática crônica, a que dura três meses ou mais. Quem já usa opioide, gabapentinoide ou benzodiazepínico precisa rever com o médico indicação, benefício, efeitos adversos e risco de dependência, e planejar a retirada quando ela for indicada. A suspensão é supervisionada, porque a interrupção abrupta por conta própria pode causar dano.[6]
Remédios para dor neuropática e relaxantes musculares
Descrever a dor como queimação não basta para escolher um remédio para dor neuropática, e sentir espasmo não basta para indicar um relaxante muscular. Para cada classe, confiro diagnóstico, contraindicações e interações e defino uma medida funcional própria. Se a dor melhora sem ganho de marcha, força, sono ou de uma tarefa relevante, reavalio a utilidade do remédio.[4] Sem ganho funcional, somar classes de remédio aumenta o risco e não resolve a escolha do tratamento. A falta de resposta ao remédio também não mede a gravidade da compressão e, sozinha, não indica epidural nem cirurgia.[6]
Injeção epidural lombar
A injeção epidural leva anestésico local e corticoide para perto da raiz lombar envolvida e pode ser considerada na ciática lombar aguda e intensa. A indicação começa pela confirmação de uma dor que desce da parte baixa da coluna para a perna, com uma raiz concordante no exame; dor axial isolada, hérnia sem sintomas, quadro crônico estável e mielopatia cervical ficam fora dessa indicação. O procedimento age sobre a dor e não remove o fragmento do disco.[6]
O benefício esperado é pequeno: em média, a dor na perna e a incapacidade melhoram pouco e sobretudo no curto prazo, de pouco mais de duas semanas até cerca de três meses. Algumas pessoas respondem mais, mas não há como prever antes quem responderá. Esses números vêm da ciática lombar e não sustentam o uso da injeção na radiculopatia cervical.[9]
Entre os efeitos adversos relatados estão aumento temporário da dor, dor de cabeça, reação vasovagal com desmaio breve e punção acidental da membrana que envolve as estruturas nervosas, seguida de dor de cabeça. Em uma pessoa que usava anticoagulante, houve hematoma retroperitoneal, um sangramento na parte de trás do abdome. A frequência exata desses eventos não é bem conhecida, porque os estudos registraram mal os efeitos adversos. A técnica, as outras doenças e os remédios em uso são revistos antes do procedimento.[9]

A orientação por imagem não elimina os riscos neurológicos raros e graves da injeção epidural de corticoide: infarto da medula (lesão da medula por falta de sangue), paralisia, cegueira cortical (perda de visão por lesão no cérebro) e acidente vascular cerebral. O corticoide aplicado no espaço epidural é usado fora da indicação aprovada no rótulo do medicamento, e esse ponto entra na conversa sobre segurança do procedimento. Antes de consentir, compare esse risco com o benefício pequeno e temporário esperado para a ciática lombar.[16]
Depois da injeção, comparo dor na perna, caminhada e força com o registro anterior; a resposta que conta é menos dor na perna junto com menor incapacidade. Sem ganho funcional relevante, a indicação é revista. Piora objetiva antecipa imagem ou encaminhamento.[1]
Cirurgia
Quando a cirurgia é urgente
Na lombar, a cirurgia é urgente na síndrome da cauda equina e é considerada cedo diante de déficit motor grave ou progressivo.[5] Na cervical, sinais de mielopatia exigem avaliação cirúrgica oportuna, porque o atraso pode piorar o resultado.[12]
Na cauda equina causada por hérnia lombar, com alteração da bexiga ou do intestino, a indicação é descompressão imediata, dentro de 24 a 48 horas. Esse prazo é da equipe hospitalar; para o paciente, os sinais significam ir ao pronto-socorro na hora. Perda de força moderada ou grave, graduada no exame em 3 ou menos numa escala clínica de 0 a 5, exige encaminhamento imediato. A cirurgia em até três dias pode favorecer a recuperação quando é viável, mas essa vantagem tem baixa certeza e o risco da operação continua existindo.[21]
Déficit leve não equivale automaticamente a cirurgia urgente. Perda leve de força, graduada em 4 de 5, ganha peso cirúrgico quando causa perda funcional relevante; um prazo de até cerca de oito dias é sugerido, com certeza menor. Duração, grupo muscular ligado à raiz, progressão e função definem a decisão, e a sensação de fraqueza precisa ser confirmada no exame.[21]
Discectomia lombar
A discectomia lombar remove o fragmento que comprime uma raiz selecionada. Na ciática persistente, a avaliação cirúrgica se apoia em falha do tratamento conservador e em concordância entre clínica e imagem. Fora da emergência, a vantagem mais consistente da cirurgia é aliviar mais rápido a dor na perna; a diferença em relação ao tratamento sem cirurgia diminui com o tempo, e várias dessas estimativas ainda são imprecisas.[11]
No prazo mais longo, entre seis semanas e oito anos, a melhora maior da dor e da função nos operados é um resultado menos certo.[23] A escolha pesa intensidade e duração da dor na perna, déficit, concordância da imagem, trabalho e preferência, além de riscos como infecção, lesão do nervo, recorrência e nova operação. Dor lombar isolada, laudo discordante e melhora funcional em curso pesam contra operar apenas o achado da ressonância.[6]
A complicação cirúrgica mais comum registrada foi a abertura acidental da dura-máter, a membrana que envolve as estruturas nervosas, em 3% dos casos, e 15% das pessoas operadas passaram por nova operação em até oito anos.[23]
Cirurgia na cervical
Radiculopatia cervical persistente sem sinais de medula segue outra decisão, baseada em nível, lado, déficit, evolução e resposta ao cuidado sem cirurgia. Quando déficit e imagem concordam e o tratamento não recupera a função nem controla o sintoma, cabe uma opinião cirúrgica: o especialista compara continuar o cuidado conservador com a intervenção adequada ao nível e à estrutura comprimida.[1]
Tempo até a decisão cirúrgica
O prazo não segue uma regra única de seis semanas. Déficit em piora encurta a espera; dor estável com ganho de função permite continuar o tratamento; dor incapacitante sem avanço pede revisão do diagnóstico, da adesão ao plano e da imagem antes da decisão. Na lombar, o sintoma que a cirurgia procura resolver costuma ser a dor radicular concordante, e dor axial isolada não basta como alvo.[5]
Evolução e reavaliação
Depois de excluídas cauda equina, mielopatia e déficit progressivo, os sintomas de ciática ou de radiculopatia melhoram em cerca de nove em cada dez pessoas, ao longo de dias a semanas. Na hérnia lombar sem déficit neurológico significativo, a janela habitual é de seis a doze semanas, e muitos quadros continuam evoluindo depois disso.[21]
Essas estimativas valem para grupos de pacientes e não se aplicam a compressão da medula, perda de controle da bexiga ou do intestino, fraqueza em piora, câncer, infecção ou trauma. A dor pode melhorar antes da força, e a dormência nem sempre desaparece logo. O valor dessas estimativas é permitir uma observação ativa do quadro sem complicação, com retorno antecipado se a trajetória neurológica se inverter.[1]
O intervalo de seis a doze semanas é uma média: se a persistência é incapacitante, reabro o diagnóstico e as opções antes do fim dele.[21]
Extrusões e fragmentos sequestrados têm, em média, maior possibilidade de reabsorção espontânea durante o tratamento sem cirurgia. A melhora clínica pode acontecer sem nova ressonância, e um déficit neurológico não deve ficar sem conduta à espera de que o fragmento desapareça.[18]
Na reavaliação, confirmo que o déficit não progride e que a região está certa. Na lombar, acompanho dor na perna, caminhada e força; na cervical, braço, mão, reflexos, marcha e destreza. Falta de melhora funcional, uma distribuição nova da dor ou piora objetiva antecipam imagem ou encaminhamento; estabilidade permite manter o plano. Dor menor sem recuperação da marcha, do trabalho ou de tarefas importantes é melhora incompleta, e dor variável com função crescente permite avançar.
Cada retorno termina com uma decisão explícita: manter a progressão, reduzir a carga, revisar o remédio, investigar outra hipótese, discutir epidural ou pedir avaliação cirúrgica. O intervalo entre consultas encurta diante de déficit ou evolução atípica e pode ser maior quando função e participação avançam de forma consistente.[20]
Recorrência não se previne com postura perfeita nem com proibição permanente de dobrar a coluna. Capacidade física, retorno gradual às tarefas e manejo das exposições relevantes reduzem a incapacidade, sem garantia de impedir uma nova crise. Cada recorrência recebe nova triagem, porque o laudo antigo não garante que a estrutura e o risco sejam os mesmos.[7]
Referências
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- ACR Appropriateness Criteria Low Back Pain. 2021. https://acsearch.acr.org/docs/69483/Narrative/ (abre em nova aba)
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Ver todas as 27 referências
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