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Entorse que se repete
Um tornozelo que volta a virar depois de uma entorse não precisa automaticamente de cirurgia, e a maior parte dos casos começa por reabilitação dirigida. Há duas formas de instabilidade, que muitas vezes aparecem juntas. Na instabilidade funcional, o ligamento cicatrizou, mas o tornozelo perdeu força, controle e resposta rápida ao desequilíbrio. Na instabilidade mecânica, o exame demonstra frouxidão ligamentar e o tornozelo desloca além do esperado.[2]
A consulta decide três coisas: qual das duas formas predomina, se existe lesão associada de cartilagem, tendão ou sindesmose, e qual tarefa a pessoa precisa recuperar, como caminhar na calçada, correr em trilha ou mudar de direção no esporte. A cirurgia entra quando o falseio continua limitando a vida apesar de um programa bem executado, quando o exame confirma a falha de estabilização e quando a imagem ajuda a definir lesões associadas que mudam o plano.[5] Uma torção nova com sinais de lesão aguda muda a urgência (veja os sinais de alerta).
Ligamentos e controle do tornozelo
A entorse mais comum acontece quando o pé vira para dentro e estira os ligamentos da face externa do tornozelo: primeiro o talofibular anterior e, em torções mais fortes, o calcaneofibular. Ligamentos são faixas resistentes que mantêm os ossos em posição. A estabilidade do dia a dia depende também dos músculos fibulares, que puxam o pé para fora, da panturrilha, do quadril, da visão e da sensibilidade da planta do pé.
Na instabilidade funcional, a queixa típica é de que o tornozelo “falha”, “escapa” ou dá insegurança em calçada irregular, escada, trilha ou mudança rápida de direção. Entre os episódios, a dor pode ser pouca. Depois de entorses repetidas, a propriocepção, que é a capacidade de perceber a posição e a velocidade da articulação para corrigir o movimento, pode ficar menos precisa, e o controle muscular pode reagir com atraso.[2]

Na instabilidade mecânica, a história é parecida, mas o exame encontra maior deslizamento do tálus para a frente ou maior inclinação em relação à perna. A ressonância pode mostrar um ligamento alterado, e esse achado só pesa na decisão quando concorda com a história e com o exame.[6]
Outras lesões no mesmo tornozelo
Entorse recorrente pode esconder uma segunda fonte de dor ou falseio. Dor profunda dentro da articulação, inchaço depois das torções e sensação de travar levantam a hipótese de lesão osteocondral do tálus, uma área de cartilagem e osso lesionada no trauma. Dor atrás ou abaixo do maléolo lateral, o osso saliente do lado de fora, com estalo ou fraqueza para virar o pé para fora, pode envolver os tendões fibulares. Dor acima do tornozelo depois de rotação externa do pé pede avaliação da sindesmose, o conjunto de ligamentos que une os dois ossos da perna.
Dor na face interna, arco do pé que vai cedendo ou dificuldade de ficar na ponta do pé deslocam a atenção para o lado medial e para a tendinopatia do tibial posterior. Quando a dor começa sem torção nenhuma, o raciocínio muda outra vez, e as causas de dor no tornozelo sem trauma entram na comparação.
| Predomínio | Hipótese que entra na consulta | O que muda na decisão |
|---|---|---|
| Falseio lateral sem dor importante entre episódios | Instabilidade funcional ou mecânica lateral | Exame de estabilidade e programa de força, equilíbrio e retorno à tarefa. |
| Dor profunda, inchaço recorrente ou travamento | Lesão de cartilagem e osso do tálus | Imagem pode deixar de ser opcional porque a conduta não é apenas treino de ligamento. |
| Dor atrás do maléolo lateral, estalo ou fraqueza para virar o pé para fora | Tendões fibulares | Ultrassom ou ressonância podem ser usados para responder à suspeita de tendão. |
| Dor acima da articulação após torção forte | Sindesmose | Proteção, imagem e encaminhamento seguem uma rota diferente da entorse lateral simples. |
Mais de um problema pode coexistir. Um atleta pode ter frouxidão lateral e impacto na frente da articulação por torções repetidas; outra pessoa pode atribuir toda a dor ao “ligamento frouxo” quando a origem atual é um tendão. Por isso, o tornozelo é reexaminado a cada recaída.[1][5]
História e exame físico
A história começa pela primeira entorse: direção em que o pé virou, estalo, incapacidade de apoiar, hematoma, tempo até voltar à atividade e número de episódios depois dela. Em seguida, importa a situação em que o tornozelo falha. Virar em terreno irregular sugere atraso na resposta rápida; falhar ao aterrissar ou cortar direção exige olhar força, salto, equilíbrio dinâmico e controle do joelho e do quadril. Também pergunto sobre dor, inchaço, travamento, dormência e limitação no trabalho, além do esporte.
No exame, comparo os dois lados: marcha, alinhamento do pé, mobilidade, sensibilidade, pulsos e pontos dolorosos. Dois testes manuais avaliam o ligamento. A gaveta anterior mede quanto o tálus desliza para a frente, e o teste de inclinação do tálus mede quanto ele se inclina em inversão, abrindo o lado de fora da articulação. Um teste positivo sem falseio pesa pouco; em quem torce repetidamente em piso irregular, reforça a hipótese de instabilidade mecânica.[2]
A parte funcional mostra onde o controle falha: apoio em uma perna, alcance em várias direções, elevações da panturrilha, salto, aterrissagem e mudança de direção. Esses testes mostram onde o controle falha antes de liberar tarefas mais rápidas.
Exames de imagem
A radiografia costuma ser o primeiro exame na dor crônica do tornozelo, porque mostra alinhamento, sequela de fratura, osteófitos, sinais de artrose e algumas lesões osteocondrais. Com radiografia normal e suspeita de lesão ligamentar, de cartilagem do tálus ou de outra estrutura profunda, a ressonância magnética sem contraste costuma ser o exame mais útil: mostra ligamentos, cartilagem, osso, tendões e edema em conjunto.[3]
O ultrassom funciona bem quando a dúvida está nos tendões fibulares, inclusive em movimento, desde que feito por examinador experiente. A tomografia detalha o osso e ajuda em sequelas, desalinhamento ou planejamento cirúrgico. Nenhum deles mede o controle de uma aterrissagem; isso vem do exame funcional.
| Dúvida depois da consulta | Exame que pode responder | Consequência possível |
|---|---|---|
| Há sequela óssea, desalinhamento ou artrose? | Radiografia | Define se o problema ultrapassa uma entorse lateral isolada. |
| Há ligamento, cartilagem ou lesão osteocondral associada? | Ressonância magnética | Ajuda a organizar reabilitação, proteção ou avaliação cirúrgica seletiva. |
| O tendão fibular falha ou desloca durante o movimento? | Ultrassom dinâmico ou ressonância | Direciona o alvo do tratamento e evita tratar tendão como ligamento. |
Sinais de alerta
Nova torção com lesão aguda: deformidade, incapacidade de dar quatro passos, dor óssea intensa em um ponto localizado, ferida aberta ou inchaço que cresce rápido pedem avaliação no mesmo dia em pronto-socorro ou UPA.[1]
Circulação e nervos: pé frio, pálido ou com dormência persistente depois da torção pede atendimento no mesmo dia.
Infecção: febre, vermelhidão importante e mal-estar não são explicados pela instabilidade crônica e pedem outra investigação.
Trombose venosa: dor forte na panturrilha com aumento de volume de uma perna pede avaliação no mesmo dia. Se vier com falta de ar ou dor no peito, ligue para o SAMU 192.[7]
Reabilitação
A maior parte dos casos de instabilidade crônica começa pela reabilitação, inclusive quando as duas formas de instabilidade coexistem. Ela recupera a capacidade dos músculos e do sistema nervoso de frear a inversão e reposicionar o pé a tempo. Treino de equilíbrio combinado com fortalecimento melhora função e controle; o conteúdo segue o déficit encontrado no exame.[2][4]
Mobilidade e força
O programa começa pela dorsiflexão, o movimento de levar o joelho à frente sobre o pé; sem ela, a pessoa pode compensar e perder controle em agachamento, escada e aterrissagem. Depois entra o fortalecimento da panturrilha, dos fibulares e do quadril, músculos que ajudam a frear a inversão e a manter o membro alinhado quando a superfície ou a tarefa muda. O treino mira o mecanismo encontrado no exame.
Equilíbrio e retorno à tarefa
O treino de equilíbrio começa no nível em que a pessoa controla o tornozelo: apoio em uma perna, alcance com o outro pé, transferência de peso e perturbações graduais. Depois avança para aceleração, desaceleração, mudança de direção, salto e aterrissagem. A progressão segue critérios observados em cada etapa: marcha estável, dor e inchaço depois da carga, qualidade do movimento e segurança na tarefa que precisa voltar.[2]
| Etapa | O que é treinado | Critério para avançar |
|---|---|---|
| Base | Mobilidade, marcha, força inicial e apoio estável. | Atividades diárias sem aumento de dor ou inchaço. |
| Controle | Equilíbrio dinâmico, alcance, panturrilha e resposta a perturbações. | Controle sem falseio e sem compensação importante. |
| Função | Escada, terreno irregular, corrida, salto ou corte conforme a meta. | Tarefa-alvo repetida com segurança e resposta tardia aceitável. |
Cada etapa é vencida quando o critério dela é atingido, sem lista fixa de semanas. Na reavaliação, conto os episódios de falseio, repito os testes funcionais do início e verifico se a tarefa que motivou a consulta voltou.

Na avaliação de fisiatria e dor, o plano pode tratar junto a dor que impede a carga, desde que o alvo esteja claro. Na dor persistente na face lateral, o exame pode encontrar tendão, impacto ou cartilagem, e a sequência de cuidados muda.
Tornozeleira e medicamentos
Tornozeleira e bandagem
A tornozeleira ou a bandagem funcional limita a inversão durante atividades de risco, como retorno inicial ao esporte, trabalho em terreno irregular ou trilha. É uma proteção temporária para uma tarefa definida. Usada sem treino de controle, protege numa situação e deixa a pessoa insegura nas demais. O tipo e o tempo de uso dependem do grau de instabilidade, da atividade e do exame.[1][2]
Analgésicos e anti-inflamatórios
Analgésicos têm papel curto quando dor e inchaço impedem caminhar ou começar a reabilitação. Um anti-inflamatório não esteroide por via oral exige conferir pressão arterial, rins, estômago, uso de anticoagulantes e outros medicamentos antes do uso; essa lista vale para essa classe e não se aplica automaticamente a todo analgésico. O efeito é sobre a dor, sem ação sobre a estabilidade. Se a dor precisa ser mascarada para que o treino aconteça, a carga ou o diagnóstico precisam ser revistos.[8]
| Recurso | Quando ajuda |
|---|---|
| Tornozeleira ou bandagem funcional | Exposição temporária a terreno, esporte ou trabalho de maior risco. |
| Analgésico ou anti-inflamatório | Dor que bloqueia função ou início da reabilitação, após avaliação de riscos. |
| Calçado ou palmilha | Quando o exame identifica suporte ou distribuição de carga como alvo plausível. |
Infiltração
Na instabilidade, a infiltração serve para tratar dor em uma estrutura identificada que esteja impedindo a reabilitação. Ela não aperta ligamento frouxo nem acelera a cicatrização de um ligamento crônico. O alvo pode ser uma articulação inflamada, uma lesão osteocondral dolorosa ou a bainha de um tendão. Às vezes a resposta ao procedimento também ajuda a esclarecer de onde vem a dor. A indicação, o medicamento e o uso de imagem para guiar a agulha dependem do diagnóstico; os tipos e cuidados estão descritos em infiltrações para dor.[3][5]
Ela é indicada quando o alívio ou a resposta diagnóstica pode mudar a função ou o plano. Antes de repetir a infiltração, verifico se a dor vem de cartilagem, tendão ou instabilidade mecânica. Os riscos dependem do medicamento, do local e da saúde de quem recebe e são revistos antes da indicação, conforme a segurança em procedimentos. A reavaliação confere se a função melhorou junto com a dor.
Cirurgia
Indicação
O número de entorses, isolado, não indica cirurgia. Ela é discutida quando há falseio persistente, dor ou limitação relevante para uma tarefa importante, quando o exame documenta instabilidade compatível e quando um programa conservador específico, realizado e reavaliado, não resolveu. A imagem verifica ligamentos, cartilagem, tendões e alinhamento, porque lesões associadas podem ser tratadas no mesmo ato ou mudar a indicação.[5]
| Elemento | O que precisa estar claro | Por que importa |
|---|---|---|
| Sintoma e função | Falseio, dor ou limitação na atividade que a pessoa precisa recuperar. | Evita operar uma imagem sem problema funcional correspondente. |
| Exame e imagens | Sinal de instabilidade e pesquisa de cartilagem, tendão, alinhamento ou sindesmose. | Define o alvo e a técnica possível. |
| Tratamento conservador | Reabilitação de força, equilíbrio e tarefa-alvo realizada e reavaliada. | Mostra se a falha é estrutural persistente ou um déficit recuperável. |
Reparo e reconstrução
A cirurgia é a opção que corrige a frouxidão estrutural. Em muitos casos de instabilidade lateral, o cirurgião repara e retensiona os ligamentos locais com uma técnica anatômica, frequentemente chamada de Broström modificada.
Quando o tecido ligamentar não é utilizável, há hipermobilidade importante, deformidade ou falha de cirurgia anterior, pode ser necessária reconstrução com enxerto. A artroscopia pode ser associada para tratar lesões dentro da articulação, mas sozinha não estabiliza um tornozelo cujo problema principal é mecânico. A técnica depende da anatomia e dos achados de cada tornozelo.
Recuperação depois da cirurgia
Depois da cirurgia vêm proteção do reparo, recuperação de mobilidade, força e equilíbrio, e só então a volta a tarefas de maior risco. O tempo varia com o reparo, o enxerto, a cartilagem tratada, a ocupação e o esporte. A reconstrução continua precisando de reabilitação, porque o objetivo é devolver estabilidade para a função.[1][6]
Reavaliação
O plano está funcionando quando diminuem os episódios de falseio, marcha e escada ficam confiáveis, o inchaço depois da carga reduz, força e equilíbrio se aproximam do outro lado e a pessoa volta progressivamente à tarefa que motivou a consulta. Para quem corre, pode ser tolerar percurso irregular; para quem trabalha em pé, atravessar uma calçada sem antecipar a torção; para o atleta, frear e mudar de direção sem perder o controle.
Quando o tornozelo continua virando na mesma tarefa, a dor fica mais profunda, aparece travamento ou o progresso estaciona apesar de treino bem feito, revejo diagnóstico, exame e imagem e procuro lesão associada. Com isso decido entre ajustar o treino, usar órtese em situações específicas, tratar uma estrutura dolorosa definida ou encaminhar ao cirurgião.
Referências
- AAOS OrthoInfo. Sprained Ankle. (abre em nova aba)
- Martin RL et al. Ankle Stability and Movement Coordination Impairments: Lateral Ankle Ligament Sprains Revision 2021. (abre em nova aba)
- American College of Radiology. Appropriateness Criteria: Chronic Ankle Pain. (abre em nova aba)
- Su Y et al. Strength and balance training for chronic ankle instability: systematic review and meta-analysis. (abre em nova aba)
- Clinical Guidelines for the Surgical Management of Chronic Lateral Ankle Instability. (abre em nova aba)
