Neste artigo
O que a dor no pescoço costuma ser
Dor no pescoço costuma ser um quadro cervical inespecífico: não há uma única lesão que explique toda a limitação, e episódios desse tipo frequentemente melhoram. Quando a dor fica no pescoço e o exame neurológico é normal, o tratamento começa com movimento, ajuste de carga e reabilitação. Dor que desce para o braço pede exame de força, sensibilidade e reflexos. Perda de destreza nas mãos ou dificuldade nova para andar desloca a prioridade para a medula. Trauma relevante, infecção, câncer, doença inflamatória ou padrão vascular antecipam a investigação.1
A consulta, com história e exame físico, separa esses caminhos. Dor recente com perda de força pode exigir investigação mais rápida que dor antiga, estável e sem déficit. Eu peço um exame complementar quando o resultado pode confirmar uma hipótese relevante, mudar o tratamento ou definir um encaminhamento.1
Padrões clínicos
Na dor axial, a que fica no pescoço, movimento, posição sustentada e carga costumam aumentar ou aliviar o incômodo. Olhar para o lado, dirigir, trabalhar com os braços elevados ou ficar diante de uma tela revelam limitações diferentes. Rigidez e perda de rotação são comuns, mas sozinhas não dizem se a dor vem do disco, da faceta (as pequenas articulações entre as vértebras), do músculo ou do ligamento da coluna cervical. Por isso o tratamento se orienta pela mobilidade necessária, pela resposta à carga e pelas tarefas que perderam tolerância.2
Na radiculopatia cervical, a irritação de uma raiz nervosa combina dor irradiada com alteração de sensibilidade, fraqueza ou reflexo compatível com o território dessa raiz, e nem todos esses achados precisam aparecer juntos. Formigamento, perda de precisão ou dificuldade para segurar objetos ajudam a medir a repercussão na função. Uma protrusão na ressonância só ganha valor quando lado, nível e exame concordam.3
Na mielopatia cervical, o comprometimento atinge a própria medula e ultrapassa o território de uma única raiz. A alteração pode envolver controle fino das mãos, equilíbrio, marcha e mais de um membro, mesmo sem dor intensa. Abotoar a roupa, escrever, manipular objetos pequenos ou caminhar em terreno irregular podem ficar difíceis de um jeito novo. Esse conjunto torna o exame neurológico e a ressonância mais prioritários, porque forma uma síndrome própria, diferente da dor axial e da radiculopatia isolada.4
Ombro, nervos periféricos e cefaleias também produzem dor perto do pescoço. Dor provocada sobretudo pelo movimento do ombro, sintomas restritos ao território de um nervo na mão ou crises com características de cefaleia pedem comparação com a região vizinha. No exame, observo qual movimento provoca o sintoma, como ele se distribui, qual função foi perdida e quais sinais aparecem juntos. Quando o incômodo se concentra no trapézio, sem padrão neurológico, a comparação passa pela dor no trapézio.1
Distribuição e urgência
Piora de força ou de marcha, febre, câncer prévio ou trauma mudam a rapidez com que você deve ser avaliado.11 Dor estável que continua limitando as atividades pede revisão programada.1
Pescoço
Faixa escapular
Braço esquerdo
Tronco
Braço direito
Mão esquerda
Mão direita
Concentra-se na nuca, no pescoço e na borda superior das escápulas, sem faixa definida até a mão.
Rigidez e perda de rotação são comuns nesse padrão.[2]
Pescoço
Ombro do lado sintomático
Braço
Tronco
Outro lado
Mão
Outra mão
Pode seguir por um lado do ombro ao braço ou à mão; força, sensibilidade e reflexos testam se o trajeto corresponde a uma raiz.
Formigamento e perda de precisão na mão ajudam a medir a repercussão.[3]
Fraqueza que progride, perda nova de marcha ou destreza, alteração urinária ou fecal, ou dor súbita cervical ou craniana com sinais neurológicos.
Procure o pronto-socorro ou ligue 192, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU).[11]
Febre com rigidez intensa, defesas baixas por doença ou remédio (imunossupressão) ou infecção recente com piora, câncer prévio com dor progressiva, ou trauma com risco de fratura.
Procure o pronto-socorro ou uma unidade de pronto atendimento (UPA) no mesmo dia.[11][5]
Dor estável que continua limitando atividades apesar do tratamento ativo; antes disso se houver progressão importante.
Consulta programada de reavaliação.[1]
Causas principais
Chamo de dor cervical inespecífica o quadro em que a avaliação não encontra trauma relevante, doença sistêmica, comprometimento de raiz ou de medula, nem outro alvo estrutural confiável. O termo descreve uma origem que nenhum teste isolado consegue localizar. Articulações, discos, músculos e ligamentos recebem carga e informação sensitiva; depois de uma sobrecarga ou de um episódio doloroso, proteção muscular, menos movimento e queda transitória de capacidade podem se somar.
Sono ruim, repetição de uma tarefa e retorno abrupto à carga influenciam a tolerância, mas nenhum deles prova sozinho a origem da dor. O tratamento acompanha mobilidade, tolerância, recuperação e função, sem atribuir de antemão o quadro a um tecido específico.1
Desidratação do disco, osteófitos (os chamados bicos de papagaio) e artrose das facetas aumentam com a idade e aparecem também em pessoas sem dor. Por isso, palavras do laudo como protrusão, retificação ou espondilose podem aparecer sem relação com a dor.
O laudo ganha valor quando lado, nível e estrutura correspondem aos sintomas e ao exame: um estreitamento do forame, o orifício por onde a raiz sai da coluna, à direita precisa ser comparado com o território e os achados neurológicos do lado direito. Sem essa concordância, “desgaste” descreve a imagem, mas não justifica infiltração nem cirurgia.5

Na radiculopatia degenerativa, disco e osteófito podem estreitar o forame e irritar a raiz. Compressão mecânica e inflamação participam em proporções diferentes, e é por isso que o tamanho da hérnia não acompanha necessariamente a intensidade da dor. A raiz suspeita precisa explicar a distribuição no braço e os resultados de força, sensibilidade ou reflexo. Essa concordância também separa a radiculopatia das neuropatias periféricas, que podem produzir formigamento e fraqueza parecidos em parte do membro.3
Na mielopatia degenerativa, estreitamento e alterações cervicais comprometem a medula. Como as vias da medula controlam mãos e pernas, a repercussão pode ser ampla e pouco proporcional à dor local. Uma compressão vista na ressonância sem síndrome clínica não equivale automaticamente a mielopatia; da mesma forma, sintomas compatíveis precisam ser confirmados por exame e imagem. A distinção define uma rota própria de acompanhamento e, quando indicada, de descompressão.4
Consulta e exame físico
História e função
Na consulta, organizo a história por início, trauma, duração, episódios anteriores, posição de maior dor e extensão para o braço ou a cabeça. Pergunto se o sintoma começou de uma vez ou cresceu aos poucos, se acorda a pessoa, se muda com esforço e se veio acompanhado de perda de função. Febre, doença recente, câncer, imunossupressão, fragilidade óssea e medicamentos em uso mudam o risco e a ordem da investigação.
Trabalho, sono, direção, treino e tarefas abandonadas mostram o tamanho do impacto. Sobre tratamentos anteriores, quero saber a exposição real: qual exercício ou remédio, por quanto tempo, com que tolerância e qual função mudou. Essa precisão separa uma tentativa insuficiente de um tratamento que foi de fato testado.1
Exame neurológico
Quando há irradiação ou suspeita de comprometimento da medula, comparo força, sensibilidade e reflexos dos dois lados e procuro uma distribuição coerente. Destreza, tônus (a tensão de repouso do músculo), equilíbrio e marcha entram quando o padrão ultrapassa uma raiz. Registro também o que a pessoa ainda consegue fazer: abrir uma tampa, elevar o braço, segurar peso, caminhar sem apoio. Essa linha de base permite distinguir, nas consultas seguintes, uma diferença antiga e estável de uma perda nova ou progressiva.2
Ombro e nervos periféricos
Comparo a amplitude do pescoço, os movimentos que reproduzem ou aliviam o sintoma e a tolerância dos músculos cervicais e escapulares com a tarefa que dói. Se elevar ou girar o braço reproduz o incômodo e mover o pescoço não o reproduz, o ombro merece exame próprio. Cotovelo, punho e nervos periféricos entram quando a distribuição foge do território de uma raiz ou se concentra na mão.
Na dor ligada à cabeça, padrão temporal, náusea, sensibilidade à luz ou ao som e outros elementos de cefaleia são avaliados à parte. Palpação dolorosa mostra sensibilidade local, mas não confirma faceta, ponto-gatilho ou disco; ela serve para compor o padrão e acompanhar a resposta.1
Manobras do exame
Testes que estreitam o forame, tensionam o nervo ou repetem um movimento ganham significado quando reproduzem o sintoma no território descrito e combinam com outros achados. Uma manobra que provoca apenas dor local tem leitura diferente de outra que reproduz a dor habitual no braço. Nenhuma manobra física confirma sozinha hérnia, faceta ou radiculopatia; a interpretação junta resultado, história e evolução.2
Exames que mudam a conduta
Imagem no início
Na dor recente sem trauma relevante, sem alteração neurológica e sem suspeita sistêmica, ressonância ou tomografia logo no início raramente muda o tratamento. O resultado pode mostrar alterações antigas e comuns que não correspondem ao episódio atual e desviam a atenção da função que precisa ser recuperada. A decisão muda diante de risco estrutural, déficit, padrão medular, evolução desfavorável ou planejamento de procedimento. Nesses casos, escolho o exame pela pergunta que ele precisa responder: osso e alinhamento, disco e raiz, medula, infecção ou tumor.5
Osso e alinhamento
A radiografia mostra alinhamento e alterações ósseas maiores, mas não visualiza bem disco, raiz e medula. No trauma, regras clínicas e o mecanismo da lesão definem quando ela é adequada e quando a investigação precisa avançar. A tomografia dá mais detalhe para fratura, osteófito, ossificação e anatomia óssea complexa; entra quando essa informação muda a estabilização ou o planejamento, ou quando a ressonância não pode ser feita. As duas são lidas junto com o exame neurológico.5
Raiz e medula
A ressonância sem contraste é o principal exame para disco, raiz e medula quando há radiculopatia persistente ou progressiva, mielopatia ou planejamento de procedimento. Ela mostra onde existe estreitamento, mas o achado só muda a conduta se corresponder ao lado, ao nível e ao exame. O contraste fica para hipóteses como infecção, tumor e situações selecionadas depois de cirurgia. Na dor axial estável que continua limitando apesar de um cuidado adequado, a indicação de imagem é revista na reavaliação programada; diante de progressão, esse prazo deixa de valer.5
Eletroneuromiografia e laboratório
A eletroneuromiografia, que estuda a função dos nervos e dos músculos, não faz parte da avaliação de rotina da dor isolada e não substitui a ressonância para ver disco ou medula. Ela ajuda quando sintomas no braço e na mão exigem diferenciar raiz cervical de túnel do carpo, neuropatia do nervo ulnar ou outro comprometimento neuromuscular. Hemograma, marcadores inflamatórios e testes dirigidos também não formam um painel de rotina: entram quando história e exame sustentam suspeita de infecção, inflamação, câncer ou doença sistêmica, e o resultado pode orientar investigação ou encaminhamento.11
Tratamento inicial
Atividade e carga
No quadro inespecífico, o começo preserva movimento e participação e evita insistir na carga que mantém a piora. Por alguns dias, podem mudar a duração de uma posição, o peso, as repetições ou a amplitude que provoca dor: alternar tarefas, apoiar os braços numa atividade longa ou dividir um treino, sem suspender todo movimento.
A exposição volta a crescer conforme a resposta se estabiliza. O progresso aparece quando a rotação para dirigir, o sono, o trabalho e o uso dos braços retornam, mesmo antes de a dor desaparecer. Uma atividade que produz desconforto leve e recuperável pode continuar; perda crescente de função pede ajuste e nova avaliação.1
Colar cervical
Colar não é rotina na dor cervical inespecífica. A imobilização prolongada tira oportunidades de movimento e de recuperar capacidade, sem tratar a limitação que mantém o quadro, e usá-lo por conta própria pode mascarar a evolução funcional que orienta a reabilitação. Fratura, instabilidade e pós-operatório são outra situação: nelas, o objetivo e a duração do colar dependem da lesão tratada e da equipe responsável.1
Terapia manual
Mobilização, manipulação ou massagem podem complementar o plano quando o alívio facilita movimento e exercício. Os estudos ainda dão pouca segurança sobre o ganho da terapia manual associada ao exercício, e dor passageira, dor de cabeça ou tontura foram relatadas. Antes de repetir a técnica, verifico se a rotação aumentou, se uma tarefa ficou possível ou se o treino avançou.
Quando a resposta é breve e não se transfere para a atividade, as sessões são revistas. A escolha considera ainda a irritabilidade do quadro (a facilidade com que a dor se acende), a preferência e contraindicações próprias da técnica. A terapia manual ocupa uma parte do plano, ao lado do trabalho de força, mobilidade e tolerância.6
Fisioterapia e exercícios
Limitação principal
A limitação dominante define o programa. Rigidez pede mobilidade; pouca coordenação e resistência pedem controle cervical e escapular; piora depois de posição sustentada pede treino de tolerância. Na dor irradiada, a resposta do braço orienta direção e carga. Uma tarefa mensurável, como girar para estacionar, completar um período de trabalho ou erguer um objeto, mostra se o exercício se transfere para a vida diária.2
Mobilidade na dor recente
Com rigidez recente, movimentos ativos do pescoço e exercícios leves para escápulas e braços formam o ponto de partida. Rotação, inclinação, flexão ou extensão são escolhidas pela direção limitada e praticadas dentro da amplitude em que o movimento sai fluido. Mobilização da coluna torácica pode entrar na sessão quando melhora uma tarefa sem agravar o quadro. A resistência cresce depois que a amplitude confortável aumenta e a dor passa a se acender com menos facilidade.2
Força na dor persistente
Na dor persistente, o plano combina a mobilidade necessária, o controle da cabeça durante o movimento dos braços, resistência à rotação ou à inclinação, força escapular e condicionamento aeróbico. A seleção acompanha a tarefa: o computador exige tolerância sustentada e variação de posição; dirigir exige rotação e controle visual; o treino de membros superiores exige estabilidade sob carga crescente. O ganho precisa aparecer fora da sessão.2
Dose e progressão
Exercícios de resistência e de controle motor (coordenação e estabilidade do movimento) ajudam na dor persistente, mas não existe um número fixo de séries, repetições ou minutos que sirva para todos. O ponto de partida depende de irritabilidade, capacidade e objetivo. O registro inclui o que foi feito e a resposta depois; amplitude, tempo sob esforço, complexidade ou resistência avançam uma variável de cada vez, enquanto técnica, recuperação e função seguem adequadas.7
- MobilidadePraticar em blocos breves ao longo do dia; ampliar a faixa útil antes de acrescentar velocidade ou carga.
- Controle motorUsar baixa carga e interromper a série antes de prender a respiração ou compensar com ombros e tronco.
- ResistênciaAlternar treino e recuperação; aumentar uma variável quando a resposta do dia seguinte permanece estável.
- CondicionamentoComeçar pela duração tolerada e ampliar tempo antes de elevar intensidade.
- Dor irradiadaProgredir somente quando o braço permanece estável ou melhora e a tarefa avança.
Avance uma variável por vez, enquanto técnica, recuperação e função permanecem adequadas.[2][7]
Dor irradiada para o braço
Na radiculopatia, exercícios de mobilidade neural (movimentos que fazem o nervo deslizar), fortalecimento cervical e escapular e terapia manual são escolhidos pela irritabilidade e pelo exame neurológico. Movimentos e cargas precisam preservar ou reduzir os sintomas no braço e na mão enquanto a função avança. Tração mecânica intermitente pode entrar num programa supervisionado quando o quadro é crônico e o padrão radicular está confirmado; ela não é rotina na dor axial e não corrige de forma definitiva uma compressão.2
Resposta após o exercício
A resposta é conferida durante a sessão, nas horas seguintes e no dia seguinte. Esforço localizado ou aumento leve da dor que volta ao padrão anterior pode ser aceitável quando a função se mantém. Irradiação que avança para a mão ou os dedos, perda persistente de uma tarefa ou mudança neurológica exige reduzir a exposição e reexaminar o quadro. O registro de exercício, carga e resposta orienta cada ajuste.2
Acupuntura médica
Na dor cervical inespecífica que persiste por mais de três meses, a acupuntura médica pode ser combinada ao exercício e à retomada das atividades.1 O alvo é a tolerância às tarefas que a dor limitou, como dirigir ou permanecer ao computador.
Na avaliação inicial, registro os movimentos limitados, a intensidade da dor e uma atividade concreta que servirá de referência. Durante o curso, comparo a tolerância a essa atividade e a necessidade de analgésicos, e o número de sessões é ajustado conforme a resposta. Continuar ou parar depende dessa comparação na reavaliação. Pequenos hematomas e dor no local da punção podem ocorrer; técnica adequada e material estéril reduzem os riscos.1
Medicamentos
Anti-inflamatórios
Um anti-inflamatório não esteroidal pode trazer pequena redução da dor aguda inespecífica em pacientes selecionados e deve ficar restrito ao menor período necessário, depois de revisar as contraindicações do remédio escolhido.1 Em pessoas idosas, esses medicamentos trazem risco, relacionado à dose, de sangramento no estômago ou no intestino e de problemas no coração, nos rins e no sangue.13 Antes de começar, defino um alvo funcional e o fim do período planejado, para comparar benefício e dano e decidir entre suspender ou rever a escolha.
Analgésicos e relaxantes
O analgésico simples age sobre o sintoma, sem corrigir compressão, resistência ou mobilidade, e o efeito esperado tende a ser curto e limitado. Relaxante muscular não é indicado de rotina na dor cervical inespecífica. Quando um remédio entra, o plano diz qual atividade ele deve facilitar e quando o resultado será revisto. Se a função não melhora, a justificativa para continuar diminui, mesmo que a nota de dor caia um pouco.1
Opioides
Na dor aguda do pescoço ou da lombar, o opioide não é um passo seguinte de rotina quando as medidas iniciais não trazem alívio imediato: em seis semanas, ele não aliviou mais do que um comprimido sem princípio ativo e causou mais efeitos adversos próprios da classe. Essa decisão vale para a dor musculoesquelética aguda; câncer, cuidado paliativo e pós-operatório são situações com outros objetivos.8
Sintomas neuropáticos
Na radiculopatia cervical, nenhum medicamento para dor de origem nervosa serve para todos, e nenhuma classe mostrou mudar a recuperação de todas as pessoas. Quando escolho uma opção, o alvo, o aumento gradual da dose, os efeitos adversos, as interações e a retirada seguem aquela molécula e as outras doenças da pessoa; o prazo de teste também muda de um remédio para outro. Na revisão, comparo o sintoma que se pretendia tratar com o sono, o uso do braço e a tolerância ao exercício, sem perder de vista a evolução de força e reflexos no exame neurológico seriado.11
Procedimentos selecionados
Infiltração epidural
A infiltração epidural com corticoide é uma opção para a radiculopatia cervical que continua incapacitante depois do cuidado não invasivo, quando o lado e o nível da imagem batem com os sintomas e o exame; a dor axial comum fica fora dessa indicação. O corticoide busca reduzir a inflamação perto da raiz. O benefício esperado é modesto e principalmente de curto prazo, com incerteza maior na região cervical.9

Eventos neurológicos graves depois do corticoide epidural são raros, mas incluem perda visual, acidente vascular cerebral, paralisia e morte. Nos Estados Unidos, a agência reguladora de medicamentos emitiu alerta sobre esses eventos. Por isso, benefícios, riscos e tratamentos alternativos são discutidos antes da aplicação.12
Bloqueio dos ramos mediais
Artrose na imagem, dor à palpação ou dor ao estender o pescoço não confirmam a dor facetária. Em casos persistentes e selecionados, o bloqueio do ramo medial testa se a dor habitual melhora claramente enquanto o anestésico age sobre os pequenos nervos da articulação, e a radiofrequência fica reservada a quem teve um alívio convincente nesse teste.10
Antes do bloqueio, a pessoa identifica os movimentos que costumam provocar sua dor. A intensidade é registrada antes e durante as horas de ação do anestésico, junto com a capacidade de realizar essas tarefas. O que conta como resposta positiva, e se é preciso confirmar o resultado com um novo bloqueio, fica definido antes do procedimento.14
Radiofrequência
A radiofrequência atua sobre os pequenos nervos sensitivos da articulação. Bloqueio e radiofrequência exigem orientação por imagem e técnicas de redução de risco. Depois da radiofrequência cervical, dor local, alteração de sensibilidade, dormência, tontura ou desequilíbrio podem durar de dias a semanas. A repetição só é discutida quando o benefício durou pelo menos três meses e o mesmo padrão de dor retorna.10
Encaminhamento cirúrgico
Raiz nervosa
Na radiculopatia degenerativa, manter o cuidado conservador é razoável enquanto o exame neurológico está estável e a função melhora. A avaliação cirúrgica entra diante de déficit progressivo ou de incapacidade persistente, com compressão que corresponde aos sintomas e ao exame.3
Medula cervical
Na mielopatia degenerativa moderada ou grave, a recomendação é cirúrgica. Nos quadros leves, cirurgia ou reabilitação supervisionada podem ser consideradas, com operação se houver piora ou falta de melhora. O objetivo é descomprimir a medula e limitar a progressão; a recuperação depende da gravidade e do tempo de doença.4
Dor restrita ao pescoço
Dor apenas no pescoço, sem instabilidade, déficit ou compressão de nervo ou medula que corresponda ao exame, não tem indicação cirúrgica de rotina. Degeneração no laudo não basta para justificar fusão ou substituição do disco.1
Prognóstico e reavaliação
Episódios de dor cervical inespecífica frequentemente melhoram, embora recorrência e persistência aconteçam. Rotação, sono, trabalho, direção e treino mostram a recuperação com mais precisão que uma nota isolada de dor. Uma oscilação curta depois de uma carga nova é comparada com a função mantida e com a duração da resposta.1
A maior parte das radiculopatias degenerativas melhora sem cirurgia quando não há déficit progressivo. Menor extensão da dor no braço, sono recuperado e melhora de força ou reflexo são marcadores úteis. Se não houver ganho por volta de quatro semanas, reviso diagnóstico, imagem e encaminhamento.11
Na consulta de revisão, repito a distribuição dos sintomas, o exame neurológico quando indicado, a amplitude necessária e a tolerância à carga. Estagnação pode refletir dose inadequada, diagnóstico incompleto, efeito adverso ou necessidade de investigação, e a mudança escolhida depende do padrão e do intervalo já observado.1
- Dor axial estávelRever em 4 a 6 semanas se ainda limita atividades apesar do cuidado ativo; antes disso, se houver progressão.[1]
- Irradiação estávelComparar força, sensibilidade, reflexos e função por volta de 4 semanas; ausência de melhora muda investigação e encaminhamento.[11]
- Curso curto de anti-inflamatórioRever benefício funcional e dano ao terminar o período planejado; não prolongar sem novo balanço.[1][13]
- Radiofrequência facetáriaBenefício de pelo menos três meses permite discutir repetição, somente quando o mesmo padrão retorna.[10]
Referências
- El-Allawy A et al. Clinical Practice Guideline: Nonspecific Neck Pain. 2025. Texto completo (abre em nova aba).
- Blanpied PR et al. Neck Pain: Revision 2017. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. Diretriz em PDF (abre em nova aba).
- Management of Cervical Spondylotic Radiculopathy: A Systematic Review. 2022. PubMed (abre em nova aba).
- A Clinical Practice Guideline for the Management of Patients With Degenerative Cervical Myelopathy. 2017. Texto completo (abre em nova aba).
- American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria Cervical Pain or Cervical Radiculopathy. 2024. Diretriz (abre em nova aba).
Ver todas as 14 referências
- Cochrane. Manual therapy with exercise for neck pain. Evidência atualizada até março de 2025. Resumo da revisão (abre em nova aba).
- Systematic review and meta-regression of exercise mode and dose for chronic nonspecific neck pain. 2023. PubMed (abre em nova aba).
- OPAL trial. Opioid analgesia for acute low back pain and neck pain. The Lancet, 2023. PubMed (abre em nova aba).
- American Academy of Neurology. Epidural steroids for cervical and lumbar radicular pain and spinal stenosis. 2025. Resumo para profissionais (abre em nova aba).
- Consensus practice guidelines on interventions for cervical spine facet joint pain. 2021. Texto completo (abre em nova aba).
- Childress MA, Stuek SJ. Neck Pain: Initial Evaluation and Management. American Family Physician, 2020. Artigo clínico (abre em nova aba).
- U.S. Food and Drug Administration. Rare but serious neurologic problems after epidural corticosteroid injections. 2014. Comunicado de segurança (abre em nova aba).
- U.S. Food and Drug Administration. Safe Use Initiative: Non-steroidal anti-inflammatory drugs for the treatment of pain in geriatric patients. Projeto e população (abre em nova aba).
- Hurley RW et al. Consensus practice guidelines on interventions for cervical spine (facet) joint pain from a multispecialty international working group. Pain Med (2021). (abre em nova aba)
