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Fibromialgia: diagnóstico e tratamento da dor difusa

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28 min
Dr. Marcus Yu Bin Pai, visto de costas, sustenta o braço de uma pessoa e palpa o ombro dela, com um modelo de coluna vertebral ao fundo
Neste artigo
Fibromialgia

Fibromialgia e dor difusa

Fibromialgia é uma síndrome clínica de dor disseminada que costuma vir acompanhada de fadiga, sono não reparador e dificuldades cognitivas ou sensoriais. Síndrome, aqui, quer dizer que o diagnóstico reconhece um conjunto coerente de sintomas e achados clínicos; a dor não é vaga, inventada nem menos importante por isso.

A pessoa pode sentir dor em músculos, articulações ou pele, acordar como se não tivesse descansado e perceber que tarefas antes simples passaram a consumir uma parcela desproporcional de energia. Esse núcleo, persistente e distribuído pelo corpo, é o ponto de partida do diagnóstico.1

A fibromialgia não é uma inflamação generalizada dos músculos nem uma doença autoimune, e não exige que cada lugar dolorido tenha uma lesão visível. Artrite inflamatória, neuropatia, tendinopatia, artrose, distúrbio do sono ou outra origem de dor podem coexistir e mantêm seu próprio nome quando presentes.

O diagnóstico organiza o padrão difuso; problemas focais, doenças associadas e efeitos de medicamentos que mudam a conduta continuam em avaliação.2 Dor súbita e intensa com inchaço numa articulação, sobretudo com febre, ou fraqueza que piora dos dois lados do corpo não fazem parte desse padrão e pedem atendimento rápido; o quadro de sinais de alerta, mais abaixo, diz para onde ir.

Sintomas associados

A dor tende a atravessar lados e regiões do corpo, sem precisar ter a mesma intensidade em todos os pontos. Fadiga e sono não reparador ajudam a distinguir um episódio localizado de um quadro sistêmico de maior impacto. Dificuldade de concentração, lentidão para encontrar uma palavra ou sensação de pensamento enevoado podem aparecer junto com maior sensibilidade ao toque, ao ruído, à luz, ao frio ou a odores. O padrão é formado pela combinação dos sintomas, pela duração e pelo efeito sobre a função.1

Cefaleia, síndrome do intestino irritável, dor pélvica, sintomas urinários, ansiedade ou humor deprimido podem acompanhar a fibromialgia, mas não são obrigatórios. Uma cefaleia com padrão próprio continua pedindo diagnóstico próprio, e o mesmo vale para sintomas digestivos, pélvicos e emocionais. Assim, cada queixa é avaliada dentro do conjunto e também em separado.1

Sintomas e problemas associados
Núcleo clínico
Dor disseminada
Fadiga
Sono não reparador
Cognição e sensibilidade
Funçãoandar, trabalhar, cuidar, treinar
Sonoinsônia, apneia, pernas inquietas
Dor focalarticulação, tendão, coluna, nervo
Contextohumor, medicamentos, outras doenças

O núcleo sustenta a hipótese. Cada área ao redor pode precisar de avaliação e tratamento próprios.

Os sintomas podem oscilar com carga física, sono, estresse, infecções ou mudanças de rotina. Para a consulta, ajuda anotar onde a dor aparece, quanto tempo dura a piora depois do esforço, como foi a recuperação e qual atividade deixou de ser possível. Uma mudança persistente no padrão, na distribuição ou na capacidade funcional é um dado novo: ela faz a hipótese diagnóstica ser revista.2

Processamento da dor

Na fibromialgia, o sistema que detecta, transmite e regula sinais dolorosos pode responder de forma amplificada. O termo dor nociplástica descreve essa situação: o sistema de alarme da dor fica mais sensível, sem que uma lesão dos tecidos ou de um nervo explique a intensidade da dor. É uma forma de entender o processamento da dor; o sofrimento não foi criado pela imaginação e continua real mesmo quando uma ressonância não mostra lesão proporcional em cada área.3

A sensibilização central, isto é, o sistema nervoso amplificando os sinais de dor, explica parte do quadro; fadiga, sono, ansiedade, tontura, dormência e dor localizada podem ter outra origem. Uma pessoa pode ter dor nociplástica difusa e, ao mesmo tempo, dor de uma articulação inflamada ou dor neuropática por compressão de um nervo. Identificar o mecanismo predominante em cada problema muda a escolha do tratamento.2

Critérios de 2016

Os critérios revisados pelo American College of Rheumatology em 2016 combinam duas medidas. O Índice de Dor Generalizada (WPI, na sigla em inglês) conta em quantas de 19 áreas do corpo houve dor na última semana. A Escala de Gravidade dos Sintomas soma a intensidade de fadiga, despertar não reparador e sintomas cognitivos na última semana à presença de cefaleia, dor ou cólicas no baixo ventre e depressão nos seis meses anteriores; o total vai de 0 a 12.4

A fórmula também exige distribuição generalizada e persistência clínica; uma semana excepcionalmente ruim não basta. Mandíbula, tórax e abdome entram na contagem de áreas dolorosas, mas não definem as regiões usadas para demonstrar distribuição pelo corpo. Essa regra reduz a chance de uma dor regional intensa ou de uma soma imprecisa parecer o padrão requerido.4

Critérios de 2016: limiares combinados
Uma das duas combinações
WPI ≥ 7e gravidade ≥ 5

ou

WPI 4–6e gravidade ≥ 9
Dor em 4 de 5 regiõesSintomas por ≥ 3 meses

A pontuação padroniza o raciocínio e deixa a conversa mais objetiva, mas não é um exame nem um formulário de autodiagnóstico. Ela é usada junto com o exame físico. Alguém pode preencher os critérios e também ter artrite reumatoide, hipotireoidismo ou neuropatia. Na consulta, verifico se esse conjunto explica adequadamente o quadro e quais achados pedem investigação paralela.1

Consulta e exame físico

O diagnóstico é clínico e positivo: ele reconhece um padrão presente, e uma coleção de exames negativos não basta para chegar a ele. A consulta precisa demonstrar dor disseminada persistente, sintomas associados coerentes e impacto funcional, e ao mesmo tempo verificar se existe uma explicação melhor para todo o conjunto ou para parte dele. A conclusão da consulta pode ser: “O padrão é compatível com fibromialgia, e estes dois achados serão investigados separadamente”, uma hipótese que orienta decisões e pode ser reavaliada.1

Na história clínica, pergunto pela distribuição da dor, pelo tempo de evolução, pelo comportamento depois do esforço, pelo sono, pela fadiga, pela cognição, pelas sensibilidades e pelo que deixou de ser possível fazer. Sintomas focais recebem atenção específica: dormência em um território, fraqueza para subir degraus, instabilidade recorrente, dor que aparece ao carregar um tendão ou rigidez articular prolongada pela manhã são examinadas à parte do relato de dor no corpo todo. Também reviso início, interrupção e combinação de medicamentos, porque sedação, insônia, dor muscular, tontura ou sintomas de retirada podem distorcer o quadro.1

Dr. Marcus Yu Bin Pai examina e marca com caneta o ombro de uma pessoa vista de costas, que mantém a mão atrás da cintura
Marcação de pontos no ombro.

No exame físico, a antiga contagem de pontos dolorosos não é necessária para reconhecer a síndrome. Observo a distribuição da dor à palpação, mobilidade, força, reflexos, sensibilidade tátil, equilíbrio, estabilidade articular e resposta a cargas regionais, e procuro inflamação dentro da articulação, edema, deformidade, alteração de pele, déficit neurológico ou fraqueza objetiva. O exame vale tanto por reconhecer compatibilidade quanto por encontrar um sinal que mude a hipótese.1

Nenhum exame de sangue, marcador inflamatório, radiografia ou ressonância confirma fibromialgia. Exames normais não tornam a dor menos real, e exames alterados não anulam automaticamente a síndrome; cada resultado é lido em relação a uma pergunta. Assim, a investigação segue o que a história e o exame apontam.2

Diagnóstico diferencial

Doenças reumáticas inflamatórias podem produzir dor e fadiga, mas costumam trazer pistas próprias: articulações objetivamente inchadas e quentes, rigidez inflamatória, manifestações em pele, olhos ou outros órgãos, ou marcadores coerentes com o contexto.

Fibromialgia pode coexistir com artrite reumatoide, lúpus ou espondiloartrite, uma inflamação que atinge a coluna e outras articulações. Nesse cenário, a atividade inflamatória é medida por seus próprios achados, porque aumentar os medicamentos que reduzem a ação do sistema imune para tratar dor nociplástica pode trazer risco sem resolver o problema responsável pelos sintomas.1

Hipotireoidismo entra no diagnóstico diferencial da fibromialgia quando fadiga e dor vêm com intolerância ao frio, constipação, mudança na pele ou história tireoidiana. Anemia ganha relevância diante de palidez, sangramento, contexto menstrual ou nutricional e falta de ar ao esforço. Miopatia é diferente da sensação de que o músculo não rende: o achado decisivo é fraqueza objetiva, muitas vezes proximal, acompanhada ou não de exposição a medicamentos e de alteração de enzimas musculares. A investigação nasce dessas pistas.1

Como um resultado seletivo muda a decisão
Hemograma, avaliação tireoidiana ou marcadores sem alteração relevantevoltar ao quadro clínico e não pedir mais exames sem uma nova pista
Alteração coerente com a hipóteseabrir tratamento paralelo para anemia, tireoide ou inflamação
Enzima muscular alterada com fraqueza objetivainvestigar miopatia e rever exposições
Apneia confirmadainiciar tratamento do sono e medir alerta, sono e função
Imagem focal coerente com exametratar o problema regional e acompanhar resultado local
Degeneração incidental em imagemconferir com o exame antes de indicar intervenção

Neuropatia ou radiculopatia, a irritação ou compressão da raiz de um nervo junto à coluna, fica mais provável quando há queimação ou choque em território definido, alteração sensitiva persistente, mudança de reflexo ou fraqueza focal. Hipermobilidade pede outro raciocínio quando a amplitude aumentada vem com instabilidade, entorses, subluxações ou dor relacionada à sustentação de peso. Dor mecânica focal costuma ser reproduzida por uma carga, posição ou estrutura específica. Essas condições podem coexistir com a fibromialgia, e cada uma recebe tratamento próprio.2

Sono fragmentado por apneia ou pernas inquietas pode sustentar fadiga e hipersensibilidade dolorosa mesmo quando a fibromialgia está corretamente diagnosticada. Depressão e ansiedade podem aumentar sofrimento, reduzir participação e merecer tratamento específico, sem provar que a dor seja psicológica.2

Medicamentos também entram na análise: sedativos podem piorar alerta e quedas, estimulantes podem perturbar o sono, algumas combinações aumentam o risco de excesso de serotonina no organismo e interrupções rápidas podem produzir sintomas que parecem uma piora espontânea. O objetivo é atribuir cada parte do quadro à hipótese mais útil, permitindo que diagnósticos coexistam.1

Exames laboratoriais

Exame seletivo é aquele que responde a uma hipótese construída antes da coleta. Hemograma pode ser pertinente quando anemia é plausível; proteína C reativa ou velocidade de hemossedimentação, quando há sinais inflamatórios; hormônio estimulante da tireoide (TSH), quando o contexto sustenta disfunção tireoidiana; creatinoquinase, a enzima muscular, quando existe fraqueza objetiva ou suspeita de doença do músculo.

Testes do fígado, nutrientes, ferro, sorologias, eletroneuromiografia e outros recursos entram quando história, exame ou exposição justificam a pergunta. Esses exemplos não formam um painel obrigatório para toda pessoa com dor difusa.2

Um painel amplo de exames aumenta a chance de alterações incidentais que não explicam os sintomas e que podem iniciar repetições, consultas e tratamentos sem benefício. Antes de cada teste, pergunto qual diagnóstico o resultado torna mais ou menos provável e o que mudará na conduta. Quando não existe resposta concreta, observar a evolução e reexaminar pode informar mais do que ampliar o painel.1

Exames de imagem

Radiografia, ultrassom, tomografia e ressonância não confirmam fibromialgia nem medem sua gravidade. A intensidade da dor difusa, sozinha, não cria um alvo anatômico para imagem.2

Imagem ajuda quando existe outra pergunta: trauma, déficit neurológico focal, articulação com alteração objetiva, dor regional persistente reproduzida no exame ou planejamento de um tratamento específico. Mesmo então, um achado degenerativo comum ganha relevância quando localização, exame e comportamento da dor combinam.1

Exercício

Ponto de partida

Exercício é parte central do tratamento, e a prescrição começa pela capacidade atual da pessoa. O primeiro objetivo pode ser sustentar uma caminhada necessária, voltar a preparar uma refeição, cumprir parte do trabalho ou treinar sem perder os dois dias seguintes. A carga de entrada é aquela que pode ser repetida com técnica e segurança, sem desencadear uma piora prolongada que retire mais função do que o programa pretende devolver. Essa carga pode parecer pequena; seu valor está em produzir uma base confiável.2

Exercício aeróbico

Caminhada, bicicleta ou outra modalidade rítmica pode ser fracionada no início. Na progressão, aumenta-se uma variável principal, como duração total, frequência ou intensidade, depois que o nível atual se tornou repetível e a recuperação entre sessões está aceitável. Se a pessoa passa a caminhar um pouco mais, mantenho a velocidade e o número de dias antes de aumentar também esses componentes. Essa separação permite reconhecer o que trouxe benefício ou excesso.5

Treino de força

O treino de força serve para recuperar tarefas concretas: levantar de uma cadeira, carregar objetos, subir degraus, estabilizar os ombros ou tolerar o trabalho. Peso corporal, faixa elástica, máquina ou pesos livres são apenas meios. A entrada considera amplitude tolerável, controle e um número de movimentos que não desorganize a função depois.

A progressão pode alterar resistência, repetições, séries, amplitude ou complexidade, uma decisão por vez. Os estudos de treino de força na fibromialgia são poucos, pequenos e feitos principalmente com mulheres, por isso o programa se adapta à resposta de cada pessoa e não segue um protocolo universal.6

Quatro respostas à carga e a próxima decisão
  1. 1
    Repetível e função melhoraavance uma variável e mantenha as demais
  2. 2
    Piora breve, função preservadamantenha a carga até a resposta estabilizar
  3. 3
    Recuperação longa ou função caidesfaça o último aumento e reconstrua estabilidade
  4. 4
    Resposta focal ou padrão novopause o componente relacionado e reavalie a hipótese

Exercício na água

Exercício aquático pode ser a porta de entrada quando sustentação de peso, equilíbrio ou dor ao impacto tornam o solo difícil. A água não é obrigatória nem comprovadamente superior para todos; piscina disponível, supervisão, preferência, segurança cardiopulmonar e tolerância ao ambiente definem o encaixe. O programa ainda precisa treinar uma capacidade que se transfira para fora da água, com a mesma lógica de progressão e reavaliação.7

Leitura da resposta

Para interpretar a resposta, peço que a pessoa registre quanto tempo a recuperação levou, qual atividade foi perdida ou recuperada e qual variável do treino mudou. Essa série permite comparar sessões sem depender apenas da intensidade da dor. Sono, técnica, doença coexistente e uma dor focal podem alterar a tolerância. A progressão continua enquanto o padrão permanece compatível com o plano; um achado objetivo novo interrompe a lógica de carga e reabre a avaliação diagnóstica.2

Psicologia da dor e reabilitação

Terapia cognitivo-comportamental

A terapia cognitivo-comportamental voltada à dor trabalha atenção, medo de movimento, solução de problemas e retomada de participação. Ela entra no plano sem supor que a dor seja psicológica. Serve para reduzir o espaço que dor e ameaça ocupam nas decisões, testar crenças que bloqueiam atividade e construir respostas mais flexíveis quando os sintomas não podem ser desligados de imediato.

O benefício médio é limitado e variável, por isso o objetivo é nomeado desde o início, como voltar a dirigir, trabalhar ou se exercitar com menos interrupções.8 Quando ansiedade e desânimo pesam, a terapia de aceitação e compromisso, uma abordagem próxima, também pode ser usada; a melhora desses sintomas pode vir sem redução da dor ou aumento da atividade.9

Dosar a atividade

Dosar a atividade é distribuir a carga de forma medida. Primeiro observo quanto andar, trabalhar, cuidar da casa ou treinar costuma levar ao ciclo de excesso, piora e interrupção. Depois, essa carga é dividida em unidades mais previsíveis, preservando atividade suficiente para que a capacidade possa crescer. Isso não é repouso crônico e não fixa um teto permanente. Se o volume fica estável e a recuperação melhora, há espaço para progredir; se a vida encolhe apesar de sintomas estáveis, a distribuição precisa ser revista.2

Reabilitação multidisciplinar

A reabilitação multidisciplinar ganha valor quando a incapacidade é alta e os problemas se prendem uns aos outros: o sono impede o exercício, o medo impede a exposição gradual, efeitos adversos impedem a concentração e o trabalho inviabiliza a recuperação. Medicina, fisioterapia ou educação física, psicologia da dor, terapia ocupacional e cuidado do sono podem compartilhar metas e uma sequência. A equipe coordena as orientações, acompanha a mesma meta funcional e decide em conjunto o que avançar ou retirar.10

Sono

Tipo de problema do sono

Acordar cansado faz parte do padrão da fibromialgia, e o sono também pode ter um distúrbio próprio. A investigação começa pelo fenômeno dominante: dificuldade persistente para iniciar ou manter o sono, ronco com pausas, despertares com sufocamento, sonolência diurna, movimentos ou desconforto nas pernas, horários muito deslocados ou sedação por medicamentos. Tratar o distúrbio de sono correto pode reduzir fadiga e hipersensibilidade.2

Apneia obstrutiva do sono

Ronco alto, pausas observadas, engasgos, cefaleia ao acordar, hipertensão difícil de controlar ou sonolência aumentam a suspeita de apneia obstrutiva. Questionários estimam risco, mas não fecham o diagnóstico. A polissonografia, o exame que registra o sono ao longo da noite, é o teste padrão; o teste domiciliar serve a adultos selecionados depois de avaliação clínica, e um resultado negativo não encerra uma suspeita forte.11 Confirmada a apneia, o objetivo é controlar os eventos obstrutivos e recuperar alerta e função.

O aparelho de pressão positiva, contínua ou autoajustável, é escolhido com o serviço de sono conforme gravidade, outras doenças e condições de início. Desconforto da máscara, vazamento de ar, sintomas no nariz e dificuldade de tolerar a pressão são problemas a resolver logo no início, com ajuste, orientação e suporte. O acompanhamento verifica o uso registrado pelo aparelho, eventos residuais, sonolência e benefício funcional; sem resposta, revisam-se máscara, vazamento, configuração, adesão, gravidade e a possibilidade de outro distúrbio do sono ou de outro tratamento adequado ao diagnóstico.20

Síndrome das pernas inquietas

Pernas inquietas têm um padrão específico: necessidade de mover as pernas, pior no repouso e à noite, com alívio ao movimento. Quando esse diagnóstico é provável ou confirmado, a avaliação revê exames de ferro apropriados, álcool, cafeína, medicamentos anti-histamínicos, serotoninérgicos ou antidopaminérgicos e apneia não tratada. O tratamento corrige a deficiência de ferro quando demonstrada ou usa terapia própria para pernas inquietas conforme sintomas, outras doenças e riscos.

Os gabapentinoides, grupo da gabapentina e da pregabalina, têm respaldo na diretriz; os medicamentos que agem como a dopamina (agonistas dopaminérgicos) não são escolha de rotina, porque com o tempo podem fazer os sintomas começarem mais cedo e se espalharem. No acompanhamento, observo o horário e a frequência da vontade de mover as pernas, a continuidade do sono, o alerta durante o dia, tontura, sedação e esse agravamento com o tempo. Se não houver benefício, ou se os sintomas passarem a começar mais cedo, se espalharem ou a sedação limitar a função, a escolha é revista junto com ferro, substâncias, medicamentos agravantes e apneia.12

Insônia crônica

Na insônia crônica, a terapia cognitivo-comportamental para insônia combina intervenções específicas sobre tempo na cama, associação entre cama e vigília, pensamentos, excitação e regularidade de horários. Ela vai além de uma lista de higiene do sono, que isoladamente tem efeito insuficiente. Dor noturna, humor, substâncias e medicamentos continuam sendo revistos, e a insônia associada à dor crônica mantém diagnóstico e plano próprios.13

Medicamentos

Escolha do medicamento

Escolho o medicamento pelos sintomas que mais limitam a pessoa e pelos riscos de cada opção. Antidepressivos e gabapentinoides podem ser usados em pessoas selecionadas, sempre como complemento de um plano que também cuida de sono, exercício e rotina. Antes de prescrever, definimos qual função ou sintoma deve mudar e qual risco faria a opção perder sentido. Cada tentativa tem linha de base e uma decisão prevista: manter apenas com ganho relevante e carga aceitável; trocar ou retirar de forma orientada se o alvo não melhorar ou se o dano superar o benefício.2

Na prescrição, confiro a bula vigente no Brasil, a formulação disponível, contraindicações, função dos rins ou do fígado quando relevante e todos os medicamentos e substâncias usados pela pessoa. O plano de monitoramento precisa caber na vida real: qual atividade deve melhorar, qual efeito adverso será perguntado, quando será a revisão e como será feita a retirada se a tentativa falhar. Trocar três variáveis ao mesmo tempo impede saber o que ajudou e o que prejudicou.2

Duloxetina

A duloxetina é um antidepressivo que inibe a recaptação de serotonina e noradrenalina. Ela pode ser considerada quando a dor é um alvo importante; depressão ou ansiedade coexistente pode favorecer a escolha, mas não é requisito. Em comparação com placebo, cerca de uma pessoa a mais em cada oito tratadas teve a dor reduzida pelo menos à metade em 12 semanas. O resultado foi semelhante até 28 semanas, sem dados além disso, e a certeza sobre esse número é baixa. Na reavaliação, verifico se o ganho aparece em função concreta.14

Escada do átrio da clínica entre a parede de tijolos vazados e as ripas de madeira, com luminárias de papel e luz natural
Escada do átrio da clínica.

Nos estudos, a duloxetina foi usada em cápsula oral de liberação retardada, e confiro o produto disponível no Brasil. Pressão arterial, tontura ao levantar, quedas, função sexual, fígado, álcool e combinações serotoninérgicas entram na escolha e no acompanhamento. Agitação, tremor, suor, diarreia e confusão em uma combinação de risco podem indicar toxicidade serotoninérgica e exigem interrupção orientada e avaliação.

A retirada pode causar tontura, irritabilidade, alterações sensoriais e piora do sono, por isso não deve ser abrupta. Se dor e atividade não melhorarem de modo útil, ou se pressão, quedas, efeito sexual, toxicidade ou intolerância persistirem, a próxima decisão é retirar gradualmente ou trocar, sem acumular outro fármaco.15

Pregabalina

A pregabalina foi estudada em adultos com dor moderada ou intensa por fibromialgia. Entre 12 e 26 semanas, cerca de 10 pessoas a mais em cada 100, em comparação com placebo, tiveram alívio substancial; a maioria não teve esse grau de resposta. Sintomas noturnos podem influenciar a escolha, mas sedação não deve ser confundida com sono restaurado. O benefício é medido na dor e na função da pessoa, dentro do período estudado, de 12 a 26 semanas.16

Nos estudos, a pregabalina foi usada em cápsulas por via oral, e confiro o produto disponível antes de prescrever. Tontura, sonolência, lentidão do raciocínio, visão turva, inchaço e ganho de peso podem limitar a opção, e a função dos rins altera a exposição ao medicamento. Opioides, álcool e outros depressores aumentam a preocupação com respiração, alerta e quedas, sobretudo quando há doença respiratória ou apneia não tratada.

O acompanhamento mede vigília, equilíbrio, inchaço, peso, dor e função. Angioedema, o inchaço de lábios, língua ou garganta, ou depressão respiratória exige suspensão e atendimento; sedação incapacitante, inchaço importante, ganho de peso prejudicial ou ausência de benefício pede troca ou retirada gradual. Interrupção rápida pode causar insônia, ansiedade, náusea, suor e piora dos sintomas.17

Gabapentina

Gabapentina e pregabalina pertencem ao mesmo grupo, os gabapentinoides, mas os dados de uma não valem automaticamente para a outra. Na fibromialgia, os dados sobre gabapentina vêm de um único estudo de 12 semanas e são muito incertos para saber se ela ajuda e quanto pode prejudicar. Se a gabapentina for usada por outra condição, como uma dor neuropática definida, essa indicação, o benefício, a sedação e a retirada são acompanhados separadamente.18

Amitriptilina

A amitriptilina em dose baixa é uma opção oral antiga para perfis selecionados de dor e sono. Nos Estados Unidos, a bula oficial do comprimido a indica para depressão e não para fibromialgia, de modo que, por essa bula, o uso na fibromialgia fica fora da indicação aprovada; a situação regulatória do produto brasileiro precisa ser confirmada.26

Na fibromialgia, os estudos são pequenos, de qualidade muito baixa e acompanharam as pessoas por 6 a 24 semanas, e não permitem estimar com segurança quantas terão benefício importante.19 Boca seca, constipação, retenção urinária, visão turva, sedação, alteração do raciocínio, queda de pressão e quedas pesam contra ela, principalmente em idade avançada ou com outros medicamentos que também causam boca seca e retenção urinária.

Arritmias, distúrbios de condução cardíaca, recuperação após infarto, combinações contraindicadas, álcool e outros depressores exigem revisão. Acompanho alerta, equilíbrio, boca seca, intestino, urina, ritmo cardíaco quando o perfil indicar, dor, sono e função. Ausência de ganho funcional, sedação incapacitante, boca seca, constipação ou retenção urinária importantes ou problema cardíaco muda a escolha, e a retirada deve ser gradual.26

Relaxantes musculares

Relaxantes musculares, incluindo a ciclobenzaprina, não são recomendados para tratar a fibromialgia. Os estudos antigos com uso por via oral não justificam oferecê-los como rotina.2

Medicamentos: benefícios esperados e riscos
OpçãoEncaixe possívelRiscos que pesamMonitorarPróxima decisão
Duloxetinador; humor pode ser alvo paralelopressão, quedas, função sexual, fígado, serotonina, retiradafunção, pressão, tontura ao levantar, função sexual, interaçõesretirar se não houver ganho útil ou houver dano persistente
Pregabalinador com piora à noite, se não prejudicar o estado de alertasedação, inchaço, peso, raciocínio, respiração, retiradavigília, quedas, inchaço, peso, função dos rins, funçãoreduzir ou trocar sem resposta ou com carga relevante
Amitriptilinador e sono em perfil selecionadoboca seca, retenção urinária, coração, tontura ao levantar, sedação, quedaalerta, equilíbrio, boca seca, intestino, urina, funçãoretirar gradualmente se risco superar ganho incerto

Anti-inflamatórios e opioides

Anti-inflamatórios não esteroides são escolhas fracas para o núcleo da dor difusa, porque a fibromialgia não é, por si, um processo inflamatório periférico. Podem ter indicação para artrite, lesão aguda ou outra fonte de dor identificada nos tecidos, com objetivo próprio e avaliação dos riscos para estômago e intestino, rins, coração e interações.

Opioides também são escolhas centrais ruins: falta benefício durável convincente e sobram sedação, constipação, quedas, dependência, overdose e possível amplificação da dor. Se já estão em uso, qualquer mudança segue um plano individual, sem retirada abrupta.2

Acupuntura e procedimentos

Acupuntura médica

A acupuntura médica pode ajudar alguns pacientes com dor e rigidez, e o benefício varia de uma pessoa para outra. Na fibromialgia, ela entra como tentativa complementar, discutida conforme a preferência da pessoa e a resposta aos demais cuidados, com exercício e cuidado do sono mantidos. O curso começa com uma meta, como caminhar com menos dor, e uma data para comparar o resultado.2

Em cursos de 2 a 12 semanas, dor e impacto da fibromialgia melhoraram em média mais do que nos grupos de comparação, com resultados muito variáveis.21

Na reavaliação, a resposta precisa aparecer em atividade, sono ou redução de sintomas que se mantém entre as sessões. Dor local e pequenos hematomas podem ocorrer, e a aplicação exige material estéril e técnica adequada. Se o benefício não se mantém, ou se o tratamento consome tempo e recursos sem melhora funcional, o plano é revisto. A manutenção é definida pela resposta de cada pessoa.2

Dor localizada associada

Uma pessoa com fibromialgia também pode ter artrite, tendinopatia ou compressão de um nervo. No exame, procuro uma dor regional com características próprias, como limitação e inchaço de uma articulação ou perda de força e sensibilidade em uma distribuição neurológica. Confirmar esse problema permite escolher fisioterapia, medicamentos ou uma intervenção direcionada conforme a evidência daquela condição. O resultado local é registrado separadamente da dor difusa.2

Infiltrações, bloqueios e pontos-gatilho

Infiltração articular, bloqueio de nervo e tratamento de um ponto-gatilho muscular são procedimentos distintos. Na fibromialgia, cada um depende de identificar uma condição focal associada e de explicar qual dor ou movimento deve melhorar.

O tratamento de um ponto-gatilho, por exemplo, é indicado quando o exame encontra uma dor miofascial regional com alvo definido; a sensibilidade em vários pontos do corpo, que pode fazer parte da síndrome, não basta para selecionar aplicações. Uma intervenção bem indicada para a condição focal pode facilitar a reabilitação, mas não trata a fibromialgia como um todo.2

Reavaliação

A reavaliação compara o presente com uma linha de base: atividade prioritária, tolerância ao esforço, recuperação, sono, participação, dor e efeitos adversos. Melhorar não exige zerar a dor. Conseguir caminhar até o trabalho, completar uma jornada com menos interrupções ou recuperar uma sessão de treino pode ser um ganho relevante. Se a nota da dor cai, mas sedação e quedas reduzem a autonomia, o saldo é ruim. Se a função cresce antes de uma grande redução da dor, o plano pode estar construindo capacidade útil.2

Cada intervenção chega à consulta seguinte com uma decisão possível. O exercício pode avançar, manter ou reduzir carga. A terapia pode mudar de alvo. Um medicamento pode ser mantido, trocado ou retirado com orientação. Um diagnóstico focal pode pedir outro exame. Quando nada muda apesar de vários tratamentos, reviso adesão e acesso, mas também a hipótese, os distúrbios do sono, a atividade de doença coexistente e os efeitos do próprio tratamento.2

Sinais de alerta

Acione o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) agora diante de dor torácica súbita, problema cardiorrespiratório importante, trauma grave ou sinais súbitos de acidente vascular cerebral (AVC), como alteração da fala e fraqueza de um lado do corpo.22 Em risco imediato de autoagressão, não deixe a pessoa sozinha se isso puder ser feito com segurança, afaste meios possíveis sem se expor e vá a uma unidade de pronto atendimento (UPA 24h), pronto-socorro ou hospital, ou chame o SAMU 192.23

Dor intensa que começa de repente em uma articulação, com inchaço ou mudança da cor da pele ao redor, principalmente com febre ou mal-estar, pede avaliação urgente no mesmo dia.24

Fraqueza simétrica nos braços ou nas pernas que progride ao longo de até quatro semanas pede avaliação neurológica imediata, que inclui a deglutição e a respiração. Dormência simétrica que progride em horas ou dias junto de fraqueza ou desequilíbrio também pede avaliação neurológica imediata.25

Próximo passo

Na avaliação, o primeiro passo é confirmar se o padrão clínico está bem ajustado e se algum achado precisa de investigação paralela. Depois, escolhemos o problema que mais limita a pessoa e uma primeira mudança mensurável. Para alguém com apneia provável, investigar o sono pode vir antes de um sedativo. Para quem perdeu condicionamento e interrompe toda tentativa depois de uma piora, encontrar uma carga repetível pode ser a decisão principal. Para quem já faz reabilitação consistente, um medicamento escolhido por risco e alvo pode ser um complemento.2

A data de reavaliação e o critério da próxima decisão fazem parte do tratamento desde o início. Definir o que será observado ajuda a reconhecer benefício e efeitos adversos no retorno. A consulta termina com quatro respostas: qual hipótese está sendo tratada, qual função deve melhorar, qual dano será vigiado e o que acontecerá se a tentativa não entregar valor.2

Referências

  1. Royal College of Physicians. The diagnosis of fibromyalgia syndrome. 2022. (abre em nova aba)
  2. Haute Autorité de Santé. Fibromyalgia in adults: diagnostic management and treatment strategy. 2025. (abre em nova aba)
  3. Kosek E, et al. Chronic nociplastic pain affecting the musculoskeletal system. Pain. 2021. (abre em nova aba)
  4. Wolfe F, et al. 2016 revisions to the 2010/2011 fibromyalgia diagnostic criteria. Semin Arthritis Rheum. 2016. (abre em nova aba)
  5. Bidonde J, et al. Aerobic exercise training for adults with fibromyalgia. Cochrane Database Syst Rev. 2017. (abre em nova aba)
Ver todas as 26 referências
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