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Hallux rigidus: dor e rigidez no dedão do pé

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Sala de reabilitação da clínica com tablado, barras paralelas e vista para a parede de seixos
Neste artigo

Como a rigidez muda a caminhada

Hallux rigidus é a artrose da primeira articulação metatarsofalângica, a junção entre o primeiro metatarso e a base do dedão. A cartilagem se altera, o espaço entre os ossos diminui e podem surgir osteófitos, os chamados bicos de osso. A perda de movimento é mais perceptível ao dobrar o dedão para cima. Essa dobra participa do impulso no final de cada passo, quando o calcanhar sai do chão e o corpo avança sobre a parte da frente do pé.[4]

Quando a articulação dói nessa etapa, a pessoa tende a encurtar a passada, virar o pé ou apoiar mais pela borda externa. A adaptação reduz a exigência sobre o dedão, mas pode concentrar pressão em outras regiões. É por isso que o tratamento considera tanto a articulação quanto a maneira de caminhar. A meta pode ser recuperar uma caminhada confortável, dentro do movimento que o osso e a cartilagem ainda permitem.[4]

O termo hallux limitus costuma descrever uma limitação menos acentuada. O nome no laudo não prevê como a limitação vai evoluir; isso varia de pessoa para pessoa. Lesão prévia, características da articulação e história familiar podem participar do quadro; em muitos casos não existe uma causa única identificável. Na consulta, essas informações são relacionadas à dor atual e às tarefas que ficaram difíceis.[4]

Onde a dor aparece

Uma saliência na parte de cima da articulação pode incomodar principalmente pelo contato com o sapato. Nesse caso, o cabedal comprime uma região sensível, e aumentar o espaço disponível pode reduzir uma parte importante do sintoma. Outra pessoa sente uma pontada quando o dedão chega ao limite de dobrar para cima: os osteófitos e as superfícies articulares entram em conflito no fim do movimento. O local e o momento da dor ajudam a reconhecer esse mecanismo.[4]

Na artrose mais extensa, a dor pode surgir dentro da articulação ao longo de uma parte maior do movimento, mesmo antes de chegar ao limite. Isso tem implicações para a cirurgia: retirar um osteófito pode resolver um impacto dorsal selecionado, mas tende a ser insuficiente quando o problema dominante é a superfície articular amplamente comprometida. Por isso, na consulta, examino o movimento do dedão em toda a amplitude para separar essas duas situações.[4]

Caminhada rápida, escadas, corrida, agachamento e certos sapatos aumentam a exigência sobre o dedão. O padrão dessas tarefas, a distância tolerada e a necessidade de mudar a passada revelam o impacto funcional. Dor na sola, por baixo da articulação, pede atenção também aos sesamoides, dois pequenos ossos envolvidos no apoio e no impulso.[4][22]

Local da dor e o que o exame procura
Sobre a saliênciaContato do sapato e impacto dorsal.
Dentro da articulaçãoSuperfície articular e amplitude dolorosa.
Na solaSesamoides e distribuição da carga.

Gota, joanete e outras causas de dor

Hallux rigidus e joanete afetam a mesma região, mas têm características diferentes. No joanete, ou hallux valgus, o dedão se desvia em direção aos outros dedos e a saliência aparece principalmente no lado de dentro do pé. No hallux rigidus, predominam rigidez e dor articular, frequentemente com relevo na parte de cima. Os dois problemas podem coexistir; nesse caso, alinhamento e movimento entram juntos no planejamento.[21][4]

Uma crise de gota costuma ter início mais abrupto, com calor, vermelhidão, inchaço e sensibilidade intensa. Esse padrão inflamatório muda a investigação em relação a uma dor mecânica antiga. Infecção também precisa ser considerada em uma articulação agudamente quente e dolorosa, sobretudo com ferida ou alterações do estado geral. Conforme a suspeita, a análise do líquido articular pode ser necessária para pesquisar cristais e bactérias. Um diagnóstico anterior de artrose não explica automaticamente uma mudança súbita.[9][26]

Mãos do médico no joelho e no tornozelo de uma pessoa deitada na maca, durante o exame físico
Exame físico do joelho e do tornozelo.

Dor localizada sob o dedão pode vir de sesamoidite ou fratura de sesamoide. Após trauma, entram no raciocínio fratura e lesão dos ligamentos da primeira metatarsofalângica. Formigamento e alteração de sensibilidade levantam outras perguntas, incluindo irritação de nervos. O exame verifica o ponto de maior dor e o mecanismo que a reproduz antes de escolher uma palmilha, infiltração ou cirurgia.[22][13]

Exame físico e radiografia em carga

O exame mede quanto o dedão se move, identifica o ponto de dor e observa como o pé recebe peso. Palpar a saliência, avaliar os sesamoides e movimentar a articulação ajuda a separar pressão superficial de dor mais profunda. A avaliação da marcha mostra se a pessoa evita o impulso pelo dedão ou sobrecarrega os outros metatarsos. A comparação com o outro pé é útil, mas ambos podem apresentar alterações em graus diferentes.[4]

Radiografias feitas em pé, com carga, mostram espaço articular, osteófitos e alinhamento em uma condição próxima àquela em que o sintoma aparece. As classificações combinam informações de imagem, movimento e dor para descrever a gravidade. Elas ajudam a comunicação entre profissionais; o tratamento é definido pela limitação concreta e pela região articular que dói. Uma imagem bastante alterada com pouca dor não tem a mesma implicação de uma articulação que impede atividades essenciais.[4]

Tomografia e ressonância ficam para dúvidas selecionadas, como detalhe ósseo de planejamento ou suspeita de lesão associada. Exames sanguíneos não confirmam artrose; sua utilidade aparece quando a história aponta para gota, outra artrite ou infecção. A investigação é ampliada quando seus resultados podem mudar a decisão, como evitar uma intervenção dirigida à estrutura errada.[4][26][9]

O que calçados e palmilhas podem modificar

As adaptações de calçado procuram reduzir uma exigência mecânica identificada. Uma caixa mais alta e larga diminui o contato com o osteófito dorsal. Uma sola mais rígida limita a dobra dolorosa da primeira metatarsofalângica. Já o formato rocker, com sola curva, facilita a passagem do corpo sobre o pé sem exigir tanta extensão do dedão. Esses mecanismos são diferentes; um sapato espaçoso pode resolver pressão no dorso e ainda deixar dor durante o impulso.[4]

Placas e palmilhas também variam na função: algumas restringem o movimento do dedão, outras redistribuem apoio. A escolha precisa caber no calçado e ser testada na atividade que provoca sintomas. O resultado inclui dor, estabilidade, conforto e aparecimento de pressão em outro ponto. Um recurso que alivia o dedão mas torna a marcha insegura ou causa dor no antepé precisa ser ajustado. Sola curva merece atenção especial em quem já tem dificuldade de equilíbrio.[4][6]

Na prática, o ganho com palmilhas e placas costuma ser pequeno e nem todos sentem diferença clara. Palmilha e sola rocker aliviam a dor de modo parecido, mas o calçado rocker costuma ser menos usado e incomodar mais. Por isso, vale testar um recurso de cada vez, com objetivo claro, e reavaliar se ele realmente alivia a tarefa que dói.[5][6]

Ajuste do calçado para cada queixa
Pressão no dorsoEspaço na caixa do calçado.
Dobra dolorosa no impulsoRigidez ou curvatura da sola, conforme tolerância.
Dor transferida para outros pontosRever apoio e adaptação do dispositivo.

Como a reabilitação acompanha a função

A reabilitação busca melhorar a força e a maneira de usar o movimento ainda disponível. Fortalecer os flexores do dedão, mobilizar os sesamoides e treinar a marcha pode melhorar a função quando a limitação é menos acentuada, como no hallux limitus. Quando o movimento termina em um bloqueio ósseo doloroso, forçar repetidamente o dedão pode reproduzir o impacto. Nesse caso, o tratamento respeita a amplitude tolerada e melhora o apoio.[15][4]

A progressão usa tarefas concretas para graduar o esforço. Quem sente dor após poucos minutos em pé pode começar ajustando apoio e duração; quem tolera caminhar mas não consegue subir escadas exige outra progressão. Distância, velocidade e exigência do terreno podem ser modificadas separadamente para observar a resposta. Dor persistentemente maior depois da atividade, piora da marcha ou dor sob outros dedos indica a necessidade de rever a carga.[14]

Retornar a uma atividade esportiva envolve avaliar sua demanda sobre a primeira metatarsofalângica. Alternativas que exigem menos extensão dolorosa podem manter condicionamento enquanto o plano é ajustado. O ganho procurado é funcional: realizar a tarefa com menos dor e melhor apoio, mesmo que a radiografia continue mostrando artrose.[4]

Medicamentos e infiltrações

Analgésicos e anti-inflamatórios podem facilitar uma fase de adaptação do calçado ou reduzir sintomas em períodos mais dolorosos. Anti-inflamatórios tópicos ou orais são considerados conforme a situação. A via oral exige atenção a risco digestivo, renal e cardiovascular, pressão arterial, anticoagulantes e outros medicamentos. A utilidade do medicamento é medida pelo alívio e pela função, com duração e acompanhamento compatíveis com a segurança individual.[14]

Uma infiltração de corticoide pode ser discutida quando a primeira metatarsofalângica é uma fonte provável da dor e existe um objetivo concreto para o alívio. Ao reduzir a inflamação local, ela pode facilitar uso do calçado ou movimento durante um período. A resposta é variável e o benefício pode ser temporário. Dor após a aplicação, infecção e alterações locais da pele ou tecidos são riscos a considerar; diabetes também pode exigir acompanhamento da glicemia.[4][16][17]

Se o efeito for pequeno ou muito breve, repetir a injeção sem rever o alvo costuma acrescentar pouco ao planejamento. O ácido hialurônico em aplicação única não trouxe alívio relevante além do efeito da própria injeção. Nenhuma dessas infiltrações regenera cartilagem, e nenhuma é etapa obrigatória antes da cirurgia.[5][17]

Cheilectomia ou artrodese

A cirurgia é discutida quando a dor continua limitando uma atividade importante apesar de medidas não cirúrgicas adequadas, ou quando o comprometimento é significativo e a avaliação define um alvo cirúrgico. A cheilectomia retira osteófitos e uma porção de osso para liberar o conflito na parte de cima da articulação. Faz mais sentido quando predomina dor no fim da extensão e ainda existe superfície articular e movimento aproveitáveis. Ela preserva a articulação, mas não reverte toda a artrose.[23]

Em casos selecionados, uma osteotomia, que muda a posição de um segmento ósseo, pode ser associada para deslocar o movimento para uma faixa menos dolorosa. A possibilidade depende da anatomia e da superfície articular disponível. Se a dor ocorre durante uma parte ampla do movimento e o desgaste é extenso, apenas remover a saliência pode deixar o principal problema sem tratamento. Essa diferença explica por que pacientes com sintomas parecidos podem receber propostas distintas.[23]

Na artrose avançada, a artrodese une o metatarso à falange na articulação comprometida. Placa e parafusos, ou outra fixação escolhida, mantêm os ossos na posição planejada enquanto ocorre consolidação. O objetivo é eliminar o movimento doloroso dessa junção e oferecer apoio estável. A primeira metatarsofalângica deixa de dobrar; a articulação mais próxima da ponta do dedão permanece distinta. Posição da fusão, calçados desejados e demanda de atividade precisam ser discutidos antes da operação.[4]

Jardim interno da clínica com espelho d'água, janela redonda e bonsai
Jardim interno com janela redonda.

A artrodese costuma ter resultados mais previsíveis para dor na artrose grave, mas pode apresentar falha de consolidação, posição inadequada ou incômodo com o material. Tabagismo, circulação e outras condições de saúde entram na avaliação do risco.[23][25][13]

Quando manter movimento é uma prioridade, podem ser discutidas alternativas à fusão. Na interposição, tecido da própria cápsula ou um enxerto funciona como espaçador entre as superfícies articulares. Já a artroplastia com implante substitui parte dessas superfícies por um componente artificial.

A escolha considera estabilidade, qualidade do osso e deformidade, além da importância daquele movimento para a pessoa. Os resultados de dor e durabilidade são menos previsíveis para algumas técnicas; dor sob outros pontos do antepé ou fraqueza do dedão podem limitar o ganho. Soltura do implante e perda óssea também podem dificultar uma conversão posterior para artrodese.[23]

Recuperação e reavaliação do resultado

A recuperação depende do procedimento. Após cheilectomia, o plano pode incluir mobilização orientada da articulação para trabalhar o movimento preservado. Após artrodese, a prioridade é proteger a união dos ossos; apoio, calçado e progressão dependem da fixação, da cicatrização e das imagens de acompanhamento. Os dois caminhos não usam o mesmo cronograma. A passagem para um sapato comum e a retomada de atividades consideram a ferida e a resposta ao apoio, além do que foi realizado na operação.[23][24]

Trabalho em pé, deslocamento e esporte exigem capacidades diferentes. Retornar envolve tolerar o calçado, caminhar com segurança e cumprir a demanda específica sem comprometer a recuperação. Na artrodese, a avaliação verifica a cicatrização, a consolidação e a posição: uma fusão em posição inadequada pode criar pressão dolorosa no sapato mesmo com os ossos unidos. As limitações de sapatos e atividades são conversadas desde o planejamento.[27]

No tratamento não cirúrgico, a reavaliação usa critérios igualmente concretos: distância caminhando, dor no impulso, pressão do sapato e compensações. Uma melhora útil pode ocorrer sem mudança radiográfica. Em contrapartida, dor persistente no mesmo ponto, novo sofrimento em outras áreas ou perda funcional progressiva pede revisão do diagnóstico e da estratégia. Esses achados ajudam a decidir entre ajustar recursos, investigar outra causa ou discutir cirurgia.[14]

Sinais que pedem avaliação rápida

Uma articulação subitamente muito quente, vermelha e inchada merece avaliação no mesmo dia, especialmente com ferida, febre ou mal-estar. A investigação considera gota e infecção, além da artrose. Trauma com deformidade ou incapacidade de apoiar também exige avaliação no mesmo dia. Um dedo que fica subitamente frio, arroxeado ou com perda de sensibilidade precisa de pronto atendimento imediato para verificar a circulação e outras causas.[9][22][18]

Depois de um procedimento, dor que piora acentuadamente, secreção na ferida, vermelhidão crescente ou febre justificam contato imediato com a equipe responsável para avaliação no mesmo dia. Se não houver acesso à equipe nesse prazo, procure pronto atendimento. Esses sinais mudam a prioridade em relação ao acompanhamento habitual de rigidez e inchaço.[20]

Referências

  1. AAOS. Hallux Rigidus. (abre em nova aba)
  2. AOFAS FootCareMD. Big Toe Arthritis. (abre em nova aba)
  3. Cleveland Clinic. Hallux Rigidus. 2023. (abre em nova aba)
  4. Ho e Baumhauer. Hallux rigidus. EFORT Open Reviews. 2017. (abre em nova aba)
  5. Cochrane. Non-surgical interventions for osteoarthritis of the big toe joint. 2024. (abre em nova aba)
Ver todas as 27 referências
  1. Menz et al. Foot orthoses versus rocker-sole footwear: randomized trial. 2016. (abre em nova aba)
  2. Royal National Orthopaedic Hospital. Hallux rigidus, cheilectomy and fusion. 2026. (abre em nova aba)
  3. Galois et al. Surgical options for hallux rigidus: state of the art and review of the literature. Publicação online 2019. (abre em nova aba)
  4. Ravn et al. SANJO guideline. 2023. (abre em nova aba)
  5. AAOS. Bunions. (abre em nova aba)
  6. AAOS. Sesamoiditis and Sesamoid Fracture. (abre em nova aba)
  7. AAOS. Turf Toe. (abre em nova aba)
  8. Lam et al. Hallux rigidus: How do I approach it? 2017. (abre em nova aba)
  9. NICE. Osteoarthritis: diagnosis and management, NG226. 2022. (abre em nova aba)
  10. Shamus et al. Hallux limitus rehabilitation clinical trial. 2004. (abre em nova aba)
  11. Kamel et al. Local and systemic side effects of corticosteroid injections. 2024. (abre em nova aba)
  12. Uson et al. EULAR recommendations for intra-articular therapies. 2021. (abre em nova aba)
  13. ACC/AHA et al. Lower extremity peripheral artery disease guideline. 2024. (abre em nova aba)
  14. AAOS. Toe and Forefoot Fractures. (abre em nova aba)
  15. CDC. Surgical Site Infection Basics. (abre em nova aba)
  16. Ray et al. Hallux Valgus. Foot & Ankle Orthopaedics, 2019. (abre em nova aba)
  17. York, Wydra e Hunt. Injuries to the great toe. Current Reviews in Musculoskeletal Medicine, 2017. (abre em nova aba)
  18. Anderson, Ho e Baumhauer. Current Concepts Review: Hallux Rigidus. Revisão de2018, republicada em2023. (abre em nova aba)
  19. Glenn et al. Minimally Invasive Dorsal Cheilectomy and Hallux Metatarsal Phalangeal Joint Arthroscopy. 2021. (abre em nova aba)
  20. Pearson et al. Smoking and delayed/non-union after fracture, osteotomy and arthrodesis: systematic review. BMJ Open, 2016. (abre em nova aba)
  21. NICE. Gout: diagnosis and management, NG219. 2022. (abre em nova aba)
  22. Koutsouradis, Savvidou e Stamatis. Arthrodesis of the first metatarsophalangeal joint: the when and how. 2021. (abre em nova aba)

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