Neste artigo
Dor na parte interna do joelho, alguns centímetros abaixo da articulação, pode vir da região chamada pata de ganso. Ali, os tendões sartório, grácil e semitendíneo se fixam na tíbia e deslizam sobre uma bursa, uma pequena bolsa que reduz atrito. Quando a região fica dolorosa, o problema pode envolver bursa, tendões ou ambos. Menisco, ligamento colateral medial, artrose e lesão óssea por sobrecarga também podem doer medialmente. No exame, procuro qual estrutura reproduz a queixa e como a carga interfere nela.[1], [2], [5]
- Local
- Parte interna e superior da tíbia, abaixo da linha articular.
- O que diferencia
- O menisco costuma doer na própria linha articular; a pata de ganso, alguns centímetros abaixo dela.
- Confirmação clínica
- O ponto palpado e a tarefa que reproduz a dor precisam coincidir com a queixa.
Padrão e exame
O padrão mais sugestivo é dor ou sensibilidade bem localizada na parte interna e superior da tíbia, abaixo da linha articular. Pode piorar ao subir escadas, correr, levantar de uma cadeira, agachar ou depois de aumento de distância, ladeira ou tarefas repetidas. Algumas pessoas notam leve inchaço; outras relatam apenas um ponto que dói ao tocar. Quando a dor se espalha por todo o joelho, a pata de ganso deixa de ser a hipótese mais provável.
Na consulta, a história organiza quando começou, qual carga mudou e se houve torção, queda ou golpe. O exame compara os dois joelhos, palpa linha articular, ligamento colateral medial e inserção da pata de ganso, observa calor, derrame, marcha e amplitude. Depois, reproduz de modo seguro a tarefa que incomoda. Dor focal distal no mesmo ponto da queixa favorece a hipótese; derrame importante, instabilidade, bloqueio articular ou incapacidade de apoiar deslocam a investigação.[2], [3], [5]
- Dor focal: ponto abaixo da linha articular reproduz a queixa.
- Outra estrutura: dor na linha articular, no ligamento colateral medial ou no osso desloca a investigação.
- Alerta: derrame importante, calor, instabilidade, bloqueio ou incapacidade de apoiar exigem outra rota.
- Função: marcha, flexão e a tarefa que falha definem a capacidade inicial.
Diferenciais
Menisco medial e ligamento colateral medial ficam próximos da pata de ganso. Dor na linha articular após torção, derrame e travamento verdadeiro favorecem lesão meniscal. Depois de impacto lateral ou força que empurra o joelho para dentro, o exame procura lesão do ligamento e instabilidade. Local da sensibilidade, mecanismo e movimento doloroso ajudam a distinguir essas hipóteses.[2]
Artrose pode coexistir com irritação da pata de ganso, principalmente em pessoas com dor crônica e alterações de alinhamento. A avaliação separa a dor articular da sensibilidade focal abaixo do joelho. Já dor bem localizada no osso, que aumenta com impacto ou dificulta apoiar, levanta suspeita de fratura por estresse e pode exigir investigação dirigida.[2], [4]
| Hipótese | Local ou contexto que pesa |
|---|---|
| Pata de ganso | Ponto doloroso abaixo da linha articular, geralmente associado à carga repetida. |
| Menisco medial | Dor na linha articular, torção, derrame ou travamento. |
| Ligamento colateral medial | Trauma em valgo e dor ao longo do ligamento. |
| Artrose | Dor articular com rigidez e alteração de carga mais ampla. |
Imagem e exames
A imagem é útil quando a localização da dor e o exame deixam dúvida sobre bursa, tendão, menisco ou osso. A radiografia mostra artrose e alterações ósseas; o ultrassom avalia tecidos superficiais, líquido e a relação entre a bursa e os tendões. Ressonância pode esclarecer lesão por estresse, menisco ou outra estrutura quando a suspeita persiste. O achado é comparado ao ponto doloroso, pois líquido ou espessamento podem coexistir com outra fonte de dor.[3], [5]
| Pergunta | Exame que pode ajudar |
|---|---|
| Há osso, trauma ou artrose a esclarecer? | Radiografia. |
| O ponto doloroso superficial corresponde a bursa ou tendão? | Ultrassom. |
| Há suspeita de lesão interna, óssea ou profunda? | Ressonância. |
Fisioterapia e ajuste de atividade
Redução temporária de escadas e corrida
O tratamento inicial reduz temporariamente a atividade que provoca a dor, como corrida em ladeiras ou agachamento profundo. Caminhada plana, bicicleta ou outra atividade podem permanecer se forem toleradas durante e depois. A retomada usa a marcha, a dor e a recuperação após cada atividade para ajustar duração e intensidade.[2]
Fortalecimento do joelho e do quadril
Fisioterapia e exercício partem do que o exame encontrou. Pode haver necessidade de recuperar extensão do joelho, mobilidade de quadril ou tornozelo, força de quadríceps, glúteos e posteriores da coxa, controle ao descer degraus ou tolerância gradual a impacto. Se o alongamento aperta diretamente o ponto doloroso, ele precisa ser adaptado; se o exercício melhora a força mas a caminhada piora no dia seguinte, a dose pode estar alta. A progressão acompanha uma função escolhida, como subir um lance de escadas ou caminhar vinte minutos, e a resposta nas 24 horas seguintes.[7]
Alongamento e progressão de carga
A sessão pode combinar fortalecimento, mobilidade e alongamento da musculatura posterior da coxa quando há limitação demonstrada. A carga é ajustada pela qualidade do movimento e pela reação após o exercício. Dor crescente, piora ao caminhar ou aumento da sensibilidade no dia seguinte indicam reduzir resistência, amplitude ou volume. Com melhor tolerância, o treino se aproxima das escadas e da atividade esportiva.[7]
- Defina a tarefa: escada, caminhada, saída do carro ou corrida.
- Reduza a variável irritante: impacto, ladeira, amplitude, velocidade ou volume.
- Treine a capacidade tolerável: movimento e força que não alterem a marcha.
- Decida no dia seguinte: mantenha ou avance se a função melhora; reduza e reavalie se a piora persiste.
Gelo e redução da pressão local
Gelo pode ajudar a reduzir o desconforto e a sensação de calor depois de uma atividade que provocou sintomas. A aplicação usa uma barreira entre a pele e a bolsa fria, evitando contato direto. A posição escolhida deve deixar o joelho confortável, sem pressão concentrada sobre o ponto doloroso. Quando existe inchaço, elevar a perna durante o repouso pode auxiliar o controle dos sintomas. Se a região continuar aumentando de volume, o joelho precisa ser reexaminado.[3]

Quem corre compara terreno, distância e resposta nas escadas; quem trabalha em pé observa a duração dos períodos de apoio e as pausas possíveis. Exercícios que recuperam flexibilidade e força ao redor do joelho preparam o retorno. Com menos dor, a atividade que incomodava volta aos poucos. Se a dor persiste na articulação ou surge derrame, a artrose associada pode precisar de tratamento próprio.2
Medicamentos
Analgésicos e anti-inflamatórios
Analgésicos e anti-inflamatórios podem ajudar a dormir, caminhar e participar da fisioterapia durante uma fase dolorosa. A escolha considera riscos digestivos, renais e cardiovasculares, pressão arterial, gestação, alergias e outros medicamentos. Se há artrose associada, o tratamento também precisa contemplar essa fonte de dor.[3], [4]
Reavaliação do alívio
O medicamento é reavaliado pela facilidade para caminhar e participar dos exercícios. Se a dor diminui, a retomada de escadas ou corrida continua gradual, acompanhando a resposta depois da atividade. Necessidade frequente de medicamento, pouco ganho funcional ou efeitos adversos justificam rever a prescrição e a fonte da dor.[3], [4]
Infiltração e outros procedimentos
Infiltração na bursa da pata de ganso
A infiltração local com corticoide pode ser discutida quando a avaliação confirma dor da região bursal, persistente apesar de tratamento conservador ou intensa a ponto de impedir a reabilitação. O ultrassom pode ajudar a localizar o alvo. Antes da aplicação, são revistos infecção, diabetes, anticoagulantes e condições da pele. Quando há artrose associada, fisioterapia e infiltração podem trazer alívio de curto prazo; a infiltração é usada para que a reabilitação possa avançar.[5], [6]
Cuidados após a infiltração
Após a infiltração, o acompanhamento compara sensibilidade na parte interna do joelho, dor nas escadas e tolerância ao exercício. A orientação inclui quando retomar as cargas e como reconhecer reação local. Dor intensa crescente, calor, vermelhidão ou febre exigem avaliação de possível infecção. Pessoas com diabetes também precisam considerar a elevação transitória da glicemia pelo corticoide. Nova aplicação depende do benefício anterior e da persistência de um alvo bursal definido.[5], [6]
Aspiração e avaliação cirúrgica
Aspirar ou operar não costuma ser o caminho da dor medial comum. Aspiração responde a perguntas específicas, como infecção ou cristais, e não trata automaticamente a causa mecânica. Cirurgia para retirar bursa é rara; pode entrar em casos selecionados, refratários ou quando outra causa exige abordagem própria. Quando a dor persiste sem melhora, pode ser que a carga ainda esteja excessiva, que a reabilitação precise de ajuste ou que o diagnóstico inicial estivesse incompleto. Antes de qualquer procedimento, registro o ponto de dor, a função limitada e a tentativa conservadora já realizada.[3]
Diferença entre infiltrar e aspirar
Na infiltração, o medicamento é colocado na bursa para reduzir inflamação e dor. Na aspiração, uma agulha retira líquido: o material pode ser analisado quando existe suspeita de infecção ou gota. São procedimentos com objetivos diferentes, e pode haver sensibilidade na região sem líquido suficiente para retirar. O exame e, quando necessário, o ultrassom ajudam nessa escolha.
Se o quadro aponta para infecção, a prioridade é identificar e tratar a causa, frequentemente com antibiótico, em vez de usar corticoide para suprimir os sintomas. Depois de qualquer punção, a equipe orienta proteção da área e retomada da atividade. O retorno compara alívio da pressão, movimento e evolução da pele; a melhora da dor é avaliada junto da causa que motivou o procedimento.[3]
Ondas de choque para dor persistente
Ondas de choque podem ser discutidas quando a dor focal da pata de ganso persiste apesar de ajuste de carga e reabilitação. Em pessoas com dor havia mais de três meses, o tratamento reduziu a dor ao final das sessões, e o alívio se manteve na reavaliação de oito semanas.[8]
O benefício vem de um estudo pequeno, e a ordem entre ondas de choque e infiltração não está definida. As aplicações são dirigidas ao ponto confirmado no exame, e a resposta é medida pela dor nas escadas e na caminhada. Se as sessões deixam a região sensível, a intensidade é ajustada; se a função piorar, o quadro é reavaliado.8
Acompanhamento e sinais de alerta
O acompanhamento compara o mesmo ponto doloroso, a tarefa limitada, a distância ou tempo tolerado e o comportamento do joelho no dia seguinte. Menos dor local, marcha sem compensação e retorno gradual da função apoiam progressão.
Se a dor muda de lugar, fica mais articular, aparece derrame, a função não avança ou a reabilitação piora de forma sustentada, a hipótese precisa ser revista. Procure avaliação urgente se o joelho fica quente ou muito inchado, se há febre, trauma importante, incapacidade de apoiar, piora acelerada, vermelhidão que se expande ou mal-estar. Esses sinais exigem exame presencial.[3], [7]
Retorno à atividade
O retorno segue a mesma progressão de carga. Para corrida, aumente primeiro o volume em terreno previsível; para trabalho em pé, distribua caminhada, escadas e períodos sentado; para academia, ajuste amplitude, carga ou velocidade do exercício que reproduz a dor focal. O retorno avança quando a tarefa planejada mantém a marcha habitual e não provoca piora sustentada no dia seguinte.[2], [7]
A meta é específica para a função necessária: caminhar com conforto, subir escadas, correr ou tolerar mudanças de direção. Reavalie antes de avançar quando a dor deixa o ponto inicial, o joelho passa a falhar em atividade básica ou há uma nova hipótese na imagem ou no exame.[7]
Referências
- Cleveland Clinic. Pes Anserine Bursitis. (abre em nova aba)
- AAOS Orthoinfo. Pes Anserine (Knee Tendon) Bursitis. (abre em nova aba)
- Mayo Clinic. Knee bursitis: diagnosis and treatment. (abre em nova aba)
- OARSI. Non-surgical management of knee osteoarthritis. (abre em nova aba)
- Hasan M e colaboradores. Knee Bursae: systematic review. (abre em nova aba)
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- Sarifakioglu B e colaboradores. Physical therapy versus corticosteroid injection. (abre em nova aba)
- Brigham and Women’s Hospital. Standard of Care: Pes Anserine Bursitis. (abre em nova aba)
- Khosrawi S et al. Investigating the Effect of Extracorporeal Shock Wave Therapy on Reducing Chronic Pain in Patients with Pes Anserine Bursitis: A Randomized, Clinical- Controlled Trial. Adv Biomed Res (2017). (abre em nova aba)
