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Impacto femo­ro­ace­ta­bular: dor na virilha ao sentar ou agachar

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Átrio da clínica visto de cima, com a escada, os tijolos vazados e o ripado de madeira; Dr. Marcus Yu Bin Pai aparece pequeno, de pé no piso de pedrisco
Neste artigo

Dor em posições de flexão

Dor profunda na virilha ao agachar, sentar baixo, entrar no carro ou girar o quadril pode fazer parte da síndrome do impacto femoroacetabular. Nessa condição, a forma da articulação favorece um contato entre o fêmur e a borda da cavidade da bacia durante determinados movimentos. O diagnóstico exige concordância entre a dor relatada, o exame físico e as imagens. Uma alteração óssea descrita na radiografia, sem sintomas e sinais compatíveis, não estabelece a síndrome nem constitui indicação de cirurgia.[6][9]

A pergunta que orienta o tratamento é qual movimento está limitado e por quê. Uma pessoa pode recuperar atividades ajustando temporariamente a amplitude e desenvolvendo força; outra permanece com dor relevante apesar de reabilitação progressiva e tem um alvo cirúrgico tratável. Duração dos sintomas, perda de função, resposta ao tratamento e estado da cartilagem ajudam a distinguir esses caminhos. A palavra “impacto” no laudo não responde a essas questões sozinha.[9]

Cam, pincer e lesão do labrum

O quadril funciona como uma esfera dentro de uma cavidade. A cabeça do fêmur é a parte arredondada na extremidade do osso da coxa; o acetábulo é a cavidade da bacia que a recebe. Na forma cam, a transição entre cabeça e colo do fêmur apresenta uma proeminência ou perde parte do contorno arredondado. Ao aproximar a coxa do tronco e rodá-la para dentro, essa região pode encontrar a borda da cavidade mais cedo, restringindo o movimento e sobrecarregando os tecidos próximos.[9]

Na forma pincer, a cobertura do acetábulo sobre a cabeça do fêmur é excessiva em uma região, ou sua orientação favorece o contato. Os dois padrões podem coexistir. Entre os tecidos que recebem essa carga estão a cartilagem articular, que reveste as superfícies de deslizamento, e o labrum, um anel de fibrocartilagem na borda da cavidade. Impacto descreve a relação mecânica entre os ossos; lesão labral descreve dano em um tecido. Os dois termos se relacionam e descrevem coisas diferentes.[9]

Cam e pincer alteram partes diferentes do encaixe
Dois esquemas do quadril: em cam, a área destacada está na junção da cabeça com o colo femoral; em pincer, o destaque está na borda da cavidade da bacia.
1 · Cam

O relevo está no encontro entre a cabeça e o colo do fêmur.[9]

2 · Pincer

O destaque mostra uma borda que amplia a cobertura da cabeça femoral.[9]

As formas podem coexistir. Para reconhecer a síndrome, o contorno ósseo é interpretado junto aos sintomas e ao exame.

Esquema simplificado, sem escala.

Essas formas ósseas também existem em pessoas sem dor. A indicação de tratamento depende de sintomas e limitação funcional relacionados à articulação. Certas formas do quadril se associam a risco de artrose, mas isso não permite prever que toda pessoa terá desgaste importante, e operar uma alteração sem sintomas não é forma comprovada de evitá-la. Para decidir a conduta de hoje, pesam mais o estado atual da cartilagem e o quadro clínico.[6][9]

Quais movimentos reproduzem a dor

A dor frequentemente aparece na virilha ou na frente do quadril, podendo alcançar a coxa ou a região glútea. Algumas pessoas envolvem a lateral e a frente do quadril com a mão para indicar uma dor profunda. Sentar durante uma viagem, levantar de cadeira baixa, colocar meias, fazer agachamento profundo ou mudar de direção no esporte são situações que combinam posições exigentes para a articulação. Na consulta, pergunto qual delas provoca a dor habitual.[9][13]

Rigidez, redução de rotação e sensação de prender ou estalar podem acompanhar os sintomas. Um estalo indolor, entretanto, não confirma impacto: tendões também se deslocam ao redor do quadril e produzem ruídos. Durante a avaliação, importa diferenciar um som de um bloqueio que interrompe o movimento, identificar se há perda de força e comparar o que a pessoa consegue fazer hoje com sua capacidade anterior. Essa descrição direciona o exame e fornece uma medida para acompanhar o resultado do tratamento.[9]

Dor na virilha também pode vir dos adutores, dos tendões à frente do quadril, da parede abdominal, da região do púbis ou da coluna. Dor reproduzida ao contrair um músculo específico sugere uma investigação diferente daquela provocada pela movimentação passiva da articulação. Queimação que se estende pela perna ou dormência pede avaliação dos nervos e da coluna. Artrose ganha relevância quando há rigidez e perda de movimento progressivas, sobretudo se caminhar passa a ser a principal limitação. Mais de uma fonte de dor pode coexistir.[9][10]

Exame físico e imagens

O teste que combina flexão, adução e rotação interna aproxima a coxa do tronco e a leva para dentro. Ele é usado para verificar se essa posição reproduz a dor conhecida pelo paciente. Um resultado doloroso aumenta a suspeita de origem articular, mas não distingue sozinho impacto, lesão do labrum e outros problemas dentro do quadril. O médico compara amplitude, marcha, força, coluna e tarefas específicas. Quando esses dados concordam, a imagem ganha significado; quando discordam, a hipótese é reconsiderada.[6][9]

Radiografias com incidências apropriadas avaliam o contorno do fêmur, a cobertura da cavidade e sinais de artrose. Uma imagem feita em posição inadequada pode alterar a impressão sobre essa cobertura. A interpretação também procura displasia, situação em que a cavidade cobre insuficientemente a cabeça do fêmur e a estabilidade pode estar comprometida. Esse achado modifica a estratégia: remover osso de uma articulação que já tem cobertura insuficiente pode ser inadequado, mesmo quando existe uma lesão labral associada.[9][14]

A ressonância detalha labrum, cartilagem e outros tecidos quando essas informações esclarecem a causa da dor ou o planejamento. Em algumas situações, utiliza-se artro-ressonância, com contraste dentro da articulação, para investigar uma dúvida específica. Tomografia fica reservada a perguntas sobre a anatomia óssea e planejamento em casos selecionados; não é obrigatória para todo paciente. Um novo exame é pedido quando resolve uma incerteza que altera a conduta, como o estado da cartilagem antes de considerar preservação articular.[9]

Uma injeção intra-articular de anestésico pode esclarecer quanto da dor vem de dentro do quadril. Se uma tarefa antes dolorosa melhora durante o efeito anestésico, isso apoia a participação da articulação. O teste não mostra qual tecido está doente nem prova que o impacto seja a única causa. Se o alívio for incompleto, podem coexistir fontes musculares ou da coluna, além das limitações do próprio teste. O resultado é lido junto com o exame e as imagens.[9][11]

Como a fisioterapia modifica a função

A reabilitação começa pela tarefa que provoca dor. No agachamento, profundidade e carga podem ser reduzidas; ao sentar, altura do assento e posição do quadril podem ser ajustadas; no esporte, frequência e movimentos com rotação exigente podem precisar de mudança temporária. O objetivo é diminuir a exposição repetida à posição dolorosa enquanto outras capacidades são treinadas. Repouso prolongado tende a deixar força e condicionamento sem estímulo e não modifica a forma óssea.[9]

Força de glúteos e músculos do tronco, controle da pelve e coordenação da perna participam da distribuição das demandas durante as tarefas. Treinar essas funções pode permitir que o quadril desempenhe atividades com menos dor. Um programa supervisionado ajusta resistência, amplitude e técnica conforme os déficits encontrados. Movimentos que forçam repetidamente a flexão e a rotação dolorosas precisam ser modificados; insistir em alongar até um bloqueio não garante ganho útil de mobilidade.[9]

A progressão aproxima o exercício do objetivo real. Para quem quer caminhar e trabalhar sentado, recuperar tolerância a essas atividades orienta o programa. Para quem joga futebol, a sequência também deverá incluir corrida, aceleração e mudanças de direção. Dor durante a execução, resposta nas horas seguintes e função no dia seguinte ajudam a ajustar a dose. Uma piora sustentada pede reduzir a exigência e rever o exercício; isso não quer dizer suspender todos os movimentos.[8][10]

Sala de reabilitação da clínica com tablado, barras paralelas e vista para a parede de seixos
Sala de reabilitação da clínica.

A avaliação da resposta ocorre ao longo de semanas e meses. Uma tentativa de tratamento conservador frequentemente envolve cerca de três meses de trabalho progressivo, com revisões intermediárias, mas esse período não é uma espera obrigatória diante de piora importante ou diagnóstico incerto. Convém registrar uma ou duas tarefas: tempo sentado sem precisar interromper, profundidade tolerada do agachamento ou distância caminhada. Melhorar esses indicadores sustenta continuar a progressão; ausência de avanço leva a conferir o diagnóstico, a dose e as barreiras do programa.[9][8]

Remédios e infiltração

Analgésicos e anti-inflamatórios podem reduzir sintomas por tempo limitado, sobretudo quando a dor dificulta atividades ou a reabilitação. A escolha considera histórico de úlcera, doença renal, risco cardiovascular, anticoagulantes, gravidez e outros medicamentos. Se o remédio passa a ser necessário sempre para tolerar a mesma tarefa, reviso a carga dessa tarefa e a causa da dor. Melhorar com analgésico não confirma o diagnóstico inicial.[9][15]

Quando se utiliza corticosteroide dentro da articulação, o objetivo é alívio temporário em uma situação selecionada, útil sobretudo se permitir avançar a reabilitação nesse intervalo. Infecção, piora transitória da dor e elevação temporária da glicose são riscos a discutir. Pessoas com diabetes precisam combinar o monitoramento da glicose, especialmente do primeiro ao terceiro dia após a aplicação. Ausência de ganho funcional ou efeito muito breve reduz a justificativa para simplesmente repetir a injeção.[16][9][17]

A infiltração é usada quando responde a uma pergunta diagnóstica ou traz um alívio que mudará o tratamento. Não há comprovação de que plasma rico em plaquetas ou outros produtos corrijam a forma do osso ou restaurem cartilagem. Se forem propostos, a pergunta é qual sintoma pretendem aliviar e como isso mudaria a reabilitação.[9]

Quando considerar artroscopia

A artroscopia permite acessar a articulação por pequenas incisões, remodelar áreas de contato ósseo e tratar lesões associadas do labrum conforme sua condição. A discussão ganha relevância quando a dor continua limitando atividades apesar de tratamento conservador adequado, os achados clínicos são coerentes e a imagem mostra um alvo tratável. Uma lesão do labrum com instabilidade ou cobertura inadequada pode exigir uma estratégia diferente de simplesmente retirar uma proeminência óssea.[9][14]

O estado da cartilagem é decisivo. Artrose estabelecida reduz a previsibilidade de uma cirurgia de preservação, e artroscopia não substitui as opções destinadas ao desgaste avançado. Na displasia, uma avaliação especializada pode identificar a necessidade de corrigir a cobertura da cabeça femoral por realinhamento ósseo, chamado osteotomia. A idade entra nessa análise junto à condição articular, às demandas e aos riscos; um número isolado não descreve todo o prognóstico.[9][14]

Térreo do átrio da clínica com escada, ripas de madeira, portas dos consultórios e estante chinesa de madeira
Térreo do átrio da clínica.

Estudos compararam artroscopia e reabilitação em pessoas com síndrome confirmada e sem artrose importante. Em um deles, os dois grupos melhoraram, com maior melhora média de qualidade de vida relacionada ao quadril no grupo operado após doze meses; em outro, a cirurgia também teve vantagem média em função aos oito meses. Esses resultados sustentam sua discussão em pacientes selecionados; não significam que todas as pessoas melhorem nem que um achado incidental deva ser operado.[7][8]

Operar não é uma forma comprovada de prevenir artrose futura. Na decisão, o benefício esperado é pesado contra a limitação atual e os riscos, como infecção, trombose, lesão de nervos relacionada ao procedimento, rigidez e persistência de dor. Parte dos pacientes não recupera o nível esportivo desejado. Além do resultado provável, a decisão inclui tempo de recuperação, apoio disponível em casa, afastamento das tarefas e capacidade de realizar a reabilitação necessária.[7][9][18]

Reavaliação e retorno às atividades

Após cirurgia, as restrições de apoio e movimento dependem do que foi realizado no osso, no labrum e em outras estruturas. Recuperar a marcha, avançar força e controle e depois reconstruir atividades de impacto são etapas distintas. A volta ao esporte é planejada em meses: em geral, o início do retorno é previsto entre três e seis meses depois da artroscopia; em planos mais conservadores, até dez meses.[9]

A cicatrização das incisões não equivale à recuperação para esporte. A liberação para corrida, agachamento pesado ou mudanças de direção depende da recuperação funcional, das exigências da modalidade e do procedimento realizado.[10]

No tratamento conservador ou após operação, dor persistente pede comparar o resultado com a hipótese original. Pode haver carga acima da capacidade atual, déficit muscular ainda relevante, cartilagem que limita o prognóstico ou outra fonte de dor. Uma melhora progressiva nas tarefas definidas sustenta continuar; estagnação ou mudança do padrão de dor exige nova avaliação da articulação e das estruturas ao redor.[9][10]

Quando o atendimento é urgente

Dor intensa após queda ou trauma exige pronto-socorro imediatamente. O mesmo vale se não conseguir caminhar ou apoiar a perna, ou se perder a sensibilidade no quadril ou na perna depois de uma lesão.

Mesmo sem queda ou trauma recente, dor súbita muito forte, quadril quente e inchado, ou dor acompanhada de febre e mal-estar requerem atendimento presencial no mesmo dia para investigar causas como infecção. Esses sinais não devem ser atribuídos ao impacto apenas porque essa palavra já apareceu em um exame.

Se houver incapacidade de deslocamento seguro ou quadro grave, acione o SAMU pelo 192.[19][12]

Referências

  1. AAOS OrthoInfo. Femoroacetabular Impingement (abre em nova aba)
  2. Cleveland Clinic. Hip Impingement (Femoroacetabular Impingement or FAI) (abre em nova aba)
  3. HSS. Femoroacetabular Impingement (FAI) Treatment Options (abre em nova aba)
  4. Johns Hopkins Medicine. Hip Impingement (abre em nova aba)
  5. Mayo Clinic Sports Medicine. Hip impingement (abre em nova aba)
Ver todas as 19 referências
  1. Griffin e colaboradores. The Warwick Agreement on FAI syndrome (abre em nova aba)
  2. Griffin e colaboradores. Hip arthroscopy versus best conservative care (UK FASHIoN) (abre em nova aba)
  3. Palmer e colaboradores. Arthroscopic hip surgery compared with physiotherapy and activity modification (abre em nova aba)
  4. Non-operative Management and Outcomes of Femoroacetabular Impingement Syndrome (abre em nova aba)
  5. ISHA. Physiotherapy agreement on assessment and treatment of FAIS (abre em nova aba)
  6. AAOS OrthoInfo. Cortisone Shot (Steroid Injection) (abre em nova aba)
  7. NHS. Hip pain in adults (abre em nova aba)
  8. Evaluation of the Hip: History and Physical Examination. Byrd, 2007 (abre em nova aba)
  9. A comprehensive review of hip labral tears. Groh and Herrera, 2009 (abre em nova aba)
  10. Ibuprofen Tablets USP: prescribing information. DailyMed (abre em nova aba)
  11. Local and Systemic Side Effects of Corticosteroid Injections for Musculoskeletal Indications. Kamel et al., 2024 (abre em nova aba)
  12. EULAR recommendations for intra-articular therapies. 2021 (abre em nova aba)
  13. Management of Labral Tears in the Hip: A Consensus Statement. 2025 (abre em nova aba)
  14. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. SAMU192. (abre em nova aba)

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