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Por que a escolha muda na pessoa idosa
Relaxantes musculares como ciclobenzaprina, carisoprodol e orfenadrina costumam ser uma escolha desfavorável para pessoas idosas com dor musculoesquelética. O alívio que podem trazer precisa compensar sonolência, confusão, efeitos anticolinérgicos (boca seca, intestino preso e dificuldade para urinar) e maior risco de quedas.
Os critérios de Beers, uma referência de prescrição para adultos a partir de 65 anos, recomendam evitar vários desses medicamentos na maioria das situações. Quando a receita vem sendo renovada sem melhora clara do movimento e da autonomia, é hora de rever a indicação e as alternativas.[1]
Dificuldade para despertar, lentidão ao caminhar ou necessidade nova de ajuda para uma tarefa habitual depois de começar o remédio são motivos para rever a prescrição.[2] Os sinais que pedem atendimento imediato estão reunidos ao final, em Quando procurar atendimento imediato.
Na consulta, começo por duas perguntas: o que está causando a dor e o que a pessoa precisa voltar a fazer. Levantar da cama com menos sofrimento e caminhar com segurança é um resultado; dormir mais porque o remédio seda é outro. Se o tratamento diminui um sintoma e prejudica a atenção ou a autonomia, seu benefício precisa ser revisto. A alternativa pode ser outro medicamento, reabilitação dirigida, o tratamento de uma doença específica ou um procedimento selecionado, e a escolha depende de qual desses problemas está mantendo a limitação.[8]
Efeitos além do músculo
A ciclobenzaprina modifica a atividade do sistema nervoso central envolvida no espasmo muscular. É por isso que um comprimido tomado para a coluna também pode interferir na atenção. Seus efeitos anticolinérgicos alcançam outros órgãos: podem reduzir a salivação, dificultar o trânsito intestinal e piorar a dificuldade de esvaziar a bexiga. Boca seca, constipação e sonolência podem vir da mesma medicação, e eu pergunto por elas em conjunto antes de tratá-las como três problemas independentes.[2]
O baclofeno tem outro papel: é usado em determinadas formas de espasticidade, quando uma doença neurológica altera o controle do tônus muscular. Um músculo que endurece para proteger uma região dolorosa e uma perna espástica por lesão medular pedem raciocínios diferentes. Na espasticidade, reduzir o tônus precisa preservar a função, porque algumas pessoas usam parte daquela rigidez para sustentar o corpo ou fazer transferências. Reduzi-la demais pode piorar o apoio, mesmo que o membro pareça mais solto ao exame.[3]
Tontura, confusão e risco de queda
A mesma dose pode produzir exposições diferentes ao medicamento. A ciclobenzaprina é eliminada lentamente, e sua concentração tende a ser maior em pessoas idosas e em quem tem comprometimento do fígado. Tomá-la à noite não garante ausência de efeito na manhã seguinte. Glaucoma de ângulo fechado, retenção urinária e certas doenças cardíacas acrescentam restrições próprias ao uso.[2]
O risco de cair resulta da combinação entre remédios, equilíbrio, força, visão, pressão arterial e condições clínicas. Quem já se apoia nos móveis para andar tem menos margem para tolerar tontura do que alguém com marcha estável. Depois de uma queda ou de uma mudança recente do equilíbrio, reconstruo quando o sintoma começou, quais medicamentos foram iniciados ou modificados e como a pessoa se movimenta. A coincidência de datas levanta a suspeita de efeito adverso, mas outra doença pode estar presente ao mesmo tempo e também precisar de atendimento.[13]
Combinações que somam sedação
Remédios para dormir, opioides, alguns antidepressivos e gabapentinoides (remédios para dor de nervo, como gabapentina e pregabalina) podem somar efeitos sobre o sistema nervoso central aos do relaxante. Quando três ou mais fármacos dessas classes são usados juntos, aumenta o risco de quedas e fraturas. O número chama atenção para a carga acumulada, e dois desses remédios juntos também merecem revisão. Na revisão, considero quais substâncias estão presentes, suas doses, a função renal e os sintomas observados.[1]
A síndrome serotoninérgica, uma reação ao excesso de serotonina no sistema nervoso, é um risco diferente da sedação. A combinação de ciclobenzaprina com medicamentos como tramadol e determinados antidepressivos pode provocar essa reação, que exige atendimento imediato; seus sinais estão descritos ao final, em Quando procurar atendimento imediato.
Álcool também pode intensificar a depressão do sistema nervoso. Por isso peço a lista completa, incluindo produtos tomados de vez em quando e a composição de medicamentos combinados, para que o mesmo princípio ativo ou efeito não passe despercebido sob nomes comerciais diferentes.[2]
Rim, fígado e troca de relaxante
Trocar por baclofeno não elimina o problema. Sua eliminação depende principalmente dos rins, e a mesma referência de prescrição para idosos citada no início recomenda evitá-lo em idosos com função dos rins, estimada pelo exame de sangue (taxa de filtração glomerular estimada), abaixo de 60 mL/min, pelo risco de encefalopatia, uma alteração do funcionamento cerebral que pode exigir internação.
Quando o uso é considerado indispensável, a indicação precisa ser justificada, o tratamento ajustado e a toxicidade monitorada. O fato de os remédios para espasticidade receberem uma ressalva própria nessa referência não os torna substitutos seguros para qualquer dor nas costas.[1]
A tizanidina pode baixar a pressão, provocar sonolência e causar lesão hepática. Ciprofloxacino e fluvoxamina são exemplos de interações contraindicadas: podem aumentar a exposição ao medicamento e provocar queda importante da pressão. Um antibiótico recém-prescrito pode, assim, mudar a segurança de um tratamento que antes era tolerado. Por isso a função do fígado, a pressão e as outras medicações entram na escolha e no acompanhamento.[4]

Num estudo com idosos, os que receberam baclofeno ou tizanidina tiveram mais lesões do que os que receberam ciclobenzaprina. Diferenças entre os pacientes podem ter influenciado esse resultado, que mesmo assim põe em dúvida a troca automática de um relaxante por outro sem avaliar a indicação e a vulnerabilidade de cada pessoa. A ciclobenzaprina continua com os riscos descritos acima.[12]
Exame clínico e causa da dor
Um músculo doloroso ou endurecido pode acompanhar um problema em outra estrutura. Na pessoa idosa, a dor lombar pode reunir alterações da coluna, do quadril, da articulação sacroilíaca e dos próprios músculos. No exame, observo a marcha, a força, a sensibilidade e quais movimentos reproduzem a queixa. Também procuro dor referida, quando uma articulação produz sintomas percebidos em outra região. Esse raciocínio evita manter um relaxante para uma suposta contratura quando a principal limitação pede outro tratamento.[9]
O contexto muda a prioridade. Em quem tem osteoporose, uma dor nova depois de uma queda, mesmo pequena, aumenta a preocupação com fratura. Febre ou adoecimento sistêmico e história de câncer levam a outras linhas de investigação, e a fraqueza que avança está entre os sinais de urgência descritos ao final. O relaxante pode atenuar parte do desconforto sem esclarecer nenhuma dessas hipóteses. Por isso comparo a queixa atual com o padrão anterior e procuro a mudança que fez a pessoa perder a capacidade de apoiar, caminhar ou cuidar de si.[10]
Quando os exames ajudam
Radiografia e ressonância servem para responder a uma suspeita levantada no exame clínico, como uma lesão ou outra causa da dor. Alterações degenerativas são frequentes com o envelhecimento e só pesam quando correspondem à localização e ao comportamento dos sintomas. O desgaste visto na imagem, por si só, não identifica qual estrutura está limitando a pessoa, e exames repetidos sem uma pergunta clínica também não mostram se o relaxante traz um benefício que compense os efeitos adversos.[9]
A segurança do remédio depende de outras informações: doenças associadas, função dos órgãos que eliminam o fármaco e os demais tratamentos em uso. Uma ressonância da coluna não fornece nada disso. Em quem usa ciclobenzaprina, comprometimento hepático e determinadas doenças cardíacas podem pesar mais na escolha do que o tamanho de uma alteração descrita no laudo.[2]
Tratamento conforme a causa
A troca depende do mecanismo predominante da dor e da limitação que ela provoca. Qualquer que seja a opção, acompanho a mesma medida: se a atividade que estava prejudicada melhora.
Relaxante muscular por período curto
Na dor lombar aguda, o relaxante pode trazer uma redução pequena da dor nas primeiras duas semanas: em média, cerca de 8 pontos a menos de dor numa escala de 0 a 100, um ganho pequeno e incerto, sem melhora clara da incapacidade. A resposta de cada pessoa pode ficar acima ou abaixo dessa média.[5]
Numa revisão mais recente, quem usou relaxantes não benzodiazepínicos, ou seja, que não pertencem à família do diazepam, teve mais chance de alívio e de melhora global em cinco a sete dias, e também mais efeitos adversos, sobretudo no sistema nervoso central. Esses resultados vêm de adultos em geral e não resolvem, sozinhos, a segurança de um idoso frágil. A pergunta prática é quanto alívio se obtém, por quanto tempo e a que custo para aquela pessoa.[6]

O uso de ciclobenzaprina e carisoprodol na dor musculoesquelética aguda é previsto para períodos curtos, de até duas ou três semanas, por falta de evidência adequada para uso mais prolongado. Esse prazo marca o momento de rever a receita. Ele não torna três semanas seguras para qualquer pessoa idosa, e um uso que já se prolongou pede retirada planejada com quem prescreveu.[2][14]
Para uso continuado, a justificativa é ainda mais limitada: não há benefício convincente dos relaxantes na lombalgia crônica, embora em alguns outros quadros os resultados tenham sido diferentes, e grande parte dos estudos durou apenas quatro a seis semanas, pouco para concluir sobre meses ou anos de tratamento. Se a dor volta sempre que o efeito passa, reavalio o diagnóstico e as metas.[7]
Anti-inflamatórios e paracetamol
Na artrose de uma articulação acessível, um anti-inflamatório aplicado sobre a pele pode reduzir a exposição do organismo ao medicamento em situações selecionadas. Parte dele ainda é absorvida, e esse efeito local não se estende igualmente à dor profunda da coluna.
Anti-inflamatórios tomados por via oral exigem pesar a função dos rins e o risco gastrointestinal e cardiovascular; o paracetamol tem limites próprios de eficácia e de segurança. A opção útil é a que combina com a causa identificada e com as condições da pessoa, e o acompanhamento confere se a atividade prejudicada realmente melhorou.[9]
Reabilitação de força e equilíbrio
A reabilitação começa pela capacidade atual. Levantar de uma cadeira, girar o corpo e caminhar até o banheiro exigem combinações diferentes de força e equilíbrio. O profissional identifica onde a tarefa falha e ajusta a dificuldade, o apoio e a supervisão. Uma pessoa com quedas recentes pode precisar primeiro de execução assistida, enquanto outra já consegue trabalhar resistência com carga maior. A progressão acompanha a qualidade do movimento e a segurança de cada um.[13]
Na dor persistente, o plano também busca recuperar tolerância às atividades e tratar os fatores que dificultam essa recuperação. A resposta é medida por tarefas comparáveis: quanto a pessoa anda, se consegue se vestir e quanto apoio precisa. Esse registro ajuda a decidir sobre a redução do relaxante, porque mostra se a função se mantém com menos remédio. Piora sustentada da dor, perda de força ou marcha menos segura pedem ajuste e, às vezes, nova investigação.[9]
Medicamentos para dor neuropática
A dor neuropática, ligada a lesão ou doença do sistema nervoso, tem uma seleção de medicamentos diferente da dor de uma articulação inflamada. Nela podem ser consideradas classes que modulam a transmissão da dor, mas elas também podem causar sonolência, interagir com outros remédios e exigir ajuste pela função renal. Acrescentar gabapentina ou pregabalina sem uma indicação correspondente, especialmente junto de opioides, pode manter o mesmo problema de segurança que levou à revisão do relaxante.[8]
Infiltração articular e avaliação cirúrgica
Quando o exame aponta uma articulação como origem da dor, o alvo passa a ser ela. Uma infiltração para artrose dolorosa tem indicação e riscos próprios, e doenças associadas e medicamentos, inclusive anticoagulantes, entram na avaliação de segurança do procedimento. Artrose muito incapacitante ou sintomas da coluna com déficit neurológico podem justificar avaliação cirúrgica em situações selecionadas. Em cada caminho, a decisão depende da doença, da limitação e da resposta ao cuidado anterior. O resultado é conferido pelas mesmas tarefas usadas na reabilitação.[9]
Toxina botulínica na espasticidade após AVC
Na espasticidade após acidente vascular cerebral (AVC), a distribuição do problema orienta o tratamento. Quando determinados músculos do membro superior dificultam uma tarefa ou o cuidado do membro, a toxina botulínica pode ser considerada para um efeito localizado, com metas definidas e resposta acompanhada. Espasticidade generalizada envolve outra decisão e pode exigir tratamento sistêmico cuidadosamente monitorado. Fraqueza excessiva ou ausência de ganho funcional exigem rever o plano. Esse uso é específico da espasticidade.[11]
Como reduzir um uso prolongado
Quem usa um relaxante continuamente precisa combinar a mudança com a equipe responsável pela prescrição. Baclofeno interrompido de forma abrupta pode provocar alucinações e convulsões. A retirada de tizanidina após uso sustentado pode causar hipertensão rebote, aceleração dos batimentos e aumento do tônus. O modo de reduzir depende do medicamento, da dose, da duração e da condição tratada, e por isso nenhum esquema único de retirada serve para todos os produtos chamados de relaxante muscular.[3][4]
O carisoprodol acrescenta uma preocupação própria: o uso prolongado pode produzir dependência física. Nessa situação, suspensão abrupta ou redução importante pode desencadear insônia, tremores, vômitos, cólicas e até alucinações. Dependência física, por si só, é diferente de um transtorno por uso da substância. É o risco de abstinência que exige uma redução planejada com o prescritor, sobretudo após uso prolongado ou em doses elevadas, sem esquema caseiro.[14]
Na revisão, comparo o motivo inicial da prescrição com a situação atual: houve ganho de movimento, redução relevante da dor ou apenas efeito sedativo? O plano de mudança mantém o tratamento da causa e define quais sintomas serão observados. Se a função melhora com menos efeitos adversos, esse resultado orienta o passo seguinte. Se a dor continua limitante, volto a examinar seus mecanismos e as opções disponíveis.[7]
Quando procurar atendimento imediato
Dificuldade para respirar, convulsão, desmaio ou incapacidade de despertar depois de um medicamento exigem atendimento imediato: acione o SAMU pelo 192 ou procure o pronto-socorro. Agitação ou confusão acompanhada de febre, suor intenso, tremores e rigidez também precisa de avaliação urgente. Sonolência intensa e alteração súbita do comportamento não devem aguardar a próxima consulta de rotina para serem investigadas. Levar as embalagens ou a lista de medicamentos ajuda a equipe a identificar as substâncias e as combinações envolvidas.[2]
Se, junto com a dor nas costas, surgirem fraqueza progressiva, perda de sensibilidade na região entre as pernas ou alteração nova do controle da urina ou das fezes, esses sinais exigem avaliação de urgência. Eles podem indicar comprometimento neurológico e não devem ser atribuídos apenas à idade ou à medicação. A causa precisa ser esclarecida antes de qualquer nova dose de analgésico ou relaxante.[10]
Referências
- American Geriatrics Society. Beers Criteria, 2023 (abre em nova aba)
- DailyMed. Cyclobenzaprine hydrochloride tablets (abre em nova aba)
- DailyMed. Baclofen tablets (abre em nova aba)
- DailyMed. Tizanidine (abre em nova aba)
- Cashin e colaboradores. Muscle relaxants for low back pain. BMJ, 2021 (abre em nova aba)
Ver todas as 14 referências
- Manca e colaboradores. Oral non-benzodiazepine muscle-relaxants. European Spine Journal, 2025 (abre em nova aba)
- Oldfield e colaboradores. Long-term use of muscle relaxants. JAMA Network Open, 2024 (abre em nova aba)
- American Geriatrics Society. Alternative Treatments to Selected Medications, 2025 (abre em nova aba)
- Musculoskeletal Pain in Older Adults: A Clinical Review (abre em nova aba)
- American Family Physician. Mechanical Low Back Pain, 2018 (abre em nova aba)
- NICE. Stroke Rehabilitation in Adults, 2023 (abre em nova aba)
- George e colaboradores. Safety of Baclofen and Tizanidine in Older Adults, 2025 (abre em nova aba)
- World Guidelines for Falls Prevention and Management for Older Adults, 2022 (abre em nova aba)
- DailyMed. Carisoprodol tablets: prescribing information, dependence and withdrawal (abre em nova aba)
