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Dor lombar ou nas pernas ao caminhar que melhora sentado: causas, exames e tratamento

Dor lombar ou nas pernas ao caminhar que alivia ao sentar sugere claudicação neurogênica. A consulta compara coluna, circulação e quadril e escolhe os exames.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai, de jaleco, aponta no monitor uma imagem de exame da coluna lombar para uma pessoa sentada à sua frente, vista de costas
Neste artigo
Coluna lombar e marcha

Como diferenciar estenose lombar, circulação, quadril e dor mecânica, quais exames esclarecem a causa e como o tratamento é escolhido.

Padrão típico

Dor, peso, câimbra, queimação, dormência ou fraqueza nas nádegas ou pernas que surgem depois de ficar em pé ou caminhar e diminuem ao sentar ou inclinar o tronco formam o padrão clássico da claudicação neurogênica. Claudicação significa limitação provocada pela marcha; neurogênica indica que o mecanismo provável envolve as raízes nervosas lombares. O tempo até o sintoma pode variar, mas a relação repetida entre posição, esforço e alívio é a pista principal.[1]

A urgência depende de poucos sinais ligados à bexiga, à sensibilidade entre as pernas, à força e à circulação das pernas, descritos em Sinais de alerta. Sem eles, a consulta serve para comparar coluna, circulação, quadril e dor lombar mecânica, medir quanto a marcha está limitada e decidir quais exames podem mudar o tratamento.

A própria lombar pode doer pouco ou nem doer. Algumas pessoas procuram atendimento porque as pernas ficam pesadas, perdem resistência ou parecem não obedecer depois de alguns minutos; outras descrevem formigamento, ardor ou câimbra. Os sintomas podem atingir uma ou as duas pernas e não precisam seguir uma faixa estreita, como ocorre em algumas radiculopatias, que são compressões ou inflamações de uma raiz nervosa. Por isso, “dor lombar ao caminhar” é apenas uma das apresentações possíveis.[1]

Esse padrão levanta a hipótese de estenose lombar sintomática, mas o diagnóstico exige duas peças concordantes: a síndrome percebida ao ficar em pé ou andar e um estreitamento anatômico capaz de comprometer as raízes correspondentes. Estenose descrita na ressonância sem o padrão clínico pode ser um achado incidental. No sentido inverso, sintomas típicos com imagem antiga, incompleta ou pouco concordante justificam revisar a investigação antes de escolher infiltração ou cirurgia.[1]

Estenose lombar

O canal vertebral lombar contém as raízes que descem para as pernas. Com o tempo, perda de altura e abaulamento do disco, aumento das articulações facetárias (as pequenas articulações posteriores entre as vértebras), osteófitos (os chamados bicos de papagaio) e espessamento do ligamento amarelo podem reduzir esse espaço.

Um deslizamento vertebral, chamado espondilolistese, também pode contribuir. O estreitamento pode ocorrer no canal central, no recesso lateral, corredor em que a raiz se desloca antes de sair, ou no forame, abertura por onde ela deixa a coluna. A localização ajuda a explicar se predominam sintomas difusos nas pernas ou sinais de uma raiz específica.[1]

A coluna muda de forma durante o movimento. Ao permanecer ereto ou estender a lombar, o canal e os forames tendem a ficar menores; ao flexionar o tronco ou sentar, parte desse espaço aumenta temporariamente. Isso explica por que caminhar apoiado em um carrinho ou pedalar pode ser mais tolerável do que andar ereto, e por que a descida incomoda mais alguns pacientes. O efeito da postura é uma pista fisiológica; sozinho, ele não confirma a origem da dor.[2]

Mudança de posiçãoEm pé e sentado
Em pé ou em extensãoMenos espaço neuralOs sintomas podem surgir mais cedo
Sentado ou em flexãoMais espaço temporárioO alívio reforça a hipótese, sem confirmar a causa

A ressonância mostra a anatomia em repouso e deitada. Ela não mede diretamente quanto uma pessoa consegue caminhar, nem traduz toda a variação de pressão, irrigação e irritação neural durante a marcha. Algumas pessoas têm canal muito estreito e poucos sintomas; outras apresentam limitação importante com alterações menos impressionantes. Por isso, a palavra “grave” no laudo, isolada, não define a gravidade clínica. Ela resulta da combinação entre padrão, exame neurológico, função perdida e imagem concordante.[1]

Outras causas

Coluna e circulação

Nenhuma pergunta isolada separa com segurança coluna e circulação. Na consulta, eu junto várias pistas que precisam apontar na mesma direção: onde o sintoma começa, se aparece apenas caminhando ou também parado em pé, se mudar a posição da lombar modifica a tolerância, quanto tempo leva para aliviar e se há alterações de pulso, força, sensibilidade ou quadril. Esse conjunto também evita concluir que uma pessoa com ressonância alterada necessariamente tem claudicação neurogênica.[3]

A hipótese neurogênica fica mais forte quando peso, dormência ou dor atingem nádegas e coxas, aparecem também ao permanecer parado em pé e melhoram ao sentar ou curvar o tronco. Apoiar os braços em um carrinho de supermercado e conseguir pedalar por mais tempo do que caminhar reforçam o efeito da flexão. Esses achados valem mais em conjunto: um paciente pode preferir o carrinho por equilíbrio, condicionamento ou dor no quadril, sem ter estenose como causa dominante.[3]

Na claudicação vascular, a falta de fluxo arterial durante o esforço costuma provocar aperto, peso ou dor principalmente na panturrilha depois de uma carga relativamente reprodutível. Parar de caminhar tende a aliviar mesmo que a pessoa continue em pé; flexionar a coluna não é necessário. Feridas que demoram a cicatrizar, pele fria, fatores de risco cardiovascular e pulsos reduzidos aumentam a suspeita. A ausência dessas características não exclui doença arterial periférica.[3]

Quadril e dor mecânica

Doença do quadril produz com frequência dor na virilha ou na parte anterior da coxa, rigidez ao levantar, dificuldade para calçar sapatos ou entrar no carro e perda de rotação. Nesse caso, caminhar agrava porque carrega e movimenta a articulação; a extensão da lombar, que estreita o canal na estenose, não é o que provoca essa dor. Dor lateral isolada pode vir de tendões glúteos, e dor posterior pode se confundir com a coluna. A reprodução da dor no movimento do quadril e a localização habitual orientam qual estrutura precisa de imagem.[1]

Mãos do médico segurando um modelo anatômico da coluna vertebral ao lado de um abajur
Modelo anatômico da coluna vertebral.

A dor lombar mecânica costuma ficar mais localizada na região lombar e se relaciona a uma carga ou movimento específico, como levantar peso, girar, levantar da cadeira ou sustentar determinada postura. Pode piorar ao andar, mas não apresenta obrigatoriamente um limite repetível de distância, peso progressivo nas pernas e recuperação ao sentar. Facetas, disco, músculos e articulação sacroilíaca são possibilidades clínicas diferentes. Quando os sintomas são mistos, procuro identificar qual componente interrompe a marcha.[1]

Estenose e doença arterial podem coexistir, especialmente em pessoas mais velhas com tabagismo, diabetes, doença renal, hipertensão ou doença cardiovascular. Nessa situação, a flexão pode aliviar uma parte do sintoma enquanto a panturrilha continua limitada pelo fluxo. Pulsos reduzidos ou uma história vascular consistente não devem ser atribuídos à coluna. Do mesmo modo, um índice vascular alterado não apaga fraqueza, reflexos assimétricos ou uma síndrome neurogênica bem demonstrada.[4]

Comparação clínicaQuatro padrões ao caminhar
ColunaNádega ou perna pesadaEm pé e marcha; assento ou apoio inclinado encurtam a crise
ArtériaPanturrilha sob esforçoParar basta; pulsos e circulação na perna definem o próximo teste
QuadrilVirilha e rotaçãoRigidez articular, sapato e entrada no carro pesam na hipótese
Lombar mecânicaCarga ou movimentoDor mais local, sem ciclo típico de distância e recuperação

Sinais de alerta

Retenção urinária nova, perda de urina por transbordamento, dormência na região entre as pernas ou fraqueza rapidamente progressiva nas duas pernas indicam possível síndrome da cauda equina. Esse conjunto precisa de avaliação no pronto-socorro e ressonância urgente, porque a compressão das raízes que controlam bexiga, intestino e membros inferiores não deve aguardar uma consulta eletiva.[5]

Uma perna ou um pé que fica subitamente frio, pálido, muito doloroso, dormente ou sem pulso sugere interrupção arterial aguda. O destino também é a emergência; quando o transporte imediato não é seguro, o SAMU (serviço de atendimento móvel de urgência) atende pelo 192. Esse quadro é diferente da claudicação vascular crônica, na qual o desconforto aparece com esforço e melhora ao parar.[4]

Pé caído recente, tropeços que aumentam, perda progressiva de força ou queda rápida da capacidade de andar pedem reavaliação antecipada. O exame define se há progressão neurológica e se uma nova imagem pode mudar o encaminhamento para descompressão. Fraqueza antiga e estável tem outra urgência; o dado decisivo é a mudança objetiva em relação ao funcionamento anterior.[1]

Exame físico

Na história, transformo “dói ao andar” em uma medida. Eu registro quantos minutos ou metros passam até o primeiro sintoma, onde ele começa, qual lado domina, se a pessoa precisa apenas parar ou realmente sentar, quanto demora para recuperar e qual tarefa foi perdida. Andar até o mercado, permanecer numa fila e descer uma ladeira representam demandas diferentes. Esses dados formam a linha de base para comparar tratamento e progressão.[1]

No exame neurológico, comparo força de quadril, joelho, tornozelo e dedos, sensibilidade por territórios, reflexos patelar e aquileu, equilíbrio e padrão da marcha. A estenose pode produzir sinais de várias raízes ou um exame normal quando a pessoa está deitada e sem sintomas. Se a queixa aparece apenas depois de esforço, repetir força, sensibilidade e marcha após uma caminhada controlada pode revelar uma mudança que não estava presente no repouso.[1]

No exame vascular, palpo os pulsos femoral, poplíteo, tibial posterior e dorsal do pé nos dois lados e observo temperatura, cor, enchimento capilar, pele, pelos, feridas e cicatrização. Um pulso fraco aumenta a prioridade da investigação arterial. Um pulso palpável reduz algumas possibilidades, mas não exclui obstrução durante o esforço. A combinação entre sintomas e achados físicos determina quando medir o índice tornozelo-braquial.[4]

No quadril, comparo rotação interna, flexão e movimentos combinados, procurando reproduzir a dor habitual na virilha ou na coxa. Limitação dolorosa, marcha que poupa a perna e dificuldade para calçar sapatos deslocam a investigação para a articulação. Palpar a região lateral avalia tendões e bursa, mas sensibilidade isolada não explica automaticamente toda a limitação da marcha. Coluna e quadril podem contribuir em proporções diferentes no mesmo paciente.[1]

Exames complementares

Imagem da coluna

A ressonância lombar é o principal exame anatômico quando a limitação persiste apesar do tratamento inicial, existe déficit neurológico ou está sendo considerado um procedimento. Ela mostra discos, ligamento amarelo, facetas, canal, recessos, forames e o contato com as raízes. O nível e o tipo de compressão precisam corresponder ao lado, ao território e ao padrão funcional observado no exame.[5]

Radiografias feitas em pé mostram alinhamento, redução de espaço discal, artrose, escoliose e espondilolistese sob carga. Imagens em flexão e extensão verificam se uma vértebra se desloca entre posições, quando essa informação mudaria o planejamento cirúrgico. O raio X não mostra diretamente a raiz comprimida nem substitui a ressonância para avaliar o canal. Ele responde a perguntas sobre arquitetura óssea e estabilidade.[1]

A tomografia detalha melhor osteófitos, facetas e outras estruturas ósseas. Entra quando a ressonância é contraindicada, sofre muita interferência de material metálico ou deixa uma dúvida relevante para o procedimento. A mielotomografia combina contraste no canal com tomografia e pode delinear o contorno neural, mas é invasiva e fica reservada a situações selecionadas. Peço tomografia ou mielotomografia quando o resultado pode mudar uma decisão clínica.[1]

Nervos e circulação

A eletroneuromiografia avalia sinais de comprometimento de raízes e nervos periféricos. Ela não mede o canal e não confirma a claudicação neurogênica isoladamente. Torna-se útil quando fraqueza ou dormência também podem vir de polineuropatia (comprometimento de vários nervos periféricos), de uma lesão isolada de nervo ou de radiculopatia focal, que afeta uma raiz específica. Também ajuda quando sintomas e imagem não apontam para o mesmo nível. Eu peço o exame para responder a essa dúvida de localização; alterações crônicas sem correspondência clínica podem não mudar o tratamento.[1]

Quando a história ou os pulsos sugerem doença arterial periférica, o índice tornozelo-braquial compara a pressão sistólica, a pressão máxima de cada batimento, no tornozelo com a pressão do braço. Um valor anormal sustenta obstrução arterial e direciona ultrassom vascular ou avaliação especializada conforme a gravidade. Artérias muito calcificadas podem ficar pouco compressíveis e produzir um resultado artificialmente alto; nessa situação, medidas adicionais, como o índice dedo-braquial, entram na investigação vascular.[4]

Se a dor de esforço continua suspeita para circulação e o índice em repouso é normal ou limítrofe, a medida após exercício aumenta a capacidade de detectar redução de fluxo. Uma esteira também documenta distância, local do sintoma e recuperação. Comparar caminhada ereta com bicicleta ou caminhada apoiada fornece pistas posturais para estenose, mas não substitui pulsos, índice vascular ou imagem.[4]

Escolha do exameO que cada exame avalia
RaízesForça, reflexos e sensibilidadeDéficit antes ou depois da marcha
CirculaçãoPulsos e índice vascularRepouso normal pode exigir exercício
QuadrilRotação e dor inguinalImagem dirigida à articulação
Anatomia lombarRessonância e radiografiaCompressão, alinhamento e estabilidade

Reabilitação

Objetivo do programa

Na claudicação neurogênica sem déficit progressivo, o tratamento inicial combina explicação do diagnóstico, exercício planejado, prática em casa e, em casos selecionados, terapia manual. A explicação tem função concreta: ajudar a pessoa a reconhecer o próprio limite inicial, diferenciar desconforto transitório de perda neurológica e registrar a resposta. A reabilitação trabalha condicionamento, controle de carga, força, equilíbrio e eficiência, para que a pessoa permaneça em pé e caminhe por mais tempo.[6]

Componentes

O programa costuma reunir quatro componentes. Exercícios em flexão ou em posições toleráveis reduzem temporariamente a provocação neural. Bicicleta ou outra atividade aeróbica compatível desenvolve capacidade cardiovascular sem exigir extensão lombar contínua. Fortalecimento de tronco, quadris e pernas melhora sustentação e transferência de carga. Mobilidade de quadril e coluna é trabalhada quando uma restrição específica altera a marcha. O exame define a combinação, e nem todo paciente precisa dos quatro.[7]

A bicicleta ergométrica é uma opção frequente porque combina flexão relativa e exercício aeróbico. A caminhada intervalada com apoio permite treinar a própria tarefa em blocos, enquanto exercícios de força trabalham levantar, subir degraus e controlar joelho e quadril. Conforme a tolerância aumenta, o programa reduz a dependência do apoio e aproxima o treino do ambiente real. A flexão serve para dosar os sintomas enquanto capacidade e controle são reconstruídos.[7]

Dose e progressão

Série, frequência e duração são definidas para cada pessoa. A resposta depende da limitação inicial, de outras doenças, do equilíbrio e da causa dominante. O programa começa com uma carga que reproduza de forma controlada a tarefa limitada, sem deixar piora sustentada ou déficit, e a dose aumenta quando o tempo até os sintomas e a recuperação melhoram em medições repetidas.[7] Os estudos combinam exercícios e doses diferentes, e o ganho na distância de caminhada não foi consistente.[14] Por isso, o acompanhamento se apoia na capacidade funcional medida em cada paciente.

A progressão usa o mesmo teste de entrada. Se o paciente começava a sentir peso após cinco minutos, o acompanhamento registra quando o sintoma inicia, quão longe ele consegue seguir, quanto demora para recuperar e se completa a tarefa-alvo.

A força de dorsiflexão (o movimento de levantar a parte da frente do pé e os dedos), o equilíbrio e a marcha também são repetidos. Aumento sustentado da distância com exame estável permite elevar tempo, resistência ou inclinação. Fraqueza nova, piora que persiste depois da sessão ou queda clara da marcha reduzem a carga e antecipam a reavaliação diagnóstica.[6]

Terapia manual

A terapia manual pode ser acrescentada quando rigidez de quadril, coluna torácica ou segmentos lombares limita o exercício, ou quando técnicas de mobilização reduzem os sintomas o suficiente para treinar. Um programa que juntou terapia manual e exercício individualizado melhorou função e caminhada, mas outros programas também trouxeram ganho. Eu a mantenho como complemento quando o ganho aparece numa medida funcional.[8]

Progressão funcionalDa medida inicial à marcha útil
01MedirTempo, distância, recuperação e tarefa perdida
02CondicionarBicicleta ou esforço tolerável sem déficit
03FortalecerTronco, quadris, pernas e equilíbrio
04TransferirMarcha, fila, ladeira ou destino real

Acupuntura

A acupuntura médica entra na claudicação neurogênica como complemento da reabilitação. O alvo são os sintomas que impedem o treino, e o exercício continua sendo a base do plano. O benefício possível é sobre dor e função no curto prazo; não há ganho estabelecido na distância de caminhada.[14]

Por isso, enquanto as sessões acontecem, distância, tempo em pé e tarefa-alvo continuam sendo medidos. Na reavaliação, comparo essas medidas com as de entrada. A acupuntura permanece no plano quando reduz os sintomas o suficiente para o treino progredir e esse ganho aparece na medida funcional.

Medicamentos

Nenhuma opção farmacológica se mostrou claramente superior para recuperar a caminhada.[14] Na escolha, pesam idade, fígado, rins, pressão, risco de quedas, sedativos em uso e interações. Quando testo um remédio, defino antes o ganho esperado, como maior tolerância em pé ou redução de dor que permita progredir o exercício. O teste só continua se esse ganho aparecer.

Anti-inflamatórios

Anti-inflamatórios não esteroides não são recomendados como tratamento de rotina da claudicação por estenose.[6] Em pessoas com 65 anos ou mais, esses medicamentos aumentam o risco de sangramento ou úlcera no estômago e no intestino, de lesão renal e de elevação da pressão.

O risco digestivo é maior acima dos 75 anos e com uso de corticoide sistêmico, anticoagulante ou antiagregante, medicamento que reduz a agregação das plaquetas, como o ácido acetilsalicílico.[13] Uma dor musculoesquelética que coexiste precisa de diagnóstico e análise de risco próprios; o anti-inflamatório não entra como tratamento da claudicação.

Gabapentina e pregabalina

Gabapentina e pregabalina são gabapentinoides, uma classe útil em alguns diagnósticos neuropáticos, o que não garante benefício para claudicação por estenose. Num estudo recente com pessoas com estenose confirmada e sintomas crônicos, nenhuma das duas melhorou distância de caminhada, claudicação ou função mais do que um comprimido inativo, e tontura e sedação foram mais frequentes.

Um laudo de compressão, portanto, não justifica iniciar ou manter essa classe sem resposta mensurável. Essa conclusão vale para a claudicação e não se transfere automaticamente para neuralgia, neuropatia diabética ou outra indicação distinta.[9]

Duloxetina e tricíclicos

A duloxetina, um antidepressivo que age sobre a serotonina e a noradrenalina e também é usado no tratamento de dor crônica, pode ser considerada quando dor crônica e características neuropáticas coexistem, mas o benefício específico para a claudicação neurogênica é muito incerto.[6] Doença hepática crônica, insuficiência renal grave, tombos causados por pressão baixa e combinações que aumentem serotonina ou sangramento mudam a escolha. No acompanhamento, observo pressão, tontura, tolerância ao remédio e ganho funcional.[17]

Um antidepressivo tricíclico também pode ser discutido em caso selecionado. Em pessoas idosas, amitriptilina e nortriptilina acrescentam sedação, queda de pressão ao levantar e efeitos anticolinérgicos, como boca seca, constipação, confusão ou retenção urinária. História de quedas, dificuldade cognitiva, constipação importante e outros medicamentos anticolinérgicos tornam essa classe menos adequada.[13]

Opioides e relaxantes musculares

Opioides e relaxantes musculares não tratam o estreitamento e não têm função rotineira na claudicação crônica.[6] Com opioides, constipação, sonolência, confusão, depressão respiratória, tolerância e dependência física exigem atenção; álcool, benzodiazepínicos e outros sedativos ampliam o risco respiratório. O acompanhamento compara estado de alerta, efeitos adversos e ganho sustentado de função, e o uso prolongado não deve ser interrompido de forma abrupta.[18]

Em pessoas idosas, relaxantes usados para queixas musculoesqueléticas, como ciclobenzaprina e carisoprodol, são mal tolerados por sedação, efeitos anticolinérgicos e maior risco de fratura. Essa observação não se aplica automaticamente aos remédios usados para espasticidade, a rigidez muscular de origem neurológica. Quando o paciente já usa essa classe, a revisão compara risco e ganho funcional antes de definir a mudança.[13]

Injeção epidural

Como age

A injeção epidural coloca anestésico local e, em muitos protocolos, corticoide no espaço ao redor das raízes. Ela pode aliviar sintomas, mas não remove osso, faceta aumentada, ligamento espessado ou deslizamento vertebral.

Indicação

A epidural é uma opção seletiva. Foi estudada em pessoas com estenose central confirmada pela imagem e dor ou incapacidade nas pernas, e esses resultados não se transferem para a dor lombar mecânica isolada.[10] Antes de indicar, confirmo a síndrome clínica, o alvo anatômico e, na imagem, se há espaço epidural adequado para posicionar a agulha.[15]

Benefício esperado

Quando aparece, o benefício é limitado. Os estudos separam o curto prazo, até três meses, do longo prazo, a partir de seis meses. Em parte dessas medições, a incapacidade pode ter diminuído de forma modesta; não há dados suficientes para afirmar alívio consistente da dor, e os dados de longo prazo são poucos.[11] No curto prazo, o alívio da dor com corticoide não se mostrou claramente maior que o do placebo, e não há ganho comprovado na distância que a pessoa consegue caminhar.[14] Além da escala de dor, acompanho a capacidade de ficar em pé e de caminhar.

Não há intervalo obrigatório, número padrão de aplicações nem série automática para estenose lombar.[11] Registro a resposta pela função que motivou o procedimento, e a ausência de ganho encerra a justificativa para repetir por rotina.[16]

Riscos e cuidados

Estenose grave em vários níveis não é, por si só, contraindicação absoluta, mas os estudos de segurança nessa situação são pequenos e os riscos do procedimento continuam presentes: punção da dura-máter, a membrana que envolve as raízes nervosas, sangramento, infecção ou lesão neurológica. Dor intensa ou sintoma neurológico novo durante a aplicação exige avaliação imediata.[15]

Depois do procedimento, dormência, fraqueza ou dor novas que persistem ou pioram, febre, sinais de infecção e dor de cabeça intensa ou persistente exigem contato rápido com a equipe. Perda progressiva de força ou sensibilidade pede avaliação de urgência.[16]

Tratamento vascular e cirurgia

Quando a limitação vem de doença arterial periférica, o tratamento muda de especialidade e de objetivo. O cuidado vascular inclui controle intensivo do risco cardiovascular, tratamento medicamentoso conforme indicação e exercício estruturado para claudicação.

Se a marcha continua muito limitada apesar do tratamento recomendado, a equipe vascular avalia a anatomia arterial e a possibilidade de revascularização, isto é, desobstruir a artéria ou fazer uma ponte para contornar o trecho fechado. Infiltrar ou operar a coluna nessa situação não corrige a circulação; por isso, investigo a origem vascular antes de um procedimento lombar.[4]

Descompressão

A descompressão lombar entra quando a claudicação e a perda funcional continuam relevantes, a imagem mostra compressão capaz de explicar o quadro e um tratamento não cirúrgico adequado não devolve capacidade suficiente. A decisão não depende de suportar uma quantidade predeterminada de dor nem de esperar déficit permanente. Ela compara a limitação atual, a trajetória, os riscos clínicos, as metas do paciente e a probabilidade de o alvo anatômico ser realmente responsável pela marcha reduzida.[1]

Mesmo quem já é candidato à cirurgia pode melhorar com um programa não cirúrgico bem executado. Num estudo que comparou descompressão com fisioterapia estruturada, os dois grupos melhoraram, mas muitos dos que começaram pela fisioterapia acabaram operados, e por isso não dá para tratar as duas estratégias como equivalentes. A cirurgia continua como opção quando a recuperação não é suficiente. Assim, antes da decisão, registro qual tratamento foi realmente feito, com qual dose e qual função permaneceu limitada.[12]

Átrio da clínica com parede de tijolos vazados, escada e claraboia
Tijolos vazados e claraboia do átrio.

Na descompressão, parte da lâmina, da faceta ou do ligamento é removida para liberar as raízes no nível comprometido. O benefício esperado costuma ser maior para dor, peso, dormência ou fraqueza nas pernas e para a capacidade de caminhar do que para a dor lombar axial isolada, isto é, dor centrada na própria lombar sem predomínio nas pernas. Dormência antiga ou perda de força prolongada pode recuperar de forma incompleta. Alinhar a expectativa ao sintoma-alvo evita interpretar a persistência de outra dor lombar como falha total de uma cirurgia que melhorou a claudicação.[1]

Fusão

A fusão não acompanha automaticamente toda descompressão. Ela é considerada quando existe instabilidade demonstrada, espondilolistese móvel, deformidade relevante ou quando a quantidade de osso que precisa ser retirada criaria instabilidade. Acrescentar fusão aumenta o porte da operação, o tempo de recuperação e alguns riscos. Radiografias em carga, imagens dinâmicas e planejamento do nível ajudam a decidir se basta liberar as raízes ou se também é necessário estabilizar a coluna.[1]

Próxima decisãoTratamento para cada causa
Neurogênica estávelReabilitação medidaRemédio e epidural continuam só se melhorarem a função
ArterialAvaliação vascularRisco cardiovascular, exercício e circulação na perna
Compressão persistenteDescompressão seletivaSintomas, função e imagem no mesmo nível
InstabilidadeFusão avaliada à parteNão acompanha toda cirurgia de canal

Reavaliação

Na reavaliação, repito medidas que representam a vida do paciente: distância ou tempo até os sintomas, permanência em pé, duração da recuperação e capacidade de completar uma tarefa definida. O exame compara força, sensibilidade, reflexos, equilíbrio e marcha. A escala de dor complementa essas medidas. Uma pessoa pode manter algum desconforto e, ainda assim, dobrar a distância útil; outra pode relatar dor menor porque deixou de caminhar. Os dois resultados pedem interpretações diferentes.[6]

Quando a tolerância aumenta de modo sustentado, a tarefa-alvo volta e o exame permanece estável, a reabilitação progride. Quando não há ganho, verifico se a carga foi suficiente, se o programa foi executado, se efeitos de medicamentos limitaram o treino e se a hipótese continua coerente. Dor de panturrilha que não muda com a postura, virilha cada vez mais rígida ou nova assimetria neurológica mudam a investigação e o plano seguinte.[6]

Qualquer sinal novo listado em Sinais de alerta segue o destino indicado ali. Na ausência deles, o intervalo da reavaliação depende da intensidade do programa e da função medida. A cada retorno, os dados definem o passo seguinte: continuar e progredir, rever o diagnóstico, interromper uma opção ineficaz ou discutir procedimento.[1]

Referências

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  3. Nadeau M, Rosas-Arellano MP, Gurr KR, et al. The reliability of differentiating neurogenic claudication from vascular claudication based on symptomatic attributes. Can J Surg. 2013;56(6):372-377. Fonte (abre em nova aba).
  4. Gornik HL, Aronow HD, Goodney PP, et al. 2024 ACC/AHA Guideline for the Management of Lower Extremity Peripheral Artery Disease. J Am Coll Cardiol. 2024. DOI: 10.1016/j.jacc.2024.02.013. Fonte (abre em nova aba).
  5. American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria Low Back Pain. Revised 2021. Fonte (abre em nova aba).
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  2. Comer C, Williamson E, McIlroy S, et al. Exercise treatments for lumbar spinal stenosis. Clin Rehabil. 2024;38(2):201-221. DOI: 10.1177/02692155231201048. Fonte (abre em nova aba).
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