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Como o corticoide age
Corticoide é um medicamento anti-inflamatório. Na infiltração, a agulha leva o medicamento a um compartimento definido: uma articulação, uma bursa, que é uma pequena bolsa de deslizamento junto a tendões, ou a bainha que envolve um tendão. O que ele oferece é uma janela com menos inflamação e menos dor, que em muitas articulações e bursas é maior nas primeiras semanas e diminui ao longo de meses. O medicamento age na inflamação e não trata ruptura, desgaste da cartilagem ou instabilidade.[1]
Os riscos mudam conforme o alvo e o número de repetições. No local, o produto pode afinar a gordura e alterar a cor da pele quando fica superficial, e pode reduzir a resistência do tendão quando é injetado dentro dele. No joelho, aplicações frequentes se associaram a maior perda de cartilagem. Em quem tem diabetes, a glicose costuma subir de forma transitória. Os eventos neurológicos graves descritos são raros e pertencem à via epidural da coluna. Por isso, na avaliação, eu defino qual compartimento produz a dor e que tarefa a janela anti-inflamatória precisa destravar.
O alívio das primeiras horas pode vir do anestésico associado ao corticoide. O efeito do corticoide aparece depois e pode vir precedido de uma piora passageira da dor. Melhorar nas primeiras horas, sozinho, não confirma a origem da dor, porque o líquido pode se espalhar para estruturas vizinhas, a dor tem variação natural e outros tratamentos seguem em curso. Peço ao paciente que anote três coisas: o alívio das primeiras horas, quando começou o efeito posterior e quanto durou, e qual tarefa mudou. Essa sequência orienta a próxima decisão.[1]
Alvos diferentes
Articulação, bursa e bainha são alvos diferentes, com indicação, dose e técnica próprias. Na articulação, a decisão pode envolver doença inflamatória ou artrose com sinovite, a inflamação da membrana que reveste a articulação por dentro. Na bursa, o quadro precisa corresponder à bolsa e ao tendão vizinho: aliviar só a bursa, sem tratar o tendão ao lado, tende a deixar intacta a sobrecarga original. Na bainha, o medicamento fica ao redor do tendão e nunca dentro das suas fibras.[1]
Quando a articulação tem derrame, a aspiração pode vir antes de qualquer corticoide. A análise do líquido ajuda a separar cristal, infecção e inflamação enquanto o diagnóstico ainda está aberto, e cada resposta leva a uma conduta diferente. O ultrassom melhora a visualização de vários alvos e pode aumentar a precisão das infiltrações guiadas. A imagem mostra onde está o compartimento e quais estruturas a agulha precisa evitar; a história e o exame mostram se aquele compartimento explica a dor. Por isso comparo o achado de imagem com o quadro clínico.[3]
A via epidural é outra decisão. A agulha chega ao espaço epidural da coluna para tratar dor ligada a uma raiz nervosa, com anatomia, imagem, formulação e riscos próprios. O que se sabe sobre joelho, ombro ou bursa não prevê o benefício nem o risco dessa via. Bloqueios facetários, sacroilíacos e de ramo medial também são avaliados pelo próprio alvo e pelo procedimento planejado.[4]
Benefício esperado
O tamanho do alívio depende do diagnóstico, da dose e de quem recebe a aplicação. Joelho com artrose e sinovite, ombro doloroso, dedo em gatilho e bursites têm resultados diferentes. Em algumas condições o benefício médio se concentra nas primeiras semanas; em outras, a vantagem é pequena ou incerta. Quando não há resposta, a doença continua possível, mas o alvo, o medicamento ou o mecanismo escolhido perdem força como explicação.[1]
Quando a dor no ombro vem do espaço subacromial, abaixo do acrômio, o corticoide pode trazer benefício de curto prazo, mas o tamanho e a duração do efeito variam. O que acompanho é se elevar o braço, alcançar objetos e dormir continuam mais fáceis depois do efeito inicial. Uma resposta breve pode abrir espaço para o programa funcional do ombro.[5]
A janela vale mais quando a inflamação bloqueia uma etapa que já está pronta para começar. Menos dor no joelho pode permitir caminhar e fazer exercício; menos sinovite no ombro pode liberar amplitude de movimento. Se nenhuma etapa pode começar durante a janela, a indicação fica mais fraca. Por isso combino, antes da agulha, qual tarefa precisa mudar e quando vamos medi-la de novo.[1]
Dose e repetição
Busco a menor dose efetiva, porque doses maiores nem sempre acrescentam benefício em articulações e outros alvos. Não existe um número universal: preparação, concentração, volume, estrutura tratada, doença e aplicações anteriores mudam a escolha.[1]
Os produtos não são intercambiáveis só porque pertencem à mesma classe: dois frascos com nomes parecidos podem ter concentrações e vias autorizadas diferentes. Por isso anoto o produto exato e a dose, e confiro as advertências na bula profissional vigente, que no Brasil pode ser consultada no Bulário Eletrônico da Anvisa, a agência que regula medicamentos no país. A bula confirma a identidade do produto e suas advertências; ela não mostra, sozinha, que uma via ou uma indicação traga benefício.[2]

Não existe um máximo anual universal. A decisão de repetir depende do que a aplicação anterior entregou: quanto durou, que ganho funcional trouxe, se houve evento adverso e quanto corticoide a pessoa já recebeu em outros locais. Alívio de poucas horas, ou nenhum, enfraquece a razão para repetir o mesmo produto no mesmo alvo. Quando houve melhora relevante, antes de uma nova aplicação avalio por que o efeito terminou e que etapa concreta a nova janela vai permitir. A repetição não segue calendário fixo, e a troca de alvo passa por nova avaliação.[1]
Somo todo o corticoide que a pessoa recebe: comprimidos, bombinhas inalatórias, pomadas e injeções feitas por outras equipes. Essa soma importa para a glicemia, para o osso e para a supressão hormonal, isto é, a redução da produção natural de cortisol pelo corpo, embora o risco individual varie entre produtos e pacientes. Uma nova aplicação feita antes de observar o efeito máximo da anterior impede saber quanto ela rendeu.[6]
Glicemia e diabetes
Em quem tem diabetes, a glicose costuma subir de forma transitória depois de uma infiltração na articulação com corticoide, e o tamanho da subida varia de pessoa para pessoa. O pico também varia e, em muitos casos, aparece entre 24 e 72 horas; por isso a glicemia é acompanhada por até uma semana, e um valor normal no primeiro dia não encerra o acompanhamento.
Esses dados são poucos e vêm apenas de infiltração dentro da articulação; em bursa, bainha ou coluna, o momento e o tamanho dessa subida são menos conhecidos, e os estudos não definem ajuste de remédio nem um valor universal de urgência.[7]
Antes da aplicação, aviso sobre a possibilidade dessa elevação transitória, em especial nos primeiros três dias, e combino o plano com a equipe que cuida do diabetes, sobretudo quando o controle já está abaixo do ideal. O plano diz quem mede, com que frequência, quem recebe os valores e como agir se a curva sair do combinado.
Uma glicose alta sem sintomas e um quadro de descompensação do diabetes são situações diferentes, e o plano precisa prever as duas. Ajuste de insulina ou de outros remédios para diabetes é decidido por essa equipe, com metas individuais. Sem acesso para medir a glicose ou sem orientação para uma elevação importante, eu reconsidero a aplicação eletiva.[3]
Tendão, pele e cartilagem
Evito injetar dentro do tendão, porque o corticoide pode afetar a estrutura e a resistência das fibras. Mesmo uma aplicação ao redor dele exige alvo preciso e retorno gradual à carga. Afinamento da gordura e alteração da cor da pele podem aparecer quando o produto fica superficial ou extravasa; esses eventos foram descritos em injeções fora da articulação, e o local, a profundidade e as aplicações anteriores mudam esse risco.[8]
Depois de uma aplicação perto do tendão, menos dor não significa força máxima liberada. O tendão volta à carga em etapas, observando dor, função e qualquer perda de força. Isso não quer dizer que toda injeção junto ao tendão cause ruptura; os dados disponíveis reúnem eventos variados e não permitem estimar a frequência. O cuidado técnico está em evitar o interior das fibras e reduzir aplicações repetidas no mesmo ponto.[8]
Em um estudo com pessoas com artrose e sinovite no joelho, triancinolona 40 mg aplicada a cada doze semanas durante dois anos levou a maior perda de volume de cartilagem do que a solução salina, sem vantagem na dor. Esse resultado vale para aquela dose, aquela frequência e aquela população, e não mostra que uma aplicação isolada danifique a cartilagem. Mostra que repetir com frequência não é neutro, e por isso, antes de uma nova dose no joelho, pergunto quanto a anterior rendeu e se a estrutura mudou.[9]
Em quadril e joelho, foram descritos casos de artropatia rapidamente progressiva, um desgaste acelerado da articulação, além de osteonecrose e fratura do osso logo abaixo da cartilagem depois de infiltrações, sem relação causal nem frequência definidas. Antes da aplicação, procuro doença estrutural que possa explicar uma dor intensa; depois dela, uma piora rápida é investigada.[10]
Infecção e cirurgia
Pele infectada no trajeto da agulha ou suspeita de infecção dentro da articulação contraindicam a infiltração até que o quadro seja esclarecido e tratado, porque ele deixa de ser uma inflamação mecânica comum. A suspeita dentro da articulação pede investigação, e a aspiração com análise do líquido ajuda a distinguir infecção, cristal e outras inflamações. O procedimento é feito com técnica asséptica.[3]
Se algo piorar depois de uma aplicação em bursa ou perto de tendão, informe ao serviço qual compartimento foi tratado, para que a avaliação corresponda ao procedimento realizado.[1]
Quando há prótese de quadril ou joelho planejada, uma infiltração na mesma articulação e perto da data da cirurgia precisa ser discutida com o cirurgião, porque o risco de infecção da futura prótese entra na conta. Esse cuidado vale para a mesma articulação antes dessa cirurgia; os dados não mostram o mesmo risco em outras operações, no outro membro ou em injeções em partes moles.[11]
Infiltrações na coluna
Na coluna, a infiltração epidural é considerada quando há dor radicular, a dor que segue o trajeto de uma raiz nervosa para o braço ou a perna, como na dor ciática, ou outra indicação compatível. Com o diagnóstico confirmado e a via escolhida, preparação, trajetória, imagem e consentimento são definidos para aquele procedimento. Bloqueio facetário, de ramo medial, sacroilíaco e radiofrequência têm alvos e decisões próprios.[4]
A seleção leva em conta o padrão radicular, a duração, a imagem e o tratamento anterior. Mesmo quando a indicação é adequada, o benefício esperado é limitado e precisa ser comparado ao cuidado sem injeção e à evolução do déficit neurológico. Meço o resultado no território da raiz e na função combinada antes: melhorar a dor lombar sem mudança na dor irradiada não confirma que a epidural atingiu o problema. Se surgir perda de força ou outra compressão relevante, a avaliação cirúrgica volta a ser prioridade.[4]
A via epidural tem um alerta próprio: depois de corticoide aplicado no espaço epidural foram descritos eventos neurológicos raros e graves, como infarto da medula espinhal, paralisia, acidente vascular cerebral, perda visual, convulsão e morte.[12]
Alternativas ao corticoide
Revisão do diagnóstico e do alvo
Quando o corticoide não oferece uma boa relação entre benefício e risco, a primeira alternativa é revisar o diagnóstico e o alvo. Articulação, bursa e região ao redor do tendão são procedimentos diferentes, e trocar de produto sem corrigir um alvo errado não resolve a dor. Carga, exercício, órtese, medicamento ou cirurgia são escolhidos pela condição e pelo alvo confirmados.[1]
Exercício e carga
Na artrose confirmada do joelho, o exercício é a base do tratamento. Quando a infiltração entra, ela pode servir para permitir que o exercício aconteça, e uma meta funcional definida antes mostra se o alívio compensou o risco e a exposição. Se a dor volta porque a capacidade do tecido e a carga do dia a dia não mudaram, repetir o anti-inflamatório trata apenas a recorrência. Na reavaliação, comparo a tarefa combinada antes e depois.[14][1]
Aspiração do derrame
Quando a articulação tem derrame e existe uma pergunta clínica relevante, retirar o líquido pode apoiar a análise ou aliviar a pressão em situações selecionadas. A aspiração não trata a causa. Antes dela, defino qual articulação será abordada, se o objetivo é diagnóstico, alívio ou ambos, e qual resultado vai mudar o plano, já que cristal, infecção e inflamação levam a caminhos diferentes.[3]
Outras aplicações no joelho
Na artrose do joelho, outras substâncias podem ser aplicadas na articulação, como o ácido hialurônico e o plasma rico em plaquetas, preparado a partir do sangue do próprio paciente. Para o plasma, uma diretriz descreve possível melhora de dor e função com evidência limitada.
A radiofrequência é um procedimento de outro tipo, sem substância aplicada na articulação; ela pode ser considerada, mas ainda há incerteza sobre a técnica e a segurança de longo prazo.[14][15] Em qualquer uma dessas opções, combino antes qual melhora de dor ou de função vai mostrar que a aplicação valeu a pena. Se ela não aparecer, reviso o diagnóstico, o alvo, o plano de exercício e os riscos antes de somar outro procedimento.
Decisão e acompanhamento
Antes de indicar, eu nomeio o diagnóstico, o compartimento, o objetivo funcional, o produto, a dose, a via e os riscos individuais. Diabetes, anticoagulantes, infecção, aplicações anteriores e cirurgia planejada entram na avaliação de segurança do procedimento escolhido. Uso imagem quando ela melhora a precisão ou a segurança naquele alvo.
No consentimento, falo dos riscos do alvo e dos que vêm da própria pessoa, porque uma aplicação local também pode ter efeitos no corpo todo. Também combino a regra de parada: sem benefício mensurável, com evento adverso ou com mudança do diagnóstico, a mesma aplicação não se repete por rotina.[1]
Quem usa anticoagulante ou antiagregante, os remédios que reduzem a coagulação do sangue, deve informar o nome do remédio, o motivo do uso e a equipe que o prescreveu, e não deve interrompê-lo por conta própria. Em algumas infiltrações articulares periféricas de baixo risco, e em pessoas selecionadas, o remédio pode ser mantido. Isso não define a conduta para epidural, para outras técnicas, para doenças da coagulação ou para combinações de medicamentos. Qualquer mudança é decidida pelas equipes responsáveis, pesando o risco de sangramento e o de trombose no procedimento planejado.[1]

Depois da aplicação, registro separadamente o efeito do anestésico, o início e a duração do efeito do corticoide, a função, a glicemia quando pertinente e qualquer evento. Benefício duradouro pode apoiar observação ou uma nova conversa; efeito breve reduz o rendimento; ausência de resposta reabre a discussão sobre o alvo e o mecanismo. A próxima etapa é decidida por esse registro.[1]
Complicações
Dor leve no local e piora transitória podem acontecer depois da infiltração e devem estabilizar e regredir. Afinamento da gordura ou mudança de cor da pele podem surgir mais tarde e são avaliados na revisão. Depois de uma aplicação perto de tendão, um estalo ou uma fraqueza nova precisam ser examinados.[8]
Depois de infiltração em articulação, dor, calor, inchaço e perda de movimento que aumentam junto com febre ou secreção não esperam a revisão marcada: procure avaliação urgente no mesmo dia para investigar infecção da articulação.[3] Se houver mal-estar geral importante ou sinais de infecção generalizada, a sepse, procure o pronto-socorro ou uma unidade de pronto atendimento (UPA), ou chame o SAMU 192, o serviço público de atendimento móvel de urgência.[13] Leve o nome do produto, a dose, o local e a data da aplicação.
Depois de infiltração epidural, alteração ou perda da visão, formigamento, fraqueza ou dormência súbita, tontura, dor de cabeça intensa ou convulsão exigem atendimento de emergência imediato: chame o SAMU 192 ou vá ao pronto-socorro.[12]
Em quem tem diabetes, valores de glicose fora da faixa combinada durante a semana de acompanhamento pedem contato com a equipe que trata o diabetes, com produto, dose, local e data em mãos.[7]
Referências
- ASRA, AAPM, ASIPP, IPSIS guideline: use and safety of corticosteroid injections in joints and musculoskeletal soft tissue (abre em nova aba)
- ANVISA: Bulário Eletrônico (abre em nova aba)
- EULAR recommendations for intra-articular therapies (abre em nova aba)
- ACR Appropriateness Criteria: Management of Chronic Back Pain, Epidural Steroid Injections (abre em nova aba)
- Cochrane Review: corticosteroid injections for shoulder pain (abre em nova aba)
Ver todas as 15 referências
- Systemic absorption and side effects of locally injected glucocorticoids (abre em nova aba)
- Blood glucose levels following intra-articular steroid injections in patients with diabetes: systematic review (abre em nova aba)
- Adverse effects of extra-articular corticosteroid injections: systematic review (abre em nova aba)
- Effect of intra-articular triamcinolone vs saline on knee cartilage volume and pain (abre em nova aba)
- Intra-articular corticosteroid injections for hip and knee osteoarthritis-related pain: imaging considerations and controversies (abre em nova aba)
- Corticosteroid injection before total joint arthroplasty and infection risk: meta-analysis (abre em nova aba)
- FDA Drug Safety Communication on epidural corticosteroid injection (abre em nova aba)
- SANJO guideline: management of septic arthritis in native joints (abre em nova aba)
- American College of Rheumatology/Arthritis Foundation. 2019 Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. (abre em nova aba)
- AAOS. Management of Osteoarthritis of the Knee (Non-Arthroplasty), third edition. 2021. (abre em nova aba)
