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Condro­cal­ci­nose no joelho: pseudogota, exame e tratamento

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Térreo do átrio da clínica com escada, ripas de madeira, portas dos consultórios e estante chinesa de madeira
Neste artigo

O que a condrocalcinose significa

Condrocalcinose é a calcificação da cartilagem identificada na radiografia. No joelho, ela costuma levantar a possibilidade de deposição de cristais de pirofosfato de cálcio, conhecida pela sigla CPPD. Esses depósitos podem permanecer silenciosos ou desencadear uma inflamação intensa, com dor, calor e inchaço em poucas horas ou dias.

A crise inflamatória é chamada de artrite aguda por cristais CPP; pseudogota é um nome tradicional ainda conhecido.[4][13] Quando a CPPD não provoca sintomas, os depósitos não precisam de tratamento específico.[6] Uma artrose sintomática ou uma doença metabólica associada podem precisar de cuidados próprios, mesmo que os depósitos permaneçam.[14]

Durante a crise, a membrana que reveste a articulação reage aos cristais e produz mais líquido. A combinação de inflamação e derrame torna doloroso dobrar o joelho, esticá-lo ou apoiar o peso. Punhos, tornozelos e outras articulações também podem ser atingidos. Na gota, uma reação semelhante ocorre contra cristais de urato, relacionados ao ácido úrico. Na pseudogota, o cristal é outro: o tratamento controla a inflamação, mas ainda não existe terapia estabelecida capaz de dissolver os depósitos de pirofosfato. Essa diferença muda principalmente a prevenção das próximas crises.[15]

Quando a calcificação explica a dor

A interpretação começa pelo comportamento do joelho. Dor que apareceu rapidamente, com calor, derrame e grande dificuldade para movimentar, aponta para uma artrite inflamatória. Dor antiga, mais relacionada à caminhada, escadas e permanência em pé, pode refletir artrose associada. Um joelho com artrose também pode sofrer uma crise de CPPD; nesse caso, há uma mudança reconhecível em relação ao desconforto habitual. O exame procura justamente essa mudança, além de verificar quais movimentos doem e se o inchaço está dentro da articulação.[4]

Uma queda ou torção recente desloca a investigação para fratura, lesão ligamentar ou meniscal, conforme o mecanismo e o exame físico. Já um joelho quente e muito doloroso exige considerar infecção, mesmo quando o raio X mostra condrocalcinose. Cristais, artrose e infecção não são possibilidades mutuamente exclusivas. Por isso, uma calcificação antiga contribui para formular a hipótese, mas não resolve a causa de um episódio novo. Febre e mal-estar reforçam a suspeita infecciosa; a ausência de febre, isoladamente, não a elimina.[3][17]

O tempo também ajuda a diferenciar apresentações. Algumas pessoas têm crises separadas por períodos de melhora; outras mantêm inflamação e limitação entre os episódios. Nesse segundo padrão, avalio a forma crônica da doença e as condições associadas. Fotografias do inchaço anterior, resultados da análise do líquido e a descrição de como o joelho voltou a funcionar podem esclarecer essa evolução.[4][15]

Três situações com condrocalcinose
Depósito sem sintomasO achado pode ser incidental.
Crise com derrameA causa do episódio precisa ser definida.
Dor persistente entre crisesArtrose pode limitar caminhadas; inflamação ativa pode manter calor e derrame.

O que a punção do joelho esclarece

A artrocentese retira líquido da articulação com uma agulha, após limpeza cuidadosa da pele. Se preferir, a pele pode ser anestesiada; combinamos isso antes da punção. O material segue para análise. A microscopia procura cristais; a contagem de células mostra a intensidade da inflamação; a coloração de Gram e a cultura pesquisam bactérias. Cada parte responde a uma pergunta diferente. Quando existe suspeita de infecção, identificar uma bactéria tem prioridade porque o tratamento passa a incluir antibióticos e drenagem apropriada da articulação.[3][10]

Encontrar cristais de pirofosfato no líquido sustenta o diagnóstico de pseudogota, enquanto cristais de urato apontam para gota. A identificação depende da amostra e da experiência de quem a examina, portanto um resultado sem cristais pode precisar ser interpretado junto dos demais achados.

No sentido oposto, encontrar cristais não encerra a pesquisa de infecção quando ela é plausível. Uma articulação pode ter as duas condições ao mesmo tempo. A contagem elevada de glóbulos brancos, chamados leucócitos, no líquido articular também não define, sozinha, se a inflamação veio de cristais ou de bactérias.[3][4]

Dr. Marcus Yu Bin Pai examina a mobilidade do quadril e do joelho de uma pessoa deitada na maca
Exame da mobilidade do quadril e do joelho.

A retirada do líquido tem ainda um efeito físico: um derrame muito tenso aumenta a pressão dentro do joelho, e reduzi-lo pode aliviar a dor.[21] Esse alívio não funciona como teste da causa, pois diferentes tipos de derrame podem melhorar com a aspiração. O líquido também pode voltar a se acumular após a punção.[22] Nessas situações, a resposta à punção orienta o controle do sintoma, enquanto os resultados laboratoriais e a evolução orientam o diagnóstico.[4]

Radiografia, ultrassom e exames de sangue

A radiografia mostra a distribuição das calcificações, o espaço articular e alterações de artrose ou fraturas visíveis. A ausência de condrocalcinose no raio X não exclui depósito de pirofosfato. O ultrassom pode localizar derrame, espessamento inflamatório e depósitos, além de orientar a agulha quando o acesso ao líquido é difícil. No joelho, esses são os dois exames indicados para procurar os depósitos; qual pedir depende da dúvida que permanece após a consulta.[5]

Após uma queda ou torção, a ressonância pode esclarecer uma suspeita de fratura oculta ou lesão interna quando a radiografia não mostra fratura. Ela não é o exame habitual para identificar cristais CPP. Também não há indicação de repetir imagens em série apenas para acompanhar calcificações estáveis. Dor, calor, derrame, amplitude e capacidade de caminhar informam melhor a resposta da crise; uma mudança inesperada pode justificar nova investigação.[5][17]

Os exames sanguíneos completam esse raciocínio. Marcadores inflamatórios podem acompanhar atividade, mas não distinguem com segurança infecção de pseudogota.[3] A creatinina é medida no sangue e, junto de outras informações, ajuda a estimar quanto os rins filtram.[19] Essa avaliação orienta a escolha de medicamentos com menor risco quando a função renal está reduzida.[11] A dosagem de ácido úrico responde a uma questão diferente e não confirma CPPD. Quando a idade de início ou a história sugerem uma associação metabólica, a investigação se amplia de modo dirigido.[12][15]

Como o tratamento da crise é escolhido

O objetivo inicial é reduzir a inflamação o suficiente para recuperar sono, movimento e apoio. A escolha considera quantas articulações estão inflamadas, há quanto tempo a crise começou, quais tratamentos já ajudaram e quais riscos acompanham cada medicamento. Em um único joelho com derrame, pode-se considerar uma abordagem local, como aplicar corticoide dentro da articulação. Quando várias articulações estão envolvidas ou essa injeção não é apropriada, uma alternativa é um medicamento de ação sistêmica: por exemplo, um comprimido que pode reduzir a inflamação em várias articulações.[14]

Doença renal, sangramento digestivo prévio, anticoagulantes, insuficiência cardíaca, diabetes, fragilidade e interações medicamentosas mudam essa decisão. Antes de começar o tratamento, combinamos o que deve melhorar: menos calor e derrame, mais facilidade para apoiar o peso e boa tolerância ao remédio. Se esses sinais persistem ou pioram, reviso o diagnóstico e o tratamento.[14]

Anti-inflamatórios e colchicina

Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como naproxeno e ibuprofeno, reduzem mediadores envolvidos na dor e na inflamação. Podem ser considerados em uma crise quando o perfil de segurança permite. O mesmo grupo pode causar sangramento digestivo, comprometer a função renal e favorecer retenção de líquido. Em uma pessoa idosa com doença renal ou uso de anticoagulante, esses riscos podem tornar outra classe ou via de tratamento mais adequada. A seleção inclui duração limitada e reavaliação da resposta.[14]

A colchicina interfere na resposta das células inflamatórias aos cristais. Ela pode ser usada no episódio agudo e, em casos selecionados, para diminuir a frequência de crises. Sua utilidade depende também do momento de início, da função renal e hepática e dos outros medicamentos em uso. Diarreia, náuseas e dor abdominal podem limitar o tratamento. Interações e dificuldade de eliminar o medicamento aumentam o risco de toxicidade.[14]

Quando a melhora é insuficiente, a reavaliação separa falta de efeito, interrupção por intolerância e mudança do quadro inflamatório. Conferir o que foi usado e por quanto tempo ajuda a decidir entre ajustar ou trocar a classe. Articulação que permanece quente e com derrame exige reconsiderar o diagnóstico, incluindo infecção, antes de tratá-la como pseudogota resistente.[14]

Quando a infiltração ou o corticoide ajudam

Depois de avaliar o líquido e considerar infecção improvável, a aspiração seguida de corticoide intra-articular pode tratar um joelho isoladamente inflamado. A aspiração reduz a pressão do derrame.[21] O corticoide age sobre a inflamação da membrana articular. Concentrar o tratamento na articulação pode ser útil quando medicamentos sistêmicos oferecem maior risco, mas a injeção também exige técnica adequada e avaliação de contraindicações.[6] Diabetes merece atenção porque a glicemia (nível de açúcar no sangue) pode aumentar, inclusive após tratamento local.[10]

Um corticoide tomado por boca, como a prednisona, é uma opção sistêmica quando várias articulações estão inflamadas ou as contraindicações dificultam as demais opções. Ele reduz a inflamação, mas pode elevar a glicemia e a pressão, além de trazer outros riscos conforme dose, duração e condições associadas. A ideia de um curso curto é controlar o episódio e depois verificar a recuperação. Repetir cursos frequentes muda o balanço entre benefício e dano e leva a discutir a prevenção de novas crises.[8][6][14]

Em pessoas idosas internadas com crise recente, cursos curtos de colchicina e de prednisona aliviam a dor de modo parecido; o que muda são os efeitos adversos. A colchicina causa mais diarreia, e a prednisona eleva mais a glicemia e a pressão. Por isso, as outras doenças de cada paciente pesam na escolha.[8][15]

O alvo de cada intervenção
AspiraçãoObtém material e reduz a pressão do derrame.
Medicamento anti-inflamatórioControla a reação da articulação.
ReabilitaçãoRecupera movimento e tarefas prejudicadas pela crise.

Recuperação do apoio e do movimento

Durante a fase mais dolorosa, reduzir temporariamente a carga e usar apoio quando a marcha estiver insegura pode facilitar deslocamentos. Compressas frias protegidas por tecido podem aliviar o desconforto. À medida que o calor e o derrame cedem, o exame verifica quanto movimento e apoio foram recuperados antes de aumentar as atividades. A redução de carga pertence à fase inflamatória; sua duração depende da resposta do joelho.[14]

Quando há artrose associada e a crise aguda já foi controlada, fortalecimento e exercício adaptado ajudam a tratar a limitação que permanece. As tarefas orientam essa adaptação: levantar de uma cadeira pode exigir inicialmente apoio e menor esforço; caminhar fora de casa exige avaliar distância, terreno e escadas. Dor persistentemente maior depois da tarefa e piora da marcha pedem ajuste do plano. Se o joelho volta a ficar quente e inchado, a prioridade é reavaliar a inflamação antes de continuar a progressão.[16][14]

Crises repetidas e investigação de causas

Os depósitos se tornam mais frequentes com o envelhecimento e podem coexistir com artrose. Quando a doença começa mais cedo, tem apresentação extensa ou aparece junto de história familiar e outros achados, cresce a utilidade de investigar associações metabólicas.

Sobrecarga de ferro e alterações de magnésio estão entre as possibilidades, assim como o hiperparatireoidismo: produção excessiva de hormônio das paratireoides, que participa da regulação do cálcio no sangue.[20] Os exames são escolhidos a partir desse contexto. Identificar uma dessas condições pode mudar o cuidado geral, mas sua correção não garante que os cristais já formados desapareçam.[15]

Para episódios recorrentes, a decisão de usar colchicina preventiva considera frequência, intensidade, limitações provocadas e segurança do uso continuado. O acompanhamento verifica se as crises realmente diminuíram e se surgiram efeitos adversos. Inflamação persistente entre as crises pede avaliação especializada: pode haver a forma crônica da doença ou outra artrite associada.

Casos resistentes às opções habituais têm alternativas especializadas, inclusive imunomoduladores, medicamentos que interferem na resposta inflamatória do sistema imune. Eles ficam reservados para situações selecionadas de doença persistente ou resistente, e o benefício nessa doença ainda é pouco estudado.[4]

Escada do átrio da clínica entre a parede de tijolos vazados e as ripas de madeira, com luminárias de papel e luz natural
Escada do átrio da clínica.

A alimentação não tem com a pseudogota a mesma relação que existe entre purinas e gota. Não há uma dieta estabelecida que dissolva os depósitos de pirofosfato. Restrições de cálcio por causa do nome do cristal também não constituem um tratamento da doença. Quando existe dano articular importante, tratar a artrose e recuperar função continua relevante. Uma eventual indicação de prótese depende da limitação e do comprometimento do joelho; a condrocalcinose sozinha não basta para indicá-la.[15][16]

Quando o joelho precisa de avaliação urgente

Um joelho que fica rapidamente quente, inchado e muito doloroso merece avaliação no mesmo dia, sobretudo quando há incapacidade nova de apoiar, febre, calafrios ou mal-estar importante. Confusão, prostração intensa ou rápida piora do estado geral justificam atendimento de urgência imediato. O risco de infecção também ganha peso após cirurgia ou infiltração recente, com ferida próxima, imunossupressão ou prótese. A presença de uma prótese exige uma investigação específica desse contexto.[3][18]

Mesmo uma pessoa que já teve pseudogota pode apresentar uma causa diferente no episódio seguinte. Se o tratamento começou e a dor aumenta, o derrame cresce ou o estado geral piora, a reavaliação deve ser antecipada. Quando a hipótese é infecção, a coleta e análise do líquido orientam uma conduta urgente; o cuidado não deve aguardar a duração habitual de uma crise de pseudogota.[3]

Referências

  1. American College of Rheumatology. Calcium Pyrophosphate Deposition. 2025. (abre em nova aba)
  2. Arthritis Foundation. Calcium Pyrophosphate Deposition. (abre em nova aba)
  3. Ravn et al. Guideline for management of septic arthritis in native joints. 2023. (abre em nova aba)
  4. Cowley e McCarthy. Diagnosis and Treatment of CPPD Disease: A Review. 2023. (abre em nova aba)
  5. Mandl et al. EULAR recommendations on imaging in crystal-induced arthropathies. 2024. (abre em nova aba)
Ver todas as 22 referências
  1. Zhang et al. EULAR recommendations for CPPD. Part II: Management. 2011. (abre em nova aba)
  2. Mayo Clinic. Pseudogout: Diagnosis and treatment. 2026. (abre em nova aba)
  3. Pascart et al. COLCHICORT randomised trial. 2023. (abre em nova aba)
  4. Cleveland Clinic. Pseudogout. 2024. (abre em nova aba)
  5. Uson et al. EULAR recommendations for intra-articular therapies. 2021. (abre em nova aba)
  6. FDA. Colchicine prescribing information: renal impairment and pharmacokinetics. 2023. (abre em nova aba)
  7. Zhang et al. EULAR recommendations for CPPD. Part I: terminology and diagnosis. 2011. (abre em nova aba)
  8. Filippou et al. G-CAN consensus on CPPD labels and definitions. 2026. (abre em nova aba)
  9. Voulgari et al. Recent advances in the therapeutic management of CPPD. Frontiers in Medicine, 2024. (abre em nova aba)
  10. Rosenthal e Ryan. Calcium Pyrophosphate Deposition Disease. New England Journal of Medicine, 2016. (abre em nova aba)
  11. NICE. Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management. NG226, 2022. (abre em nova aba)
  12. American College of Radiology. Acute Trauma to the Knee. Appropriateness Criteria, 2020. (abre em nova aba)
  13. Osmon et al. Diagnosis and Management of Prosthetic Joint Infection. IDSA, 2013. (abre em nova aba)
  14. Maddukuri G; revisão por Jaipaul N. Evaluation of the Patient With Renal Issues. Merck Manual Professional; revisão de março de 2025, atualização de fevereiro de 2026. (abre em nova aba)
  15. Lewis JL III; revisão por Braunstein GD. Hyperparathyroidism. Merck Manual Professional; revisão de junho de 2026. (abre em nova aba)
  16. Webb CW, McLeod G, Nuti R. Injections of the Hip and Knee. American Family Physician. 2024;109(1):61–70. (abre em nova aba)
  17. Zuber TJ. Knee Joint Aspiration and Injection. American Family Physician. 2002;66(8). (abre em nova aba)

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