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Quando a dor pode ser artrose
Dor profunda no ombro, rigidez ao vestir uma roupa ou dificuldade para alcançar uma prateleira podem ser causadas por artrose glenoumeral, a artrose da articulação entre a cabeça do úmero e a cavidade da escápula. A localização da dor e o laudo do raio X, porém, não bastam para confirmar que a artrose é a fonte principal: manguito rotador, capsulite adesiva, articulação acromioclavicular e coluna cervical também podem explicar o sintoma e mudar o tratamento. A consulta junta história, movimento, força e imagem na mesma decisão.[2]
O tratamento procura aliviar a dor e recuperar tarefas como vestir, alcançar uma prateleira e dormir. Mobilidade, força e resposta às atividades orientam a escolha entre fisioterapia, medicamentos, infiltração e avaliação cirúrgica. O plano é definido pela limitação que você tem hoje e pelas outras estruturas que participam da dor.
O que muda na articulação
Na articulação glenoumeral, a cabeça do úmero gira sobre a glenoide. A cartilagem que recobre essas superfícies permite deslizamento com pouco atrito. Na osteoartrose, essa cobertura se altera e o osso logo abaixo pode reagir: o espaço visto na radiografia diminui, aparecem osteófitos e o formato da articulação pode se modificar. Isso explica parte da dor e da perda de movimento.[1]
Há artrose primária, que surge sem um evento único definidor; há artrose depois de fratura, luxação ou cirurgia; e há ombros que parecem “artríticos” por uma lesão extensa e antiga do manguito. Artrite reumatoide, outras artrites inflamatórias e necrose avascular entram em outra conversa clínica. Por isso, informar trauma antigo, episódios de instabilidade, uso prolongado de corticoide, doença inflamatória e cirurgias anteriores evita chamar problemas diferentes pelo mesmo nome.[1]
| Local | Pista de dor | O que o exame avalia |
|---|---|---|
| Glenoumeral | Dor mais profunda, rigidez e perda de rotação | Leva a avaliar cartilagem, alinhamento e função do manguito. |
| Acromioclavicular | Dor bem no topo do ombro | Pode coexistir no raio X, mas ser a fonte principal de dor em outro padrão. |
| Manguito | Fraqueza ou dificuldade de elevar o braço | Uma lesão importante muda exame, imagem complementar e escolha cirúrgica. |
Causas da dor no ombro
A consulta começa com um mapa da dor: ela é profunda ou fica no topo? Apareceu aos poucos ou depois de uma queda? Acorda você? O que parou de ser possível fazer? Depois, o examinador compara os dois ombros, observa a escápula, mede elevação e rotação e testa o movimento ativo e o passivo. Movimento ativo é o que você faz com seus músculos; passivo é o que o examinador consegue mover com os músculos relaxados.[2]
Na artrose glenoumeral, costuma haver dor profunda, estalidos ou crepitação e rigidez que afeta mais de uma direção, especialmente quando se tenta levar a mão para trás ou girar o braço. O achado mais útil é a coerência entre esse padrão, a limitação passiva e a radiografia. Ainda assim, um ombro com artrose no exame pode ter outro gerador de dor ativo naquele momento.[3]
A lesão do manguito rotador costuma chamar atenção quando a fraqueza para elevar ou rodar o braço é maior que a rigidez passiva, sobretudo depois de trauma ou com dor noturna. Capsulite adesiva, ou ombro congelado, tipicamente produz perda acentuada tanto ativa quanto passiva, com uma rigidez capsular desproporcional ao achado de artrose. Dor focal no topo do ombro e sensível ao cruzar o braço pode apontar para a articulação acromioclavicular. Dor que sai do pescoço, vem com formigamento, dormência ou alteração de reflexos pede uma avaliação cervical e neurológica.[3]

Essas diferenças explicam por que dois ombros dolorosos podem receber planos bem distintos. Um exercício que faz sentido para rigidez tolerável pode ser inadequado quando há fraqueza nova após trauma; uma infiltração para dor articular não trata uma dor que nasce no pescoço.[3]
O exame pode identificar mais de uma fonte de dor. Artrose junto de fraqueza do manguito, por exemplo, exige avaliar tanto a articulação quanto a capacidade muscular. A hipótese inicial é acompanhada pela evolução do movimento e das tarefas durante o tratamento. Perda de força ou rigidez crescente pode justificar nova avaliação e imagem dirigida.
| Predomina | O exame procura | Próxima decisão |
|---|---|---|
| Rigidez profunda em várias direções | Movimento passivo, crepitação, radiografia glenoumeral | Confirmar se a articulação explica a limitação. |
| Fraqueza para elevar o braço | Força e integridade funcional do manguito | Investigar manguito quando o padrão for discordante. |
| Rigidez muito marcada ativa e passiva | Padrão capsular e histórico | Considerar capsulite, inclusive coexistente. |
| Formigamento ou dor que vem do pescoço | Exame cervical e neurológico | Investigar a origem cervical da dor. |
Quando não esperar
Radiografia, ultrassom e ressonância
Para suspeita de artrose glenoumeral, as radiografias costumam ser o primeiro exame. Elas mostram osteófitos, redução do espaço articular, esclerose, deformidade e a relação entre a cabeça do úmero e a glenoide. Também ajudam a reconhecer se a alteração está mais na articulação acromioclavicular do que na glenoumeral. O laudo é lido ao lado da dor e do exame: a mesma imagem pesa pouco num ombro que se move bem e pesa muito em quem perdeu função.[3]
Ultrassom e ressonância magnética ajudam quando há suspeita de lesão do manguito, instabilidade do bíceps ou outra causa associada. A tomografia detalha o osso e a deformidade da glenoide, sobretudo no planejamento cirúrgico. A escolha depende da dúvida que permanece após o exame e a radiografia.
Alterações de tendão, bursa ou cartilagem são interpretadas junto da localização da dor, da força e da mobilidade. Um achado pode explicar a limitação, contribuir junto de outra lesão ou ser incidental. Essa distinção orienta o alvo da reabilitação e, quando necessário, da infiltração ou da cirurgia.
| Dúvida clínica | Exame que costuma ajudar | O que pode mudar |
|---|---|---|
| Há sinais de artrose e qual articulação está envolvida? | Radiografia | Confirma a base óssea e orienta a correlação clínica. |
| Há suspeita relevante de manguito ou bíceps? | Ultrassom ou ressonância | Separa componente tendíneo de dor predominantemente articular. |
| Como está a glenoide antes de decidir prótese? | Tomografia | Detalha o osso para o planejamento cirúrgico. |
Fisioterapia e exercícios
Mobilidade para vestir e alcançar
A fisioterapia começa medindo elevação, rotação e atividades difíceis. Mobilidade assistida pode facilitar vestir e alcançar sem exigir força excessiva do ombro doloroso. A amplitude é escolhida pela tolerância; forçar repetidamente o final doloroso pode aumentar a irritação. O programa também considera a força disponível e as tarefas que a pessoa precisa recuperar.
Fortalecimento conforme a irritabilidade
Na fase em que o ombro irrita facilmente, o plano costuma privilegiar mobilidade assistida e controle da escápula dentro de uma faixa tolerável, sem forçar o final doloroso do movimento. Quando essa faixa deixa de provocar piora tardia, pode-se testar carga progressiva para manguito e musculatura da escápula, sempre ligada a uma tarefa que você quer voltar a fazer. A resposta do ombro após cada sessão orienta o aumento da resistência e da amplitude.[2]
Como ajustar os exercícios
Uma forma prática de monitorar o plano é registrar uma tarefa-alvo, a qualidade do sono, a amplitude que se tolera e a reação depois da sessão e no dia seguinte. Dor leve que volta ao basal e permite a mesma função pode ser aceitável; dor que se acumula, reduz o sono ou faz o movimento piorar no dia seguinte pede reduzir uma variável, como amplitude, carga ou volume. Piora sem explicação, nova fraqueza ou perda acelerada de movimento pede reexaminar o diagnóstico antes de insistir no exercício.[2]
| Resposta observada | Leitura prática | Próximo ajuste |
|---|---|---|
| A tarefa-alvo melhora e não há piora tardia | Carga parece tolerável | Manter ou progredir uma variável de cada vez. |
| Dor fica mais intensa até o dia seguinte | O estímulo superou a tolerância atual | Reduzir amplitude, carga ou volume e conferir técnica. |
| Sem tendência de melhora ou com nova fraqueza | Hipótese ou plano podem estar incompletos | Reavaliar exame, adesão e necessidade de imagem. |
Medicamentos para dor
Analgésicos e anti-inflamatórios
Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser uma ponte para dormir, fazer o exame com menos defesa ou participar da reabilitação. A escolha não é padrão: anti-inflamatórios podem ser inadequados em algumas pessoas por risco gastrointestinal, renal, cardiovascular, pressão arterial, anticoagulantes ou outros medicamentos; analgésicos também exigem atenção a dose total e a condições como doença hepática. Por isso, o alívio com um remédio não mostra de onde vem a dor, e o uso prolongado precisa de revisão periódica.[4]
O acompanhamento do medicamento compara sono, movimento e participação nos exercícios, além de efeitos adversos. Se o alívio é insuficiente, curto ou acompanhado de intolerância, a prescrição precisa ser revista. O ganho de conforto pode facilitar a fisioterapia, mas a carga continua sendo ajustada à capacidade do ombro.
Infiltração articular
Corticosteroide dentro da articulação
Uma infiltração intra-articular com corticoide pode ser considerada quando a dor parece vir da articulação e está bloqueando um objetivo claro, como conseguir iniciar mobilidade guiada, dormir ou testar se a fonte de dor é predominantemente glenoumeral. Antes do procedimento, definimos o que será medido depois: uma tarefa, o sono, o movimento ou a capacidade de fazer fisioterapia. Sem esse alvo, fica difícil saber se houve benefício suficiente para justificar repetir a estratégia.[1]
Duração do alívio e riscos
O corticoide não recompõe cartilagem, e a duração do alívio varia entre as pessoas. A indicação precisa considerar diabetes, infecção em curso, cirurgia planejada, uso de anticoagulantes e o diagnóstico diferencial. A técnica e o local da injeção também importam: a dor subacromial, a acromioclavicular e a glenoumeral pedem alvos diferentes.[1]
Ácido hialurônico e outras substâncias
Na artrose glenoumeral, a infiltração de ácido hialurônico não trouxe benefício consistente e, por isso, não faz parte da rotina de tratamento. O plasma rico em plaquetas (PRP) e outras intervenções biológicas não têm comprovação de que regenerem a cartilagem nem de benefício previsível.
| Antes | Depois | O que muda a rota |
|---|---|---|
| Confirmar a hipótese e escolher uma meta funcional | Registrar dor, sono, tarefa e movimento | Alívio sem recuperação da tarefa pede ajuste do plano. |
| Revisar riscos clínicos e medicamentos | Observar efeito adverso e resposta tardia | Efeitos adversos ou pouco benefício pedem revisão da aplicação. |
| Definir se a injeção é ponte para reabilitação | Usar a janela de menor dor para testar o plano | Se a janela não muda a função, rever a hipótese. |
Bloqueio do nervo supraescapular
O bloqueio aplica anestésico próximo de um nervo que transmite parte da dor do ombro. Pode ser discutido quando a dor crônica limita sono e reabilitação, inclusive em pessoas que não desejam ou não podem operar. O alvo fica fora da articulação; a finalidade é analgesia para facilitar movimento e atividades.89
Em pessoas com doença degenerativa do ombro ou artrite reumatoide, dor e incapacidade melhoraram ao longo de 12 semanas de acompanhamento; na artrose glenoumeral isolada, o efeito é menos previsível. A resposta é acompanhada pela tarefa que estava limitada, pelo sono e pela duração do alívio.89
O planejamento revisa alergias, infecção e medicamentos que alteram a coagulação. Podem ocorrer dor local, sangramento, infecção, lesão nervosa ou reação ao anestésico. Há pequeno risco de pneumotórax, acúmulo de ar ao redor do pulmão. O ultrassom ajuda a visualizar a agulha e as estruturas próximas, e a equipe orienta os cuidados após a aplicação.89
Quando discutir cirurgia
A avaliação cirúrgica é indicada quando dor e perda de função continuam relevantes apesar do tratamento não cirúrgico, e o exame confirma a articulação como fonte importante. Sono, higiene, vestuário e trabalho entram nessa decisão. A consulta também avalia manguito, deformidade óssea, condições de saúde e expectativas de recuperação.
Na artrose glenoumeral primária, a artroplastia total anatômica substitui as superfícies articulares preservando a lógica normal de esfera e soquete; a curto e médio prazo, ela costuma aliviar mais a dor e devolver mais função do que a hemiartroplastia. A artroplastia reversa muda a configuração da articulação e pode ser considerada quando há disfunção importante do manguito ou deformidade glenoidal relevante. Exame, imagens e planejamento do cirurgião definem qual opção é adequada.[1][6]

A recuperação de uma artroplastia exige preparo e reabilitação. Condições clínicas associadas aumentam o risco de complicações precoces. A consulta cirúrgica compara o que você não consegue fazer hoje, o que a operação pode razoavelmente melhorar e quais riscos convém reduzir antes.[1]
Levar uma lista curta de prioridades torna essa conversa mais objetiva: dormir sem acordar, conseguir cuidar da casa, voltar a determinada atividade ou manter independência. Também ajuda levar os tratamentos já tentados e o que aconteceu com cada um. A indicação se sustenta quando o benefício esperado para essas prioridades justifica o período de recuperação e os riscos.[1]
Acompanhamento do tratamento
A reavaliação compara a mesma tarefa, como vestir uma camiseta ou alcançar determinada altura, junto da amplitude e da força. Após exercícios, registra-se a reação nas horas seguintes; após infiltração, o início e a duração do alívio. Melhora parcial permite ajustes. Perda de movimento ou de força exige novo exame.
Exercícios e adaptações das tarefas ajudam a manter a autonomia; quando a dor trava a reabilitação, discutimos infiltração ou bloqueio do nervo supraescapular. Quando o ombro permanece incapacitante, a avaliação para prótese esclarece a chance de benefício, os riscos e o período de recuperação.
Referências
- AAOS. Management of Glenohumeral Joint Osteoarthritis Evidence-Based Clinical Practice Guideline. (abre em nova aba)
- APTA. Physical Therapist Management of Glenohumeral Joint Osteoarthritis: A Clinical Practice Guideline. (abre em nova aba)
- American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria: Chronic Shoulder Pain. (abre em nova aba)
- Cleveland Clinic. Osteoarthritis: What It Is, Symptoms and Treatment. (abre em nova aba)
- Efficacy of intra-articular injections of hyaluronic acid in patients with glenohumeral joint osteoarthritis: systematic review and meta-analysis. (abre em nova aba)
Ver todas as 9 referências
- Total Shoulder Arthroplasty Versus Reverse Shoulder Arthroplasty in Primary Glenohumeral Osteoarthritis With Intact Rotator Cuffs: meta-analysis. (abre em nova aba)
- Cleveland Clinic. Shoulder Pain Causes and Treatment. (abre em nova aba)
- Shanahan et al. Suprascapular nerve block (using bupivacaine and methylprednisolone acetate) in chronic shoulder pain. Annals of the Rheumatic Diseases (2003). (abre em nova aba)
- Nerve injections: Suprascapular Nerve block for pain relief | Hull University Teaching Hospitals NHS Trust (hey.nhs.uk). (abre em nova aba)
