Pular para o conteúdo principal
Artigos

Dor na panturrilha: músculo, tendão, nervo ou circulação

Dor na panturrilha pode ser lesão muscular, trombose, doença arterial ou dor vinda do nervo. Início, inchaço, pulsos e relação com esforço separam as causas.

Atualizado
Publicado em
Leitura
21 min
Mãos do médico no joelho e no tornozelo de uma pessoa deitada na maca, durante o exame físico
Neste artigo
Dor na panturrilha
O início da dor, sua relação com exercício e repouso, o inchaço, os pulsos e o exame neurológico separam uma lesão muscular de trombose, doença arterial, síndrome compartimental e dor vinda do nervo.

Padrões de dor

Dor na panturrilha pode vir de estruturas diferentes. A região reúne gastrocnêmio, sóleo, junção musculotendínea (a zona em que fibras musculares se unem ao tendão), tendão de Aquiles,[1] vasos[9] e nervos;[24] também recebe dor da coluna[15] e do joelho.[14] O diagnóstico começa pelo início, pela relação com exercício e repouso, pelo inchaço, pelos pulsos e por alterações de força ou sensibilidade.[19][5]

Início durante arrancada, salto ou mudança brusca de direção, com sensação de estalo ou golpe, favorece lesão muscular. O ponto doloroso costuma ser localizado, e contrair ou alongar a panturrilha reproduz o sintoma. Ausência de esforço, inchaço da perna inteira ou mudança de temperatura do pé deslocam a investigação para outras causas.[1]

Padrões que separam as causas
Causa Início Esforço e repouso Edema e pulsos Neurológico
Músculo Arrancada, salto ou sobrecarga Dói ao contrair e alongar Hematoma possível; pulsos mantidos Sem trajeto neural típico
Trombose venosa Agudo ou progressivo Não segue distância fixa Edema unilateral; pulsos geralmente mantidos Sem padrão de raiz
Doença arterial Progressivo Distância repetível; alivia ao parar Pulsos reduzidos; pé frio Fraqueza isquêmica em doença grave
Compartimento Durante corrida Aperto previsível; cede após parar Compartimento tenso; pulsos presentes Formigamento ou fraqueza transitória
Nervo Variável Pode mudar com coluna ou posição Sem edema vascular típico Dormência, reflexo ou força alterados

Dor que aparece após distância parecida e cede em poucos minutos ao parar sugere claudicação: oferta arterial insuficiente durante o esforço. Pulsos reduzidos, pé mais frio, feridas que não cicatrizam e fatores como tabagismo, diabetes e doença renal aumentam a probabilidade de doença arterial periférica, abreviada aqui como DAP.[9]

A síndrome compartimental crônica por esforço também é previsível, mas costuma produzir aperto ou pressão que cresce durante corrida e diminui depois que a atividade termina. O compartimento pode ficar tenso, com formigamento ou fraqueza transitória. Pulsos ausentes ou reduzidos durante a crise direcionam a investigação para circulação arterial.[10]

Queimação, choque ou dor que percorre nádega, coxa e panturrilha, principalmente com dormência, fraqueza ou reflexo alterado, favorece radiculopatia lombar, isto é, comprometimento de uma raiz nervosa.[15] Dor e déficit limitados a uma distribuição distal também levantam uma neuropatia periférica; o exame localiza essas hipóteses separadamente.[24]

Músculo e tendão

O gastrocnêmio cruza joelho e tornozelo e trabalha mais com o joelho estendido em ações explosivas. Sua lesão costuma ocorrer em aceleração, salto ou alongamento súbito, com dor mais alta e superficial. Dorsiflexão (puxar o pé para cima) alonga a panturrilha; flexão plantar (empurrar o pé para baixo) a contrai.[1]

O sóleo fica abaixo do gastrocnêmio e não cruza o joelho. Lesões do sóleo aparecem em corrida contínua, aumento de volume ou fadiga, com dor mais profunda e menos dramática. A flexão plantar com o joelho dobrado aumenta sua participação. Um hematoma ausente na pele não exclui lesão desse músculo profundo.[1]

Músculo e tendão pelo local
GastrocnêmioParte alta e superficial; pior com joelho estendido
SóleoDor profunda; corrida contínua; teste com joelho dobrado
Aquiles, porção médiaCorpo do tendão; carga e rigidez
Aquiles, inserçãoEncontro do tendão com o osso do calcanhar; avaliação própria
CãibraContração súbita que dura segundos ou minutos
RupturaEstalo, perda de força ou falha muda a prioridade

A chamada “tennis leg” geralmente representa lesão da cabeça medial do gastrocnêmio ou de sua junção com o sóleo, não ruptura isolada do pequeno músculo plantar. Ultrassom ou ressonância magnética localizam a lesão quando há dúvida diagnóstica, hematoma importante, falha palpável, perda funcional desproporcional ou recuperação lenta.[1]

“Contratura” é impreciso quando nomeia qualquer dor na panturrilha. Cãibra é uma contração súbita, involuntária e dolorosa, com duração de segundos ou minutos e alívio ao alongar.[19] Distensão é lesão de fibras após carga, com dor localizada persistente ao contrair ou alongar.[1] Um “nó” palpável, sozinho, não separa os diagnósticos.[19][1]

Sala de reabilitação da clínica com tablado, barras paralelas e vista para a parede de seixos
Sala de reabilitação da clínica.

Na tendinopatia da porção média do Aquiles, dor, rigidez e sensibilidade se concentram no corpo do tendão, entre panturrilha e calcanhar, e acompanham a carga. Dor exatamente na inserção do tendão no osso do calcanhar é outro quadro e pede avaliação própria.[3]

Ruptura do Aquiles apresenta início súbito, estalo, perda de impulso e dificuldade para ficar na ponta do pé. No teste de Thompson, o examinador comprime a panturrilha e observa se o pé aponta para baixo; resposta ausente favorece ruptura completa. Algumas pessoas ainda caminham, portanto apoio preservado não exclui a lesão.[4]

Espessamento ou alteração de imagem no Aquiles ganha significado quando coincide com o local da dor, o comportamento sob carga e a perda funcional. O exercício em degrau ou no chão usado na porção média não vale automaticamente para a tendinopatia da inserção.[3]

Trombose e cisto

Trombose venosa profunda (TVP) é um coágulo em uma veia profunda. Pode causar dor, edema unilateral, calor e sensibilidade, ou poucos sintomas. Cirurgia recente, imobilização, câncer ativo, gestação ou puerpério, uso de estrogênio, trombose prévia e aumento de toda a perna modificam a probabilidade clínica.[5]

Dor ao apertar a panturrilha, vermelhidão e diferença de circunferência também aparecem em outras condições. A investigação combina probabilidade pré-teste e exames em sequência. Esse método evita iniciar anticoagulante apenas por dor local e evita descartar um coágulo só porque também ocorreu esforço físico.[7]

Um cisto de Baker rompido libera líquido do joelho entre os planos da panturrilha. Pode produzir dor súbita, edema e equimose (a mancha roxa por sangramento sob a pele) perto do tornozelo. Artrose, sinovite (inflamação da membrana articular) ou lesão meniscal podem alimentar o cisto. A aparência clínica pode imitar TVP.[14]

O ultrassom duplex venoso, que combina imagem da veia com avaliação do fluxo, é o primeiro exame quando TVP precisa ser excluída. Depois, o ultrassom musculoesquelético pode procurar líquido dissecando a panturrilha e cisto residual atrás do joelho. Ressonância magnética entra se a anatomia ou a doença interna do joelho ainda mudar a decisão.[14]

Artérias

Na DAP, placas estreitam artérias e limitam o aumento de fluxo exigido pela marcha. A claudicação surge em uma faixa relativamente repetível de distância ou intensidade e melhora ao parar, mesmo em pé. Dor articular depende mais de posição e movimento; estenose lombar frequentemente melhora ao sentar ou inclinar o tronco.[9]

O exame arterial compara pulsos femoral, poplíteo, tibial posterior e pedioso, temperatura, cor, enchimento capilar e integridade da pele. Sinais tróficos (pele fina, perda de pelos, alterações das unhas ou feridas) sugerem circulação cronicamente comprometida. Dor em repouso no pé ou perda de tecido indicam doença mais grave que claudicação isolada.[9]

No aprisionamento da artéria poplítea, músculo ou tendão comprime a artéria atrás do joelho. O padrão típico é dor de esforço em pessoa jovem e ativa, às vezes com pé frio, parestesia (formigamento ou alteração de sensibilidade) e redução transitória do pulso. O índice tornozelo-braquial em repouso pode permanecer normal.[12]

Uma manobra de flexão plantar forçada pode diminuir o pulso até em pessoas sem doença. Por isso a investigação reproduz o sintoma, mede a circulação depois do exercício, faz o duplex durante a manobra e usa angiotomografia ou angiorressonância para ver a anatomia. A compressão só ganha peso quando fluxo, anatomia e queixa apontam para o mesmo ponto.[13]

Nervo e compartimento

A radiculopatia de S1 pode causar dor posterior na perna, redução do reflexo aquileu e fraqueza para empurrar o pé ou repetir elevações do calcanhar. L5 tende a afetar dorso do pé e elevação do hálux ou tornozelo. Distribuição da dor, sensibilidade, força, reflexos e elevação da perna estendida formam o exame radicular.[15]

Neuropatias periféricas seguem outro mapa. Compressão do nervo fibular comum perto da cabeça da fíbula pode afetar a face externa da perna e a elevação do pé; alteração do nervo tibial pode alcançar a planta. A eletroneuromiografia, exame da condução nervosa e da atividade muscular, ajuda a localizar raiz, plexo ou nervo periférico em casos persistentes ou atípicos.[18]

Na síndrome compartimental crônica por esforço, a pressão aumenta dentro de um compartimento muscular durante atividade. O relato-chave é aperto, dor e perda de desempenho após tempo ou distância semelhantes, com melhora ao parar. Dormência ou fraqueza durante o episódio podem indicar o compartimento e o nervo envolvidos.[10]

A síndrome compartimental aguda tem outra gravidade e outro destino: surge após trauma, sangramento ou lesão aguda, com dor crescente, compartimento tenso e possível deterioração neurológica. É uma emergência, diferente da forma crônica previsível, e o diagnóstico estabelecido exige descompressão urgente por fasciotomia.[11]

Exame físico

O exame compara marcha, apoio e capacidade de elevar o calcanhar. Inspeção procura assimetria, edema, hematoma, alteração de pele e volume atrás do joelho. Palpação localiza ventre muscular, junção musculotendínea e tendão. A circunferência é interpretada com a história, pois músculo lesionado, trombose e cisto rompido podem aumentá-la.[2]

Testar a panturrilha com o joelho estendido e dobrado distribui a carga entre gastrocnêmio e sóleo. Dor, altura alcançada, número de repetições e perda de controle quantificam capacidade. O resultado local ganha contexto depois de verificar continuidade do Aquiles, força e sensibilidade neurológicas, pulsos e edema.[2]

Exame organizado por hipótese
MúsculoPalpação, alongamento, força com joelho estendido e dobrado
AquilesContinuidade, Thompson e impulso na ponta do pé
VeiasEdema, circunferência, fatores de risco e probabilidade clínica
ArtériasPulsos, temperatura, pele e resposta ao exercício
NervosSensibilidade, reflexos, força e movimento lombar
CompartimentoReproduzir esforço, tensão e déficit pós-exercício

Na suspeita de ruptura do Aquiles, o examinador procura falha no tendão, posição de repouso mais dorsifletida e teste de Thompson alterado. Ultrassom ajuda se ruptura parcial, local ou aproximação das pontas permanecem incertos. Avaliação ortopédica precoce define as opções enquanto a lesão ainda é aguda.[4]

O exame vascular registra pulsos e sinais tróficos antes e depois da provocação quando a queixa aparece no esforço.[9][25] O exame neurológico registra força segmentar, sensibilidade e reflexos.[15][19] Pulso preservado e ausência de déficit mantêm a hipótese muscular possível.[1][19]

Na cãibra, a consulta separa episódio durante exercício, cãibra noturna em repouso e dor ligada a medicamento ou doença. Frequência, duração, relação com carga, dormência, pé frio e lista de remédios orientam o exame vascular e neurológico. Exames laboratoriais são direcionados pela história e pelos achados.[19]

Exames

O escore de Wells estima a probabilidade clínica de TVP a partir de câncer ativo, imobilização, cirurgia, edema, sensibilidade venosa, trombose prévia e diagnósticos alternativos. Ele é aplicado pelo profissional e define a ordem do D-dímero (fragmento liberado na degradação de coágulos) e do ultrassom; não confirma nem exclui trombose sozinho.[5]

Em baixa probabilidade, D-dímero negativo com método adequado ajuda a excluir TVP; resultado positivo não confirma coágulo. Com maior probabilidade, o primeiro passo é o ultrassom proximal. Se ele vem negativo e o D-dímero positivo, o ultrassom é repetido em seis a oito dias.[5]

Exame escolhido pela pergunta
01TVP possívelWells clínico → D-dímero ou ultrassom conforme probabilidade
02ClaudicaçãoÍndice tornozelo-braquial em repouso → após esteira se normal ou limítrofe
03AprisionamentoExercício + duplex dinâmico → angiotomografia ou angiorressonância
04Lesão muscularExame → ultrassom ou ressonância se houver dúvida relevante
05Compartimento crônicoProvocação → exame pós-esforço → pressão em caso selecionado
06RadiculopatiaExame neurológico → ressonância ou eletroneuromiografia conforme a pergunta

Quando o ultrassom de toda a perna encontra TVP isolada abaixo da veia poplítea, o caminho é distinto da TVP proximal. Sem sintomas intensos nem fatores de extensão, uma opção é repetir a imagem venosa ao longo de duas semanas. Sintomas intensos, maior risco de propagação ou extensão durante a vigilância favorecem anticoagulação após avaliar o risco de sangramento.[6]

O índice tornozelo-braquial compara a pressão sistólica no tornozelo e no braço. Valor de repouso até 0,90 apoia DAP; 0,91 a 0,99 é limítrofe e acima de 1,40 sugere artérias não compressíveis. Em diabetes ou doença renal, pressão do dedo e formas de onda podem ser mais informativas.[9]

Se a dor é de esforço e o índice de repouso está normal ou limítrofe, o teste após esteira pode revelar limitação. O duplex arterial localiza fluxo reduzido. Angiotomografia ou angiorressonância fica reservada para anatomia necessária ao planejamento de revascularização ou à investigação de compressão.[9]

Na síndrome compartimental crônica por esforço, a avaliação reproduz o esporte e examina logo depois. A pressão intracompartimental pode apoiar o diagnóstico, mas técnica, momento e pontos de corte variam. O resultado é interpretado com o padrão clínico e depois de excluir lesão óssea, nervo e causa vascular.[10]

Ultrassom musculoesquelético mostra ruptura, hematoma e continuidade do Aquiles em tempo real. Ressonância magnética detalha sóleo, aponeuroses (lâminas de tecido que transmitem força entre músculo e tendão) e extensão da lesão. Imagem é útil quando o exame não localiza a causa, a perda funcional é desproporcional ou a recuperação foge do esperado.[1]

Ressonância lombar mostra anatomia quando história e exame sustentam radiculopatia e o resultado pode mudar procedimento ou cirurgia. A eletroneuromiografia responde outra pergunta: localiza disfunção em raiz, plexo ou nervo periférico. Os dois exames são complementares e lidos junto com força, reflexos e distribuição sensitiva.[18]

Fisioterapia

Na lesão muscular, a dose de carga avança quando marcha, dor localizada e função respondem bem durante a sessão e no dia seguinte. Dor crescente, novo edema, queda de força ou compensação fazem a carga recuar e podem reabrir o diagnóstico.[2]

Retorno ao esporte exige amplitude recuperada, força e resistência próximas do lado oposto e tolerância às velocidades e tarefas reais da modalidade. Elevações do calcanhar, saltos e corrida medem capacidade; uma ressonância ainda alterada depois da melhora não substitui esses critérios funcionais.[2]

Progressão após lesão muscular
  1. MarchaApoio sem compensação importante
  2. Força inicialIsometria e elevação bilateral
  3. Força específicaUnilateral com joelho estendido e dobrado
  4. EnergiaCarga externa, velocidade e salto
  5. CorridaTrote, volume, aceleração e desaceleração
  6. EsporteExposição completa à tarefa antes da liberação

Na tendinopatia da porção média do Aquiles, carga progressiva do tendão é o tratamento principal. O exercício usa resistência tão alta quanto tolerada, pelo menos três vezes por semana, com acompanhamento da resposta. Essa prescrição não vale automaticamente para dor na inserção nem para ruptura aguda.[3]

Na ciática, exercício é selecionado conforme necessidades e capacidades, com manutenção das atividades possíveis. Fraqueza progressiva, alteração esfincteriana ou anestesia na região perineal mudam a prioridade para avaliação médica. O tratamento da radiculopatia acompanha função e déficit neurológico.[17]

Na claudicação por DAP, exercício é tratamento vascular estruturado. O modelo supervisionado usa caminhada em ciclos de esforço e pausa, com progressão de tempo e intensidade, junto do controle cardiovascular. Distância até a dor e distância total medem resposta; alongamento isolado da panturrilha não corrige a limitação arterial.[9]

Na síndrome compartimental crônica por esforço, redução temporária do gatilho, ajuste de carga e modificação da corrida podem ser testados em casos selecionados. Evidência conservadora é limitada. Repetição previsível após programa bem executado exige confirmar compartimentos e excluir causa vascular antes de discutir fasciotomia.[10]

Medicamentos

Analgésicos podem facilitar marcha e reabilitação após lesão muscular, mas não restauram fibras nem definem retorno. Anti-inflamatórios exigem revisão de função renal, estômago, pressão, risco cardiovascular e anticoagulantes. Uso rotineiro prolongado não é necessário para cicatrização, e opioides não pertencem ao cuidado usual.[1]

TVP proximal confirmada recebe anticoagulação por pelo menos três meses. A escolha depende de função renal e hepática, câncer, gestação, síndrome antifosfolípide (doença autoimune associada a tromboses), peso, interações e risco de sangramento. O esquema é prescrito depois de confirmar o diagnóstico e o segmento envolvido.[5]

Na TVP distal isolada, vigilância seriada e anticoagulação são decisões clínicas alternativas. Local e extensão do coágulo, intensidade dos sintomas, risco de propagação, risco de sangramento e viabilidade de repetir o duplex entram na escolha. Se a imagem mostra extensão distal ou proximal, a indicação de anticoagular se fortalece.[6]

Depois de três a seis meses, manter anticoagulação depende de fator transitório, evento sem causa clara, câncer, risco de recorrência e sangramento. Trombolítico ou retirada do coágulo fica reservado a situações selecionadas de ameaça ao membro ou embolia grave, porque acrescenta risco hemorrágico.[8]

Na DAP sintomática, antiagregante plaquetário e estatina de alta intensidade reduzem eventos cardiovasculares; pressão, diabetes e tabagismo também recebem tratamento ativo. Cilostazol pode aumentar distância de caminhada na claudicação, mas é contraindicado em insuficiência cardíaca. Anticoagulação plena não trata DAP estável sem outra indicação.[9]

Na ciática, gabapentinoides, outros antiepilépticos, corticosteroides orais e benzodiazepínicos não são indicados: não mostram benefício global e podem causar dano. Quem já usa um desses medicamentos precisa de revisão individual de benefício, risco e retirada gradual.[17]

Dr. Marcus Yu Bin Pai de jaleco na escada do átrio da clínica, visto de longe sob a claraboia, com ripado de madeira, tijolos vazados e luminárias de papel
Escada do átrio, sob a claraboia.

Em dor neuropática periférica que não seja ciática, amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina são opções iniciais. Localização do nervo, sedação, tontura, edema, função renal, interações e trabalho que exige atenção orientam a escolha e a revisão. Esse caminho não se aplica automaticamente à dor ciática, que vem da raiz nervosa.[16]

Cãibra aguda costuma aliviar com alongamento e massagem. Recorrência pede ajuste do gatilho identificado: carga de exercício, medicamento associado, DAP, neuropatia ou doença sistêmica. Hidratação, eletrólitos ou reposições pertencem aos casos em que história, exame ou laboratório mostram uma razão específica.[19]

Quinina não é tratamento rotineiro para cãibras noturnas. Ela não é aprovada para esse uso nos Estados Unidos e pode causar queda grave de plaquetas, reação de hipersensibilidade, alteração do ritmo cardíaco, lesão renal e morte. Uma possível redução de episódios não compensa esse risco em um sintoma benigno.[20]

Magnésio não mostrou prevenção clinicamente relevante de cãibras em adultos mais velhos, não tem ensaios adequados para cãibra associada ao exercício e permanece incerto na gestação. Suplementação fica restrita a deficiência ou outra indicação demonstrada.[21]

Não há base para indicar infiltrações de rotina na tendinopatia do Aquiles. Já houve ruptura do tendão após injeção de corticosteroide; alvo, substância e técnica precisam ser pesados separadamente.[22] Ondas de choque também não são indicadas de rotina, porque não mostraram benefício consistente em dor ou incapacidade.[23] Na tendinopatia da porção média do Aquiles, o programa de carga continua sendo o tratamento inicial.[3]

Procedimentos e cirurgia

Ruptura aguda do Aquiles pode seguir reparo cirúrgico ou protocolo não operatório funcional. A decisão considera tempo, localização e aproximação das pontas, pele, diabetes, risco de infecção, demanda esportiva e capacidade de cumprir reabilitação. Mobilização e carga precoce controlada fazem parte dos protocolos modernos nas duas estratégias.[4]

Revascularização por angioplastia, stent ou cirurgia é considerada quando claudicação limita função apesar de tratamento clínico e exercício estruturado, ou quando há isquemia com dor em repouso, ferida ou perda de tecido. A imagem anatômica segue a confirmação hemodinâmica quando existe decisão de procedimento.[9]

Aprisionamento poplíteo anatômico sintomático costuma exigir liberação cirúrgica da estrutura compressora; artéria lesada pode precisar de reconstrução. Na forma funcional, a seleção é mais controversa e exige prova dinâmica antes do procedimento. Séries pequenas com toxina botulínica não substituem avaliação vascular nem correção anatômica indicada.[12]

Fasciotomia libera o compartimento na síndrome crônica confirmada que continua limitando esporte ou trabalho. A decisão registra compartimentos envolvidos, padrão reproduzido, suporte diagnóstico e tratamentos tentados. Recorrência, lesão nervosa, cicatriz e reoperação entram no consentimento, e resultados variam entre compartimentos e populações.[10]

Depois de excluir TVP, a ruptura de cisto de Baker geralmente recebe tratamento do edema e da doença do joelho que produziu líquido. Aspiração ou infiltração fica reservada a coleção persistente e alvo confirmado por imagem. Recorrência pede reavaliação de artrose, sinovite ou menisco.[14]

Sinais de alerta

TVP ou embolia pulmonarInchaço unilateral recente, calor e dor sem causa segura, sobretudo após cirurgia, imobilização, câncer, gestação, estrogênio ou TVP prévia: avaliação no mesmo dia. Falta de ar súbita, dor no peito, desmaio ou sangue ao tossir: emergência.[5]

Isquemia aguda do membroPé subitamente frio, pálido ou arroxeado, pulso ausente, dor forte em repouso, nova dormência ou fraqueza: emergência vascular imediata.[9]

Compartimento agudoDor intensa crescente após trauma ou sangramento, compartimento tenso e piora de força ou sensibilidade: emergência ortopédica imediata.[11]

Ruptura do AquilesEstalo com perda súbita do impulso ou teste de Thompson compatível: avaliação ortopédica precoce.[4]

Reavaliação

Na lesão muscular, a reavaliação mede marcha, dor localizada, amplitude, força, resistência, corrida e tarefa esportiva. Força estagnada, mudança do ponto doloroso, novo edema ou resposta pior a cargas antes toleradas reabrem o diagnóstico antes de avançar treino.[2]

Na tendinopatia da porção média do Aquiles, rigidez matinal, força, potência e tolerância à corrida mostram evolução. Piora persistente após as sessões indica dose excessiva ou diagnóstico diferente. Dor na inserção do tendão segue outra lógica: quando não evolui, precisa de avaliação específica.[3]

Na ruptura do Aquiles, o seguimento acompanha continuidade, comprimento do tendão, força e recuperação do impulso dentro do protocolo escolhido. Caminhar sem dor é um marco inicial, não critério suficiente para corrida ou esporte. A decisão funcional permanece vinculada à equipe ortopédica e à fase da cicatrização.[4]

Na claudicação, distância até o início da dor, distância total e tarefa diária limitada são marcadores úteis. Falta de ganho após exercício estruturado e tratamento cardiovascular justifica revisar adesão, diagnóstico e anatomia arterial.[9] Na síndrome compartimental, registra-se tempo até o sintoma;[10][19] na radiculopatia, força e déficit sensitivo têm prioridade.[15]

Para a consulta, registre quando a dor começou, qual movimento ou distância a provoca, quanto leva para ceder, se existe inchaço e se o pé muda de cor, temperatura, pulso, força ou sensibilidade. Leve laudos anteriores, lista de medicamentos e histórico de trombose, cirurgia, câncer, diabetes, tabagismo e mudança recente de treino.[1]

Referências

  1. Calf Strains in Athletes: Management, Injury Grading, and Return to Sport. 2025. (abre em nova aba)
  2. Assessment, Management and Prevention of Calf Muscle Strain Injuries. 2022. (abre em nova aba)
  3. Achilles Pain, Stiffness, and Muscle Power Deficits: Clinical Practice Guideline Revision. 2024. (abre em nova aba)
  4. AOFAS Position Statement: Management of Acute Achilles Ruptures. 2024. (abre em nova aba)
  5. NICE NG158: Venous thromboembolic diseases. 2023. (abre em nova aba)
Ver todas as 25 referências
  1. CHEST Guideline and Expert Panel Report: Antithrombotic Therapy for VTE Disease. 2021. (abre em nova aba)
  2. ASH 2018 guidelines for diagnosis of venous thromboembolism. 2018. (abre em nova aba)
  3. ASH 2020 guidelines for treatment of DVT and pulmonary embolism. 2020. (abre em nova aba)
  4. 2024 ACC/AHA Multisociety Guideline for Lower Extremity PAD. 2024. (abre em nova aba)
  5. Clinical Consensus on Diagnosis and Treatment of Chronic Exertional Compartment Syndrome. 2022. (abre em nova aba)
  6. AAOS Clinical Practice Guideline: Management of Acute Compartment Syndrome. 2025. (abre em nova aba)
  7. Popliteal Artery Entrapment Syndrome: Updates for Evaluation, Diagnosis, and Treatment. 2024. (abre em nova aba)
  8. ACR Appropriateness Criteria: Nonatherosclerotic Peripheral Arterial Disease, variante de suspeita de aprisionamento poplíteo. 2018. (abre em nova aba)
  9. Ruptured Baker’s Cyst: Diagnostic Strategies and Treatment. 2026. (abre em nova aba)
  10. NASS Guideline: Lumbar Disc Herniation with Radiculopathy. 2012. (abre em nova aba)
  11. NICE CG173: Neuropathic pain in adults. 2020. (abre em nova aba)
  12. NICE NG59: Low back pain and sciatica in over 16s. 2020. (abre em nova aba)
  13. Electrodiagnostic Evaluation of Peripheral Neuropathy. 2024. (abre em nova aba)
  14. Primary care approach to calf cramps. 2022. (abre em nova aba)
  15. FDA: Serious risks associated with using quinine for nocturnal leg cramps. 2012. (abre em nova aba)
  16. Cochrane: Magnesium for muscle cramps. 2020. (abre em nova aba)
  17. Cochrane: Injection therapies for painful Achilles tendons in adults. 2015. (abre em nova aba)
  18. Korakakis et al. Shockwave Therapy for Midportion and Insertional Achilles Tendinopathy: A Nail in the Coffin? A Systematic Review With Meta-Analysis. 2026. (abre em nova aba)
  19. Merck Manual Professional: Peripheral Neuropathy. 2026. (abre em nova aba)
  20. Awareness and Early Diagnosis of Popliteal Artery Entrapment Syndrome Is Needed. 2022. (abre em nova aba)

Agendar avaliação

Consultas particulares para dor, fisiatria e acupuntura médica.

Alameda Jaú, 687, Jardim Paulista, São Paulo

WhatsApp 11 99160-4480