Neste artigo
Dor no membro fantasma
Dor no membro fantasma é dor percebida na parte do braço ou da perna que foi amputada. O membro não existe mais, mas a dor é real: decorre de atividade nas vias nervosas periféricas e centrais. Queimação, choque, aperto, torção, câimbra, pontada ou posição dolorosa são descrições frequentes.[3]
Sensação fantasma é a percepção de presença, posição, movimento, pressão, coceira ou temperatura no membro ausente, sem dor. Costuma dispensar tratamento quando não limita função nem segurança. Na amputação de perna, quem sente o pé com nitidez precisa treinar transferências para não apoiar o peso no membro ausente.[3]
Dor do membro residual, o coto, nasce nos tecidos que permaneceram: pele, cicatriz, osso, músculo, articulação, circulação, nervo, infecção e interface com a prótese. As duas dores podem coexistir.[24]
Sensações e dor são comuns nas primeiras semanas depois da amputação. Em parte das pessoas a intensidade diminui ao longo dos meses; outras mantêm crises ou dor contínua. Quando a dor persiste, piora tardiamente ou muda de padrão, volto a procurar ferida, problema de encaixe, circulação, neuroma, coluna e mecanismos centrais.[26]

Dor apenas no segmento ausente, sem ferida, secreção, febre ou calor no membro residual, não pede investigação de infecção.[25]
Segundos de choque e horas de queimação pertencem ao mesmo diagnóstico, mas pesam de forma diferente. Frequência, duração, gatilhos, sono, uso da prótese, marcha, tarefas manuais e trabalho mostram quando a dor precisa de tratamento.[3]
O tratamento segue o mecanismo predominante e a função perdida. Pressão da prótese pede correção mecânica; neuroma focal pede confirmação no nervo; conflito entre movimento e sensação orienta treino; dor neuropática difusa, originada no próprio sistema nervoso, permite teste cauteloso com medicamento; dor que resiste ao tratamento, com alvo definido, abre a discussão de cateter, estimulação ou cirurgia.[1]
Outras causas de dor após amputação
Dor ligada ao encaixe aparece durante ou depois do uso da prótese e coincide com pressão, atrito, pistoneamento (o movimento vertical do membro dentro do encaixe) ou mudança de volume. Marcas persistentes e melhora ao trocar a meia ou o liner, o revestimento interno, direcionam a correção à prótese.[25]
Neuroma é o crescimento desorganizado de fibras na ponta de um nervo cortado. Quando dói, costuma produzir um ponto preciso de hipersensibilidade, choque à percussão e irradiação para o território do nervo ou para a parte fantasma correspondente. Vê-lo na imagem, sozinho, não prova que cause a dor.[24]
| Local | Pista dominante | Primeira verificação |
|---|---|---|
| Parte ausente | Choque, queimação, torção | Padrão temporal e função |
| Tecido residual | Ponto palpável ou carga | Pele, osso, cicatriz e nervo |
| Interface | Surge com uso do dispositivo | Volume, marcas e alinhamento |
| Acima da amputação | Coluna, plexo ou circulação | Exame neurológico e vascular |
Dor óssea localizada pode resultar de esporão, fratura por estresse, osteomielite (infecção do osso) ou ossificação heterotópica (formação de osso no tecido mole). Carga e compressão costumam piorar esse padrão; palpação e radiografia definem quando ultrassom, ressonância ou investigação de infecção serão necessários.[23]
Isquemia é dor causada por fluxo de sangue insuficiente. Pele fria, mudança de cor, cicatrização lenta, perda de tecido e pulsos reduzidos pesam mais quando a amputação foi causada por doença arterial ou diabetes. Nesses pacientes, faço o exame vascular antes de atribuir a dor ao membro fantasma ou ao encaixe.[29]
A síndrome dolorosa regional complexa entra na lista quando a dor é regional, desproporcional e vem acompanhada de alterações de sensibilidade, de temperatura ou cor, de suor ou inchaço, e de movimento, pele, pelos ou unhas. Antes de dar esse nome, preciso excluir outra explicação melhor.[11]
Dor referida da coluna, do plexo (a rede de nervos entre coluna e membro) ou de um nervo mais acima continua possível após a amputação. Dor cervical ou lombar, influência da postura, fraqueza em músculos preservados, reflexos alterados e sintomas no outro membro ampliam o exame neurológico.[3]
Na primeira consulta, uso três perguntas. A dor está no membro ausente, no tecido residual ou nos dois? Existe ponto mecânico ou neural que a reproduz? Pele, circulação, prótese ou exame neurológico mudaram? As respostas definem o primeiro especialista, o exame dirigido e a meta funcional.[1]
Mecanismos da dor
Após a secção do nervo, as fibras lesionadas podem disparar sozinhas e responder mais a estímulos. Neuroma e gânglio da raiz dorsal, um agrupamento de células nervosas junto à coluna, podem sustentar essa entrada anormal. Por isso tocar um ponto do membro residual às vezes reproduz dor na parte fantasma.[3]
Na medula, a perda de informação sensorial e a atividade periférica persistente alteram os circuitos que recebem e modulam a dor: a inibição diminui, a excitabilidade aumenta e a resposta se prolonga. Como periferia, medula e cérebro participam juntos, um único alvo raramente explica todos os padrões.[3]
No cérebro, as áreas sensoriais e motoras que representavam o membro se reorganizam após a amputação. A relação disso com a dor varia entre estudos, e a imagem funcional do cérebro segue restrita à pesquisa. A avaliação clínica se apoia na dor que o paciente relata e na função.[3]
Em parte dos pacientes há desencontro entre a intenção de mover e a informação sensorial que volta. Imagem motora graduada, espelho e realidade virtual ou aumentada tentam oferecer informação coerente durante movimentos planejados. A resposta varia de um paciente para outro.[4]
Avaliação clínica
Na história, registro data, motivo e nível da amputação, revisões cirúrgicas, cicatrização, dor anterior e tratamentos já testados. Para cada tipo de episódio, anoto duração, frequência, localização, qualidade, gatilho, alívio e efeito sobre prótese, transferências, marcha, tarefas manuais, sono e trabalho.[1]
Na inspeção, comparo pele, volume, cicatriz, inchaço, calor, cor, secreção, áreas de pressão e cobertura de partes moles. Na palpação, procuro osso proeminente, bursa (uma pequena bolsa de líquido que reduz o atrito), aderência e ponto neural. A percussão sobre o nervo tem valor quando reproduz a dor habitual.[25]
Na amputação de braço, examino ombro, cotovelo, punho residual quando existe, força, sensibilidade, tarefas com as duas mãos e sobrecarga do braço preservado. Observo a prótese em uso, durante alcance, preensão e controle mioelétrico, isto é, o comando dos componentes por sinais dos músculos, além de examiná-la sobre a mesa.[2]

Na amputação de perna, o exame inclui amplitude de quadril e joelho, força, equilíbrio, transferências, marcha, comprimento do passo e tempo de uso da prótese. Quando a circulação é duvidosa, escolho entre pressão transcutânea de oxigênio (oxigenação medida pela pele), índice tornozelo-braquial (a comparação entre a pressão no tornozelo e no braço) ou Doppler (ultrassom que mostra o fluxo de sangue).[1]
A suspeita de síndrome dolorosa regional complexa exige sintomas relatados e sinais observados dentro dos critérios diagnósticos, e a exclusão de infecção, isquemia, compressão pela prótese, lesão nervosa focal e doença articular. Registrar temperatura, cor, inchaço, suor, dor ao toque leve (alodinia), amplitude e alterações da pele permite acompanhar a resposta.[11]
Depressão, estresse pós-traumático, sono interrompido, medo de usar a prótese e risco de suicídio entram na avaliação porque mudam a participação e as metas. Esse achado não torna a dor fantasma imaginária nem dispensa a investigação do membro residual.[2]
Exames
O ultrassom mostra nervo, neuroma, coleção de líquido, bursa, cicatriz e a relação dinâmica com o encaixe. Ajuda mais quando a sonda reproduz o ponto habitual e o achado coincide com o território do nervo. Tamanho ou aparência sem concordância clínica decidem pouco.[22]
A radiografia é o primeiro exame para esporão, ossificação heterotópica, fratura e remodelação óssea (mudança de forma do osso). A ressonância amplia a análise de osteomielite, edema da medula óssea, massa e partes moles quando história, exame e radiografia deixam uma pergunta capaz de mudar o tratamento.[23]
Hemograma, marcadores de inflamação, cultura e imagem entram diante de ferida, secreção, febre, calor ou suspeita de infecção profunda.[25]
O teste vascular é guiado por temperatura, cor, pulsos, ferida, dor em repouso e história arterial. Doppler, índices de pressão e medidas de perfusão (fluxo de sangue no tecido) separam isquemia de pressão da prótese e de dor neuropática, além de definir urgência e chance de cicatrização.[29]
O bloqueio anestésico breve testa se reduzir a entrada de um nervo muda o padrão da dor durante o efeito. Resultado concordante fortalece o alvo. Efeito curto, às vezes parcial, e melhora que nem sempre depende do anestésico limitam a previsão de ablação, estimulação ou cirurgia.[24]
Reabilitação
Encaixe, pele e movimento
Pressão dolorosa pode exigir ajuste do encaixe com o protesista e redução temporária da carga; mudanças de volume pedem revisão de meia e liner. Rigidez e fraqueza são trabalhadas com mobilidade, força e treino de tarefas. Corrigir esses fatores pode reduzir a dor do membro residual e facilitar o uso da prótese; a dor percebida no membro ausente recebe acompanhamento próprio.[1]
Terapia ocupacional no membro superior
No membro superior, a terapia ocupacional treina cuidado do membro residual, mobilidade das articulações acima da amputação, tarefas com as duas mãos, controle da prótese e prevenção de sobrecarga do braço preservado, do pescoço e da cintura escapular. O plano diferencia prótese mioelétrica, mecânica e estratégia sem prótese conforme o objetivo cotidiano.[2]
Dessensibilização do membro residual
A dessensibilização usa toque, textura, pressão e movimento graduados quando a pele já cicatrizou e a origem permite exposição. O objetivo é tolerar contato, roupa, liner e tarefas sem piorar ferida, isquemia ou foco infeccioso. Dor e função definem a progressão.[1]
Espelho e imagem motora
O alvo desses treinos é o desencontro entre movimento e sensação, quando as causas no membro residual já foram avaliadas. O espelho reduziu a dor um pouco mais do que outros treinos de movimento e sensação. Imagem motora graduada e realidade virtual ou aumentada mostraram sinais favoráveis, com protocolos variados e confiança limitada. A reavaliação decide se o treino continua.[4]
Realidade virtual e movimento fantasma
Com apoio de realidade estendida, o paciente executa ou imagina movimentos do membro fantasma. Num estudo com 81 pessoas, as duas formas trouxeram melhora parecida; o treino estruturado e acompanhado pode ajudar, e o tamanho do benefício é incerto.[6]
Reabilitação na síndrome dolorosa regional complexa
Quando a síndrome é confirmada, a restauração funcional graduada (retomada progressiva do uso do membro) organiza o plano: imagem motora, dessensibilização, mobilidade, uso ativo, medicamento de apoio e tratamento psicológico para o medo de movimento. Bloqueio ou neuromodulação ficam reservados para barreiras que continuam impedindo o avanço funcional.[11]
Sono, humor e medo da prótese
Sono, humor, trauma e medo da prótese recebem metas paralelas à dor: regularidade do sono, presença nas sessões, retorno às tarefas e tolerância ao dispositivo. Psicoterapia e tratamento psiquiátrico entram quando indicados, com a investigação do membro residual, da prótese e da circulação ainda ativa.[2] O sucesso da reabilitação é medido por horas de uso da prótese, transferências, distância de marcha, alcance, preensão, tarefas com as duas mãos, sono e participação.
Medicamentos
Para dor fantasma já estabelecida, os estudos com gabapentina, amitriptilina, opioides, cetamina e similares, calcitonina e anestésicos locais são pequenos e conflitantes.[7] Um teste com remédio pode ser feito em casos selecionados, sem abandonar a busca por uma causa tratável no membro residual.[1] Quando proponho um, explico se o apoio vem da dor fantasma, de outra dor neuropática ou de dor focal no membro residual.
Gabapentinoides e antidepressivos
Gabapentinoides, como gabapentina e pregabalina, e antidepressivos tricíclicos ou que elevam serotonina e noradrenalina se apoiam sobretudo na dor neuropática em geral. Sedação, tontura, inchaço, quedas, função renal, pressão, ritmo cardíaco e interações orientam a escolha. Sem ganho funcional após um teste adequado, o remédio é retirado.[8]
Cetamina
A cetamina bloqueia receptores envolvidos na amplificação da dor e tem sinais de benefício curto em estudos pequenos. A infusão exige ambiente monitorado para pressão, frequência cardíaca, sedação e sintomas dissociativos. Antes de repetir, reviso exposição acumulada, função do fígado, sintomas urinários e duração real do efeito.[9]
Opioides
Opioide fica restrito a situações excepcionais, com objetivo funcional definido e revisão precoce de sedação, constipação, quedas, uso com sedativos e risco de dependência. Interrompo o aumento da dose quando o ganho de dor e função não supera os danos; o uso crônico de rotina não tem base específica na dor fantasma.[10]
Lidocaína e capsaicina na pele
Lidocaína ou capsaicina de uso local servem para uma área pequena de pele íntegra com dor neuropática focal no membro residual. Não alcançam a dor percebida apenas no membro ausente. Irritação, área tratada, tolerância e efeito sobre o uso do liner decidem a continuidade.[8]
Procedimentos
Cada procedimento tem indicação própria: estrutura focal para infiltração, nervo concordante para bloqueio ou ablação, dor fantasma crônica grave para cateter e barreira funcional documentada para técnicas mais invasivas.[1]
Infiltração de um foco doloroso
A infiltração entra em discussão quando exame e ultrassom identificam uma estrutura focal, como bursa inflamada, cicatriz dolorosa ou nervo. O medicamento e o risco dependem do alvo. Pele comprometida, infecção, uso de anticoagulante, diabetes e proximidade de vasos mudam a decisão e o acompanhamento.[22]
Bloqueio diagnóstico
O bloqueio de nervo diagnóstico responde a uma pergunta limitada: quanto da dor muda enquanto aquele alvo está anestesiado? Um diário de dor e tarefas antes e depois registra a concordância; um tratamento duradouro exige discutir horizonte, risco e alternativas.[24]
- AlvoEstrutura ou nervo concordante
- TesteResposta ligada a uma tarefa
- HorizonteDuração esperada definida
- RiscoComplicações possíveis e orientação para contato
- SaídaQuando interromper ou mudar o tratamento
Bloqueio contínuo com cateter
Para dor fantasma crônica, intensa e com prejuízo funcional, o anestésico contínuo por cateter junto ao nervo pode ser considerado em casos selecionados. No esquema estudado, a infusão durou seis dias, sem internação, e o resultado foi avaliado por volta de quatro semanas; dor e interferência nas atividades melhoraram mais do que sem o anestésico.[1]
O cateter exige escolha do nervo, ausência de infecção local, plano para quem usa anticoagulante, proteção da pele, cuidado com a mobilidade e pausa temporária da prótese. No estudo, infecção relacionada ocorreu em cerca de 2% dos cateteres; retirada, contato com a equipe e reavaliação funcional fazem parte do caminho.[1]
Radiofrequência e crioablação
Radiofrequência e crioablação, calor ou frio aplicados por agulha, tentam reduzir o sinal de um nervo periférico confirmado. O benefício é possível, mas impreciso: os estudos misturam dor residual e fantasma, técnicas e seguimentos diferentes. Perda de sensibilidade, neurite (inflamação do nervo), recorrência e piora neuropática entram no consentimento e no seguimento.[15]
Bloqueios na síndrome dolorosa regional complexa
Nessa síndrome, o bloqueio dos nervos da circulação e do suor (simpático) ou de um nervo periférico (somático) tem papel de apoio quando dor e alodinia impedem o avanço da restauração funcional. A resposta é medida pela capacidade de mover, tocar e usar o membro residual durante uma janela planejada; sem progresso funcional, o bloqueio não é repetido.[11]
Acompanhamento após um procedimento
Na dor focal do membro residual, registro a tolerância ao toque e ao encaixe; na dor fantasma, frequência e duração das crises, sono e participação na reabilitação. Esse registro separa o efeito temporário do anestésico de uma melhora duradoura; repetir ou mudar a técnica depende da duração do benefício e dos efeitos adversos.
Neuromodulação
Estimulação elétrica pela pele e de nervo periférico
A estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS) aplica corrente pela pele e pode ser testada com meta curta de dor e tarefa. Na estimulação de nervo periférico, um eletrodo fica perto do nervo; a seleção exige padrão neuropático pós-amputação e alvo acessível.[14]
Num estudo que sorteou os pacientes, um eletrodo introduzido pela pele e mantido por oito semanas trouxe benefício em dor neuropática crônica pós-amputação, num grupo que misturava dor residual e fantasma. Os riscos incluem deslocamento ou quebra do eletrodo, irritação, infecção, sangramento, desconforto e lesão do nervo. Sem ganho útil, o eletrodo é retirado.[12]
Estimulação cerebral não invasiva
A estimulação magnética transcraniana repetitiva e a estimulação transcraniana por corrente contínua atuam sobre o cérebro sem cirurgia. Numa análise de 17 estudos com 510 participantes, as duas reduziram a dor; como os estudos eram pequenos, com protocolos diferentes e seguimento curto, não se sabe quanto o efeito dura nem qual protocolo é melhor.[5]
Estimulação medular
Na dor fantasma, a estimulação medular, com eletrodo junto à medula, aparece em apenas cinco relatos, com 33 pacientes e resposta muito variável. Infecção da ferida, fraqueza transitória, vazamento de líquor (o líquido que envolve a medula), dermatite e cisto no local do eletrodo foram descritos. Um teste temporário, a função e os eventos adversos decidem se o implante deve avançar.[13]
Estimulação do gânglio da raiz dorsal
A estimulação do gânglio da raiz dorsal procura cobertura mais focal, mas na dor fantasma os dados se limitam a séries pequenas. O resultado é medido por dor, sono, prótese, função e menos remédio de resgate. A estimulação cerebral com implante fica em centros especializados e na pesquisa.[14]
Nessas técnicas de estimulação e na ablação de nervo, decido pelo alvo, pela meta funcional e pelo risco do procedimento; faltam dados de longo prazo.[1]
Cirurgia
As cirurgias de nervo exigem um diagnóstico que aponte o componente nervoso da dor. Dor de osso, cicatriz, cobertura ou formato do membro residual pede outra operação, a revisão do membro residual.[23]
Reinervação muscular direcionada
A reinervação muscular direcionada transfere a ponta do nervo cortado para um ramo motor de um músculo que perdeu o próprio nervo, dando destino às fibras. Num pequeno estudo que sorteou pacientes que já tinham neuroma doloroso entre essa técnica e a retirada convencional do neuroma, a dor fantasma em um ano tendeu a ser menor com a reinervação, mas o estudo foi pequeno demais para dar certeza.[16]
Interface regenerativa de nervo periférico
Na interface regenerativa de nervo periférico, a ponta do nervo é implantada num pequeno enxerto de músculo livre, um fragmento inicialmente sem circulação própria, que recebe a reinervação. Em amputações maiores de perna acompanhadas ao longo do tempo, a melhora foi sobretudo na dor residual; ainda falta estudo grande e comparativo.[20]
Os resultados favoráveis das duas técnicas na dor residual e fantasma vêm sobretudo de estudos observacionais.[18] Com a reinervação, esses estudos também relatam ganho de função e menor uso de opioide.[19] Para a dor fantasma, a evidência ainda é considerada insuficiente.[1] Para neuroma estabelecido, com componente nervoso confirmado e dor que atrapalha, a cirurgia pode ser discutida em centro especializado, com consentimento cuidadoso e registro dos resultados.[17]
Riscos e recuperação
Os riscos das duas técnicas incluem infecção, hematoma, problema na ferida, falha da reinervação, novo neuroma, perda de sensibilidade e persistência ou piora da dor. A recuperação coordena proteção da ferida, controle do inchaço, amplitude, força, reeducação muscular e novo encaixe da prótese; dor residual, dor fantasma e função são medidas separadamente.[21]
Revisão do membro residual
A revisão sem foco no nervo trata uma causa demonstrada, como esporão, ossificação heterotópica, cicatriz aderida, cobertura insuficiente ou formato incompatível com o encaixe. Imagem, pele, circulação e possibilidade de reabilitação com prótese definem a operação.[23]
Prevenção na cirurgia de amputação
Controlar a dor antes e logo após a amputação favorece a recuperação, mas nenhuma das medidas estudadas (peridural, cateter, cetamina, gabapentinoides, calcitonina e técnicas sensoriais) mostrou prevenir de forma consistente a dor fantasma mais tarde. O plano em torno da cirurgia trata a dor aguda e a função.[27]
Um cateter junto ao nervo colocado durante a cirurgia pode reduzir a dor pós-operatória em pacientes selecionados. Ele difere do cateter de seis dias usado na dor fantasma crônica.[1]
A reinervação muscular direcionada feita no momento da amputação tem estudos observacionais favoráveis, mas as diretrizes ainda não a recomendam fora da pesquisa.[17] No consentimento, separo três coisas: a prevenção proposta, o tratamento de um neuroma já estabelecido e o objetivo de controle da prótese.
A prevenção funcional inclui formato adequado do membro residual, cobertura de partes moles, manejo dos nervos, proteção da pele, controle do inchaço, amplitude e início coordenado da reabilitação. Essas medidas reduzem complicações tratáveis e preparam a função, enquanto o risco de dor fantasma continua sendo acompanhado.[1]
Sinais de alerta
Emergência vascular: membro residual que fica de repente frio, pálido ou arroxeado, dor intensa em repouso, pulso ausente, fraqueza nova ou necrose (tecido escurecido e morto). Procure o pronto-socorro ou ligue para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU, 192).[29]
Emergência pulmonar: falta de ar súbita, dor no peito, desmaio ou sangue ao tossir exigem investigação imediata de embolia pulmonar, no pronto-socorro ou pelo SAMU 192.[28]
Emergência neurológica: fraqueza que progride, ou dor lombar com alteração nova de bexiga, intestino, função sexual ou sensibilidade no períneo (a região entre as pernas), exige avaliação imediata no pronto-socorro.[30]
No mesmo dia: inchaço assimétrico recente, calor e dor no trajeto das veias do segmento preservado ou do outro membro pedem investigação de trombose em pronto-socorro ou unidade de pronto atendimento (UPA).[28]
No mesmo dia: vermelhidão que aumenta, calor, secreção, mau cheiro, abertura da ferida, febre ou piora rápida da dor pedem avaliação com seu médico ou em unidade de pronto atendimento, sem a pressão da prótese até lá.[25]
Revisão programada breve: marcas que voltam, pistoneamento maior, volume instável, suor excessivo ou queda nas horas de uso da prótese pedem ajuste protético e exame da pele.[25]
Reavaliação
Cada tratamento tem data de reavaliação. Registro dor (dias com crises e duração) e sono interrompido. Na função, anoto horas de prótese, transferências, marcha, alcance, preensão, tarefas com as duas mãos e participação; nos remédios, resgates e efeitos adversos. Queda da nota de dor sem o ganho de função combinado leva a revisar dose, mecanismo ou modalidade; com esses dados, o tratamento é mantido, ajustado ou retirado.[1]
Quando o tratamento falha, reviso o diagnóstico. Espelho sem efeito pede rever se o desencontro entre movimento e sensação era de fato o alvo; remédio sem ganho pede conferir mecanismo, exposição e tolerância; bloqueio sem resposta pede novo alvo; dor que continua depois da correção de um neuroma pede tratar à parte o componente fantasma que persiste.[3]
Casos persistentes podem exigir coordenação entre fisiatria ou dor, cirurgia, fisioterapia, terapia ocupacional, prótese e saúde mental, conforme os achados.[1]
Para a consulta, traga registro dos episódios, remédios e doses, cirurgias, laudos, imagens, dados da prótese e dos liners e fotos seriadas das marcas na pele. Para cada tratamento já feito, anote efeito sobre dor e função, duração, eventos adversos e motivo da interrupção.
Referências
- VA/DoD Clinical Practice Guideline for Rehabilitation of Individuals with Lower Limb Amputation. 2024. (abre em nova aba)
- VA/DoD Clinical Practice Guideline for the Management of Upper Limb Amputation Rehabilitation. 2022. (abre em nova aba)
- Postamputation pain: a multidisciplinary review of epidemiology, mechanisms, prevention, and treatment. 2025. (abre em nova aba)
- Effects of non-invasive therapies for the treatment of phantom limb pain. 2026. (abre em nova aba)
- Effects of neuromodulation techniques on pain and depression in patients with phantom limb pain. 2025. (abre em nova aba)
Ver todas as 30 referências
- Extended reality used in the treatment of phantom limb pain. 2025. (abre em nova aba)
- Pharmacologic interventions for treating phantom limb pain. 2016. (abre em nova aba)
- Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: updated NeuPSIG recommendations. 2015. (abre em nova aba)
- Consensus Guidelines on the Use of Intravenous Ketamine Infusions for Chronic Pain. 2018. (abre em nova aba)
- CDC Clinical Practice Guideline for Prescribing Opioids for Pain. 2022. (abre em nova aba)
- Complex Regional Pain Syndrome: Practical Diagnostic and Treatment Guidelines, 5th Edition. 2022. (abre em nova aba)
- Percutaneous peripheral nerve stimulation for chronic neuropathic postamputation pain. 2019. (abre em nova aba)
- A scoping review of spinal cord stimulation for phantom limb pain. 2025. (abre em nova aba)
- Neuromodulation Techniques in Phantom Limb Pain. 2020. (abre em nova aba)
- Treatment of residual and phantom limb pain using percutaneous ablation. 2026. (abre em nova aba)
- Targeted Muscle Reinnervation Treats Neuroma and Phantom Pain in Major Limb Amputees. 2019. (abre em nova aba)
- NICE HTG750: Targeted muscle reinnervation for managing limb amputation pain. 2026. (abre em nova aba)
- TMR and RPNI Versus Standard Management in the Treatment of Limb Amputation. 2024. (abre em nova aba)
- Targeted Muscle Reinnervation Compared to Standard Peripheral Nerve Management Following Amputation. 2025. (abre em nova aba)
- Regenerative Peripheral Nerve Interface Surgery to Treat Chronic Postamputation Pain. 2025. (abre em nova aba)
- Targeted Muscle Reinnervation: an Up-to-Date Review. 2025. (abre em nova aba)
- Diagnostic ultrasound of the residual limb. 2022. (abre em nova aba)
- Multimodality imaging review of post-amputation stump pain. 2017. (abre em nova aba)
- Postamputation Residual Limb Pain Severity and Prevalence. 2022. (abre em nova aba)
- Residual Limb Management in Lower Limb Amputation. 2025. (abre em nova aba)
- Clinical updates on phantom limb pain. 2021. (abre em nova aba)
- Preventive Approach to Phantom Limb Pain in Lower Limb Ablation Surgery. 2025. (abre em nova aba)
- NICE NG158: Venous thromboembolic diseases. 2023. (abre em nova aba)
- 2024 ACC/AHA Guideline for Lower Extremity Peripheral Artery Disease. 2024. (abre em nova aba)
- NICE NG127: Suspected neurological conditions. 2023. (abre em nova aba)
