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Dor no membro fantasma: diagnóstico e tratamento

A dor no membro fantasma é sentida na parte amputada e pode coexistir com dor do coto, neuroma ou problema no encaixe. Cada um tem tratamento próprio.

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21 min
Dr. Marcus Yu Bin Pai, de jaleco, trabalha ao computador na mesa do consultório, visto de perfil, com modelos de coluna vertebral em primeiro plano
Neste artigo
Dor após amputação
Dor percebida no membro ausente pode coexistir com neuroma, ferida, isquemia, alteração óssea ou problema no encaixe. Na avaliação, separo esses componentes antes de escolher reabilitação, medicamento, estimulação ou cirurgia.

Dor no membro fantasma

Dor no membro fantasma é dor percebida na parte do braço ou da perna que foi amputada. O membro não existe mais, mas a dor é real: decorre de atividade nas vias nervosas periféricas e centrais. Queimação, choque, aperto, torção, câimbra, pontada ou posição dolorosa são descrições frequentes.[3]

Sensação fantasma é a percepção de presença, posição, movimento, pressão, coceira ou temperatura no membro ausente, sem dor. Costuma dispensar tratamento quando não limita função nem segurança. Na amputação de perna, quem sente o pé com nitidez precisa treinar transferências para não apoiar o peso no membro ausente.[3]

Dor do membro residual, o coto, nasce nos tecidos que permaneceram: pele, cicatriz, osso, músculo, articulação, circulação, nervo, infecção e interface com a prótese. As duas dores podem coexistir.[24]

Sensações e dor são comuns nas primeiras semanas depois da amputação. Em parte das pessoas a intensidade diminui ao longo dos meses; outras mantêm crises ou dor contínua. Quando a dor persiste, piora tardiamente ou muda de padrão, volto a procurar ferida, problema de encaixe, circulação, neuroma, coluna e mecanismos centrais.[26]

Mãos do médico aplicando o martelo de reflexos no joelho de uma pessoa deitada na maca
Teste do reflexo patelar.

Dor apenas no segmento ausente, sem ferida, secreção, febre ou calor no membro residual, não pede investigação de infecção.[25]

Segundos de choque e horas de queimação pertencem ao mesmo diagnóstico, mas pesam de forma diferente. Frequência, duração, gatilhos, sono, uso da prótese, marcha, tarefas manuais e trabalho mostram quando a dor precisa de tratamento.[3]

O tratamento segue o mecanismo predominante e a função perdida. Pressão da prótese pede correção mecânica; neuroma focal pede confirmação no nervo; conflito entre movimento e sensação orienta treino; dor neuropática difusa, originada no próprio sistema nervoso, permite teste cauteloso com medicamento; dor que resiste ao tratamento, com alvo definido, abre a discussão de cateter, estimulação ou cirurgia.[1]

Outras causas de dor após amputação

Dor ligada ao encaixe aparece durante ou depois do uso da prótese e coincide com pressão, atrito, pistoneamento (o movimento vertical do membro dentro do encaixe) ou mudança de volume. Marcas persistentes e melhora ao trocar a meia ou o liner, o revestimento interno, direcionam a correção à prótese.[25]

Neuroma é o crescimento desorganizado de fibras na ponta de um nervo cortado. Quando dói, costuma produzir um ponto preciso de hipersensibilidade, choque à percussão e irradiação para o território do nervo ou para a parte fantasma correspondente. Vê-lo na imagem, sozinho, não prova que cause a dor.[24]

Local percebido e primeiro alvo
Local Pista dominante Primeira verificação
Parte ausente Choque, queimação, torção Padrão temporal e função
Tecido residual Ponto palpável ou carga Pele, osso, cicatriz e nervo
Interface Surge com uso do dispositivo Volume, marcas e alinhamento
Acima da amputação Coluna, plexo ou circulação Exame neurológico e vascular

Dor óssea localizada pode resultar de esporão, fratura por estresse, osteomielite (infecção do osso) ou ossificação heterotópica (formação de osso no tecido mole). Carga e compressão costumam piorar esse padrão; palpação e radiografia definem quando ultrassom, ressonância ou investigação de infecção serão necessários.[23]

Isquemia é dor causada por fluxo de sangue insuficiente. Pele fria, mudança de cor, cicatrização lenta, perda de tecido e pulsos reduzidos pesam mais quando a amputação foi causada por doença arterial ou diabetes. Nesses pacientes, faço o exame vascular antes de atribuir a dor ao membro fantasma ou ao encaixe.[29]

A síndrome dolorosa regional complexa entra na lista quando a dor é regional, desproporcional e vem acompanhada de alterações de sensibilidade, de temperatura ou cor, de suor ou inchaço, e de movimento, pele, pelos ou unhas. Antes de dar esse nome, preciso excluir outra explicação melhor.[11]

Dor referida da coluna, do plexo (a rede de nervos entre coluna e membro) ou de um nervo mais acima continua possível após a amputação. Dor cervical ou lombar, influência da postura, fraqueza em músculos preservados, reflexos alterados e sintomas no outro membro ampliam o exame neurológico.[3]

Na primeira consulta, uso três perguntas. A dor está no membro ausente, no tecido residual ou nos dois? Existe ponto mecânico ou neural que a reproduz? Pele, circulação, prótese ou exame neurológico mudaram? As respostas definem o primeiro especialista, o exame dirigido e a meta funcional.[1]

Mecanismos da dor

Após a secção do nervo, as fibras lesionadas podem disparar sozinhas e responder mais a estímulos. Neuroma e gânglio da raiz dorsal, um agrupamento de células nervosas junto à coluna, podem sustentar essa entrada anormal. Por isso tocar um ponto do membro residual às vezes reproduz dor na parte fantasma.[3]

Na medula, a perda de informação sensorial e a atividade periférica persistente alteram os circuitos que recebem e modulam a dor: a inibição diminui, a excitabilidade aumenta e a resposta se prolonga. Como periferia, medula e cérebro participam juntos, um único alvo raramente explica todos os padrões.[3]

No cérebro, as áreas sensoriais e motoras que representavam o membro se reorganizam após a amputação. A relação disso com a dor varia entre estudos, e a imagem funcional do cérebro segue restrita à pesquisa. A avaliação clínica se apoia na dor que o paciente relata e na função.[3]

Em parte dos pacientes há desencontro entre a intenção de mover e a informação sensorial que volta. Imagem motora graduada, espelho e realidade virtual ou aumentada tentam oferecer informação coerente durante movimentos planejados. A resposta varia de um paciente para outro.[4]

Avaliação clínica

Na história, registro data, motivo e nível da amputação, revisões cirúrgicas, cicatrização, dor anterior e tratamentos já testados. Para cada tipo de episódio, anoto duração, frequência, localização, qualidade, gatilho, alívio e efeito sobre prótese, transferências, marcha, tarefas manuais, sono e trabalho.[1]

Na inspeção, comparo pele, volume, cicatriz, inchaço, calor, cor, secreção, áreas de pressão e cobertura de partes moles. Na palpação, procuro osso proeminente, bursa (uma pequena bolsa de líquido que reduz o atrito), aderência e ponto neural. A percussão sobre o nervo tem valor quando reproduz a dor habitual.[25]

Na amputação de braço, examino ombro, cotovelo, punho residual quando existe, força, sensibilidade, tarefas com as duas mãos e sobrecarga do braço preservado. Observo a prótese em uso, durante alcance, preensão e controle mioelétrico, isto é, o comando dos componentes por sinais dos músculos, além de examiná-la sobre a mesa.[2]

Átrio da clínica na Alameda Jaú visto de cima, com ripas verticais de madeira e luminárias
Átrio da clínica visto de cima.

Na amputação de perna, o exame inclui amplitude de quadril e joelho, força, equilíbrio, transferências, marcha, comprimento do passo e tempo de uso da prótese. Quando a circulação é duvidosa, escolho entre pressão transcutânea de oxigênio (oxigenação medida pela pele), índice tornozelo-braquial (a comparação entre a pressão no tornozelo e no braço) ou Doppler (ultrassom que mostra o fluxo de sangue).[1]

A suspeita de síndrome dolorosa regional complexa exige sintomas relatados e sinais observados dentro dos critérios diagnósticos, e a exclusão de infecção, isquemia, compressão pela prótese, lesão nervosa focal e doença articular. Registrar temperatura, cor, inchaço, suor, dor ao toque leve (alodinia), amplitude e alterações da pele permite acompanhar a resposta.[11]

Depressão, estresse pós-traumático, sono interrompido, medo de usar a prótese e risco de suicídio entram na avaliação porque mudam a participação e as metas. Esse achado não torna a dor fantasma imaginária nem dispensa a investigação do membro residual.[2]

Exames

O ultrassom mostra nervo, neuroma, coleção de líquido, bursa, cicatriz e a relação dinâmica com o encaixe. Ajuda mais quando a sonda reproduz o ponto habitual e o achado coincide com o território do nervo. Tamanho ou aparência sem concordância clínica decidem pouco.[22]

A radiografia é o primeiro exame para esporão, ossificação heterotópica, fratura e remodelação óssea (mudança de forma do osso). A ressonância amplia a análise de osteomielite, edema da medula óssea, massa e partes moles quando história, exame e radiografia deixam uma pergunta capaz de mudar o tratamento.[23]

Hemograma, marcadores de inflamação, cultura e imagem entram diante de ferida, secreção, febre, calor ou suspeita de infecção profunda.[25]

O teste vascular é guiado por temperatura, cor, pulsos, ferida, dor em repouso e história arterial. Doppler, índices de pressão e medidas de perfusão (fluxo de sangue no tecido) separam isquemia de pressão da prótese e de dor neuropática, além de definir urgência e chance de cicatrização.[29]

O bloqueio anestésico breve testa se reduzir a entrada de um nervo muda o padrão da dor durante o efeito. Resultado concordante fortalece o alvo. Efeito curto, às vezes parcial, e melhora que nem sempre depende do anestésico limitam a previsão de ablação, estimulação ou cirurgia.[24]

Reabilitação

Encaixe, pele e movimento

Pressão dolorosa pode exigir ajuste do encaixe com o protesista e redução temporária da carga; mudanças de volume pedem revisão de meia e liner. Rigidez e fraqueza são trabalhadas com mobilidade, força e treino de tarefas. Corrigir esses fatores pode reduzir a dor do membro residual e facilitar o uso da prótese; a dor percebida no membro ausente recebe acompanhamento próprio.[1]

Terapia ocupacional no membro superior

No membro superior, a terapia ocupacional treina cuidado do membro residual, mobilidade das articulações acima da amputação, tarefas com as duas mãos, controle da prótese e prevenção de sobrecarga do braço preservado, do pescoço e da cintura escapular. O plano diferencia prótese mioelétrica, mecânica e estratégia sem prótese conforme o objetivo cotidiano.[2]

Tratamento conforme a origem da dor
Encaixe e tecidoDescarregar, cicatrizar, ajustar volume
Nervo periféricoConfirmar território e alvo focal
Movimento e sensaçãoTreinar imagem, movimento e tarefa
RemédiosAvaliar alívio, função e efeitos adversos
Dor que resiste ao tratamentoOpções especializadas conforme a limitação

Dessensibilização do membro residual

A dessensibilização usa toque, textura, pressão e movimento graduados quando a pele já cicatrizou e a origem permite exposição. O objetivo é tolerar contato, roupa, liner e tarefas sem piorar ferida, isquemia ou foco infeccioso. Dor e função definem a progressão.[1]

Espelho e imagem motora

O alvo desses treinos é o desencontro entre movimento e sensação, quando as causas no membro residual já foram avaliadas. O espelho reduziu a dor um pouco mais do que outros treinos de movimento e sensação. Imagem motora graduada e realidade virtual ou aumentada mostraram sinais favoráveis, com protocolos variados e confiança limitada. A reavaliação decide se o treino continua.[4]

Realidade virtual e movimento fantasma

Com apoio de realidade estendida, o paciente executa ou imagina movimentos do membro fantasma. Num estudo com 81 pessoas, as duas formas trouxeram melhora parecida; o treino estruturado e acompanhado pode ajudar, e o tamanho do benefício é incerto.[6]

Reabilitação na síndrome dolorosa regional complexa

Quando a síndrome é confirmada, a restauração funcional graduada (retomada progressiva do uso do membro) organiza o plano: imagem motora, dessensibilização, mobilidade, uso ativo, medicamento de apoio e tratamento psicológico para o medo de movimento. Bloqueio ou neuromodulação ficam reservados para barreiras que continuam impedindo o avanço funcional.[11]

Sono, humor e medo da prótese

Sono, humor, trauma e medo da prótese recebem metas paralelas à dor: regularidade do sono, presença nas sessões, retorno às tarefas e tolerância ao dispositivo. Psicoterapia e tratamento psiquiátrico entram quando indicados, com a investigação do membro residual, da prótese e da circulação ainda ativa.[2] O sucesso da reabilitação é medido por horas de uso da prótese, transferências, distância de marcha, alcance, preensão, tarefas com as duas mãos, sono e participação.

Medicamentos

Para dor fantasma já estabelecida, os estudos com gabapentina, amitriptilina, opioides, cetamina e similares, calcitonina e anestésicos locais são pequenos e conflitantes.[7] Um teste com remédio pode ser feito em casos selecionados, sem abandonar a busca por uma causa tratável no membro residual.[1] Quando proponho um, explico se o apoio vem da dor fantasma, de outra dor neuropática ou de dor focal no membro residual.

Gabapentinoides e antidepressivos

Gabapentinoides, como gabapentina e pregabalina, e antidepressivos tricíclicos ou que elevam serotonina e noradrenalina se apoiam sobretudo na dor neuropática em geral. Sedação, tontura, inchaço, quedas, função renal, pressão, ritmo cardíaco e interações orientam a escolha. Sem ganho funcional após um teste adequado, o remédio é retirado.[8]

Cetamina

A cetamina bloqueia receptores envolvidos na amplificação da dor e tem sinais de benefício curto em estudos pequenos. A infusão exige ambiente monitorado para pressão, frequência cardíaca, sedação e sintomas dissociativos. Antes de repetir, reviso exposição acumulada, função do fígado, sintomas urinários e duração real do efeito.[9]

Opioides

Opioide fica restrito a situações excepcionais, com objetivo funcional definido e revisão precoce de sedação, constipação, quedas, uso com sedativos e risco de dependência. Interrompo o aumento da dose quando o ganho de dor e função não supera os danos; o uso crônico de rotina não tem base específica na dor fantasma.[10]

Lidocaína e capsaicina na pele

Lidocaína ou capsaicina de uso local servem para uma área pequena de pele íntegra com dor neuropática focal no membro residual. Não alcançam a dor percebida apenas no membro ausente. Irritação, área tratada, tolerância e efeito sobre o uso do liner decidem a continuidade.[8]

Procedimentos

Cada procedimento tem indicação própria: estrutura focal para infiltração, nervo concordante para bloqueio ou ablação, dor fantasma crônica grave para cateter e barreira funcional documentada para técnicas mais invasivas.[1]

Infiltração de um foco doloroso

A infiltração entra em discussão quando exame e ultrassom identificam uma estrutura focal, como bursa inflamada, cicatriz dolorosa ou nervo. O medicamento e o risco dependem do alvo. Pele comprometida, infecção, uso de anticoagulante, diabetes e proximidade de vasos mudam a decisão e o acompanhamento.[22]

Bloqueio diagnóstico

O bloqueio de nervo diagnóstico responde a uma pergunta limitada: quanto da dor muda enquanto aquele alvo está anestesiado? Um diário de dor e tarefas antes e depois registra a concordância; um tratamento duradouro exige discutir horizonte, risco e alternativas.[24]

Antes de avançar um procedimento
  1. AlvoEstrutura ou nervo concordante
  2. TesteResposta ligada a uma tarefa
  3. HorizonteDuração esperada definida
  4. RiscoComplicações possíveis e orientação para contato
  5. SaídaQuando interromper ou mudar o tratamento

Bloqueio contínuo com cateter

Para dor fantasma crônica, intensa e com prejuízo funcional, o anestésico contínuo por cateter junto ao nervo pode ser considerado em casos selecionados. No esquema estudado, a infusão durou seis dias, sem internação, e o resultado foi avaliado por volta de quatro semanas; dor e interferência nas atividades melhoraram mais do que sem o anestésico.[1]

O cateter exige escolha do nervo, ausência de infecção local, plano para quem usa anticoagulante, proteção da pele, cuidado com a mobilidade e pausa temporária da prótese. No estudo, infecção relacionada ocorreu em cerca de 2% dos cateteres; retirada, contato com a equipe e reavaliação funcional fazem parte do caminho.[1]

Radiofrequência e crioablação

Radiofrequência e crioablação, calor ou frio aplicados por agulha, tentam reduzir o sinal de um nervo periférico confirmado. O benefício é possível, mas impreciso: os estudos misturam dor residual e fantasma, técnicas e seguimentos diferentes. Perda de sensibilidade, neurite (inflamação do nervo), recorrência e piora neuropática entram no consentimento e no seguimento.[15]

Bloqueios na síndrome dolorosa regional complexa

Nessa síndrome, o bloqueio dos nervos da circulação e do suor (simpático) ou de um nervo periférico (somático) tem papel de apoio quando dor e alodinia impedem o avanço da restauração funcional. A resposta é medida pela capacidade de mover, tocar e usar o membro residual durante uma janela planejada; sem progresso funcional, o bloqueio não é repetido.[11]

Acompanhamento após um procedimento

Na dor focal do membro residual, registro a tolerância ao toque e ao encaixe; na dor fantasma, frequência e duração das crises, sono e participação na reabilitação. Esse registro separa o efeito temporário do anestésico de uma melhora duradoura; repetir ou mudar a técnica depende da duração do benefício e dos efeitos adversos.

Neuromodulação

Estimulação elétrica pela pele e de nervo periférico

A estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS) aplica corrente pela pele e pode ser testada com meta curta de dor e tarefa. Na estimulação de nervo periférico, um eletrodo fica perto do nervo; a seleção exige padrão neuropático pós-amputação e alvo acessível.[14]

Num estudo que sorteou os pacientes, um eletrodo introduzido pela pele e mantido por oito semanas trouxe benefício em dor neuropática crônica pós-amputação, num grupo que misturava dor residual e fantasma. Os riscos incluem deslocamento ou quebra do eletrodo, irritação, infecção, sangramento, desconforto e lesão do nervo. Sem ganho útil, o eletrodo é retirado.[12]

Estimulação cerebral não invasiva

A estimulação magnética transcraniana repetitiva e a estimulação transcraniana por corrente contínua atuam sobre o cérebro sem cirurgia. Numa análise de 17 estudos com 510 participantes, as duas reduziram a dor; como os estudos eram pequenos, com protocolos diferentes e seguimento curto, não se sabe quanto o efeito dura nem qual protocolo é melhor.[5]

Estimulação medular

Na dor fantasma, a estimulação medular, com eletrodo junto à medula, aparece em apenas cinco relatos, com 33 pacientes e resposta muito variável. Infecção da ferida, fraqueza transitória, vazamento de líquor (o líquido que envolve a medula), dermatite e cisto no local do eletrodo foram descritos. Um teste temporário, a função e os eventos adversos decidem se o implante deve avançar.[13]

Estimulação do gânglio da raiz dorsal

A estimulação do gânglio da raiz dorsal procura cobertura mais focal, mas na dor fantasma os dados se limitam a séries pequenas. O resultado é medido por dor, sono, prótese, função e menos remédio de resgate. A estimulação cerebral com implante fica em centros especializados e na pesquisa.[14]

Nessas técnicas de estimulação e na ablação de nervo, decido pelo alvo, pela meta funcional e pelo risco do procedimento; faltam dados de longo prazo.[1]

Cirurgia

As cirurgias de nervo exigem um diagnóstico que aponte o componente nervoso da dor. Dor de osso, cicatriz, cobertura ou formato do membro residual pede outra operação, a revisão do membro residual.[23]

Reinervação muscular direcionada

A reinervação muscular direcionada transfere a ponta do nervo cortado para um ramo motor de um músculo que perdeu o próprio nervo, dando destino às fibras. Num pequeno estudo que sorteou pacientes que já tinham neuroma doloroso entre essa técnica e a retirada convencional do neuroma, a dor fantasma em um ano tendeu a ser menor com a reinervação, mas o estudo foi pequeno demais para dar certeza.[16]

Interface regenerativa de nervo periférico

Na interface regenerativa de nervo periférico, a ponta do nervo é implantada num pequeno enxerto de músculo livre, um fragmento inicialmente sem circulação própria, que recebe a reinervação. Em amputações maiores de perna acompanhadas ao longo do tempo, a melhora foi sobretudo na dor residual; ainda falta estudo grande e comparativo.[20]

Os resultados favoráveis das duas técnicas na dor residual e fantasma vêm sobretudo de estudos observacionais.[18] Com a reinervação, esses estudos também relatam ganho de função e menor uso de opioide.[19] Para a dor fantasma, a evidência ainda é considerada insuficiente.[1] Para neuroma estabelecido, com componente nervoso confirmado e dor que atrapalha, a cirurgia pode ser discutida em centro especializado, com consentimento cuidadoso e registro dos resultados.[17]

Riscos e recuperação

Os riscos das duas técnicas incluem infecção, hematoma, problema na ferida, falha da reinervação, novo neuroma, perda de sensibilidade e persistência ou piora da dor. A recuperação coordena proteção da ferida, controle do inchaço, amplitude, força, reeducação muscular e novo encaixe da prótese; dor residual, dor fantasma e função são medidas separadamente.[21]

Revisão do membro residual

A revisão sem foco no nervo trata uma causa demonstrada, como esporão, ossificação heterotópica, cicatriz aderida, cobertura insuficiente ou formato incompatível com o encaixe. Imagem, pele, circulação e possibilidade de reabilitação com prótese definem a operação.[23]

Prevenção na cirurgia de amputação

Controlar a dor antes e logo após a amputação favorece a recuperação, mas nenhuma das medidas estudadas (peridural, cateter, cetamina, gabapentinoides, calcitonina e técnicas sensoriais) mostrou prevenir de forma consistente a dor fantasma mais tarde. O plano em torno da cirurgia trata a dor aguda e a função.[27]

Um cateter junto ao nervo colocado durante a cirurgia pode reduzir a dor pós-operatória em pacientes selecionados. Ele difere do cateter de seis dias usado na dor fantasma crônica.[1]

A reinervação muscular direcionada feita no momento da amputação tem estudos observacionais favoráveis, mas as diretrizes ainda não a recomendam fora da pesquisa.[17] No consentimento, separo três coisas: a prevenção proposta, o tratamento de um neuroma já estabelecido e o objetivo de controle da prótese.

A prevenção funcional inclui formato adequado do membro residual, cobertura de partes moles, manejo dos nervos, proteção da pele, controle do inchaço, amplitude e início coordenado da reabilitação. Essas medidas reduzem complicações tratáveis e preparam a função, enquanto o risco de dor fantasma continua sendo acompanhado.[1]

Sinais de alerta

Emergência vascular: membro residual que fica de repente frio, pálido ou arroxeado, dor intensa em repouso, pulso ausente, fraqueza nova ou necrose (tecido escurecido e morto). Procure o pronto-socorro ou ligue para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU, 192).[29]

Emergência pulmonar: falta de ar súbita, dor no peito, desmaio ou sangue ao tossir exigem investigação imediata de embolia pulmonar, no pronto-socorro ou pelo SAMU 192.[28]

Emergência neurológica: fraqueza que progride, ou dor lombar com alteração nova de bexiga, intestino, função sexual ou sensibilidade no períneo (a região entre as pernas), exige avaliação imediata no pronto-socorro.[30]

No mesmo dia: inchaço assimétrico recente, calor e dor no trajeto das veias do segmento preservado ou do outro membro pedem investigação de trombose em pronto-socorro ou unidade de pronto atendimento (UPA).[28]

No mesmo dia: vermelhidão que aumenta, calor, secreção, mau cheiro, abertura da ferida, febre ou piora rápida da dor pedem avaliação com seu médico ou em unidade de pronto atendimento, sem a pressão da prótese até lá.[25]

Revisão programada breve: marcas que voltam, pistoneamento maior, volume instável, suor excessivo ou queda nas horas de uso da prótese pedem ajuste protético e exame da pele.[25]

Reavaliação

Cada tratamento tem data de reavaliação. Registro dor (dias com crises e duração) e sono interrompido. Na função, anoto horas de prótese, transferências, marcha, alcance, preensão, tarefas com as duas mãos e participação; nos remédios, resgates e efeitos adversos. Queda da nota de dor sem o ganho de função combinado leva a revisar dose, mecanismo ou modalidade; com esses dados, o tratamento é mantido, ajustado ou retirado.[1]

Quando o tratamento falha, reviso o diagnóstico. Espelho sem efeito pede rever se o desencontro entre movimento e sensação era de fato o alvo; remédio sem ganho pede conferir mecanismo, exposição e tolerância; bloqueio sem resposta pede novo alvo; dor que continua depois da correção de um neuroma pede tratar à parte o componente fantasma que persiste.[3]

Casos persistentes podem exigir coordenação entre fisiatria ou dor, cirurgia, fisioterapia, terapia ocupacional, prótese e saúde mental, conforme os achados.[1]

Para a consulta, traga registro dos episódios, remédios e doses, cirurgias, laudos, imagens, dados da prótese e dos liners e fotos seriadas das marcas na pele. Para cada tratamento já feito, anote efeito sobre dor e função, duração, eventos adversos e motivo da interrupção.

Referências

  1. VA/DoD Clinical Practice Guideline for Rehabilitation of Individuals with Lower Limb Amputation. 2024. (abre em nova aba)
  2. VA/DoD Clinical Practice Guideline for the Management of Upper Limb Amputation Rehabilitation. 2022. (abre em nova aba)
  3. Postamputation pain: a multidisciplinary review of epidemiology, mechanisms, prevention, and treatment. 2025. (abre em nova aba)
  4. Effects of non-invasive therapies for the treatment of phantom limb pain. 2026. (abre em nova aba)
  5. Effects of neuromodulation techniques on pain and depression in patients with phantom limb pain. 2025. (abre em nova aba)
Ver todas as 30 referências
  1. Extended reality used in the treatment of phantom limb pain. 2025. (abre em nova aba)
  2. Pharmacologic interventions for treating phantom limb pain. 2016. (abre em nova aba)
  3. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: updated NeuPSIG recommendations. 2015. (abre em nova aba)
  4. Consensus Guidelines on the Use of Intravenous Ketamine Infusions for Chronic Pain. 2018. (abre em nova aba)
  5. CDC Clinical Practice Guideline for Prescribing Opioids for Pain. 2022. (abre em nova aba)
  6. Complex Regional Pain Syndrome: Practical Diagnostic and Treatment Guidelines, 5th Edition. 2022. (abre em nova aba)
  7. Percutaneous peripheral nerve stimulation for chronic neuropathic postamputation pain. 2019. (abre em nova aba)
  8. A scoping review of spinal cord stimulation for phantom limb pain. 2025. (abre em nova aba)
  9. Neuromodulation Techniques in Phantom Limb Pain. 2020. (abre em nova aba)
  10. Treatment of residual and phantom limb pain using percutaneous ablation. 2026. (abre em nova aba)
  11. Targeted Muscle Reinnervation Treats Neuroma and Phantom Pain in Major Limb Amputees. 2019. (abre em nova aba)
  12. NICE HTG750: Targeted muscle reinnervation for managing limb amputation pain. 2026. (abre em nova aba)
  13. TMR and RPNI Versus Standard Management in the Treatment of Limb Amputation. 2024. (abre em nova aba)
  14. Targeted Muscle Reinnervation Compared to Standard Peripheral Nerve Management Following Amputation. 2025. (abre em nova aba)
  15. Regenerative Peripheral Nerve Interface Surgery to Treat Chronic Postamputation Pain. 2025. (abre em nova aba)
  16. Targeted Muscle Reinnervation: an Up-to-Date Review. 2025. (abre em nova aba)
  17. Diagnostic ultrasound of the residual limb. 2022. (abre em nova aba)
  18. Multimodality imaging review of post-amputation stump pain. 2017. (abre em nova aba)
  19. Postamputation Residual Limb Pain Severity and Prevalence. 2022. (abre em nova aba)
  20. Residual Limb Management in Lower Limb Amputation. 2025. (abre em nova aba)
  21. Clinical updates on phantom limb pain. 2021. (abre em nova aba)
  22. Preventive Approach to Phantom Limb Pain in Lower Limb Ablation Surgery. 2025. (abre em nova aba)
  23. NICE NG158: Venous thromboembolic diseases. 2023. (abre em nova aba)
  24. 2024 ACC/AHA Guideline for Lower Extremity Peripheral Artery Disease. 2024. (abre em nova aba)
  25. NICE NG127: Suspected neurological conditions. 2023. (abre em nova aba)

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