Dor em 15 ou mais dias por mês e analgésico frequente por 3 meses sugerem o quadro; a retirada reduz os dias de dor.
O remédio usado para aliviar a dor de cabeça pode manter a cefaleia por uso excessivo de medicamentos quando passa a ser tomado em muitos dias do mês. O diagnóstico reúne dor em 15 ou mais dias por mês e uso regular do remédio de crise por pelo menos 3 meses, num limite que muda conforme a classe.3,5
Esse quadro aparece em quem já tinha enxaqueca, cefaleia do tipo tensional ou outra dor de cabeça. A frequência das crises aumenta, o alívio dura menos e surge uma dor mais contínua entre elas. Isso não indica, por si só, tumor ou outro dano estrutural no cérebro, mas o padrão atual e os sintomas associados orientam a investigação de causas secundárias.
Dor de início súbito e explosivo, déficit neurológico, febre com rigidez na nuca ou uma mudança importante em uma cefaleia antiga pedem avaliação imediata. Sem esses sinais, o diário de dor e de medicamentos, o exame neurológico e a história clínica respondem à maior parte da dúvida e orientam a suspensão do remédio de crise.
O remédio de crise pode alimentar a dor quase diária
A cefaleia por uso excessivo de medicamentos é uma cefaleia secundária, ou seja, desencadeada ou mantida por outro fator, que se desenvolve sobre uma dor de cabeça preexistente. O critério conta os dias de uso: tomar duas doses no mesmo dia registra um dia de medicação. A frequência de uso parece ter mais peso que a dose acumulada.4,5
Analgésicos, anti-inflamatórios, triptanos, ergotamina, opioides e combinações de analgésicos podem participar desse processo. Os remédios preventivos, tomados regularmente para diminuir o número de crises, têm outra função e não são os responsáveis por esse fenômeno. A distinção entre remédio de crise e preventivo orienta tanto o diagnóstico quanto a saída do ciclo.1
A prevalência varia com o método de pesquisa. Uma revisão de 2023 estimou cerca de 3% na população mundial, enquanto estudos populacionais anteriores encontraram valores entre 1% e 2%. Entre pessoas atendidas em centros especializados em cefaleia, a proporção é muito maior porque esses serviços concentram casos crônicos e de difícil controle.3,4
As vias que freiam a dor perdem eficiência
O mecanismo ainda não está completamente esclarecido. Um modelo propõe que a exposição frequente ao remédio de crise estimula repetidamente as vias descendentes que modulam a dor; o sistema nervoso responde tornando-se menos sensível a essa inibição. Com o freio menos eficiente, estímulos antes tolerados passam a disparar ou manter a cefaleia.1,3
No sistema trigeminal, rede nervosa que participa da sensibilidade da face e da cabeça, estudos experimentais encontraram aumento de substâncias relacionadas à transmissão da dor, como o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina e a substância P. Também foram descritos menor limiar para estímulos dolorosos, alterações na serotonina e maior excitabilidade do córtex, a camada externa do cérebro.3,4
Na camada central, a sensibilização amplia a resposta a estímulos comuns. Pentear o cabelo, usar óculos ou encostar a cabeça no travesseiro pode ficar desconfortável, fenômeno chamado alodinia. Estudos de acompanhamento observaram redução dessa sensibilização depois da interrupção do uso excessivo, ligando uma alteração funcional à possibilidade de melhora clínica.3,7
Alterações em regiões que processam dor, emoção e recompensa aparecem em exames de neuroimagem usados para pesquisa. Algumas mudanças regridem após a retirada do remédio, enquanto outras persistem. Esses exames não servem para diagnosticar o uso excessivo na prática: ressonância, tomografia e eletroencefalograma não medem esse mecanismo.3
A frequência inicial influencia a passagem à forma crônica
A relação entre remédio e dor pode ocorrer nos dois sentidos. Uma cefaleia mal controlada leva a mais doses, e o uso frequente pode facilitar a cronificação, processo de aumento persistente da frequência da dor. A melhora depois da retirada apoia o papel causal do medicamento.4,7
A cada ano, cerca de 3% a 4% das pessoas com enxaqueca ou cefaleia do tipo tensional episódica passam a apresentar uma forma crônica. Entre quem desenvolve cefaleia crônica, aproximadamente 30% a 50% têm cefaleia por uso excessivo. Se a frequência da dor e o consumo aumentarem juntos, o diário permite avaliar essa associação em vez de atribuir tudo apenas à enxaqueca.7
Triptanos, combinações e opioides têm limite de 10 dias
Para triptanos, ergotamina, opioides e analgésicos combinados, o uso em 10 ou mais dias por mês já preenche o critério de excesso quando se mantém por pelo menos 3 meses. Entre os triptanos estão sumatriptana, zolmitriptana e rizatriptana. As combinações reúnem componentes como dipirona ou paracetamol com cafeína, codeína ou outras substâncias.3,5
Para analgésicos simples e anti-inflamatórios, o limite é de 15 ou mais dias por mês. Nesse grupo entram dipirona, paracetamol e ácido acetilsalicílico, além de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) como ibuprofeno, naproxeno, nimesulida e cetoprofeno. Esses princípios ativos são de uso comum no Brasil para dor de cabeça e podem ser omitidos quando a pessoa relata apenas os remédios receitados.2,5
Quando várias classes são usadas sem que nenhuma alcance isoladamente o próprio limite, os dias são somados. Se o conjunto alcançar 10 ou mais dias mensais, o critério de excesso atribuído a múltiplas classes pode ser preenchido. Alternar paracetamol, dipirona, AINE e triptano apenas distribui as doses entre produtos diferentes; o sistema nervoso continua exposto ao tratamento de crise na mesma frequência.2,7
Opioides e analgésicos combinados apresentam maior risco de cronificação, enquanto os triptanos ocupam uma posição intermediária. A codeína aparece em produtos combinados e pode passar despercebida na lista de analgésicos; seus efeitos e riscos específicos são detalhados na página sobre codeína e Tylex para dor intensa.3,7
Os AINEs mostram uma relação particular com a frequência basal. Em pessoas com menos de 10 dias de dor por mês, seu uso chegou a ser associado a menor cronificação; acima dessa frequência, pode acelerar o processo. Esse contraste reforça que o número de dias com cefaleia modifica a interpretação do consumo.3
O excesso também produz riscos fora da cabeça. Paracetamol em quantidade excessiva pode lesar o fígado; AINEs podem causar problemas gastrointestinais, renais e cardiovasculares; opioides podem sedar e provocar sintomas de abstinência. Mais de 200 mg de cafeína por dia, aproximadamente duas xícaras grandes de café, pode agravar o quadro, somando-se à cafeína presente em alguns analgésicos.1,3
A dor perde o padrão antigo e o alívio dura menos
Não existe um tipo de dor exclusivo dessa condição. A cefaleia pode ser pulsátil ou em pressão, unilateral ou bilateral, leve em alguns dias e incapacitante em outros. Quem usa triptanos em excesso pode conservar mais características de enxaqueca; com analgésicos simples ou ergotamina, pode predominar uma dor semelhante à cefaleia do tipo tensional.4
Um padrão frequente é a dor surda e persistente entre as crises, acompanhada de episódios que ainda lembram a enxaqueca anterior. A pessoa percebe quando o efeito do remédio termina, toma outra dose para conseguir trabalhar ou dormir e nota que o alívio fica progressivamente menor. Dor ao acordar, dor no pescoço, sono ruim, ansiedade e depressão também aparecem com frequência.2,7
O primeiro sinal precoce é precisar de remédio de crise em mais de dois ou três dias por semana, antes de alcançar os limites formais do diagnóstico. Se o diário mostrar essa frequência, o tratamento preventivo e o consumo entram em revisão, sem esperar a dor se tornar diária. Reconhecer com precisão o horário em que o efeito acaba reforça o alerta.2
Enxaqueca frequente e outras dores aumentam o risco
Os fatores mais fortemente associados à progressão são muitos dias de cefaleia no início e uso excessivo de medicação. Pessoas com enxaqueca e 10 ou mais dias de dor por mês que tratam cada episódio formam um grupo de atenção. Dor musculoesquelética em outras regiões, sintomas gastrointestinais, ansiedade, depressão, uso de tranquilizantes, distúrbios do sono, tabagismo, sedentarismo e obesidade também aparecem como fatores associados.2,3,5,7
Uma cefaleia prévia parece ser o terreno necessário. No acompanhamento de 25.596 pessoas sem cefaleia crônica, 201 desenvolveram o quadro após 11 anos; enxaqueca, maior número de dias de dor e outras condições dolorosas estiveram entre os fatores associados. História familiar de uso excessivo ou de abuso de substâncias também aumentou o risco.3
A saúde mental faz parte dessa avaliação sem transformar a dor em “problema emocional”. Em 603 pessoas com enxaqueca crônica, pensamentos de suicídio foram relatados por 41,6% das que tinham uso excessivo e por 29,4% das que não tinham. A associação permaneceu após considerar depressão, ansiedade e sono, embora o estudo não demonstre causa direta.5
O diagnóstico vem da soma dos dias de dor e de remédio
Três elementos fecham o diagnóstico: uma cefaleia preexistente, dor em 15 ou mais dias por mês e uso regular do remédio de crise no limite da classe ou acima dele durante pelo menos 3 meses. Se esses elementos estiverem presentes e a piora acompanhar o período de consumo, o diagnóstico pode ser registrado. A melhora depois da retirada deixou de ser exigida para registrar o diagnóstico.3,4,7
A mesma pessoa pode receber o diagnóstico da cefaleia de base e o de uso excessivo. Enxaqueca crônica e cefaleia por uso excessivo, por exemplo, podem coexistir. Essa combinação explica por que retirar o analgésico pode reduzir a dor diária e ainda deixar crises de enxaqueca que precisam de prevenção.
O diário inclui produtos sem receita e remédios de outras dores
Um diário útil registra cada dia com dor, duração, intensidade, sintomas associados e impacto nas atividades. Ao lado, entram o nome de cada medicamento, o motivo pelo qual foi tomado e a resposta percebida. Dipirona, paracetamol, AINEs, combinações com cafeína, triptanos e remédios compartilhados por familiares entram na contagem quando usados para a cefaleia.
O registro diário por várias semanas ajuda quando a memória subestima o consumo, sem atrasar a conduta se os critérios já estão claros. Duas perguntas resumem a triagem: “Você toma tratamento para as crises em mais de 10 dias por mês?” e “Esse uso acontece regularmente?”. Sono, cafeína, menstruação e outras dores podem ser anotados para esclarecer fatores associados.3,7
A cefaleia de base e as causas secundárias ficam lado a lado
A enxaqueca crônica sem uso excessivo apresenta dor em pelo menos 15 dias mensais e características de enxaqueca em pelo menos 8 desses dias, por mais de 3 meses. A cefaleia do tipo tensional crônica tende a ser bilateral, em pressão, sem piora com atividade comum e sem náusea moderada ou intensa. A distinção orienta o preventivo, enquanto a contagem de medicamentos define se há um segundo diagnóstico. A página sobre enxaqueca crônica: diagnóstico e tratamento detalha essa condição.7
| Quadro | O que aproxima | O que separa | O que decide |
|---|---|---|---|
| Cefaleia por uso excessivo | Dor quase diária sobre enxaqueca ou cefaleia do tipo tensional | Uso de crise em 10 ou 15 ou mais dias mensais, conforme a classe, por pelo menos 3 meses | Diário de dor e de todos os medicamentos |
| Enxaqueca crônica sem excesso | Pode causar dor em 15 ou mais dias | Ao menos 8 dias com características de enxaqueca, sem consumo acima do limite | Diário com sintomas de cada episódio |
| Cefaleia do tipo tensional crônica | Dor bilateral e contínua pode predominar | Pressão leve ou moderada, sem piora com atividade comum e sem náusea moderada ou intensa | História e exame, com diário da frequência |
| Cefaleia diária persistente de novo início | Dor diária por mais de 3 meses | Início claramente lembrado, tornando-se contínuo em até 24 horas | Cronologia; imagem se houver sinal de alerta |
| Cefaleia secundária intracraniana ou sistêmica | Pode coexistir com uma cefaleia primária antiga | Início explosivo, déficit, febre, inchaço do nervo óptico, mudança posicional ou progressão atípica | Exame neurológico e investigação dirigida à causa suspeita |
O exame neurológico procura sinais que o diário não mostra
No exame, eu verifico pressão arterial, pulso e temperatura, além do estado mental, nervos cranianos, pupilas, movimentos dos olhos, campos visuais, força, sensibilidade, reflexos, coordenação e marcha. A fundoscopia, exame do fundo do olho, procura papiledema, inchaço do nervo óptico que sugere aumento da pressão intracraniana. Um déficit novo muda a prioridade para investigação secundária.7
A cabeça e o pescoço completam o exame. Em pessoas mais velhas, dor e espessamento da artéria temporal levantam a possibilidade de arterite temporal, inflamação de artérias da cabeça. Sensibilidade sinusal, limitação dos movimentos cervicais, dor muscular e alterações da articulação temporomandibular podem indicar outros contribuintes, sem apagar a contagem dos dias de medicação.
A ressonância entra quando há mudança de padrão ou sinal de alerta
A ressonância magnética mostra estruturas cerebrais e lesões que podem produzir uma cefaleia progressiva. No laudo, “lesão expansiva” descreve algo que ocupa espaço; hidrocefalia é o acúmulo de líquido no cérebro; hematoma subdural é sangue acumulado ao seu redor. Se surgirem características novas, déficit neurológico ou suspeita de anormalidade intracraniana, esses achados passam a orientar o tratamento da causa encontrada.6,7
Uma enxaqueca estável, com exame neurológico normal e sem sinais de alerta, não pede imagem de rotina. Em pessoas com enxaqueca episódica frequente e sem achados neurológicos, resultados relevantes apareceram em menos de 1% dos exames. A ressonância não identifica a cefaleia por uso excessivo; sua função é investigar outra causa quando a história ou o exame aponta para ela.7
A tomografia computadorizada é mais apropriada no cenário agudo para procurar sangramento intracraniano ou compressão de estruturas cerebrais. Exames de sangue ficam reservados a hipóteses específicas, como a velocidade de hemossedimentação na suspeita de arterite temporal. Eletroencefalograma, Doppler transcraniano e outros exames funcionais não fazem parte da investigação habitual da cefaleia frequente.6,7
| Exame | Mostra | Pode achar | Muda a conduta quando |
|---|---|---|---|
| Diário estruturado | Dias de dor, consumo e resposta ao remédio | Limite ultrapassado, soma de classes e perda de efeito | Preenche os critérios ou revela subestimação do uso |
| Neurológico com fundoscopia | Função neurológica e aparência do nervo óptico | Déficit focal, alteração de consciência ou papiledema | Há sinal novo que exige investigação urgente |
| Ressonância magnética | Estruturas cerebrais e lesões progressivas | Lesão expansiva, hidrocefalia, hematoma ou alteração vascular | Há alerta, déficit, padrão atípico ou progressão |
| Tomografia computadorizada | Sangue e compressão cerebral no cenário agudo | Hemorragia intracraniana ou grande lesão | A dor é súbita ou o estado neurológico piora rapidamente |
| Exames laboratoriais dirigidos | Inflamação ou alteração sistêmica suspeitada | Inflamação na arterite temporal, infecção ou distúrbio metabólico | A história e o exame apontam para uma causa específica |
A retirada do remédio em excesso vem acompanhada da prevenção
Depois do diagnóstico, o tratamento medicamentoso da dor tem dois objetivos: interromper a exposição que mantém o ciclo e controlar a cefaleia de base. A retirada atinge o remédio usado em excesso; o preventivo reduz as crises e a necessidade de novo resgate. Cerca de metade das pessoas com enxaqueca crônica apresenta melhora importante depois de suspender um medicamento de crise usado em excesso.1
A forma de retirada considera a substância, as outras doenças e tentativas anteriores. Analgésicos simples, AINEs e triptanos costumam permitir uma retirada ambulatorial mais rápida, e em ensaios randomizados a suspensão de uma vez reduziu mais a incapacidade do que a redução gradual.8 Se o excesso envolver opioides, barbitúricos ou benzodiazepínicos, a interrupção abrupta deixa de ser a regra porque pode produzir abstinência intensa e, no caso dos barbitúricos, convulsões.3,7
A piora inicial é temporária e varia com a classe
Nos primeiros dias, a dor pode aumentar porque as vias de modulação ainda estão adaptadas ao uso repetido e o efeito de rebote aparece quando o remédio é suspenso. Náusea, vômitos, ansiedade, inquietação, alterações do sono e aceleração dos batimentos podem acompanhar esse período. A piora esperada faz parte da retirada e difere de um sinal neurológico novo.4
A dor de retirada costuma durar cerca de 4 dias após triptanos, 7 dias após ergotamina e até 10 dias após outros analgésicos.3 Na retirada de opioides, os sintomas de abstinência duram em geral de 2 a 10 dias e não passam de 4 semanas.8 Esses prazos descrevem grupos estudados e ajudam a preparar o acompanhamento. Sintomas fora desse padrão ou piora progressiva pedem revisão clínica.
O naproxeno serve de ponte nos dias de piora
O tratamento de ponte alivia a dor de retirada enquanto o remédio em excesso sai. Na retirada feita em casa, anti-inflamatórios de ação longa, como o naproxeno, foram usados com esse fim durante a fase de retirada.8 A ponte tem data para terminar, e os dias em que o anti-inflamatório for usado depois dela voltam a entrar na contagem do diário.
Num ensaio randomizado, prednisolona, metilprednisolona e paracetamol deixaram a cefaleia de retirada igual à do placebo, e uma metanálise da prednisolona teve o mesmo resultado.8 O bloqueio do nervo occipital, com anestésico local perto dos nervos da parte de trás da cabeça, pode ser considerado quando a piora ameaça interromper a retirada. A resposta ao bloqueio é acompanhada pelo diário de dor e de remédio.
Força da evidência: alguns estudos; o naproxeno trouxe alívio da dor na retirada ambulatorial, e o corticoide teve resultado igual ao do placebo na cefaleia de retirada8.
O preventivo é escolhido pela cefaleia de base
Topiramato, valproato, propranolol e amitriptilina estão entre os preventivos usados nas cefaleias crônicas; candesartana também apareceu entre as escolhas de um ensaio sobre uso excessivo. O remédio pode começar junto com a retirada ou depois dela. A frequência das crises, as outras doenças, os efeitos adversos e as tentativas anteriores orientam essa sequência.5,6
As diferenças práticas ajudam na escolha. Amitriptilina pode causar sonolência e boca seca; topiramato pode provocar formigamento e dificuldade de concentração; propranolol é evitado em asma e em bradicardia, quando os batimentos estão lentos. A flunarizina, outro preventivo da enxaqueca, pode causar sonolência e ganho de peso. Na gestação, o valproato é evitado e a escolha do preventivo é revista com o obstetra.
A prescrição considera ainda interações e segurança de cada princípio ativo, comparadas na página sobre o tratamento preventivo da enxaqueca. Se a frequência continuar alta depois da correção do uso, o diagnóstico de base e o registro de medicamentos são revistos antes de uma nova mudança.
Retirada e preventivo podem ser combinados desde o início
Um ensaio ambulatorial comparou retirada isolada, retirada com preventivo desde o começo e preventivo sem retirada. Os participantes tinham enxaqueca crônica, cefaleia do tipo tensional crônica ou ambas, sem outras doenças físicas ou psiquiátricas importantes. Os resultados sustentam mais de uma sequência possível.5
Outros ensaios compararam começar o preventivo logo depois da retirada ou esperar alguns meses. Um deles encontrou menos dias de cefaleia com o início imediato; outro não viu diferença na frequência da dor aos 3 e aos 5 meses nem depois de 4 anos.8
A escolha entre começar o preventivo junto ou concluir primeiro a retirada considera a incapacidade atual, a cefaleia de base e tentativas anteriores. Quando a enxaqueca crônica já exige prevenção, iniciar as duas etapas em paralelo é uma das possibilidades estudadas. A resposta é medida pelos dias de dor e pelo consumo de remédio de crise.
Erenumabe reduziu o uso excessivo mesmo sem retirada obrigatória
Os anticorpos anti-CGRP bloqueiam a via do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina, a mesma substância ligada à transmissão da dor no sistema trigeminal. Num ensaio do erenumabe em adultos com enxaqueca crônica, uso excessivo de remédios não opioides e pelo menos uma falha de preventivo, a retirada do remédio em excesso ficou fora do protocolo.9
Fonte: ensaio randomizado com 584 adultos na análise principal.9
Os dias mensais de remédio de crise caíram 9,4 com erenumabe 140 mg e 6,6 com placebo. Constipação ocorreu em 15,2% de quem usou erenumabe, contra 4,6% com placebo; dor no local da aplicação, em 5,2%, contra 3,1%. Quando já houve falha de preventivo e a enxaqueca crônica continua ativa, esse resultado permite discutir o anti-CGRP sem esperar uma retirada completa.9
Força da evidência: um estudo clínico; benefício do erenumabe 140 mg sobre o placebo aos seis meses, em adultos com enxaqueca crônica, uso excessivo não opioide e falha de um preventivo anterior9.
A toxina botulínica entra na prevenção da enxaqueca crônica
Na enxaqueca crônica, a toxina botulínica (Botox) pode integrar a prevenção, aplicada em pontos da cabeça e do pescoço. Antes da aplicação, a triagem inclui uso de anticoagulantes, gestação, infecção no local e alergia aos componentes. Dor local, fraqueza no pescoço e queda transitória da pálpebra são os efeitos possíveis. A acupuntura médica pode entrar no tratamento da enxaqueca de base, junto das medidas que reduzem as crises e o consumo de analgésicos.
Força da evidência: alguns estudos; em quem tinha enxaqueca crônica com uso excessivo, a toxina reduziu os dias de cefaleia e o impacto da doença em comparação com placebo, numa análise de subgrupo8.
Educação e terapia comportamental ajudam a sair do ciclo
Entender a contagem dos dias muda a decisão tomada no início de cada crise. Em um acompanhamento observacional, receber informação sobre uso excessivo, sem outro tratamento específico, foi seguido de retorno ao padrão episódico e fim do consumo excessivo em parte dos participantes. Explicação clara e registro podem produzir mudança antes de várias tentativas medicamentosas.4,7
A terapia cognitivo-comportamental trabalha a antecipação da dor, o medo de ficar sem remédio e os hábitos que mantêm o ciclo “dor, dose, alívio curto”. Em grupo ou individualmente, reduziu frequência e intensidade da cefaleia diária crônica e melhorou a qualidade de vida. Relaxamento e biofeedback também diminuíram sintomas e consumo de medicamentos, como apoio ao tratamento da cefaleia de base.6
Acompanhamento próximo também sustenta a retirada. Pessoas apoiadas por enfermeiros especializados em cefaleia completaram a retirada com mais frequência, e um diário com retorno da equipe e possibilidade de contato com médicos ou enfermeiros ajudou a evitar a recaída. Num estudo italiano, mindfulness e preventivo tiveram resultados semelhantes na frequência da cefaleia e no consumo de remédio aos 3, 6 e 12 meses.8
O diário continua útil depois do diagnóstico porque mostra se os dias de dor e de uso estão diminuindo juntos. Sono regular, horários de alimentação e revisão da cafeína entram como fatores associados, sem substituir a retirada e a prevenção. Recaídas foram relatadas em 20% a 40% das pessoas no primeiro ano após a retirada, razão para manter acompanhamento mesmo quando a melhora inicial é nítida.4
Dor frequente antes e depois da suspensão e muitos anos de cefaleia de base estiveram ligados à recaída num estudo de acompanhamento.10 Se o diário mostra muitos dias de dor logo depois da retirada, a prevenção é reforçada nos retornos programados, antes que o consumo volte a subir.
| Estratégia | Tipo de dado | Resultado | Prazo e leitura clínica |
|---|---|---|---|
| Retirada isolada | Ensaio clínico aberto e ambulatorial | Média de 8,5 dias a menos de dor por mês | 6 meses; possibilidade inicial para casos sem complicação clínica |
| Retirada com preventivo | Mesmo ensaio | Média de 12,3 dias a menos de dor por mês; favoreceu o retorno ao padrão episódico | 6 meses; opção quando a cefaleia de base já exige prevenção |
| Preventivo sem retirada | Mesmo ensaio | Média de 9,9 dias a menos de dor por mês | 6 meses; alternativa discutida quando a retirada imediata não é viável |
| Educação breve | Acompanhamento observacional | 42% voltaram ao padrão episódico e 76% deixaram o uso excessivo | 18 meses; reforça o valor do diário e da compreensão dos limites |
| Terapia cognitivo-comportamental e biofeedback | Estudos em cefaleia diária crônica | Menos frequência e intensidade da dor e menor consumo de remédios | Apoio quando medo da crise, estresse e comportamento de resgate mantêm o ciclo |
Fonte: ensaio aberto com 120 adultos, acompanhamento observacional e estudos de tratamentos comportamentais.4,5,6
Força da evidência: um estudo clínico; em adultos ambulatoriais sem outras doenças relevantes, as três estratégias trouxeram benefício, com menos dias de dor por mês aos 6 meses e resultado semelhante entre elas, e a retirada associada ao preventivo levou mais pessoas de volta ao padrão episódico5.
Retirada hospitalar e encaminhamento ficam para casos selecionados
Não há cirurgia para a cefaleia por uso excessivo. O neurologista ou especialista em cefaleia entra quando o diagnóstico permanece incerto, existe sinal de alerta ou o tratamento ambulatorial não produz melhora. Doença psiquiátrica importante também leva à avaliação com o psiquiatra, porque depressão, ansiedade e uso de substâncias podem dificultar a retirada.6,7
A retirada em casa é a opção habitual quando o excesso é de analgésico simples ou triptano e há apoio e retorno programado. Nos estudos que compararam internação e tratamento ambulatorial, a evolução da cefaleia foi parecida e o custo indireto foi menor fora do hospital; num estudo multicêntrico, mais pessoas abandonaram a retirada ambulatorial.8
Uso excessivo de opioides, barbitúricos ou benzodiazepínicos, outras doenças importantes e insucesso de retirada ambulatorial podem levar a desintoxicação monitorada em hospital ou em hospital-dia, onde é possível dar medicação na veia. Esse cuidado permite redução gradual e tratamento dos sintomas de abstinência. Nesses casos, o encaminhamento é feito para equipe com experiência em retirada medicamentosa e controle da cefaleia.3,7
Sinais de alerta mudam a urgência da investigação
Qualquer um destes sinais, isoladamente, justifica procurar pronto-socorro; na impossibilidade de chegar com segurança, o SAMU atende pelo 192.6,7
Contar separadamente os dias de dor e os dias de cada remédio costuma revelar o ponto que a memória esconde. Esse registro permite reconhecer o uso excessivo e, ao mesmo tempo, preservar o diagnóstico da cefaleia que existia antes dele. Depois da retirada, o remédio de crise volta a tratar poucas crises, enquanto o preventivo reduz a necessidade de usá-lo.
Autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
Médico fisiatra, acupunturista médico e especialista em Dor · CRM-SP 158.074 · RQE 65.523 / 65.524 / 655.241
Médico pela Santa Casa de São Paulo, com especialização em Medicina Física e Reabilitação pela USP, Acupuntura Médica e área de atuação em Dor reconhecida pela AMB. Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.
Ver trajetória médica
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