Neste artigo
Neuralgia do trigêmeo
Neuralgia do trigêmeo é uma dor facial em ataques muito breves, intensos e geralmente de um lado só. A pessoa costuma descrever um choque elétrico, um disparo ou uma pontada cortante em uma área da testa, da bochecha ou da mandíbula. Falar, mastigar, escovar os dentes, lavar o rosto ou um toque leve podem iniciar o ataque. O diagnóstico se orienta por esse padrão de ataque.1
A confusão com dor de dente é frequente, porque os ramos maxilar e mandibular do nervo levam a sensibilidade dos dentes, da gengiva, do lábio e da mandíbula. Por isso, o primeiro passo é procurar uma causa odontológica que realmente explique a queixa e confirmar que os ataques ficam no território do trigêmeo.
O remédio de primeira linha pode começar, com acompanhamento médico, enquanto o exame neurológico, a ressonância magnética e o encaminhamento avançam em paralelo. A escolha de um procedimento vem depois: exige o padrão confirmado, a classificação da neuralgia como clássica, idiopática ou secundária, a revisão da imagem, a resposta e a tolerância ao remédio e a avaliação das condições para cirurgia.2
A urgência depende do que a história e o exame mostram: dormência verdadeira, fraqueza para mastigar, dor dos dois lados e os outros sinais reunidos mais abaixo, na seção Sinais que mudam a prioridade. Na avaliação eu reconstruo com a pessoa a sequência de um ataque real, comparo a sensibilidade dos três ramos do nervo dos dois lados e reviso a ressonância com a pergunta clínica em mente.2
Ramos e classificação
O trigêmeo é o quinto nervo craniano. Seus três ramos sensitivos são chamados V1 (oftálmico), V2 (maxilar) e V3 (mandibular) e servem para descrever onde a dor começa e até onde se estende. O V3 também leva fibras motoras aos músculos da mastigação; por isso, força reduzida ao apertar os dentes tem significado diferente de evitar mastigar por medo do choque. O mapa ajuda a comparar os dois lados e a procurar perda de sensibilidade, mas sozinho não mostra a causa.3
Territórios do trigêmeo
Oftálmico couro cabeludo anterior, fronte, pálpebra superior, córnea e dorso nasal
Maxilar pálpebra inferior, maçã do rosto, lateral do nariz, lábio e dentes superiores
Mandibular mandíbula, lábio e dentes inferiores, parte anterior da língua e músculos da mastigação
Na forma clássica, uma artéria ou veia comprime a raiz do trigêmeo perto do tronco encefálico e deforma essa raiz, com deslocamento ou atrofia, do mesmo lado dos ataques. Um vaso apenas encostado no nervo não basta, porque esse contato também aparece em pessoas sem neuralgia.4
A neuralgia é chamada idiopática quando o padrão clínico está presente, mas uma investigação adequada não encontra compressão com deformação da raiz nem outra doença que explique os ataques. É secundária quando está ligada a uma condição demonstrável, como esclerose múltipla, tumor ou outra lesão no trajeto do nervo. Essa classificação define o que precisa ser tratado além da dor e quais procedimentos têm justificativa anatômica.4
O ataque típico
Cada ataque, também chamado paroxismo, dura de uma fração de segundo a dois minutos, atinge intensidade grave e tem qualidade de choque, disparo, punhalada ou corte, sempre dentro de um ou mais ramos do trigêmeo. Alguns episódios parecem espontâneos, mas a história precisa incluir ataques provocados por estímulos banais, como toque ou movimento do rosto. Uma minoria relata episódios mais longos ao longo da doença. Por isso, o diagnóstico sai do conjunto da história e do exame; a duração ou um gatilho isolado não bastam.1
Depois de um choque costuma haver uma pausa curta em que o mesmo toque não dispara outro ataque: é o período refratário. Esse detalhe ajuda a separar a neuralgia de algumas cefaleias trigêmino-autonômicas (dores de cabeça com ataques curtos, sobretudo ao redor do olho, e alterações intensas no olho ou no nariz), em que um novo ataque pode surgir sem essa pausa. Ele não aparece igual em todas as crises, e ninguém precisa repetir de propósito um estímulo doloroso para testá-lo; o que vale é o que a pessoa lembra ao reconstruir uma sequência real.1
Algumas pessoas mantêm, entre os choques, uma dor contínua ou quase contínua no mesmo território, que pode ser ardente, dolorida ou menos intensa que os ataques. Esse subtipo se chama neuralgia do trigêmeo com dor contínua concomitante e exige que os ataques típicos continuem presentes e que a dor de fundo ocupe a mesma área. Uma dor facial constante sem os choques não recebe esse nome, e a dor de fundo sozinha não prevê a resposta a remédio ou cirurgia.1
Um ataque em quatro momentos
anote o estímulo e o primeiro ponto da face atingido
registre a duração espontânea sem tentar reproduzir a dor
um contato casual repetido pode deixar de disparar novo choque
registre ausência de dor ou dor de fundo no mesmo território
O que pode parecer neuralgia
Um gatilho dentro da boca não prova origem dentária. Alterações antigas em radiografias são comuns, e um bloqueio anestésico pode silenciar por algum tempo vias dolorosas vizinhas. Por isso, canal, extração ou ajuste da mordida não servem como teste diagnóstico. Se os choques continuam depois de um tratamento dentário bem feito, seguir para os dentes vizinhos confunde a cronologia e acrescenta dano sem esclarecer a origem.3
A disfunção temporomandibular pode coexistir com a neuralgia. Nesse caso, tratar a mandíbula pode melhorar a dor de base, a limitação ou a fadiga sem mudar a frequência dos choques. Peço que a pessoa anote separadamente as crises elétricas e os sintomas da mandíbula, para que uma melhora parcial não leve a abandonar um tratamento ainda necessário.3
Uma ressonância normal não define, por si, dor facial idiopática persistente, porque a neuralgia idiopática também pode não mostrar causa estrutural. A diferença está na história. Dor contínua pode acompanhar choques trigeminais verdadeiros, mas quando a queixa sempre foi contínua e nunca teve os ataques característicos, chamá-la de neuralgia esconde justamente o dado que orienta a avaliação.1
Lacrimejar, chorar ou esfregar o nariz durante uma dor extrema é uma reação inespecífica. Ajuda separar o que começou junto com o ataque do que veio depois, pela dor ou pela manipulação do rosto. Um sinal autonômico isolado não decide o diagnóstico; quando os dados não convergem, mantenho mais de uma hipótese aberta.3

A dor referida pode fazer o ouvido ou a mandíbula parecerem o ponto de origem, embora a primeira sensação tenha começado em outro território. Reconstruir a ordem do episódio mostra onde a dor começou. Quando a dor parece vir do ouvido ou da garganta, vale separar a neuralgia do glossofaríngeo, em que a dor fica na garganta, na amígdala, na base da língua ou no fundo do ouvido e é disparada por engolir, tossir, falar ou bocejar.1
Dor provocada por toque leve não é exclusiva da neuralgia do trigêmeo. Na neuralgia pós-herpética uma erupção anterior precedeu a dor, e a hipersensibilidade pode ficar ao lado de uma área dormente, com pontadas sobrepostas a um desconforto contínuo. Um gatilho parecido não apaga essa lesão sensitiva anterior, e a aparência atual da pele não mostra se o nervo se recuperou; a evolução é julgada pela dor e pela função.3
Esclerose múltipla, tumor, malformação vascular e outras lesões do trajeto do nervo podem produzir um quadro semelhante, e idade ou lado da dor não excluem essas causas. Como a história, mesmo muito típica, não permite descartá-las com segurança, o exame e a ressonância são necessários. Quando uma causa secundária aparece, o tratamento dos ataques continua, coordenado com o da doença de base.4
Sinais que sugerem outra causa da dor facial
| Hipótese | Padrão dominante | Sinal que muda a rota | Próxima checagem |
|---|---|---|---|
| Dente | persistência ligada a frio, calor, mordida ou carga | estrutura e teste dentário concordam com a queixa | exame odontológico antes de ato irreversível |
| Articulação e músculos | dor mecânica durante uso da mandíbula | movimento, carga ou palpação reproduzem a dor habitual | exame mecânico da mandíbula |
| Dor facial persistente | diária, mais de 2 horas por dia há mais de 3 meses, mal localizada | não segue nervo periférico e o exame neurológico é normal | excluir causa dentária e reconhecer o padrão próprio |
| Cefaleia trigêmino-autonômica | ataques curtos, sobretudo ao redor do olho | olho ou nariz alteram de modo intenso e consistente; falta a pausa refratária | neurologista com experiência em cefaleias |
| Nervo glossofaríngeo | garganta, amígdala, base da língua ou fundo do ouvido | engolir, tossir, falar ou bocejar dispara a dor | avaliação neurológica desse território |
| Neuralgia pós-herpética | queimação ou alteração sensitiva persistente na área da antiga erupção | erupção anterior precedeu a dor | pele, mapa sensitivo e olho se o ramo V1 foi atingido |
O exame neurológico
No exame, comparo o toque leve e o estímulo com ponta nos três ramos, dos dois lados, observo a contração dos músculos ao cerrar a mandíbula e, quando indicado, testo o reflexo de proteção da córnea. Movimentos dos olhos, audição e outros nervos cranianos completam a comparação. O objetivo é documentar território, sensibilidade, força e qualquer déficit que mude a prioridade, sem tentar provocar o choque.2
A pessoa pode relatar dormência porque evita tocar a região, porque o remédio causa uma sensação estranha ou porque há perda sensitiva verdadeira, e o exame comparativo separa essas situações. Também confirma se a fraqueza ao mastigar é real. Um déficit objetivo não exclui neuralgia do trigêmeo, mas torna menos seguro chamá-la de primária antes da imagem e pode apontar para uma neuropatia do trigêmeo ou uma lesão secundária.2
A avaliação odontológica muda o caminho quando há um dente específico com alteração clínica, dor persistente ligada a temperatura ou mordida, doença da gengiva ou outra explicação oral plausível, confirmada por exame e testes apropriados. Se o dentista não encontra causa concordante, a investigação volta para a neurologia ou para a dor orofacial.2
Ressonância magnética
A ressonância magnética examina o cérebro e o trajeto do quinto nervo, procura esclerose múltipla, tumor ou outra lesão e mostra a relação entre os vasos e a raiz do trigêmeo. Pode ser feita da cabeça ou das órbitas, da face e do pescoço, com e sem contraste, conforme o trecho do nervo e a hipótese que precisam ser esclarecidos.5
Na suspeita típica, o exame usa cortes finos da região onde a raiz do nervo sai do tronco encefálico: um tipo de imagem que mostra bem o líquido ao redor do nervo desenha a raiz e as estruturas próximas, e uma angiografia por ressonância define melhor o vaso. O restante do cérebro precisa de imagens capazes de mostrar desmielinização, a lesão da capa dos nervos que ocorre na esclerose múltipla. O contraste entra em alguns protocolos; em outros, o exame sem contraste é considerado suficiente para a maioria. O médico e o neurorradiologista ajustam o protocolo à dúvida clínica.2
O laudo pode falar em contato, compressão, deslocamento ou atrofia, e essas palavras não são equivalentes. Contato isolado não prova que o vaso cause os ataques. Deformação da raiz do lado dos sintomas torna a forma clássica mais provável e abre a conversa sobre descompressão microvascular. Uma ressonância sem conflito vascular também não descarta a neuralgia: depois de investigação adequada, pode levar à classificação idiopática e muda a preferência entre procedimentos.4
Quando a ressonância é contraindicada, testes neurofisiológicos dos reflexos do trigêmeo, se disponíveis, ajudam a separar doença primária de secundária. Se nenhum dos dois pode ser feito, a tomografia é a alternativa, com menos detalhe sobre a raiz e sobre a desmielinização.2
Alimentação e higiene oral
Enquanto o remédio é ajustado, pequenas adaptações preservam funções básicas. Alimentos macios ou em temperatura neutra podem reduzir disparos numa fase intensa; canudo só ajuda se não for gatilho; escova de cabeça pequena e movimentos pelo lado menos sensível podem permitir a higiene oral. O objetivo é manter líquidos, nutrição e cuidado dos dentes. Vale anotar quais ajustes de fato ajudam, para que a restrição não se torne permanente sem necessidade.2
Exercício e fisioterapia podem tratar uma disfunção da mandíbula ou do pescoço associada, quando o exame a confirma; os ataques da neuralgia continuam sendo tratados com os remédios que agem sobre os canais de sódio do nervo. O apoio psicológico pode reduzir o peso da antecipação e do isolamento que os ataques provocam; a dor em si não é psicológica.4
Medicamentos
Carbamazepina e oxcarbazepina
Carbamazepina e oxcarbazepina são as primeiras escolhas para reduzir os ataques. Elas diminuem as descargas repetitivas do nervo e funcionam com uso regular, com a dose ajustada aos poucos pelo médico.4 Em quatro estudos controlados pequenos e curtos, que incluíam também outras dores neuropáticas, 56 de 92 participantes (61%) melhoraram com carbamazepina, contra 9 de 96 (9%) com placebo; esses estudos não preveem o controle ao longo dos anos.6
Acompanho a resposta pela frequência dos choques e pela capacidade de comer, conversar e escovar os dentes; na mesma conta entram sonolência, tontura e desequilíbrio, que podem limitar a rotina mesmo quando a dor cede. Exames de sangue e a revisão dos outros remédios ajudam a escolher e acompanhar o tratamento.7
Uma melhora rápida não diminui a importância de um sinal novo de toxicidade, e exames iniciais normais não garantem tolerância futura. Os riscos principais da carbamazepina são erupção grave na pele, lesão das mucosas, alteração das células do sangue, lesão do fígado e interações com outros remédios. Se controle e segurança não convivem, o remédio é trocado; diante de uma reação grave, ele é interrompido e a pessoa é avaliada.7

A oxcarbazepina também é primeira escolha e costuma ser preferida quando as interações da carbamazepina pesam. Um estudo pequeno mostrou redução semelhante dos ataques, e ainda não se sabe qual das duas mantém melhor controle ao longo dos anos.4 O risco próprio dela é a queda do sódio no sangue (hiponatremia), que acompanho conforme o risco e os sintomas, além de reações graves de pele e de alergia. Os dados de segurança da oxcarbazepina vêm principalmente da epilepsia e orientam a vigilância em quem trata dor facial.8
As duas podem causar reação grave de pele, com risco maior em quem carrega certas variantes genéticas dos antígenos leucocitários humanos (HLA), presentes com mais frequência em algumas ancestralidades. Conforme a origem familiar, a exposição anterior ao remédio e a disponibilidade do exame, posso pedir essa tipagem antes de iniciar.7 Quando o resultado desse exame genético, para as variantes HLA-B*15:02 ou HLA-A*31:01, já é conhecido, ele orienta o uso de cada um dos dois remédios.9
Durante a tentativa, peço o registro dos períodos de ataque, da capacidade de comer e escovar os dentes, do trabalho, da sonolência, do equilíbrio e de efeitos novos. A impressão de “um pouco melhor” vira informação útil quando se sabe o que mudou e por quanto tempo. Como remissões espontâneas podem coincidir com um ajuste, pesa mais o benefício sustentado com boa tolerância do que um único dia sem choque. Com bom controle e efeitos aceitáveis, não há obrigação de partir para um procedimento.4
Medicamentos usados para controlar as crises
CarbamazepinaPrimeira linha · resposta frequente 4, 6, 7, 9
OxcarbazepinaPrimeira linha · menos interações, poucos estudos diretos 4, 8, 9
LamotriginaOpção posterior · poucos dados diretos 2, 12, 13
GabapentinaOpção posterior · sem estimativa confiável para os ataques 2, 16
PregabalinaOpção posterior · pouca evidência 2, 14, 15
BaclofenoOpção posterior · o efeito pode se perder com o tempo 2, 17, 18
Toxina botulínica AComplemento especializado · efeito medido até oito semanas 2, 19
Lamotrigina
A lamotrigina é uma opção posterior, para quem não respondeu ou não tolerou a primeira linha, iniciada por especialista, sozinha ou associada.2 A dose precisa subir devagar e o efeito pleno pode levar vários dias, por isso ela não resolve uma crise que exige resposta imediata. O risco que pede atenção é a erupção grave na pele, sobretudo nas primeiras duas a oito semanas; uma erupção nova exige avaliação imediata.13
Os dados diretos em neuralgia vêm de um estudo pequeno e curto: 14 pessoas sem controle suficiente mantiveram carbamazepina ou fenitoína e, entre as 13 que puderam ser avaliadas, 11 tiveram resultado melhor na fase com lamotrigina. Como o estudo foi curto, ela só é mantida quando há ganho claro depois da tentativa planejada.12
Gabapentina e pregabalina
Gabapentina e pregabalina também são opções posteriores, escolhidas por especialista, sozinhas ou associadas, quando a primeira linha falhou ou não foi tolerada.2 Para a gabapentina, não há estimativa confiável de resposta nos ataques, e não se pode supor que os resultados em outras formas de dor neuropática valham para a neuralgia. A pregabalina foi comparada com a lamotrigina em um estudo aberto cruzado com apenas 22 pessoas que não tinham respondido bem à carbamazepina: as duas foram somadas ao tratamento de base e não houve diferença significativa entre elas.
Por isso, a tentativa é individual e não há ordem definida entre as duas.14 Com a gabapentina, acompanho a função dos rins, a sonolência, a tontura, o equilíbrio e o risco de depressão respiratória quando ela é combinada a outros sedativos ou há doença respiratória; na troca, a retirada é gradual.16 A pregabalina pede os mesmos cuidados e também pode causar inchaço.15
Baclofeno
O baclofeno entra como associação depois da primeira linha e interessa sobretudo a quem tem esclerose múltipla e já o usa para espasticidade.2 O efeito pode se perder com o tempo. Nos estudos antigos, 7 de 10 pessoas reduziram os ataques na fase cruzada e 37 de 50 relataram alívio numa fase aberta; no acompanhamento, 18 de 60 continuavam sem dor usando o remédio, e 13 voltaram a perder a resposta entre um e 18 meses depois.17 Ele causa sonolência, tontura e fraqueza, pede atenção à função dos rins e não deve ser interrompido de repente, porque a retirada brusca pode provocar alucinações ou convulsões.18
Toxina botulínica
A toxina botulínica tipo A pode ser um complemento especializado para adultos com neuralgia clássica cujo controle com remédios continua insuficiente, mantendo o tratamento oral estável. A aplicação é local e busca reduzir os ataques sem aumentar a exposição a remédios que agem no corpo todo. Não existe técnica ou dose padronizada, e a evidência ainda é fraca.2 No ensaio disponível, com 84 adultos, responderam 70% e 86% das pessoas nos dois grupos de dose, contra 32% com placebo.
O benefício apareceu na primeira semana e foi medido até a oitava, sem dados sobre quanto dura depois disso; a assimetria e o inchaço do rosto foram transitórios.19 Antes da aplicação, registro a área dolorosa e o número de crises; depois, acompanho alimentação, fala e qualquer assimetria ou fraqueza facial. Ela não é usada como resgate em uma crise que impede beber, e a repetição depende de uma redução útil dos ataques.2
Quando o remédio não basta
Ataques que continuam impedindo comer ou escovar os dentes, perda de um efeito antes obtido, reação adversa relevante ou combinações que prejudicam o alerta e o equilíbrio pedem revisão da estratégia. Nessa situação, a conversa com o neurocirurgião permite comparar alternativas antes de somar novas associações de remédios. Essa consulta não obriga a operar; ela organiza imagem, resposta, tolerância e condições clínicas para uma decisão posterior.2
Crise intensa
Uma crise intensa pode agrupar tantos ataques que a pessoa não consegue beber, comer ou engolir o remédio; o caminho nessa situação está na seção Sinais que mudam a prioridade. No hospital, a equipe pode usar anestésicos locais ou remédios pela veia, como lidocaína, fenitoína ou fosfenitoína; os estudos medem sobretudo o alívio nas primeiras 24 horas e são limitados. A escolha depende de contraindicações, monitorização do coração e experiência da equipe, e lidocaína ou fosfenitoína pela veia não viram prescrição para casa.10
Não há evidência de que opioides tratem o mecanismo dos ataques, e eles podem somar sedação, náusea e risco de uso problemático enquanto atrasam a correção do tratamento específico. Uma crise grave leva à revisão do diagnóstico, da ingestão de líquidos e alimentos, do esquema regular de remédios e da necessidade de intervenção especializada.2
O resgate serve para atravessar a crise com segurança enquanto a equipe restabelece um remédio oral tolerável ou antecipa a avaliação neurocirúrgica. Na alta, devem ficar registrados o que foi administrado, a resposta, os efeitos adversos e o plano se a via oral voltar a falhar.10
Procedimentos para controlar os ataques
Quando discutir uma intervenção
Uma intervenção entra na conversa quando os ataques continuam limitando alimentação, higiene ou trabalho, ou quando os efeitos adversos impedem uma dose útil dos remédios. A decisão reúne o padrão dos ataques, a ressonância, a resposta às tentativas anteriores e as condições para anestesia. As opções seguem caminhos diferentes. A descompressão microvascular afasta o vaso da raiz na forma clássica e preserva o nervo; é um tratamento dirigido à causa anatômica.
As técnicas de neuroablação alteram de propósito fibras do trigêmeo para reduzir a transmissão dos ataques; tratam o sintoma por meio de uma lesão controlada do nervo, e nelas a possibilidade de dormência facial pesa mais na escolha. A radiocirurgia segue outra via: também age sobre a raiz do nervo, mas com radiação focal, e o efeito aparece ao longo do tempo.2
Descompressão microvascular
É uma cirurgia da fossa posterior, sob anestesia geral, que afasta o vaso da raiz sem lesão planejada do trigêmeo. Serve para quem tem neuralgia clássica confirmada, compressão concordante com o lado e o território dos ataques e condições para a cirurgia. A imagem estima se vaso, alteração da raiz, lado e história formam uma explicação coerente; a operação mostra a anatomia diretamente. Divergências entre o laudo, a revisão especializada e o território dos ataques precisam ser resolvidas antes do consentimento, porque uma palavra isolada no laudo não indica nem exclui a cirurgia.
Os riscos incluem acidente vascular cerebral, vazamento de líquido cefalorraquidiano e perda auditiva do mesmo lado. Anatomia, idade, outras doenças, uso de anticoagulante, audição de base e experiência da equipe mudam o peso desses riscos, e o ideal é conhecer os resultados do serviço que vai operar. Antes da anestesia, também precisa estar combinado o que fazer se a compressão esperada não for confirmada ou não puder ser corrigida: parar, modificar a descompressão ou intervir na raiz são decisões diferentes, e a última traz outro tipo de risco sensitivo.
Os resultados publicados da descompressão vêm de centros que selecionaram anatomias e riscos diferentes, definiram controle a seu modo e acompanharam as pessoas por períodos desiguais. Nunca obter alívio, voltar a ter choques depois de anos e continuar bem usando remédio também são resultados diferentes, e por isso a média publicada não vira previsão pessoal.2
Radiocirurgia
A radiocirurgia estereotáxica aplica radiação focal na raiz do trigêmeo, em sessão ambulatorial, sem corte e sem anestesia geral. Serve para neuralgia primária confirmada quando a pessoa prefere evitar cirurgia aberta e consegue manter o controle com remédios enquanto o efeito demora, porque o alívio costuma começar em um a três meses.
Por isso, não é a escolha para quem precisa de alívio imediato. O controle com remédios continua durante essa espera, e a primeira revisão é feita em cerca de seis semanas. Os efeitos a vigiar são redução da sensibilidade, piscar diminuído, olho seco e, raramente, dor na área dormente. Uma nova aplicação exige planejamento com dose menor, para limitar outra perda sensitiva.2
Radiofrequência, compressão por balão e glicerol
Nas três técnicas percutâneas, uma agulha ou um cateter atravessa a face, guiado por imagem e sob anestesia geral, até o gânglio do trigêmeo, onde calor (radiofrequência), compressão mecânica (balão) ou uma substância química (glicerol) lesam fibras do nervo. Isso não equivale a retirar o nervo. Servem para neuralgia primária confirmada que continua incapacitante apesar dos remédios, quando não há compressão adequada para a descompressão ou quando a cirurgia aberta não é indicada ou aceita.
O alívio vem mais rápido que na radiocirurgia. O custo é a alteração da sensibilidade: redução do tato, sensações desagradáveis como ardor e perda da proteção da córnea; depois da radiofrequência e do balão, também fraqueza da mastigação. Quando o ramo V1 está envolvido ou a proteção da córnea já é frágil, esses riscos pesam contra.2
Dormência e proteção do olho
Hipoestesia é a redução da sensibilidade; disestesia é uma sensação alterada e desagradável, como ardor ou toque incômodo. As duas podem atrapalhar o olho, a boca e a qualidade de vida. Uma complicação rara é a anestesia dolorosa, uma dor neuropática persistente dentro da área que ficou dormente, estimada em cerca de 6 casos por 1.000 após radiofrequência.
Esse número vale para a radiofrequência e não se aplica ao balão, ao glicerol, à radiocirurgia nem a todos os serviços. O ramo V1 exige atenção especial, porque sem a sensibilidade da córnea o olho fica vulnerável sem que a pessoa perceba o contato. Depois da radiofrequência, do balão ou do glicerol, a face e a córnea precisam ser mapeadas, e a mastigação também após a radiofrequência e o balão; se a proteção do olho se perder, ele deve ser revisado todos os dias.2
Comparação dos procedimentos para o trigêmeo
Descompressão microvascularSepara o vaso · preserva o nervo · cirurgia aberta 2
Radiocirurgia estereotáxicaRadiação focal · sem cirurgia aberta · efeito tardio 2, 11
RadiofrequênciaNeuroablação térmica · efeito rápido · alteração sensitiva 2, 11
Compressão por balãoNeuroablação mecânica · efeito rápido · mastigação e sensibilidade 2, 11
Rizólise por glicerolNeuroablação química · efeito rápido · alteração sensitiva 2, 11
Quando os ataques voltam
Ataques que persistem logo depois do procedimento, retorno após um período de alívio e uma dor nova com alteração sensitiva são situações diferentes. A primeira sugere ausência de resposta; a segunda fala da duração do efeito; a terceira pode ser dano do tratamento. Essa distinção precisa ser registrada antes de repetir ou trocar a técnica, porque uma nova intervenção sobre um território já alterado muda o equilíbrio entre benefício e perda de sensibilidade.2
Causas secundárias
Na esclerose múltipla, placas no trajeto do trigêmeo podem participar dos ataques, e a doença de base precisa de acompanhamento neurológico próprio. Tumor ou outra lesão também exige um plano coordenado para a causa e para a dor. Nos dois casos, os remédios continuam sendo a primeira linha para os ataques.4
A radiocirurgia pode ser feita na esclerose múltipla ou em tumor da base do crânio, mas tende a ter resultado menos favorável que na forma clássica.2 Os números de controle e de dormência das técnicas percutâneas e da radiocirurgia vêm da forma primária e não valem automaticamente para a secundária; essa incerteza entra na conversa.11
Acompanhamento
A neuralgia pode alternar períodos intensos e remissões. Ficar semanas ou meses sem ataque não prova cura, e uma recorrência não anula o benefício anterior. Quando a dor desaparece de modo sustentado, a redução do remédio pode ser discutida e feita devagar com a equipe; parar de repente ou retomar sozinho o esquema antigo acrescenta risco. Depois de uma cirurgia, o retorno dos choques precisa ser descrito de novo, porque o padrão, a sensibilidade do rosto e a imagem podem ter mudado.2
Em cada reavaliação, comparo o que muda a vida diária: períodos de ataque, escovar os dentes e mastigar, peso e hidratação, dor contínua, fala e trabalho, sonolência, equilíbrio e exames de sangue. Um remédio pode reduzir os choques e ainda assim ser inadequado pela toxicidade, e um procedimento pode aliviar a dor e deixar uma alteração sensitiva inaceitável.
Quando o quadro muda, volto ao começo: confirmo se os ataques ainda seguem o padrão do trigêmeo, repito o exame diante de alteração sensitiva, avalio a necessidade de nova imagem e só então escolho troca de remédio ou nova intervenção. Essa sequência evita tratar um dente ou uma articulação que não explicam os choques e evita levar para cirurgia uma dor facial que já não corresponde à neuralgia do trigêmeo.4
Referências
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