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Botox para dor neuropática em São Paulo: indicação e aplicação

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14 min
Dr. Marcus Yu Bin Pai de jaleco na escada do átrio da clínica, visto de longe sob a claraboia, com ripado de madeira, tijolos vazados e luminárias de papel
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Toxina botulínica na dor neuropática

A toxina botulínica tipo A pode ser considerada em casos selecionados de dor neuropática periférica focal e refratária: uma dor que ocupa uma área delimitada da pele e que persistiu apesar das opções já tentadas, por falta de efeito ou por efeitos adversos. Para essa finalidade o uso é fora de bula, isto é, dor neuropática não está entre as indicações aprovadas da onabotulinumtoxinA, e o tratamento é diferente do aprovado para enxaqueca crônica ou espasticidade. Dor neuropática difusa, dormência extensa ou fraqueza sem uma área dolorosa focal ficam fora dessa indicação.[1]

O objetivo da aplicação é aliviar a dor naquela área. A toxina não recupera o nervo, e o efeito, quando aparece, é temporário. O risco mais sério é o efeito se espalhar para longe do local aplicado; os sinais que pedem atendimento imediato estão reunidos no quadro de alerta, mais abaixo. Na consulta, avalio primeiro três coisas: se a dor é de fato neuropática, qual é a causa e se existe um território focal que possa ser desenhado na pele. Depois disso discuto a aplicação, com um consentimento que explique a incerteza, a técnica, os riscos e as alternativas.

“Botox” é o nome comercial de uma das toxinas botulínicas. As unidades de potência não são intercambiáveis entre produtos, e o resultado obtido com uma formulação não se converte diretamente para outra. Nos estudos de dor neuropática, a toxina tipo A foi aplicada principalmente na pele ou logo abaixo dela, sobre a região dolorosa, o que difere da aplicação dentro do músculo usada para reduzir contração.[2]

Sinais da dor neuropática

A dor neuropática decorre de lesão ou doença do sistema que conduz a sensibilidade, chamado somatossensitivo. Ela pode causar queimação, choques, pontadas e sensações espontâneas numa distribuição que faça sentido anatômico. Dois sinais pesam nesta decisão. Alodinia é a dor provocada por um estímulo que normalmente não dói, como a roupa ou um toque leve. Hiperalgesia é a resposta exagerada a um estímulo doloroso. Esses fenômenos podem conviver com perda de tato, de sensibilidade à temperatura ou de força, e a toxina é discutida para a dor.[3]

O quadro mais compatível com a toxina é periférico e focal: uma região que eu consigo desenhar na pele, com dor superficial, alodinia ou hiperalgesia, e com a pele íntegra para receber as aplicações. Os estudos incluíram algumas neuropatias diabéticas dolorosas, a neuralgia pós-herpética e a dor neuropática focal depois de lesão de nervo.

A neuralgia do trigêmeo tem anatomia e técnica próprias. O resultado obtido numa dessas condições não se transfere para dor central depois de acidente vascular cerebral, fibromialgia, dor nociplástica (dor por sensibilização do sistema nervoso, sem lesão identificável) nem para a polineuropatia, que atinge muitos nervos ao mesmo tempo, quando nela predomina a dormência.[4]

Casos mais e menos compatíveis

Mais compatívelÁrea focal, dor superficial, pele mapeável.
Menos compatívelDormência difusa, fraqueza ou dor central.
Precisa tratar antesInfecção, ferida ou causa ainda indefinida.

Causa e imitadores

Diabetes, herpes-zóster, trauma ou cirurgia de nervo, quimioterapia, compressão, doença autoimune, deficiência nutricional e infecção podem produzir dor neuropática, e cada causa tem um manejo próprio. Controle metabólico, descompressão, correção da deficiência, ajuste da quimioterapia ou terapia imunológica continuam, com ou sem a aplicação. Mesmo quando a dor melhora, a doença de base pode continuar avançando e causar perda de sensibilidade, feridas na pele ou fraqueza.[5]

No exame, também separo os imitadores. Dor muscular, tendinopatia (doença do tendão), artrose, radiculopatia (compressão ou irritação de uma raiz nervosa na coluna), síndrome dolorosa regional complexa e dor nociplástica podem coexistir com a neuropatia ou ser descritas com palavras parecidas.

Uma área dolorosa ao toque não prova neuropatia. O diagnóstico se apoia em três elementos juntos: uma distribuição de nervo ou território plausível, sinais sensitivos concordantes no exame e uma lesão ou doença capaz de explicar o quadro. Quando essa relação não está estabelecida, o próximo passo é completar o diagnóstico.[6]

Exame e mapa da dor

Na consulta, registro quando a dor começou, a causa provável, como ela é, os medicamentos já tentados, a resposta e os efeitos adversos. No mapa corporal, delimito a dor espontânea, a alodinia testada com pincel ou algodão, a hiperalgesia testada com um estímulo levemente doloroso e as áreas de sensibilidade diminuída.

Força, reflexos, coordenação e marcha mostram se existe um déficit que muda a prioridade. Na pele, procuro infecção, úlcera, cicatriz instável, inchaço e sinais de circulação inadequada; infecção e ferida na área precisam ser tratadas antes. Uma fotografia padronizada ou um molde transparente torna o alvo reproduzível de uma visita para outra.[4]

O mapa da dor é comparado com a área de perda sensitiva. Também anoto se a dor é superficial ou profunda, contínua ou em crises, e se é provocada por roupa, temperatura ou movimento. Crises breves desencadeadas por um gatilho num território do rosto levantam a hipótese de neuralgia do trigêmeo, que é avaliada à parte e não recebe a grade de pontos usada no corpo.

Dr. Marcus Yu Bin Pai, de jaleco, trabalha ao computador na mesa do consultório, visto de perfil, com modelos de coluna vertebral em primeiro plano
Mesa do consultório, com modelos de coluna vertebral.

A eletroneuromiografia e os estudos de condução nervosa ajudam a localizar lesão de fibras grossas (as que conduzem tato, vibração e força), medir a gravidade e separar raiz de nervo. Eles podem vir normais na neuropatia de fibras finas, as que conduzem dor e temperatura. Biópsia de pele, testes autonômicos (que avaliam funções automáticas, como suor, pressão e frequência cardíaca), exames de sangue ou imagem entram conforme a hipótese. Cada exame é pedido para responder uma dúvida que mude o tratamento ou a segurança.[6]

Tratamento

Nas recomendações internacionais mais recentes para dor neuropática periférica, a toxina aparece em terceira linha, isto é, depois das opções de primeira e de segunda escolha. Por isso, antes de discutir a aplicação, reviso o que já foi feito para a causa, os medicamentos, o tratamento tópico e a reabilitação.[7]

O que já foi tentado

Para cada opção já usada, anoto a indicação, o tempo de uso, a dose alcançada, a melhora, os efeitos adversos e o motivo da retirada. Um remédio interrompido cedo por sonolência não prova que não funcionaria, mas pode ser inviável para aquela pessoa. Essa revisão pode revelar uma alternativa ainda não testada.[8]

Medicamentos por via oral

As opções iniciais para dor neuropática são amitriptilina, duloxetina, gabapentina ou pregabalina, com exceções em alguns diagnósticos, como a neuralgia do trigêmeo, que é avaliada à parte. A escolha leva em conta a causa, outras doenças, os remédios em uso, o sono, a função e a vulnerabilidade a efeitos adversos. Efeitos, aumento de dose e retirada são diferentes entre esses fármacos e seguem a prescrição e a informação do produto usado. Eles agem sobre a dor, e o cuidado da causa continua.[8]

Capsaicina tópica

A capsaicina tópica é uma opção para dor neuropática localizada em quem prefere evitar ou não tolera o tratamento por via oral. Como age sobre a área em que é aplicada, ela só serve de comparação com a toxina quando cobriu de fato o território mapeado. Um tópico usado fora da área dolorosa não conta como tentativa.[8]

Reabilitação

A reabilitação continua voltada para marcha, equilíbrio, sensibilidade e função do membro afetado. A toxina age sobre a dor na pele; força e equilíbrio são o alvo da reabilitação. Quando a fraqueza domina a limitação, esse déficit passa a ser a prioridade do plano.[3]

Bloqueios, neuromodulação e cirurgia

Dependendo da causa e da anatomia, bloqueios anestésicos, neuromodulação ou cirurgia, como a descompressão de um nervo comprimido, podem ser alternativas. A indicação de cada um depende do diagnóstico que explica a dor, e o consentimento para a toxina apresenta essas alternativas quando elas se aplicam ao caso.

Toxina botulínica tipo A

O benefício possível da toxina botulínica é mais relevante quando a dor é focal, os remédios por via oral causaram efeitos adversos e há experiência técnica com a aplicação. Como a recomendação é fraca, a decisão é compartilhada entre mim e o paciente.[7]

No estudo de referência, com duas sessões de aplicações sob a pele e doze semanas de intervalo, o benefício em relação ao placebo foi pequeno, e os resultados sugeriram que a alodinia e a preservação das vias de dor podem influenciar a resposta; as picadas incomodam durante o procedimento.[9] Reunindo estudos com diagnósticos e técnicas diferentes, a diferença em relação ao placebo foi, em média, de cerca de 1 a 2 pontos numa escala de dor de 0 a 10, no primeiro e no terceiro mês, sem ganho demonstrado em qualidade de vida.[10]

Aplicação

Para dor superficial focal, a técnica estudada distribui pequenas injeções na pele ou logo abaixo dela, em grade sobre a área mapeada. O mecanismo proposto é o bloqueio da liberação, na periferia, de neurotransmissores e mediadores da dor, além do efeito clássico sobre a acetilcolina, que enfraquece o músculo.

Paralisar músculo não é necessário para aliviar dor superficial, e perto de músculos que a pessoa usa a fraqueza é um dano. Aplicar fundo, dentro do músculo, muda o alvo e aumenta a chance de fraqueza. Não existe uma grade padrão. Também não se presume que mais quantidade ou mais profundidade tragam mais alívio, e uma área muito extensa pode tornar a aplicação inviável dentro dos limites de cada formulação.[9]

Em cada aplicação, registro o produto, o lote, a diluição, as unidades, os pontos e a data de reavaliação, e fotografo a área mapeada para comparar a resposta depois. Guarde o nome do produto, a data e os locais aplicados: essas informações ajudam se outro serviço precisar investigar algum evento.[2]

O que muda de um caso para outro

  1. FormulaçãoUnidades de produtos diferentes não são intercambiáveis.
  2. ViaAplicação sob a pele e aplicação no músculo têm alvos diferentes.
  3. DiagnósticoCada causa de dor tem resultado próprio nos estudos.
  4. IntervaloO estudo principal usou doze semanas; a repetição depende da reavaliação.

Contraindicações e medicamentos

A onabotulinumtoxinA não deve ser usada em quem tem alergia conhecida a preparações de toxina botulínica nem aplicada sobre pele infectada. Doenças da junção entre nervo e músculo, neuropatias motoras e medicamentos que interferem na transmissão neuromuscular aumentam o risco de fraqueza relevante e exigem análise específica. Gestação, amamentação, cirurgia prévia na região e alterações anatômicas também entram na avaliação de segurança do procedimento, com consulta à bula da formulação que será de fato usada.[2]

Antes da aplicação, conte se usa aminoglicosídeos (uma classe de antibióticos), relaxantes musculares, anticolinérgicos (remédios que bloqueiam a acetilcolina) ou outros remédios que interferem na transmissão neuromuscular, e se recebeu outra toxina botulínica recentemente, inclusive com finalidade estética. Anticoagulantes e antiagregantes plaquetários, que afinam o sangue, também devem ser informados. Não há uma regra única de suspensão para eles, e nenhum remédio prescrito deve ser interrompido por conta própria.[2]

Riscos e sinais de alerta

Dor da agulha, ardor, hematoma, inchaço e sensibilidade local podem ocorrer. A ação da toxina pode enfraquecer estruturas próximas, conforme a área, a profundidade, a difusão e a dose. Perto das mãos, dos pés e de músculos que estabilizam o corpo, essa fraqueza pesa mais, porque pode causar assimetria, perda de função e queda. Infecção e reação alérgica também precisam ser reconhecidas, e a ausência de reação logo após a aplicação não exclui efeitos posteriores.[12]

No retorno, pergunto sobre fala, deglutição, visão, respiração, equilíbrio e as tarefas do segmento tratado. No tratamento da dor, fraqueza no local é um efeito indesejado, ao contrário de outras indicações da toxina em que a fraqueza focal é esperada. Não massageie a área com força nem procure outra aplicação para corrigir assimetria sem avaliação.[11]

Hall da clínica com a escada, as portas dos consultórios e cadeiras de madeira
Hall e escada da clínica.

Dor, hematoma ou inchaço leves no local, que não progridem, são avaliados no retorno. Visão borrada, visão dupla ou queda da pálpebra depois da aplicação pedem atendimento imediato, conforme o quadro de alerta abaixo. A advertência mais grave é a disseminação do efeito, com sintomas parecidos com os do botulismo, e uma aplicação pequena ou localizada não permite minimizar esses sintomas.[2]

Reavaliação

Antes da aplicação, registramos como está a dor: dor média e máxima, área de alodinia, sono, uso de remédio extra nas crises e uma tarefa do dia a dia que a dor limita. Nas semanas seguintes, registramos quando o efeito começou, o maior ganho, quanto durou e os eventos adversos. A toxina não age na hora, como um anestésico. Repetir cedo porque não houve alívio nas primeiras horas aumenta o risco sem respeitar o tempo em que o efeito foi estudado. A data de reavaliação é combinada antes, de acordo com a formulação e a técnica usadas.[9]

Uma nova aplicação é considerada depois de comparar a meta, a duração do alívio, os eventos adversos e se o diagnóstico continua válido. Antes de repetir, informe o produto e a data da aplicação anterior, os remédios em uso e qualquer fraqueza ou sintoma geral que tenha surgido.[2]

Antes de repetir

  • EfeitoDor e tarefa comparadas ao registro feito antes da aplicação.
  • DuraçãoQuanto tempo o alívio durou desde a aplicação.
  • DanoFraqueza, evento local e sintomas de disseminação.
  • ProdutoMesma formulação identificada e unidades próprias.

O que esperar

Quando há resposta, a área dolorosa pode diminuir enquanto a dormência, o risco de ferida e a doença de base continuam. Por isso separo três perguntas: se a dor ficou controlada, se o nervo se recupera e se a causa progride. A toxina mira a primeira, e as outras duas continuam no plano de tratamento da causa.[10]

Para a primeira consulta em São Paulo, traga o diagnóstico e a causa provável, os exames, um mapa dos sintomas, a lista completa de medicamentos, as toxinas já aplicadas com o nome e a data de cada uma, as respostas e os efeitos adversos. Diga também qual tarefa você quer recuperar. Com esse material, consigo verificar se existe um alvo focal e se uma opção fora de bula é proporcional ao seu problema.

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