Pular para o conteúdo principal
Artigos

Formi­ga­mento nos braços: cervical, nervo ou túnel do carpo

Formigamento nos braços pode vir de um nervo comprimido, de uma raiz cervical ou de vários nervos. Força, reflexos e padrão do sintoma localizam a lesão.

Atualizado
Publicado em
Leitura
25 min
Mãos do médico aplicando o martelo de reflexos no joelho de uma pessoa deitada na maca
Neste artigo
Formigamento no braço e na mão
Força, reflexos, movimento, tempo de evolução e exames escolhidos pela dúvida localizam a lesão. O tratamento é escolhido conforme essa localização.

O que significa

Formigamento é uma alteração de sensibilidade, também chamada parestesia. Pode ser apenas irritação transitória de um nervo, como o formigamento breve depois de apoiar o cotovelo, que pode desaparecer quando a pressão cessa. Também pode vir de compressão persistente, inflamação de uma raiz cervical, doença de vários nervos ou lesão da medula. A sensação descreve o que o nervo está produzindo; a localização vem do exame.[23]

O que muda a importância do sintoma é o comportamento dele. Dormência noturna repetida, fraqueza, atrofia ou perda sensitiva constante indicam comprometimento mais relevante. Progressão rápida ou mudança do padrão exige nova localização e investigação dirigida. Os quadros que pedem atendimento imediato estão reunidos em Sinais de alerta, mais abaixo.[23]

Na consulta, a primeira decisão é entre padrão focal e padrão difuso. Sintomas em uma mão, ligados à posição do punho ou do cotovelo, favorecem compressão periférica. Dor que começa no pescoço e alcança o braço favorece raiz cervical. Sintomas simétricos nas mãos e nos pés apontam para polineuropatia. Perda de destreza e desequilíbrio exigem avaliação da medula. Essa localização é o que define o tratamento.[15]

Distribuição do formigamento

Raízes cervicais são os feixes que saem da medula no pescoço. Depois elas se misturam no plexo braquial e formam nervos como mediano, ulnar e radial. Por isso, C6 (a sexta raiz cervical) não é sinônimo de nervo mediano, e C8 (a oitava) não é sinônimo de nervo ulnar. Cada nervo periférico contém fibras de mais de uma raiz.[5]

Os mapas de pele são aproximações. Dermátomo é a área predominantemente ligada a uma raiz; miótomo é o conjunto de músculos cuja força ajuda a testar essa raiz. Território de nervo nomeado é a área servida pelo nervo depois do plexo. O diagnóstico fica mais seguro quando sensibilidade, força, reflexos e provocação anatômica apontam para o mesmo nível.[2]

Territórios que orientam a localização
C6Polegar e borda lateral do antebraço; testar flexão do cotovelo e extensão do punho.
C7Dedo médio e região central da mão; testar tríceps e extensão dos dedos.
C8–T1Anelar, mínimo e borda medial; testar flexores dos dedos e músculos intrínsecos.
MedianoPolegar, indicador, médio e metade radial do anelar; mínimo geralmente poupado.
UlnarDedo mínimo e metade ulnar do anelar; avaliar força entre os dedos.
RadialDorso radial da mão; déficit motor pode predominar sobre dormência.

As fronteiras se sobrepõem. O mapa direciona o exame; força, reflexos e testes de localização confirmam o nível.

Raiz cervical

Radiculopatia cervical é disfunção de uma raiz nervosa, geralmente por hérnia de disco ou estreitamento degenerativo do forame por onde a raiz sai. Pode causar dor do pescoço para o braço, formigamento, perda sensitiva, fraqueza e redução de reflexo. Alguns pacientes têm pouca dor cervical; nesses casos, é o déficit neurológico que localiza a raiz.[2]

C6 costuma afetar a extensão do punho e o reflexo braquiorradial; C7 pode reduzir a força do tríceps e o reflexo tricipital; C8–T1 pode comprometer os flexores dos dedos e os músculos pequenos da mão. Esses padrões não são absolutos. Dor intensa pode limitar o teste de força sem que haja dano axonal, que é a perda efetiva de fibras motoras do nervo.[2]

A manobra de Spurling combina extensão, inclinação e compressão do pescoço. Se ela reproduz o trajeto habitual da dor, a suspeita aumenta; um resultado negativo, porém, não exclui radiculopatia. Testes neurodinâmicos tensionam raízes e nervos do membro superior e valem mais quando somados à história e ao exame neurológico.[1]

A ressonância mostra discos, forames e medula, mas alterações degenerativas são comuns em pessoas sem sintomas. A imagem ganha valor quando o nível e o lado da compressão correspondem ao território, à fraqueza e ao reflexo alterado. Quando laudo e exame discordam, eu reviso a hipótese antes de tratar um nível só porque ele parece pior na imagem.[3]

Plexo braquial

O plexo braquial é a rede entre as raízes cervicais e os nervos do braço. Uma plexopatia costuma ultrapassar o território de um único nervo e pode combinar fraqueza de ombro, braço e mão. Trauma, cirurgia, radioterapia, tumor, inflamação e amiotrofia neurálgica são causas distintas, com investigação e prognóstico diferentes.[5]

A amiotrofia neurálgica, também chamada síndrome de Parsonage-Turner, frequentemente começa com dor intensa no ombro ou no braço, e depois aparece fraqueza localizada. Essa sequência difere da compressão gradual do túnel do carpo. A eletroneuromiografia ajuda a mapear os ramos atingidos; ultrassom ou ressonância neurográfica podem mostrar alterações estruturais em situações selecionadas.[6]

O gânglio sensitivo reúne os corpos das células que levam sensibilidade e fica depois da raiz. Na plexopatia, a lesão é pós-ganglionar, isto é, ocorre depois desse gânglio; por isso, os potenciais sensitivos, respostas elétricas registradas na condução nervosa, podem estar reduzidos. Alterações nos músculos paravertebrais, situados junto à coluna e inervados antes do plexo, favorecem raiz cervical.[5]

Nervo mediano

A síndrome do túnel do carpo é a compressão do nervo mediano no punho. O padrão típico envolve polegar, indicador, dedo médio e lado radial do anelar, muitas vezes à noite ou ao segurar volante, livro ou telefone. O dedo mínimo costuma ser poupado. A sensação pode subir para o antebraço, e isso não transforma o quadro em doença cervical.[7]

Dormência constante, queda de objetos e perda de força do polegar sugerem comprometimento maior. A musculatura tenar, na base do polegar, pode atrofiar em doença avançada. A sensibilidade sobre a palma central pode permanecer normal porque o ramo cutâneo palmar do mediano passa fora do túnel; dormência palmar ampla exige considerar lesão mais proximal.[9]

Phalen, compressão do carpo e Tinel podem reproduzir os sintomas, mas nenhum teste isolado confirma ou exclui o diagnóstico. Uma escala clínica chamada CTS-6 reúne sintomas e achados de exame e tem recomendação forte para o diagnóstico clínico. Casos atípicos, déficit importante, cirurgia planejada ou suspeita de outra neuropatia justificam confirmação adicional.[8]

Dr. Marcus Yu Bin Pai, de jaleco, trabalha ao computador na mesa do consultório, visto de perfil, com modelos de coluna vertebral em primeiro plano
Mesa do consultório, com modelos de coluna vertebral.

A neuropatia proximal do mediano ocorre acima do túnel do carpo, no antebraço, no cotovelo ou no braço. Dor na face anterior do antebraço, alteração sensitiva na palma e fraqueza para pronar o antebraço ou flexionar polegar e dedos mudam a localização. Eletroneuromiografia e ultrassom ajudam a identificar o segmento e causas como trauma, lesão após procedimento, massa ou compressão focal.[31]

O nervo interósseo anterior é um ramo motor do mediano. Sua lesão pode enfraquecer a pinça entre polegar e indicador sem causar dormência. Já a síndrome do pronador tende a produzir dor proximal e parestesia no território do mediano. Essa diferença evita tratar todo sintoma do mediano como túnel do carpo.[31]

Nervos ulnar e radial

A compressão do nervo ulnar no cotovelo, chamada neuropatia ulnar ou síndrome do túnel cubital, costuma atingir o dedo mínimo e a metade ulnar do anelar. Flexão prolongada do cotovelo, sono com o braço dobrado e pressão sobre a região medial do cotovelo podem provocar sintomas. A fraqueza aparece ao abrir os dedos, pinçar papel ou manipular objetos pequenos.[11]

O ulnar também pode ser comprimido no canal de Guyon, no punho. A preservação da sensibilidade no dorso ulnar da mão e o padrão motor ajudam a separar punho de cotovelo, porque o ramo sensitivo dorsal nasce antes do canal. A eletroneuromiografia precisa testar segmentos e músculos capazes de distinguir essas localizações.[27]

Lesões do nervo radial tendem a produzir fraqueza de extensão do punho, dos dedos ou do polegar, conforme o nível. O déficit sensitivo pode aparecer no dorso radial da mão, mas a compressão do ramo interósseo posterior é predominantemente motora. O exame eletrodiagnóstico confirma a neuropatia e separa braço, cotovelo e ramos distais.[28]

Desfiladeiro torácico

A síndrome do desfiladeiro torácico neurogênica envolve compressão ou irritação do plexo entre o pescoço, a primeira costela e a axila. Dor, peso, formigamento ou fraqueza podem piorar ao elevar o braço ou carregar peso. O diagnóstico exige excluir cervical, ombro e neuropatias periféricas; teste de elevação ou Tinel nessa região apenas apoia a hipótese e não confirma o quadro sozinho.[29]

A compressão venosa produz mais inchaço, peso e coloração azulada; a compressão arterial pode causar mão fria, pálida, dolorosa ou com pulso reduzido. Sintomas vasculares posicionais e recorrentes pedem exame de pulsos, cor, temperatura e volume dos braços. Quando esses sinais começam de forma súbita, valem as orientações de Sinais de alerta.[30]

A investigação acompanha a estrutura suspeita. No padrão neurogênico, o exame compara plexo, cervical, ombro e nervos do braço; eletroneuromiografia e imagem procuram diagnósticos alternativos ou lesão objetiva. No padrão vascular, ultrassom Doppler, angiotomografia ou angiorressonância são escolhidos conforme a suspeita seja venosa ou arterial. Uma compressão posicional encontrada por acaso na imagem não basta para o diagnóstico.[30]

Neuropatia periférica

Polineuropatia significa doença de vários nervos periféricos. O padrão distal simétrico geralmente começa nos pés antes das mãos, como uma “meia” que progride e depois alcança os dedos. Diabetes, álcool, deficiência de vitamina B12, doença renal, gamopatias e alguns medicamentos estão entre as causas. Formigamento apenas em uma mão é menos típico.[15]

A neuropatia de fibras pequenas pode causar queimação e alteração de temperatura com força e estudos de condução normais, porque a eletroneuromiografia avalia principalmente fibras maiores. Neuropatia assimétrica, fraqueza rápida, sintomas autonômicos importantes ou comprometimento proximal exigem investigação neurológica mais ampla. O formato da distribuição determina quais exames são realmente úteis.[15]

Padrões que mudam a hipótese
PadrãoHipótese principalDado que precisa concordar
Pescoço até o braçoRaiz cervicalFraqueza por miótomo ou reflexo alterado
Vários nervos no mesmo braçoPlexo braquialDéficit ultrapassa um nervo nomeado
Polegar ao anelar, à noiteTúnel do carpoMínimo poupado e provocação no punho
Palma e antebraço anteriorMediano proximalFraqueza de pronação ou flexão fora do túnel
Mínimo e metade do anelarNervo ulnarForça dos músculos da mão e localização no cotovelo ou no punho
Piora com braço elevadoDesfiladeiro torácicoExcluir cervical, ombro e nervos; examinar circulação
Mãos e pés simétricosPolineuropatiaPerda distal e causa sistêmica
Mãos sem destreza e marcha alteradaMielopatiaHiperreflexia e compressão medular

Mielopatia cervical

Mielopatia cervical é o comprometimento da medula no pescoço. Pode começar com perda de destreza, objetos caindo, mãos dormentes, marcha rígida ou desequilíbrio. Hiperreflexia significa reflexos mais vivos que o esperado; o sinal de Hoffmann é uma resposta involuntária dos dedos provocada no exame. Esses achados e fraqueza em vários territórios aumentam a suspeita, mesmo sem dor cervical intensa.[4]

A ressonância confirma compressão e alterações da medula, mas o diagnóstico é clínico e radiológico ao mesmo tempo. Estenose no laudo sem sinais medulares não equivale a mielopatia. Quando exame e imagem confirmam doença moderada, grave ou progressiva, a avaliação cirúrgica é indicada porque o objetivo é interromper a deterioração neurológica; recuperação completa não pode ser presumida.[4]

Sinais de alerta

Emergência neurológica

Formigamento súbito com fraqueza de um lado, desvio da boca, fala alterada, confusão ou perda visual exige atendimento imediato: chame o SAMU pelo telefone 192.[25]

Mão fria ou pálida

Dor súbita com mão fria, pálida, arroxeada, pulso reduzido ou perda rápida de força exige atendimento vascular imediato no pronto-socorro.[26]

Braço muito inchado

Inchaço doloroso, sensação de peso ou mudança de cor em um braço, sobretudo após cateter, cirurgia, câncer ou imobilização, merece avaliação no mesmo dia, em pronto-socorro ou unidade de pronto atendimento (UPA), para investigar uma possível causa vascular, incluindo trombose venosa. Falta de ar ou dor no peito junto desses sintomas exige chamar o SAMU 192.[22][36]

Cervical ou sistêmico

Fraqueza progressiva, perda de destreza bilateral, piora da marcha, alteração urinária, trauma cervical, febre com imunossupressão ou câncer com sintomas novos exigem avaliação rápida; progressão intensa em horas ou dias exige ir ao pronto-socorro.[3]

Exame físico

No exame, começo desenhando a área do formigamento e reproduzindo a posição que o provoca. Depois comparo pescoço, ombro, cotovelo, punho e mão. A sensibilidade é testada em áreas que separam raízes e nervos; a força, por movimentos específicos; os reflexos ajudam a localizar lesões proximais. O lado sem sintomas serve de comparação, embora também não seja um padrão perfeito.[2]

Fraqueza precisa ser diferenciada de dor, medo de movimentar e falha de compreensão do teste. Por isso, repito o movimento em posição mais estável, comparo músculos que compartilham a mesma raiz mas pertencem a nervos diferentes e procuro atrofia. Essa combinação separa melhor C7 de nervo radial, ou C8–T1 de nervo ulnar.[2]

No punho, compressão do carpo e Phalen têm valor quando reproduzem o formigamento habitual no território do mediano. No cotovelo, flexão mantida e pressão sobre o ulnar podem reproduzir sintomas. O sinal de Tinel indica irritabilidade ao percutir o nervo, mas aparece em pessoas sem neuropatia e pode faltar em doença confirmada. Ele também não define gravidade.[9]

Pulsos, cor, temperatura, enchimento capilar e inchaço entram no exame quando elevar o braço provoca peso, mudança de cor ou aumento de volume. Assimetria vascular muda a investigação para o sistema venoso ou arterial. Um teste provocativo positivo sem alteração vascular objetiva não confirma desfiladeiro vascular.[30]

O que cada parte do exame localiza
PescoçoMovimento, Spurling, distração e trajeto para o braço.
ReflexosBíceps, braquiorradial e tríceps ajudam a localizar raiz.
ForçaComparar miótomos e músculos de mediano, ulnar e radial.
SensibilidadeTestar zonas de separação além do dedo que incomoda.
Provocação localPunho e cotovelo reproduzem o território, sem fechar sozinhos o diagnóstico.
Medula e circulaçãoDestreza, marcha, reflexos vivos, pulsos, cor e inchaço.

Exames complementares

A eletroneuromiografia combina a neurografia, que mede respostas elétricas ao longo dos nervos, e a eletromiografia com agulha, que examina músculos. Na radiculopatia, os potenciais sensitivos costumam permanecer normais porque a lesão está antes do gânglio sensitivo. Alterações em músculos do mesmo miótomo, mas de nervos diferentes, ajudam a localizar a raiz.[33]

Desnervação são sinais elétricos de que o músculo perdeu parte de sua entrada nervosa. Eles podem ainda não aparecer no início do quadro; por isso, uma eletroneuromiografia muito precoce, ou normal em sintomas apenas sensitivos, não exclui radiculopatia. Mesmo quando o exame inclui músculos do mesmo miótomo ligados a nervos diferentes e ao menos um músculo paravertebral, sua sensibilidade para radiculopatia é moderada, isto é, o exame pode não detectar parte dos casos. A especificidade é alta: um padrão consistente é um achado confiável.[33]

O ultrassom neuromuscular mostra calibre, continuidade, mobilidade e estruturas ao redor de nervos superficiais. No túnel do carpo, pode confirmar aumento do mediano e identificar cisto ou variação anatômica. Em certos contextos, seu desempenho diagnóstico é semelhante ao da eletroneuromiografia, mas os dois exames respondem a perguntas diferentes: o ultrassom mostra anatomia, e a condução nervosa mede função.[10]

Jardim interno da clínica com pedras, árvore ornamental branca e ripas de madeira
Jardim interno da clínica.

A ressonância cervical é indicada quando há radiculopatia persistente ou progressiva, sinais de mielopatia, suspeita de infecção ou tumor, ou planejamento de procedimento. Ela mostra disco, forame e medula; o túnel do carpo se investiga no punho, com exame clínico, condução nervosa ou ultrassom. O exame pedido é o do nível anatômico que permanece em dúvida.[3]

A ressonância do plexo, ou neurografia por ressonância, uma técnica que detalha o trajeto dos nervos, entra em trauma, massa, inflamação, radioterapia ou déficit que atravessa vários nervos. Ela é combinada ao exame eletrodiagnóstico, que define distribuição e gravidade funcional. A imagem do plexo responde a uma pergunta diferente da ressonância cervical.[5]

Os exames de sangue são dirigidos ao padrão de polineuropatia ou a fatores de risco. Glicemia ou hemoglobina glicada, vitamina B12 com metabólitos quando necessário e eletroforese de proteínas com imunofixação estão entre os testes de maior rendimento para neuropatia distal simétrica. Função renal, tireoide, hemograma e outros exames entram conforme história, medicamentos e exame.[14]

Exame escolhido pela dúvida diagnóstica
Raiz ou nervo periféricoEletroneuromiografia compara músculos, raízes e segmentos de condução.
Disco, forame ou medulaRessonância cervical quando a imagem pode mudar encaminhamento ou tratamento.
Nervo superficialUltrassom mostra calibre, mobilidade e causa anatômica local.
Plexo complexoEletrodiagnóstico mais imagem dirigida ao plexo ou nervo.
Desfiladeiro torácicoImagem ou Doppler conforme hipótese neurogênica, venosa ou arterial.
Mãos e pés simétricosLaboratório procura causa sistêmica de polineuropatia.

Tratamento

O tratamento segue o local da lesão. Medicamentos para dor podem reduzir a dor sem modificar uma compressão.[16] Descomprimir uma raiz ou um nervo trata a causa mecânica, e cada localização tem seus próprios critérios para isso.

Tratamento da raiz cervical

Reabilitação

Na radiculopatia cervical sem déficit progressivo, a reabilitação pode combinar exercício de força, tração, tratamento articular e técnicas neurodinâmicas. A redução da dor tende a ser maior quando esses componentes são combinados, mas ainda não há um programa ou uma dose definidos para todos. A técnica neurodinâmica mobiliza o tecido neural em relação às estruturas vizinhas. Ela pode integrar o programa voltado à dor sem buscar alongamento máximo do nervo e sem aceitar piora sustentada como meta. A progressão acompanha dor, função e exame neurológico.[32]

Na reavaliação, repito a medida da dor no braço e da função junto da força por miótomo e dos reflexos que usei na localização. Menos dor não mostra, sozinha, como está o déficit neurológico.[32]

Medicamentos para dor

O medicamento depende do mecanismo da dor. Analgésicos e anti-inflamatórios podem reduzir a dor associada à radiculopatia, mas não recuperam força nem descomprimem o nervo. O benefício é pesado contra risco gastrointestinal, renal e cardiovascular, sedação e interações. Formigamento sem dor relevante não melhora necessariamente com aumento de analgésico.[24]

Injeção epidural cervical

A injeção epidural cervical de corticoide pode ser considerada para dor radicular persistente com alvo compatível. Formigamento de origem incerta e mielopatia ficam fora dessa indicação. O benefício para dor e incapacidade radiculares é limitado e aparece principalmente no curto prazo.[19]

A segurança da epidural depende de seleção, revisão de contraindicações, orientação por imagem e profissional treinado para reconhecer complicações. A conversa antes do procedimento inclui sangramento, infecção e eventos neurológicos raros, porém graves. Antes de qualquer nova aplicação, reviso dor, função, exame neurológico e eventos adversos.[34]

Cirurgia da coluna cervical

Na radiculopatia cervical, a cirurgia trata uma compressão de raiz que corresponde ao quadro clínico. A causa da compressão pesa na decisão: com hérnia de disco, o ganho funcional em um ano favoreceu a cirurgia; com espondilose, o desgaste degenerativo de discos e articulações, essa vantagem não apareceu.[18]

Tratamento do túnel do carpo

Tala noturna e ajuste de tarefas

No túnel do carpo leve ou intermitente, a tala noturna mantém o punho próximo da posição neutra e reduz a flexão durante o sono. Ajustar pega, força e posição da ferramenta pode reduzir a provocação. Exercícios e terapia manual têm benefício variável e não revertem perda axonal avançada. Com dormência constante ou fraqueza tenar, a margem para tentativas prolongadas fica menor.[7]

No retorno, pergunto pela frequência dos episódios noturnos, pelo território dormente, pela pinça, pelo sono e pelas tarefas em que objetos caíam. Dor menor com dormência constante ou fraqueza tenar progressiva não conta como resposta suficiente.[9]

Infiltração com corticoide

A injeção de corticoide no túnel do carpo pode aliviar os sintomas no curto prazo, sem melhora duradoura demonstrada. O objetivo, portanto, é alívio temporário. Ausência de benefício relevante, retorno rápido dos sintomas ou progressão de fraqueza encerra a repetição e leva à reavaliação do diagnóstico e da indicação de descompressão.[7]

Liberação cirúrgica

A liberação do túnel do carpo trata a compressão confirmada do mediano. Dormência constante, fraqueza ou atrofia tenar, dano relevante na eletroneuromiografia e persistência apesar do cuidado não cirúrgico aumentam o peso da avaliação cirúrgica.[7]

O resultado da eletroneuromiografia é lido junto com sintomas, função e exame. No seguimento, repito os achados que sustentaram a localização inicial para verificar se o tratamento produziu a mudança prevista no território do mediano.[8]

Tratamento do nervo ulnar

Proteção do cotovelo

Na neuropatia ulnar leve, reduzir a pressão direta sobre o cotovelo e a flexão mantida trata o mecanismo que provoca os sintomas. Uma proteção ou tala noturna pode limitar a flexão durante o sono, embora o benefício ainda seja incerto. Por isso acompanho a tentativa por marcadores: menos episódios, sono melhor, sensibilidade estável e ausência de progressão da fraqueza.[12]

Infiltração no cotovelo

O efeito do corticoide injetado ao redor do nervo ulnar no cotovelo é incerto. Se usado em quadro leve ou moderado, o alvo é melhora funcional e dos sintomas em três meses. Ausência de resposta, progressão motora ou efeito adverso local encerra a tentativa e exige nova decisão.[35]

Cirurgia do cotovelo

Na neuropatia ulnar, fraqueza, atrofia, dano axonal, compressão estrutural ou progressão apesar de cuidado conservador bem definido justificam avaliação cirúrgica. A subluxação, quando o nervo desliza para fora de sua posição no cotovelo, também muda o planejamento.[11]

A descompressão simples libera o nervo no local; a transposição move o ulnar para uma nova posição à frente do cotovelo, sob a pele ou sob o músculo. O resultado funcional foi pouco diferente entre as técnicas.[35]

Em qualquer dessas opções, a reavaliação compara função da mão, sensibilidade, força entre os dedos e, quando indicado, condução e calibre do nervo. Sentir-se melhor conta, mas sozinho não demonstra recuperação das fibras do nervo.[35]

Outros nervos e plexo

Nervo radial

Na neuropatia radial, o nível e a causa definem o cuidado. Retirar a pressão externa, preservar o movimento e usar órtese para manter punho e dedos em posição funcional podem acompanhar lesões em recuperação. Fraqueza importante, trauma, massa ou ausência de recuperação objetiva encurtam o caminho para imagem, eletrodiagnóstico e avaliação cirúrgica.[28]

Mediano proximal

Na neuropatia proximal do mediano, o primeiro passo é retirar a compressão ou tratar a causa estrutural. Proteção da pinça e da flexão, manutenção do movimento e medidas seriadas de força acompanham a recuperação. Lesão após procedimento, massa, trauma ou déficit motor persistente justificam avaliação especializada precoce.[31]

Plexo braquial

Na plexopatia, o programa é construído a partir do músculo e do nervo atingidos. As articulações são mantidas móveis enquanto a força retorna; músculos desnervados não devem receber carga que produza fadiga prolongada. O plano acompanha a reinervação, o retorno da entrada nervosa ao músculo, e pode usar órtese para proteger punho ou mão até existir recuperação útil.[6]

Desfiladeiro torácico

No desfiladeiro torácico neurogênico, o cuidado conservador é a primeira linha e trabalha tolerância às tarefas, controle escapular e posições provocadoras. Atrofia ou fraqueza substancial antecipa a avaliação cirúrgica. Os padrões venoso e arterial seguem avaliação vascular, com conduta própria.[29]

Polineuropatia e mielopatia

Causa e reabilitação

Na polineuropatia, a causa encontrada nos exames de sangue e na história é tratada diretamente, porque exercício não repõe vitamina B12 nem corrige a toxicidade de um medicamento. Enquanto a causa é investigada, a reabilitação trabalha equilíbrio, força, destreza e segurança funcional. Quando a sensibilidade está reduzida, inspecionar a pele e ajustar tarefas previne lesões que o paciente pode não perceber. A meta depende do déficit medido.[15]

Medicamentos para dor neuropática

A dor neuropática da polineuropatia pode responder a antidepressivos tricíclicos, inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina, gabapentinoides ou bloqueadores de canal de sódio. A escolha considera sono, humor, pressão, ritmo cardíaco, rim, edema, quedas e outros medicamentos. Se uma classe falha, prefiro testar outra a somar sedativos automaticamente.

Essas medicações foram estudadas mais diretamente na neuropatia diabética dolorosa; em dormência isolada e em dor de raiz, plexo ou nervo focal, o apoio é menos direto, e elas podem reduzir dor sem modificar uma compressão. No acompanhamento, meço dor, sono, tarefa funcional e efeitos adversos.[16]

Mielopatia cervical

Na mielopatia cervical, a decisão cirúrgica segue outra lógica: doença moderada, grave ou progressiva pede avaliação cirúrgica para interromper a deterioração da medula. Os resultados da cirurgia para radiculopatia não servem para prever o resultado na mielopatia.[4]

Tratamento ligado ao local da lesão
Raiz cervicalReabilitação dirigida; injeção epidural ou cirurgia apenas com alvo e indicação compatíveis.
Túnel do carpoTala noturna no quadro leve; injeção temporária; liberação quando persistente ou deficitário.
Mediano proximalTratar causa e proteger função; encaminhar cedo diante de lesão estrutural ou déficit motor persistente.
Túnel cubitalReduzir flexão e pressão; cirurgia quando há dano, fraqueza ou falha documentada.
Nervo radialRetirar compressão, preservar movimento e monitorar recuperação; investigar trauma, massa ou fraqueza persistente.
PlexoTratar causa, proteger articulações e reconstruir função conforme reinervação.
Desfiladeiro torácicoConservador no neurogênico sem atrofia; avaliação cirúrgica ou vascular conforme déficit e subtipo.
PolineuropatiaCorrigir causa identificada, tratar dor por classe e recuperar equilíbrio e destreza.
MielopatiaAvaliação cirúrgica conforme gravidade e progressão neurológica.

Duas compressões ao mesmo tempo

Duas lesões ao longo do mesmo trajeto neural, como radiculopatia cervical e túnel do carpo, podem coexistir (em inglês, “double crush”), especialmente em pessoas com fatores sistêmicos. Ainda é incerto se uma compressão torna o nervo mais vulnerável à outra.[20]

Radiculopatia cervical e compressão do mediano ou do ulnar aparecem associadas, mas essa associação não diz qual lesão produz cada sintoma em um paciente. Por isso, o exame e a eletroneuromiografia precisam demonstrar cada nível com critérios próprios antes de planejar dois tratamentos.[21]

Quando há duas lesões, o alvo inicial é definido por gravidade, déficit, risco de progressão e correspondência com a queixa principal. Uma injeção ou cirurgia no punho pode melhorar o território do mediano e deixar inalterados a dor cervical ou o déficit ulnar. Explico antes quais sintomas pertencem a cada hipótese, para que uma melhora parcial não seja lida como falha total.[20]

Reavaliação

Em cada localização, a reavaliação usa os mesmos dados que sustentaram o diagnóstico: território, força, reflexos, circulação e os exames já realizados. Quando a resposta foge do previsto, reviso localização, coexistência de lesões, gravidade e causa sistêmica. Formigamento que muda de território, aparece nos pés, se torna bilateral ou surge com perda de equilíbrio amplia a investigação antes de manter o mesmo tratamento local.[15]

Referências

  1. Thoomes et al. Testes físicos para radiculopatia cervical. 2026. (abre em nova aba)
  2. Yousif et al. Exame neurológico na radiculopatia cervical. 2025. (abre em nova aba)
  3. ACR Appropriateness Criteria: cervical e radiculopatia. Atualização 2024. (abre em nova aba)
  4. AO Spine. Recomendações para mielopatia cervical degenerativa. 2025. (abre em nova aba)
  5. Vazquez Do Campo. Plexopatias braquial e lombossacra. 2025. (abre em nova aba)
Ver todas as 36 referências
  1. Amiotrofia neurálgica: avaliação e tratamento. 2025. (abre em nova aba)
  2. AAOS. Diretriz para síndrome do túnel do carpo. 2024. (abre em nova aba)
  3. AAOS/ASSH. Resumo da diretriz de túnel do carpo. 2025. (abre em nova aba)
  4. JOSPT. Síndrome do túnel do carpo: revisão 2026. (abre em nova aba)
  5. Ultrassom versus eletrodiagnóstico no túnel do carpo. 2024. (abre em nova aba)
  6. Tratamento moderno do túnel cubital: evidência e controvérsia. (abre em nova aba)
  7. Talas noturnas para túnel cubital. Revisão sistemática, 2025. (abre em nova aba)
  8. Cirurgia do túnel cubital. Revisão e meta-análise, 2024. (abre em nova aba)
  9. AAN. Avaliação laboratorial da polineuropatia distal simétrica. Reafirmada 2025. (abre em nova aba)
  10. Diagnóstico e tratamento da polineuropatia. CMAJ. (abre em nova aba)
  11. AAN. Tratamento oral e tópico da polineuropatia diabética dolorosa. (abre em nova aba)
  12. Tratamento conservador da radiculopatia cervical. Revisão sistemática. (abre em nova aba)
  13. Tratamento cirúrgico versus não cirúrgico da radiculopatia cervical. 2025. (abre em nova aba)
  14. AAN. Corticoide epidural para dor radicular. 2025. (abre em nova aba)
  15. Double crush: revisão da literatura. 2025. (abre em nova aba)
  16. Incidência de double crush em pacientes cirúrgicos. 2024. (abre em nova aba)
  17. ACR. Suspeita de trombose venosa do membro superior. 2026. (abre em nova aba)
  18. AAFP. Avaliação e diagnóstico diferencial da neuropatia periférica. (abre em nova aba)
  19. AAFP. Tratamento não cirúrgico da radiculopatia cervical. (abre em nova aba)
  20. AHA/ASA. Manejo inicial do acidente vascular cerebral isquêmico. 2026. (abre em nova aba)
  21. ESVS. Diretriz para isquemia aguda de membro. (abre em nova aba)
  22. Neuropatia ulnar no punho: achados clínicos e eletrofisiológicos. 2026. (abre em nova aba)
  23. Neuropatia radial: localização e eletrodiagnóstico. 2024. (abre em nova aba)
  24. INTOS. Consenso para síndrome do desfiladeiro torácico neurogênica. 2024. (abre em nova aba)
  25. ACR. Critérios de adequação para síndrome do desfiladeiro torácico. (abre em nova aba)
  26. Neuropatia proximal do mediano: eletrodiagnóstico e ultrassom em 62 pacientes. 2024. (abre em nova aba)
  27. Componentes de reabilitação na radiculopatia cervical. Meta-análise, 2025. (abre em nova aba)
  28. Papel do eletrodiagnóstico na radiculopatia cervical. 2025. (abre em nova aba)
  29. Parâmetro para infiltração epidural guiada por imagem. 2026. (abre em nova aba)
  30. Cochrane. Tratamento da neuropatia ulnar no cotovelo. 2025. (abre em nova aba)
  31. NHS. Deep vein thrombosis (DVT): sintomas no braço e orientação para procurar ajuda médica. (abre em nova aba)

Agendar avaliação

Consultas particulares para dor, fisiatria e acupuntura médica.

Alameda Jaú, 687, Jardim Paulista, São Paulo

WhatsApp 11 99160-4480