Neste artigo
Como diferenciar músculo, articulação e disco, quando pedir imagem e quais tratamentos têm indicação.
DTM e dor na mandíbula
DTM, ou disfunção temporomandibular, é o nome de um grupo de problemas que atingem os músculos da mastigação, a articulação temporomandibular e as estruturas internas dessa articulação. Um dente inflamado, uma neuralgia, a glândula salivar, o ouvido, um trauma ou outra doença também podem doer na região da mandíbula.[6]
No exame, eu procuro reproduzir a dor que o paciente reconhece: apertar os dentes, mastigar, abrir a boca ou palpar um músculo ou a articulação precisa trazer de volta a dor de sempre. Também meço a abertura e a função, identifico se o componente é muscular, articular, do disco ou degenerativo e procuro sinais que não combinam com DTM antes de indicar placa, infiltração ou qualquer procedimento irreversível.[1]
O que é DTM
A articulação temporomandibular, ou ATM, fica logo à frente do ouvido. No início da abertura, a cabeça da mandíbula gira; depois, ela desliza para a frente. O temporal (músculo da têmpora), o masseter (músculo da bochecha) e outros músculos da mastigação controlam a força e a direção desse movimento.[7] Uma pessoa pode ter mialgia, que é dor muscular reproduzida no exame, artralgia, que é dor da própria articulação, ou as duas no mesmo lado.[1]
O disco articular é uma cartilagem firme que acompanha o movimento entre a mandíbula e o crânio. Ele pode se deslocar e produzir estalo. Quando o estalo não dói, a boca abre normalmente e não há travamento, o achado costuma ser apenas um ruído articular.[6]
Músculo, articulação e disco
Na mialgia, a dor muda com a função da mandíbula e reaparece quando temporal ou masseter são palpados. A pressão precisa reproduzir a dor habitual, no mesmo local ou em uma área referida; uma sensibilidade leve que o paciente nunca tinha percebido não basta. Cansaço ao mastigar e dor ao apertar os dentes reforçam a origem muscular.[1]
Na artralgia, a dor conhecida aparece sobre a ATM quando palpo a lateral da articulação ou quando o paciente abre a boca, move a mandíbula para o lado ou a projeta para a frente. A pessoa costuma apontar a região imediatamente à frente do ouvido. Dor profunda em repouso, inchaço ou perda rápida de abertura aumentam a necessidade de procurar inflamação, trauma ou dano estrutural.[1]

Deslocamento do disco, artrose da ATM e subluxação, em que a mandíbula passa do limite ao abrir e tem dificuldade para voltar, são diagnósticos diferentes dentro da articulação. A posição do disco na ressonância não prova que ele seja a origem da dor: inflamação da membrana articular, impacto da cápsula e sobrecarga óssea também geram sintomas.[1] O alvo do tratamento combina o local da dor, a reprodução no exame, o movimento e a imagem quando ela muda a decisão.[19]
Dor habitual reproduzida no temporal ou masseter
Palpação muscular e efeito de mastigar ou apertar
Dor à frente do ouvido reproduzida ao palpar ou mover a articulação
Palpação da ATM, abertura e movimentos laterais
Estalo repetível ou travamento; ruído sem dor pode não precisar de tratamento
História do bloqueio, abertura assistida e imagem somente quando muda a decisão
Estalo, travamento e mordida
Um estalo repetível na abertura e no fechamento é compatível com deslocamento do disco com redução: o disco sai da posição em repouso e volta durante o movimento. O exame clínico reconhece parte desses casos, mas deixa passar muitos deslocamentos que a ressonância mostra. O som recebe tratamento apenas quando acompanha dor, travamento ou perda de função.[1]
No deslocamento do disco sem redução com limitação, a boca trava fechada e a abertura com ajuda do examinador fica abaixo de 40 mm nos critérios diagnósticos usados para DTM. Esse número vem da medida feita no exame; ele não serve como autoteste nem como valor de normalidade para todas as pessoas.[1] Dor muscular intensa, artrose, trauma e infecção também reduzem a abertura. A direção do desvio, a elasticidade no fim do movimento e a história do travamento separam essas possibilidades.[7]
Uma mordida que mudou recentemente, depois de trauma, pode indicar fratura ou deslocamento. Com inchaço, febre ou dor de dente, levanta a hipótese de infecção. Com limitação progressiva, pode acompanhar alteração óssea ou massa. Uma oclusão antiga e estável tem outro peso. A data da mudança e o que aconteceu no mesmo período direcionam a investigação.[3]
Sensação de ouvido tampado, dor de cabeça ou dor no pescoço aparecem em pessoas com DTM, mas a proximidade anatômica não prova a origem. A relação fica mais forte quando mastigar ou mover a mandíbula reproduz o sintoma e o exame encontra o mesmo padrão. Perda auditiva, secreção, vertigem verdadeira ou déficit neurológico pedem outra linha de investigação.[7]
Exame clínico
O exame decide se a dor vem do músculo, da articulação, do disco ou de fora da DTM, e quanto ela limita abrir a boca, mastigar e falar.
História e função
Na consulta de avaliação, começo pedindo que o paciente aponte a dor com um dedo e descreva como ela se comporta. Mastigar alimentos mais firmes, falar por muito tempo, bocejar, apertar os dentes ou mover a mandíbula para um lado muda a dor conhecida? Procuro uma relação reproduzível entre função e sintoma, com início, duração, lado e episódios de travamento descritos de forma concreta.[1]
Palpação
Palpo temporal e masseter em regiões padronizadas. Depois de cada pressão, o paciente diz se doeu e se aquela é a sua dor. Dor que se espalha para a têmpora, os dentes ou o ouvido durante a palpação também é anotada, porque uma dor muscular referida muda a explicação do mapa da dor.[1]
A ATM é palpada à frente do ouvido com a boca em repouso e durante os movimentos. Repito abertura, movimento lateral e projeção da mandíbula para ver se produzem a dor conhecida. Estalos, crepitação (um ruído áspero, como de areia) e desvio são anotados e ganham peso diagnóstico junto com dor e função.[1]
Movimento
Meço a abertura em milímetros, primeiro sem ajuda e depois com pressão suave da minha mão. Também meço os movimentos para cada lado e para a frente. Uma limitação rígida sugere um mecanismo diferente de uma abertura que aumenta bastante com ajuda. Desvio, ressalto e travamento durante a manobra acrescentam informação sobre o disco e a articulação.[19]
Dentes, ouvido, pescoço e nervos
Examino dentes e gengivas em busca de cárie, fratura, infecção, dor à percussão e doença periodontal, que atinge a gengiva e o osso que sustenta o dente. O exame inclui a mucosa da boca, a mordida atual, o ouvido, o pescoço e os nervos cranianos. Essa extensão é necessária porque dor de dente, de ouvido, do pescoço ou de nervo pode ser sentida na mandíbula e coexistir com sensibilidade muscular.[7]
Quando palpação e movimento não reproduzem a dor habitual, o diagnóstico de DTM dolorosa perde força e reabro a lista de outras causas. Quando reproduzem dor muscular e articular no mesmo lado, os dois diagnósticos podem coexistir. Nesse caso, trato os componentes confirmados separadamente e escolho uma medida de seguimento para cada um, como mastigação, abertura e frequência de travamento.[1]
Impacto da dor
Os critérios diagnósticos de DTM incluem também questionários sobre intensidade da dor, incapacidade, limitação para mastigar e falar, sofrimento psicológico, hábito de apertar os dentes e distribuição da dor pelo corpo. Incapacidade alta, dor espalhada pelo corpo ou sofrimento importante pioram o prognóstico e pedem um plano mais amplo, mantendo o diagnóstico muscular ou articular encontrado no exame físico.[1]
Outras causas de dor facial
A dor de dente tende a se concentrar em um dente ou na gengiva e pode piorar com frio, calor, doce ou mordida. Percussão do dente, teste de vitalidade da polpa (o tecido vivo dentro do dente) e exame da gengiva localizam uma fonte que o masseter ou a ATM não explicam.[22]
Crises em choque, muito breves, de um lado da face e desencadeadas por toque leve, escovação, vento ou fala lembram neuralgia do trigêmeo. A dor pode ocorrer perto da mandíbula, porém o padrão elétrico e os gatilhos na pele são diferentes da dor que cresce com a carga muscular. Exame neurológico e avaliação específica definem esse caminho.[7]
Dor com aumento de volume à frente da orelha ou abaixo da mandíbula pode vir da parótida, a glândula salivar à frente da orelha, ou de outra glândula salivar. Piora ligada às refeições sugere obstrução da saída da saliva e diferencia esse padrão da dor provocada diretamente pela abertura ou pela palpação da ATM.[24]
Na claudicação mandibular, a dor aparece depois de mastigar por algum tempo e melhora ao parar. Esse padrão de esforço sustentado é diferente da dor mecânica reproduzida logo ao palpar ou mover a ATM. Depois dos 50 anos, esse sinal pede avaliação médica urgente, por suspeita de arterite de células gigantes, uma inflamação de artérias da cabeça como as da têmpora.[23]

Otite e outras doenças do ouvido podem causar dor próxima da ATM. Perda auditiva, secreção, vertigem verdadeira ou alteração ao examinar o canal auditivo apontam para uma causa no ouvido. Uma dor de ouvido com ouvido normal ainda exige correlação, porque dentes, garganta, nervos e a própria DTM podem referir dor para ali.[7]
Dor reproduzida principalmente pelo movimento do pescoço pede exame cervical; alteração de sensibilidade ou assimetria de força pede exame neurológico. Uma dor de cabeça que mantém o mesmo padrão quando a mandíbula é palpada e movimentada segue a investigação das cefaleias.[19]
Queimação, dormência, dor ao toque leve ou outra alteração de sensibilidade depois de trauma ou procedimento dentário sugere dor neuropática trigeminal pós-traumática. Dor diária em um dente ou no alvéolo, o encaixe do dente no osso, com exames clínico e radiográfico normais e sem causa identificada depois de excluídas as causas locais, entra na hipótese de dor dentoalveolar idiopática persistente.[2]
| Causa | Pista | Próximo exame |
|---|---|---|
| Dente | Frio, calor, mordida ou percussão | Exame odontológico |
| Nervo | Choque, queimação ou alteração sensitiva | Exame neurológico |
| Glândula salivar | Inchaço ligado às refeições | Ultrassom ou outra imagem |
| Ouvido | Perda auditiva, secreção, vertigem | Otoscopia e avaliação otológica |
Sinais de alerta
Inchaço no rosto ou na boca com dificuldade para respirar, falar ou engolir é emergência: procure o pronto-socorro ou acione o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192). Inchaço extenso ao redor do olho ou no pescoço também exige atendimento imediato, porque indica risco de progressão da infecção e de comprometimento da via aérea.[22]
Dor de cabeça nova na região da têmpora com claudicação mandibular, em pessoa acima de 50 anos, exige avaliação médica urgente. Visão dupla, perda ou embaçamento da visão pedem avaliação oftalmológica no mesmo dia; sem acesso rápido, procure o pronto-socorro ou uma unidade de pronto atendimento (UPA). O tratamento rápido da arterite de células gigantes reduz o risco de perda visual permanente.[23]
Trauma com deformidade ou mordida nova, incapacidade persistente de abrir ou fechar a boca, fraqueza no rosto, dormência progressiva ou massa em crescimento pedem avaliação rápida. O destino pode ser o pronto-socorro, a odontologia, a cirurgia bucomaxilofacial, a neurologia ou a otorrinolaringologia, conforme o achado dominante.[3]
Radiografia, tomografia e ressonância
Na mialgia típica, sem sinal de doença da articulação ou do osso, tomografia e ressonância ficam ligadas a uma pergunta sobre a estrutura da articulação ou ao planejamento de um procedimento.[7] Quando os sintomas vêm da própria articulação, a orientação da cirurgia bucomaxilofacial é mais ampla: ela favorece imagem em todo distúrbio sintomático da ATM, e a radiografia panorâmica costuma ser a primeira avaliação ampla.[19]
A radiografia panorâmica pode mudar o caminho quando revela foco dentário, fratura ou alteração óssea ampla. Uma panorâmica normal não exclui lesão fina da ATM nem informa a posição do disco. A tomografia computadorizada, convencional ou de feixe cônico, muda a conduta quando a dúvida está no osso, como fratura, erosão, osteófito (bico de osso) ou deformidade.
Ela não mostra bem a posição nem a integridade do disco. A ressonância fica reservada para uma dúvida sobre disco, derrame (acúmulo de líquido na articulação) ou outra estrutura mole que altere o tratamento. Um disco deslocado pode ser achado casual: a imagem precisa concordar com a dor, o exame e a limitação funcional.[3]
O exame é útil quando seu resultado muda a reabilitação, a indicação de infiltração ou a seleção para cirurgia.[3]
Tratamento na fase aguda
Na dor com poucos dias ou semanas, o tratamento segue o achado dominante. Irritação muscular, artralgia inflamatória, trauma, infecção dentária e travamento recente seguem rotas diferentes. As recomendações para dor crônica, definida como dor por três meses ou mais, não se aplicam diretamente à crise aguda.[4]
Carga na mastigação
Quando alimentos firmes reproduzem a dor muscular ou articular, reduzir por um tempo a consistência da comida diminui a carga durante a fase irritável. É uma adaptação temporária, para o período em que mastigar piora a dor.[7]
Medicamento na crise
O anti-inflamatório combina melhor com artralgia aguda ou piora inflamatória da articulação do que com estalo sem dor ou mialgia sem inflamação articular. A ciclobenzaprina, um relaxante muscular, tem uso curto e selecionado quando espasmo e dor muscular aguda dominam; disco e doença articular pedem outro alvo.[8]
Travamento recente
Travamento fechado súbito, com perda importante de abertura, pede avaliação precoce; alongar com força pode irritar uma articulação inflamada ou traumatizada.[19] No seguimento, registro a abertura, a capacidade de mastigar, falar e higienizar a boca e os novos episódios de travamento. Dor menor sem recuperação dessas tarefas é uma resposta incompleta.[7]
Exercícios e fisioterapia
Na DTM crônica, exercício mandibular supervisionado, alongamento e mobilização assistida fazem parte do tratamento recomendado.[4] A prescrição começa pelo diagnóstico e pela medida que está limitada. Dor muscular com abertura completa não recebe o mesmo programa de um travamento com bloqueio firme, e uma ATM inflamada não começa com a mesma carga de um músculo que perdeu resistência.
Os exercícios se agrupam em quatro tipos: excursão, que move a mandíbula para os lados e para a frente; alongamento, que trabalha a amplitude; resistência, que aplica carga leve contra a mão; e coordenação, que treina um trajeto de abertura controlado. Frequência, intensidade e duração são ajustadas ao exame, porque os programas estudados variam muito entre si.[13]
Um estudo piloto com DTM usou a abertura da boca sustentada por dez segundos, com cinco repetições, quatro vezes ao dia, durante oito semanas. Esse é apenas o protocolo de um estudo, e a dose de cada pessoa pode ser diferente. Com travamento recente ou articulação inflamada, a abertura sustentada não deve ser feita sem exame.[14]
Mialgia
Na mialgia, considero coordenação da abertura e resistência manual leve. Na coordenação, a pessoa abre a boca devagar, usando um espelho ou o toque dos dedos como referência para manter o trajeto estável.[13]
Artralgia
Na artralgia, começo por movimento tolerado e mobilização. Carga e amplitude são definidas pela dor articular encontrada no exame, e o objetivo é recuperar abertura e mastigação sem aumentar a dor da articulação.[4]
Estalo e travamento
Com estalo e abertura completa, o treino de coordenação busca um trajeto de abertura estável sem perseguir o estalo.[13] Quando existe bloqueio firme, o foco passa a ser confirmar se há doença dentro da articulação e começar pela alternativa menos invasiva adequada.[19]
Progressão da carga
Mudo uma variável de cada vez e reduzo a carga quando a dor ou a abertura pioram de forma persistente.[13] A melhora é conferida na abertura, na mastigação e na fala, além da dor.
Terapia manual
A mobilização assistida e outras técnicas de terapia manual podem melhorar dor ou função em parte das pessoas com DTM crônica.[5] Na DTM muscular, ela também pode ajudar a recuperar a abertura, e o ganho de cada pessoa é conferido na reavaliação.[9] A liberação miofascial tem apoio mais fraco nos estudos e pode complementar a reabilitação.[10]
Laser de baixa intensidade
Na DTM muscular, o laser de baixa intensidade, também chamado fotobiomodulação, pode aliviar a dor a curto prazo.[9] Fica como opção complementar a exercício e terapia manual.
Dor crônica
Quando a dor da DTM dura três meses ou mais, ela passa a ser tratada como dor crônica. Mialgia, artralgia, disco, artrose e uma segunda dor facial continuam sendo separados, e a incapacidade, a evitação do movimento, a sobrecarga persistente e a resposta a tratamentos anteriores passam a orientar a escolha e a sequência do tratamento.[4]
Terapia cognitivo-comportamental
A terapia cognitivo-comportamental, com ou sem biofeedback (registro da atividade muscular mostrado ao próprio paciente), está entre as opções mais bem apoiadas na dor crônica de DTM.[4] Ela trabalha a evitação do movimento, a reação à dor, o hábito de apertar os dentes durante tarefas e a adesão à recuperação funcional. Não parte da ideia de que a dor seja imaginária: o objetivo é reduzir a incapacidade e melhorar o uso da mandíbula enquanto o componente muscular ou articular recebe tratamento próprio.[5]
Pescoço e postura
Na dor crônica de DTM, podem ser oferecidos exercício postural supervisionado e manipulação, uma técnica manual feita pelo terapeuta, combinada com exercício postural.[4] Quando o movimento do pescoço reproduz a dor, examino a coluna cervical.[19]
Medicamentos
O medicamento apoia o plano e é escolhido pelo tipo de dor e pelo risco de cada pessoa. Anti-inflamatório pode ser considerado na artralgia aguda; relaxante muscular com efeito sedativo, no espasmo muscular agudo selecionado; remédio para dor neuropática exige outro diagnóstico. Para cada opção, defino duração, contraindicações e o resultado esperado.[7]
Anti-inflamatórios
Na dor crônica, o anti-inflamatório pode ser combinado com terapia cognitivo-comportamental; usado sozinho, ele não serve como estratégia para todos.[4] A resposta foi mais consistente quando a artralgia predominava do que em quadros musculares variados, o que ajuda a escolher o paciente.[8] Antes de prescrever, avalio úlcera ou sangramento digestivo, doença renal, pressão e risco cardiovascular, uso de anticoagulantes e gestação, e reviso esses riscos a cada retorno; o remédio só continua quando o ganho funcional justifica a exposição.[26]
Ciclobenzaprina
Na DTM, a ciclobenzaprina é usada fora da indicação da bula. Ela pode causar sonolência, boca seca e tontura, o que limita dirigir e trabalhos de risco. Pede cautela em idosos e em doença do fígado, e arritmia, glaucoma, retenção urinária, álcool, outros sedativos e alguns antidepressivos reduzem a segurança do uso. Sonolência que impede trabalho ou direção pode superar um alívio muscular discreto, e reviso esses efeitos e as interações a cada retorno.[25]
Gabapentina, benzodiazepínicos e opioides
A gabapentina não é indicada de rotina na dor crônica de DTM. Uma dor neuropática confirmada é outro diagnóstico, com evidência própria, e a localização na mandíbula, sozinha, não justifica o remédio. Os benzodiazepínicos também não são recomendados, por benefício incerto e risco de sedação, dependência e interação, e a combinação de anti-inflamatório com opioide é firmemente desaconselhada. Sedação e analgesia inespecífica ainda dificultam saber se mastigação e abertura realmente melhoraram.[4]
Placas oclusais
Antes de indicar uma placa, defino o objetivo e a medida de resposta. Aliviar a dor da DTM e proteger os dentes de quem aperta ou range são objetivos diferentes, e cada um é conferido de outro jeito.
Placa para dor
Para reduzir dor e melhorar função na DTM, o benefício da placa oclusal é muito incerto.[18] Uma placa reversível pode ter um objetivo específico, mas não prova que a mandíbula precise ser reposicionada nem corrige a causa da dor.
Bruxismo e proteção dos dentes
A placa para bruxismo pode separar os dentes e reduzir o dano dentário causado por apertar ou ranger. É uma indicação odontológica distinta: proteger os dentes não demonstra que a placa trate a dor muscular ou articular da DTM.[12]
Mudanças na mordida
Desgastar dentes, colocar coroas ou usar ortodontia para mudar a mordida não trata DTM e pode piorar o problema. Pode existir uma indicação odontológica independente.[6]
Acupuntura médica
A acupuntura médica pode ser oferecida na dor crônica de DTM, com apoio ainda limitado nos estudos, e os programas avaliados vão de uma a quinze sessões.[4][15] Ela se encaixa melhor como tratamento complementar em dor muscular ou mista confirmada, junto da recuperação de movimento e função.
Acompanhamento das sessões
Antes de começar, registro a dor ao mastigar uma refeição habitual, a abertura confortável da boca e a interferência na fala. Essas medidas mostram se a melhora chega à mastigação e à fala. Como não existe número de sessões estabelecido para DTM, a data da reavaliação é combinada no início, e a continuidade depende de melhora fora da sessão.[15] Durante o ciclo, exercícios e adaptações da mastigação continuam ajustados ao diagnóstico muscular ou articular.
Riscos
Tolerância às agulhas, acesso e efeitos adversos entram na escolha, ao lado de exercícios e terapia manual. Os riscos são dor e pequeno sangramento no local, além de lesões raras quando a técnica é inadequada; o procedimento deve usar agulhas estéreis e descartáveis.[27]
Toxina botulínica e infiltrações
Na dor muscular, a aplicação se dirige ao músculo da mastigação; na infiltração articular, a agulha entra no espaço da ATM. Essa diferença muda o benefício procurado, os riscos e a necessidade de imagem. Dor ao pressionar o masseter conduz à avaliação de mialgia; dor na própria articulação, com limitação ou travamento, exige investigação da ATM. Antes de um procedimento, defino qual desses componentes será tratado e que melhora de mastigação ou abertura se espera.[6]
Toxina botulínica nos músculos da mastigação
A toxina botulínica, conhecida pelo nome comercial Botox, reduz a contração do músculo ao bloquear a liberação de acetilcolina, o mensageiro entre o nervo e o músculo. Na DTM muscular, ela não superou de forma consistente os tratamentos padrão nem melhorou de modo confiável os movimentos da mandíbula.[16] Pode ser considerada em casos selecionados de DTM muscular que não melhorou com tratamento conservador adequado.[17]
Os riscos incluem fraqueza e atrofia do músculo, menor força de mordida, pior desempenho ao mastigar e alterações ósseas da mandíbula descritas em parte dos estudos.[16] Se uma aplicação já foi feita, antes de outra dose comparo a dor ao mastigar, a abertura, a força de mordida, o cansaço ao mastigar, a fraqueza e a perda de volume muscular.
Infiltração de pontos-gatilho
A infiltração de ponto-gatilho injeta anestésico ou outra substância em um ponto doloroso do músculo. Na dor crônica de DTM, o benefício dela diante das alternativas é incerto, e há possibilidade de dano.[4] Se a dor muscular confirmada no exame não melhora com a reabilitação, primeiro reviso o diagnóstico e o plano. Quando a injeção é considerada, o resultado é julgado por dor ao mastigar, abertura da boca e função.
Infiltração dentro da ATM
O corticosteroide injetado na articulação busca reduzir a inflamação e pode diminuir a dor, mas o ganho de abertura e de qualidade de vida é incerto.[21] O ácido hialurônico é usado com a proposta de modificar o ambiente e a lubrificação da articulação. No conjunto, os medicamentos injetados na ATM mostraram benefícios inconsistentes e em geral pequenos, e nenhum pode ser recomendado com confiança.[11]
Antes de qualquer tratamento dentro da articulação, confiro quatro pontos: história e exame completos, imagem apropriada, diagnóstico correto e a opção menos invasiva que tenha base em evidência.[19]
Artrocentese, artroscopia e cirurgia
Assim como a infiltração na ATM, a lavagem da articulação (artrocentese), a artroscopia e a cirurgia exigem doença dentro da articulação confirmada, e a escolha começa pela opção menos invasiva.[19]
Artrocentese
A artrocentese introduz pequenas cânulas, tubos finos, e lava o espaço superior da ATM. É considerada na dor intra-articular ou no travamento selecionado que persiste apesar de tratamento conservador bem conduzido. Ela não trata mialgia isolada, neuralgia ou dor de dente, e a decisão usa exame, função e, quando indicada, imagem da articulação.[19]
Na dor crônica de DTM em geral, a artrocentese não é recomendada de rotina.[4] Ela fica para a doença intra-articular definida, e a seleção reúne artralgia, travamento, imagem compatível e falha do tratamento conservador.[19]
Artroscopia
A artroscopia usa uma câmera dentro da articulação e permite inspecionar, irrigar e tratar aderências ou impacto da cápsula. Comparada à artrocentese, não mostrou vantagem consistente em dor ou complicações, embora alguns estudos tenham encontrado diferença na abertura. O procedimento acrescenta anestesia, custo e recuperação.[20]
Cirurgia aberta
A cirurgia aberta é considerada quando existe doença intra-articular confirmada, com dor e perda funcional persistentes, e o tratamento menos invasivo não trouxe resposta suficiente. A técnica depende da estrutura comprometida e do déficit funcional documentado. Estalo isolado, disco deslocado na ressonância ou dor difusa não justificam cirurgia. A indicação exige dor conhecida reproduzida na ATM, limitação ou travamento, imagem compatível quando indicada e doença intra-articular confirmada.[19]
Reavaliação
Na reavaliação, repito as mesmas medidas do início: a dor conhecida, a abertura sem ajuda e com ajuda, os movimentos laterais, o travamento e as tarefas escolhidas, como mastigar uma refeição habitual ou falar por mais tempo.[1]
Redução de dor sem melhora para mastigar, abrir a boca ou falar é uma resposta parcial. Pode indicar dose insuficiente, outro componente doloroso ou um diagnóstico que coexiste. Ganho de função com efeito adverso relevante também pede ajuste. O resultado é avaliado no conjunto.[5]
Quando a localização, os gatilhos, o exame ou a resposta ao tratamento mudam, refaço a lista de outras causas. O novo padrão define se a próxima avaliação deve ser dentária, articular, neurológica, otológica, salivar ou cervical.[1]
Referências
- Schiffman E, Ohrbach R, Truelove E, et al.. Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD) for Clinical and Research Applications. 2014-01-01. DOI: 10.11607/jop.1151. Fonte (abre em nova aba).
- International Classification of Orofacial Pain Committee. International Classification of Orofacial Pain, 1st edition (ICOP). 2020-01-01. DOI: 10.1177/0333102419893823. Fonte (abre em nova aba).
- Mallya SM, Ahmad M, Cohen JR, et al.. Recommendations for Imaging of the Temporomandibular Joint. 2023-03-30. DOI: 10.11607/ofph.3268. Fonte (abre em nova aba).
- Busse JW, Casassus R, Carrasco-Labra A, et al.. Management of chronic pain associated with temporomandibular disorders: a clinical practice guideline. 2023-12-15. DOI: 10.1136/bmj-2023-076227. Fonte (abre em nova aba).
- Yao L, Sadeghirad B, Li M, et al.. Management of chronic pain secondary to temporomandibular disorders: a systematic review and network meta-analysis. 2023-12-15. DOI: 10.1136/bmj-2023-076226. Fonte (abre em nova aba).
Ver todas as 27 referências
- National Institute of Dental and Craniofacial Research. TMD (Temporomandibular Disorders). 2025-11-01. Fonte (abre em nova aba).
- Matheson EM, Fermo JD, Blackwelder RS. Temporomandibular Disorders: Rapid Evidence Review. 2023-01-01. Fonte (abre em nova aba).
- Pereira CP, Serra B, Martins JP. Pharmacological Interventions in the Management of Temporomandibular Disorders: A Systematic Review and Meta-analysis. 2026-03-01. DOI: 10.15644/asc60/1/2. Fonte (abre em nova aba).
- Zhang L, Liu M, Li X, Zhao C. Comparative effectiveness of nonpharmacological therapies for adult myogenic temporomandibular disorders: a network meta-analysis of randomized trials. 2026-06-27. DOI: 10.1186/s12903-026-09044-5. Fonte (abre em nova aba).
- Ferrillo M, Calafiore D, De Rosa A, Sedran A, Longo UG, Vecchio M, Ammendolia A, Scotti N, Giudice A, de Sire A. Efficacy of Myofascial Release Therapy and Related Soft-Tissue Techniques for Pain in Temporomandibular Disorders: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials. 2026-07-15. DOI: 10.1111/joor.70271. Fonte (abre em nova aba).
- Al-Hamed FS, Khater AGA, Hijazi A, Osagie R, Gandhi I, Psycharis S, Al-Dubai SA, Al-Saleh MAQ, Psutka DJ, Tamimi F, Ali K, Meloto CB. Limited, low-certainty evidence for pharmacological treatments used alone or adjunctively in painful intra-articular temporomandibular disorders. 2026-06-30. DOI: 10.1007/s10266-026-01462-9. Fonte (abre em nova aba).
- National Institute of Dental and Craniofacial Research. Bruxism. 2025-03-01. Fonte (abre em nova aba).
- Shimada A, Ogawa T, Sammour SR, et al.. Effectiveness of exercise therapy on pain relief and jaw mobility in patients with pain-related temporomandibular disorders. 2023-07-12. DOI: 10.3389/froh.2023.1170966. Fonte (abre em nova aba).
- Umezaki Y, et al.. Effects of Jaw-Opening Exercises with/without Pain for Temporomandibular Disorders. 2022-12-20. DOI: 10.3390/jcm11247512. Fonte (abre em nova aba).
- Park EY, Cho JH, Lee SH, et al.. Is acupuncture an effective treatment for temporomandibular disorder?. 2023-09-22. DOI: 10.1097/MD.0000000000034950. Fonte (abre em nova aba).
- De la Torre Canales G, et al.. Botulinum Toxin-A for the Treatment of Myogenous Temporomandibular Disorders. 2024-07-27. DOI: 10.1007/s40265-024-02048-x. Fonte (abre em nova aba).
- de Santana IHG, Pereira KC, Leite SEM, de Carvalho Batista FR, Ferreira AJ, Costa BSL, Guimarães CC, Rodrigues TLC, Paiva MDEB. Botulinum Toxin Type A for Myogenous Temporomandibular Disorders, Focusing on the Duration of Clinical Effects and Dosage Parameters: A Systematic Review. 2026-06-20. DOI: 10.1186/s13005-026-00637-7. Fonte (abre em nova aba).
- Singh BP, et al.. Occlusal interventions for managing temporomandibular disorders. 2024-09-16. DOI: 10.1002/14651858.CD012850.pub2. Fonte (abre em nova aba).
- Bouloux GF, Chou J, DiFabio V, Ness G, Perez D, Mercuri L, Chung W, Crago CA. The Contemporary Management of Temporomandibular Joint Intra-Articular Pain and Dysfunction. 2024-06-01. DOI: 10.1016/j.joms.2024.01.003. Fonte (abre em nova aba).
- Tang YH, van Bakelen NB, Gareb B, Spijkervet FKL. Arthroscopy versus arthrocentesis and versus conservative treatments for temporomandibular joint disorders. 2024-01-28. DOI: 10.1016/j.ijom.2024.01.006. Fonte (abre em nova aba).
- Torres D, Zaror C, Iturriaga V, Tobias A, Brignardello-Petersen R. Corticosteroids for the Treatment of Internal Temporomandibular Joint Disorders. 2024-08-04. DOI: 10.3390/jcm13154557. Fonte (abre em nova aba).
- NHS clinical content team. Dental abscess. 2026-03-18. Fonte (abre em nova aba).
- NHS clinical content team. Temporal arteritis. 2023-08-14. Fonte (abre em nova aba).
- National Institute of Dental and Craniofacial Research. Saliva and Salivary Gland Disorders. 2025-01-01. Fonte (abre em nova aba).
- U.S. National Library of Medicine DailyMed. Cyclobenzaprine hydrochloride tablets prescribing information. 2026-06-01. Fonte (abre em nova aba).
- U.S. Food and Drug Administration. Diclofenac potassium prescribing information. 2024-01-01. Fonte (abre em nova aba).
- Acupuncture: Effectiveness and Safety (nccih.nih.gov). (abre em nova aba)
