Médico Especialista em Dor - Fisiatria - Acupuntura
Artigo
Hérnia de Disco Tem Cura? Entenda a Realidade do Tratamento
A pergunta sobre cura da hérnia de disco é uma das mais frequentes nos consultórios médicos. Para responder adequadamente, é necessário distinguir entre cura clínica (eliminação da dor e retorno funcional) e cura anatômica (desaparecimento completo da protrusão discal). Estudos radiológicos demonstram que aproximadamente 60% das hérnias diminuem de volume espontaneamente ao longo de 6 a 12 meses, mesmo sem intervenção cirúrgica.
A boa notícia é que cerca de 90% dos pacientes respondem favoravelmente aos tratamentos conservadores, obtendo alívio significativo sem necessidade de cirurgia. O corpo humano possui mecanismos de reabsorção do material herniado, mediados por células inflamatórias que degradam o núcleo pulposo extruído. Este artigo apresenta as evidências científicas atuais sobre prognóstico e as opções terapêuticas não cirúrgicas disponíveis.
90%
Melhora com tratamento conservador
60%
Redução espontânea da hérnia
6-12
Meses para reabsorção natural
85%
Pacientes evitam cirurgia
O Que é Hérnia de Disco e Como Se Desenvolve
A coluna vertebral é composta por vértebras separadas por discos intervertebrais, estruturas cartilaginosas que atuam como amortecedores. Cada disco possui núcleo pulposo gelatinoso central e anel fibroso circundante. A hérnia ocorre quando fissuras no anel permitem que o núcleo migre para o canal espinhal, comprimindo raízes nervosas.
O processo degenerativo inicia-se geralmente na terceira década de vida, com desidratação do disco e perda de elasticidade. Fatores de risco incluem sobrecarga mecânica repetitiva, tabagismo, obesidade e predisposição genética. As regiões mais acometidas são a lombar (L4-L5 e L5-S1) e cervical, responsáveis por 95% dos casos sintomáticos.
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Fase Aguda
Rompimento do anel fibroso com extrusão do núcleo pulposo e reação inflamatória intensa
✓
Fase de Cura
Fagocitose do material herniado e retração do disco, alívio da compressão nervosa
Mecanismo de reabsorção mediado por macrófagos e citocinas inflamatórias
Sintomas e Diagnóstico Precoce
A manifestação clássica é a sciática (lombociatalgia), dor irradiada pela perna seguindo o trajeto do nervo ciático. A característica patognomônica é a dor que se intensifica com a tosse, espirro ou esforço de Valsalva. Parestesias (formigamentos) e fraqueza muscular podem indicar comprometimento neurológico significativo.
O diagnóstico clínico baseia-se na anamnese detalhada e exame físico neurológico. Testes específicos como o Lasègue (elevação da perna reta) e teste de força muscular localizada auxiliam na topografia da lesão. A ressonância magnética (RM) confirma o diagnóstico anatômico, embora seja reservada para casos refratários ou quando há indicação cirúrgica, considerando que achados discais são frequentemente observados em indivíduos assintomáticos.
Tabela 1: Sinais de Alerta e Condutas Imediatas
Sinal de Alerta
Significado Clínico
Conduta Recomendada
Síndrome da Cauda Equina Incontinência urinária/fecal, retenção urinária, anestesia sela
Compressão massiva do canal sacral
Emergência cirúrgica imediata
Déficit Motor Progressivo Queda de pé (L5) ou impossibilidade de calcanhar (S1)
Compressão radicular severa
Avaliação neurocirúrgica urgente
Febre com Dor Intensa
Possível infecção espinal
Investigação infecciosa e antibioterapia
Histórico de Câncer
Metástase vertebral
Imagem contrastada e investigação oncológica
Tratamentos Não Cirúrgicos: Opções Baseadas em Evidências
O manejo conservador da hérnia de disco é multidisciplinar e individualizado. A abordagem inicial inclui analgesia, controle inflamatório e manutenção da atividade física modificada, contrariando o antigo paradigma de repouso absoluto prolongado.
Abordagem Farmacológica
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são primeira linha para curto prazo, associados a protetores gástricos. Neuropatias dolorosas respondem a moduladores específicos como gabapentina, pregabalina ou amitriptilina em doses baixas. Relaxantes musculares têm indicação restrita às primeiras duas semanas de crise aguda.
Intervenções Físicas e Invasivas Minimamente
A acupuntura médica demonstra eficácia na modulação da dor neuropática através da liberação de opioides endógenos e neurotransmissores. O dry needling ativa pontos gatilho miofasciais, reduzindo tensão muscular de proteção. Ondas de choque radiais e laser de alta intensidade promovem analgesia e reparo tecidual.
A reeducação postural global (RPG) e o Pilates terapêutico, conduzidos em sessões individuais, corrigem desalinhamentos biomecânicos e fortalecem o core estabilizador da coluna. A fisioterapia motora restaura padrões de movimento funcionais.
MD
Dica do Especialista
Contrariando crenças populares, o repouso absoluto além de 48-72 hours prejudica a recuperação. A mobilidade precoce supervisionada acelera a reabsorção do disco herniado através da nutrição por imbibição e previne aderências perineurais. Inicie com caminhadas de 10-15 minutos três vezes ao dia.
Tabela 2: Opções Terapêuticas e Nível de Evidência Científica
Modalidade Terapêutica
Mecanismo de Ação
Evidência
Acupuntura Médica
Modulação via opioides endógenos, serotonina e noradrenalina
Alta (Grade A) para dor lombar crônica
Dry Needling
Desinibição do músculo em banda, aumento de fluxo sanguíneo local
Moderada a Alta para síndrome miofascial associada
Ondas de Choque
Estimulação microcirculatória, redução de substância P
Moderada para tendinopatias e calcificações
Laser Alta Intensidade
Fotobiomodulação, redução de citocinas pró-inflamatórias
A indicação cirúrgica é reservada para casos refratários ao tratamento conservador bem conduzido por 6 a 12 semanas, ou quando há comprometimento neurológico progressivo. A microdiscectomia via tubular é o padrão-ouro, com taxas de sucesso superiores a 85% na resolução da radiculopatia.
Técnicas minimamente invasivas preservam a musculatura paraespinhal, reduzindo tempo de recuperação. É fundamental ressaltar que a cirurgia resolve predominantemente a dor radicular (da perna), não necessariamente a dor lombar axial, que requer manejo multidisciplinar contínuo.
Prognóstico e Expectativa de Cura
A cura clínica ocorre em 4 a 12 semanas para a maioria dos pacientes. O alívio da dor radicular precede a recuperação da força muscular, que pode levar até 6 meses. Recorrências ocorrem em 5-15% dos casos, geralmente associadas a fatores de risco mantidos e adesão inadequada à reabilitação.
Linha do Tempo da Recuperação Esperada
Semanas 1-2: Fase Aguda
Controle da dor intensa, mobilidade gentil, início de terapia analgésica. Evitar flexão lombar e levantamento de peso.
Semanas 3-6: Recuperação Inicial
Redução significativa da dor radicular. Início de fortalecimento muscular isométrico e alongamentos específicos.
Semanas 6-12: Recuperação Funcional
Retorno gradual às atividades normais. Pilates e RPG intensificados. Possível reabsorção parcial da hérnia em imagem.
3-12 Meses: Manutenção e Prevenção
Consolidação dos ganhos funcionais. Educação postural permanente. Taxa significativa de regressão espontânea da hérnia.
Tabela 3: Comparativo de Resultados – Tratamento Conservador vs Cirúrgico
Desfecho Clínico
Tratamento Conservador
Cirurgia (Microdiscectomia)
Alívio da dor radicular (1 ano)
80-90% dos casos
85-95% dos casos
Tempo para retorno às atividades
6-12 semanas
2-6 semanas
Taxa de complicações
< 1% (efeitos adversos medicamentosos)
5-10% (infecção, recorrência, CSF leak)
Necessidade de reintervenção (2 anos)
15-20% (cirurgia de resgate)
5-15% (recidiva ou reoperação)
Custo direto ao sistema de saúde
Significativamente menor
Alto (centro cirúrgico, implantes)
Conclusão
A hérnia de disco possui excelente prognóstico quando manejada adequadamente. A cura clínica é alcançável na grande maioria dos casos através de tratamentos conservadores individualizados, sem necessidade de procedimentos cirúrgicos. A reabsorção espontânea do material herniado é um fenômeno biológico bem documentado, favorecido pela mobilidade controlada e terapias que modulam a resposta inflamatória.
A decisão terapêutica deve ser compartilhada entre médico e paciente, considerando a gravidade dos sintomas, impacto funcional e resposta às modalidades conservadoras. A persistência na reabilitação e a modificação de fatores de risco são fundamentais para prevenção de recorrências e manutenção da saúde da coluna vertebral a longo prazo.
Clínica Dr. Hong Jin Pai
Alameda Jaú, 687 – Jardim Paulista, São Paulo – SP
Equipe especializada em Dor do Grupo de Dor da Neurologia e Ortopedia – Hospital das Clínicas FMUSP
Tratamentos não cirúrgicos: Acupuntura Médica, Dry Needling, Ondas de Choque, Laser de Alta Intensidade, RPG, Pilates Terapêutico
Perguntas Frequentes sobre Hérnia de Disco
A hérnia de disco desaparece completamente sozinha?
Estudos de ressonância magnética serial demonstram que 60-70% das hérnias extruídas diminuem de volume significativamente ao longo de 6 a 12 meses. O corpo reabsorve o material herniado através de processos inflamatórios mediados por macrófagos. Entretanto, a resolução clínica (desaparecimento da dor) ocorre frequentemente mesmo sem alteração anatomica completa no exame de imagem.
Qual a diferença entre protrusão, extrusão e sequestro discal?
A protrusão representa o abaulamento do disco sem rompimento do anel fibroso. A extrusão ocorre quando o núcleo pulposo rompe o anel mas mantém contato com o disco de origem. O sequestro é a migração completa de um fragmento livre no canal espinhal. Quanto maior a migração, maior a chance de reabsorção espontânea, mas também maior o risco de compressão neurológica severa.
Posso continuar trabalhando com hérnia de disco?
A manutenção da atividade laboral é geralmente recomendada, com adaptações ergonômicas. Trabalhos sedentários requerem pausas a cada 45 minutos para alongamento e caminhadas. Atividades que envolvem levantamento de peso demandam treinamento específico de biomecânica. A licença médica deve ser limitada ao período de dor incapacitante aguda, geralmente 1 a 2 semanas.
O Pilates é seguro durante a crise aguda?
Durante a fase aguda (primeiras 2-3 semanas), o Pilates deve ser modificado ou suspenso, focando apenas em posições de alívio neural e respiração. A retomada gradual ocorre na fase subaguda, com ênfase em exercícios de estabilização lombar em decúbito e posições neutras. O método clínico supervisionado é seguro e eficaz para prevenção de recidivas quando realizado por profissionais experientes.
Existe medicamento para “dissolver” a hérnia?
Não existem medicamentos que dissolvam a hérnia de disco de forma farmacológica direta. A enzima quimopapaina foi experimentalmente utilizada no passado, mas foi abandonada devido a complicações graves. Atualmente, a reabsorção ocorre naturalmente ou através de técnicas minimamente invasivas como a nucleoplastia por radiofrequência em casos selecionados.
A hérnia de disco pode causar paralisia permanente?
A paralisia completa é rara, mas déficits motores específicos (como queda de pé ou dificuldade para ficar na ponta do pé) podem ocorrer. Se não tratados cirurgicamente dentro de 6 a 12 meses, podem tornar-se permanentes. A síndrome da cauda equina, embora emergencial, quando operada nas primeiras 48 horas permite recuperação funcional satisfatória na maioria dos casos.
Qual o melhor colchão para hérnia de disco?
Colchões de densidade intermediária (D33 a D45) são geralmente recomendados. Colchões muito macios permitem afundamento da pélvis, aumentando a lordose lombar e a pressão discal. Colchões excessivamente firmes não permitem distribuição adequada da pressão. A preferência individual deve considerar o índice de massa corporal e posição de sono habitual.
A acupuntura realmente funciona para dor ciática?
Meta-análises demonstram eficácia superior ao placebo e comparável à medicação convencional para lombalgia e ciática agudas e crônicas. O mecanismo envolve liberação de β-endorfinas, serotonina e modulação do córtex somatossensitivo. A acupuntura médica, realizada por médicos, permite combinação com técnicas de eletroacupuntura e pontos distais específicos para radiculopatias.
A cirurgia previne que a hérnia volte no futuro?
A recidiva no mesmo nível ocorre em 5-15% dos casos operados, sendo mais frequente em pacientes tabagistas e obesos. A cirurgia remove o fragmento herniado, mas não reverte a degeneração discal subjacente. A recorrência em outros níveis da coluna pode ocorrer em 25% dos pacientes se não houver modificação dos hábitos e fortalecimento muscular adequado.
Posso fazer musculação após a recuperação?
A musculação é não apenas permitida mas recomendada após a recuperação completa, com duração mínima de 3 meses de reabilitação. Deve-se evitar agachamentos profundos com carga axial e levantamento terra nas primeiras fases. O fortalecimento do core, músculos extensores da coluna e cadeia posterior deve ser progressivo e supervisionado.
Como diferenciar dor muscular de dor de hérnia de disco?
A dor discal radicular irradia além do joelho (L4, L5, S1), segue trajeto nervoso específico, é acompanhada de dormência ou formigamento, e piora com tosse ou espirro. A dor muscular é geralmente localizada, sem irradiação distal, sem alterações neurológicas, e melhora com calor local e anti-inflamatórios em poucos dias.
O que é a testemunha de Dor CIática?
Trata-se de um erro comum de nomenclatura. A expressão correta é simplesmente “ciática” ou “radiculopatia lombar”. Refere-se à compressão do nervo ciático ou suas raízes (L4 a S3), causando dor que irradia desde a região glútea até o pé. Não é um diagnóstico específico, mas um sintoma que requer investigação de sua causa subjacente, sendo a hérnia de disco a etiologia mais frequente.
Quando devo procurar o pronto-socorro imediatamente?
Procure atendimento de emergência se apresentar perda súbita de controle esfincteriano (urina ou fezes), dormência intensa na região genital (anestesia de sela), fraqueza muscular progressiva e acentuada (dificuldade para levantar o pé ou ficar na ponta dos pés), ou dor intensa associada a febre alta. Estes sinais podem indicar síndrome da cauda equina ou infecção espinal.
A hérnia de disco é sempre decorrente de um esforço físico?
Embora lesões agudas possam desencadear sintomas, a hérnia de disco é geralmente resultado de degeneração crônica do disco associada a fatores genéticos. O evento agudo é frequentemente “a gota d’água” em um processo de desgaste que levou anos. Fatores como tabagismo, obesidade e trabalho sedentário contribuem mais significativamente do que eventos traumáticos isolados.
Avaliador de Gravidade da Hérnia
Responda as perguntas abaixo para orientação inicial sobre urgência do atendimento
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Guia de Exercícios por Fase da Hérnia
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Proteção e Movimentação Gentil
Semanas 1-3: Foco em redução da dor e manutenção da mobilidade segura
Posição de alívio: Deitado com travesseiros sob os joelhos (decúbito dorsal) ou entre os joelhos (decúbito lateral)
Caminhada plana: 5-10 minutos, 2-3x ao dia, evitando inclinações
Respiração diafragmática: 10 ciclos profundos, 3x ao dia, para reduzir tensão muscular de proteção