A Estimulação Elétrica Percutânea do Nervo (PENS) é uma técnica neuromodulatória minimamente invasiva que oferece uma opção terapêutica para a dor pós-herpética persistente. Este artigo fornece um guia baseado em evidências sobre sua aplicação, mecanismos e resultados, elaborado pelo especialista em dor, Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Introdução: Compreendendo a Dor que Persiste
A Neuralgia Pós-Herpética (NPH) é uma complicação do herpes zóster, onde a dor neuropática — causada por um mau funcionamento do próprio sistema nervoso — persiste por meses ou anos após a cicatrização da lesão cutânea.
Estima-se que cerca de 10 a 20% dos pacientes com herpes zóster desenvolvam NPH. Em indivíduos com mais de 70 anos, essa prevalência pode ultrapassar 30%. Trata-se de uma condição frequente que impacta significativamente a qualidade de vida.
O tratamento farmacológico padrão, com anticonvulsivantes e antidepressivos, frequentemente proporciona alívio incompleto e pode causar efeitos colaterais como sedação, tontura e ganho de peso. Para pacientes que não toleram ou não respondem adequadamente a essas medicações, a Estimulação Elétrica Percutânea do Nervo (PENS) surge como uma alternativa fundamentada.
Sou o Dr. Marcus Yu Bin Pai, PhD e médico especialista em Dor pela USP. Na prática clínica, observamos que abordagens neuromodulatórias como a PENS podem modificar positivamente o curso do controle da dor neuropática.
A Fisiopatologia da Neuralgia Pós-Herpética
Da Reativação Viral à Dor Crônica
O herpes zóster resulta da reativação do vírus Varicela-Zóster, que permanece latente nos gânglios nervosos. A replicação viral causa inflamação e dano aos nervos periféricos. Na NPH, mesmo após a resolução da infecção, o sistema nervoso permanece em um estado de hiperexcitabilidade.
Este dano leva a uma dor neuropática, caracterizada pela transmissão desregulada e amplificada de sinais dolorosos. O cérebro interpreta estímulos não-dolorosos, como o toque da roupa, como dor (alodinia).
Mito vs. Fato: Esclarecendo Conceitos
Mito: “A neuralgia pós-herpética é rara e sempre melhora sozinha.”
Fato: É uma complicação comum. Embora possa haver alguma melhora espontânea, para muitos a dor persiste indefinidamente sem tratamento adequado. A intervenção precoce é importante para um melhor prognóstico.
Impacto na Qualidade de Vida
Os sintomas típicos incluem dor constante em queimação, choques elétricos intermitentes, sensação de formigamento e sensibilidade extrema ao toque. As consequências são multifacetadas:
- Isolamento Social: O desconforto ao toque pode limitar o contato físico e as atividades diárias.
- Distúrbios do Sono: A dor noturna frequente leva à fragmentação do sono, criando um ciclo de piora da fadiga e da percepção dolorosa.
- Sofrimento Psicológico: A luta crônica contra a dor está associada a maiores taxas de sintomas depressivos e ansiosos.
🩺Perspectiva Clínica do Dr. Marcus Yu Bin Pai
“O objetivo do tratamento vai além da redução da intensidade da dor. Buscamos restabelecer a função, o sono reparador e a capacidade de engajamento nas atividades que dão significado à vida do paciente. A PENS é uma ferramenta valiosa nesse processo integrativo.”
Mecanismos de Ação da PENS: A Ciência da Neuromodulação
Os Pilares do Efeito Analgésico
A PENS utiliza agulhas descartáveis como microeletrodos, inseridas no tecido subcutâneo próximo às vias nervosas afetadas, conectadas a um gerador de pulsos elétricos de baixa frequência (tipicamente 2-10 Hz). Seu efeito é multifatorial:
Mecanismos Neurofisiológicos Detalhados
1. Teoria do Controle do Portão (Gate Control): A corrente elétrica ativa seletivamente fibras nervosas de grande diâmetro (A-beta), que são não-dolorosas. Essas fibras inibem a transmissão dos sinais de dor das fibras finas (C e A-delta) no corno dorsal da medula espinhal, “fechando o portão” para a dor.
2. Liberação de Opioides Endógenos: A estimulação em baixa frequência (2-4 Hz) promove a secreção de endorfinas, encefalinas e dinorfinas no tronco cerebral e na medula espinhal. Esses neurotransmissores se ligam aos receptores opioides, inibindo a transmissão da dor.
3. Modulação de Neurotransmissores: A PENS pode aumentar os níveis de serotonina e noradrenalina, que possuem ação inibitória descendente sobre a via dolorosa. Simultaneamente, pode reduzir a liberação de glutamato, um neurotransmissor excitatório envolvido na sensibilização central.
4. Efeitos Vasculares e Trophicos: Os pulsos elétricos induzem vasodilatação local, aumentando o fluxo sanguíneo e a oxigenação tecidual. Isso ajuda a remover mediadores inflamatórios e pode promover um ambiente mais favorável à reparação neural.
💡Neuromodulação: Reequilíbrio em vez de Bloqueio
Diferente dos medicamentos que suprimem quimicamente a atividade neuronal, a PENS busca modular e normalizar a função do sistema nervoso. É uma intervenção que tampaortar os mecanismos inibitórios naturais do corpo, promovendo um alívio mais fisiológico.
Diagnóstico da Neuralgia Pós-Herpética
O diagnóstico é principalmente clínico, baseado na história de herpes zóster prévio e na característica da dor. O exame físico é crucial para identificar áreas de alodinia (dor ao toque leve) e hiperalgesia (resposta exagerada a um estímulo doloroso).
Sinais e Sintomas Sugestivos
- ✅ Dor persistente (há mais de 3 meses) na exata área de uma erupção de herpes zóster cicatrizada.
- ✅ Caráter da dor: queimação, choque elétrico, formigamento ou facada.
- ✅ Dor desencadeada por estímulos que não deveriam doer, como o contato com a roupa (alodinia).
- ✅ Sensações anormais como coceira intensa ou frio na região.
- ✅ Impacto negativo no sono, humor ou atividades diárias.
A presença destes sintomas justifica uma avaliação com um especialista em dor para confirmação diagnóstica e planejamento terapêutico.
🚨Sinais que Requerem Avaliação Médica Imediata
Embora raros, alguns sinais podem indicar complicações que demandam atenção urgente:
- Fraqueza muscular nova ou paralisia na região afetada.
- Perda do controle da bexiga ou intestino.
- Dor torácica em faixa que piora com a respiração, acompanhada de falta de ar.
- Sinais de infecção bacteriana secundária na pele: aumento de vermelhidão, calor, saída de pus ou febre.
Abordagens de Tratamento: O Papel da PENS
O manejo da NPH é multimodal. A PENS é indicada particularmente para pacientes com dor refratária ou intolerância aos medicamentos de primeira linha, posicionando-se como uma terapia intermediária entre o tratamento farmacológico e procedimentos mais invasivos.
Espectro de Tratamentos para NPH
1. Terapias Tópicas e de Primeira Linha
Agentes: Adesivos ou cremes de lidocaína 5%; creme de capsaicina 8%. Mecanismo: Anestesia local ou dessensibilização de fibras nervosas superficiais. Eficácia: Moderada para dor localizada; efeitos colaterais locais (ardor, vermelhidão) são comuns.
2. Farmacoterapia Sistêmica
Agentes: Gabapentina, Pregabalina (anticonvulsivantes); Amitriptilina, Duloxetina (antidepressivos). Mecanismo: Modulam canais de cálcio ou inibem a recaptação de noradrenalina/serotonina. Eficácia: NNT (Número Necessário a Tratar) para redução de 50% na dor é de ~4-7. Efeitos colaterais como tontura, sonolência e edema podem limitar o uso.
3. Neuromodulação Percutânea (PENS)
Mecanismo: Modulação direta da excitabilidade neural através de estímulos elétricos, conforme detalhado anteriormente. Eficácia: Estudos demonstram redução de 40-60% na intensidade da dor. Oferece alívio com efeitos sistêmicos mínimos.
4. Procedimentos Intervencionistas
Técnicas: Bloqueios nervosos com anestésicos e corticosteroides; Radiofrequência pulsada ou convencional; Neuromodulação medular com implante. Mecanismo: Bloqueio temporário ou lesão térmica controlada das fibras nervosas. Eficácia: Variável; geralmente reservados para casos refratários, com riscos inerentes a procedimentos mais invasivos.
🩺Abordagem Integrativa na Clínica
“Na nossa prática, a PENS é integrada a um plano multidisciplinar personalizado. Enquanto a PENS modula a excitabilidade neural, a fisioterapia especializada trabalha a reeducação postural e a dessensibilização. Técnicas de psicologia da dor ajudam no manejo do componente emocional. Essa combinação costuma produzir os melhores resultados em termos de alívio duradouro e retorno às atividades.” – Dr. Marcus Yu Bin Pai
O Procedimento PENS: O que Esperar
Execução da Técnica
- Avaliação e Mapeamento: Identificação precisa da área dolorosa, dos pontos-gatilho e do trajeto dos nervos afetados através da palpação e do relato do paciente.
- Preparação e Antissepsia: Limpeza rigorosa da pele com solução antisséptica. Utilizam-se agulhas filiformes esterilizadas e descartáveis (calibre 0,20 a 0,30 mm).
- Inserção das Agulhas: As agulhas são inseridas na profundidade do tecido subcutâneo (3-15 mm), estrategicamente posicionadas para cobrir a área de dor.
- Conexão e Parâmetros: As agulhas são conectadas a um gerador. Os parâmetros são ajustados individualmente: frequência (2-10 Hz), largura de pulso (100-200 µs), e intensidade (até o limiar de sensação de formigamento confortável, sem dor).
- Duração da Sessão: O tempo de estimulação é geralmente de 20 a 30 minutos. O paciente permanece em repouso confortável.
- Término: O equipamento é desligado, as agulhas são removidas e a área é novamente limpa. Não há restrições pós-procedimento.
Evidências de Eficácia e Resultados Esperados
Uma meta-análise de 2021 publicada no Journal of Pain Research consolidou dados de ensaios clínicos randomizados. Para dor neuropática, incluindo NPH, a PENS demonstrou superioridade significativa sobre o placebo e terapias de controle (sham).
Resultados Documentados:
- Redução da Intensidade da Dor: Em média, redução de 4 a 5 pontos em uma escala de 0 a 10 após uma série de tratamentos (6-10 sessões).
- Melhora Funcional: Aumento na capacidade de realizar atividades diárias e melhora nos escores de qualidade de vida.
- Efeito no Sono e Humor: Redução da interferência da dor no sono e melhora nos sintomas de ansiedade e depressão associados.
- Efeito Cumulativo e Residual: O benefício máximo geralmente é observado após a 4ª ou 5ª sessão. O efeito analgésico pode persistir por semanas após o término da série inicial, permitindo intervalos progressivamente maiores entre sessões de manutenção.
⚠️Riscos, Limitações e Expectativas Realistas
A PENS é considerada um procedimento de baixo risco. Contudo, é essencial ter expectativas claras:
- Efeitos Adversos Leves e Transitórios: Desconforto local durante a inserção (1-2/10), leve dor muscular pós-procedimento (resolve em 24h), pequeno hematoma pontual (raro).
- Riscos Potenciais: Infecção local (extremamente rara com técnica asséptica), síncope vasovagal (em pacientes predispostos), piora transitória da dor.
- Contraindicações Absolutas: Pacientes com infecção de pele ativa na área de aplicação, epilepsia não controlada (risco teórico de estimulação), ou alergia conhecida aos materiais. Pacientes com marcapasso ou dispositivos implantáveis requerem avaliação cardiológica prévia.
- Resposta Variável: Aproximadamente 70-80% dos pacientes com NPH relatam uma melhora clinicamente significativa (redução >30% na dor). Não é uma cura garantida, mas uma ferramenta poderosa de controle.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. A PENS é dolorosa?
A sensação predominante durante a estimulação é de um formigamento ou pulsação rítmica e confortável. A intensidade é ajustada abaixo do limiar da dor. A inserção da agulha gera uma picada breve, semelhante à acupuntura.
2. Qual é a frequência e o número ideal de sessões?
Para NPH, um protocolo comum consiste em sessões bisemanais por 3 a 5 semanas (total de 6 a 10 sessões). Após essa fase inicial, a frequência é reduzida para sessões de manutenção espaçadas (quinzenais, mensais) conforme a resposta individual.
3. Posso continuar meus medicamentos para dor?
Sim. A PENS é complementar à farmacoterapia. Com a melhora sustentada da dor, pode-se discutir com o médico a possibilidade de reduzir gradualmente a dose dos medicamentos, sempre de forma supervisionada.
4. Quanto tempo leva para sentir melhora?
Alguns pacientes relatam alívio imediato após a primeira sessão. No entanto, o efeito pleno e mais duradouro geralmente é percecido após a 3ª ou 4ª sessão, com acúmulo de benefícios ao longo do tratamento.
5. Qual a diferença entre PENS e Eletroacupuntura?
A eletroacupuntura aplica corrente elétrica em agulhas inseridas em pontos definidos pela Medicina Tradicional Chinesa. A PENS é uma técnica de neuromodulação baseada na neuroanatomia ocidental; as agulhas são posicionadas para atingir diretamente os nervos periféricos, raízes nervosas ou pontos motores relacionados à área da dor.
6. O tratamento é coberto por planos de saúde?
A cobertura para PENS específica é incerta na maioria dos planos. Geralmente, é cobrado como um procedimento de acupuntura com eletroestimulação. Nossa clínica fornece toda a documentação necessária (relatório médico, código do procedimento) para tentativa de reembolso, mas o pagamento é normalmente realizado de forma particular devido à especialização envolvida.
Conclusão e Próximos Passos
A Neuralgia Pós-Herpética é uma condição desafiadora, mas opções de tratamento existem. A PENS representa uma estratégia neuromodulatória segura e eficaz, com fundamentação científica robusta, para pacientes que não alcançam o alívio desejado com medicamentos convencionais.
Quando integrada a um plano de cuidado multidisciplinar, focada na reabilitação física e no manejo psicossocial, os resultados podem ser significativos na restauração da qualidade de vida.
“O avanço no tratamento da dor crônica reside na personalização e na integração de terapias. A PENS é uma dessas ferramentas precisas que nos permite intervir de forma direta e fisiológica no circuito da dor neuropática.” – Dr. Marcus Yu Bin Pai
Agendamento e Avaliação na Clínica Dr. Hong Jin Pai
Oferecemos avaliação especializada em dor crônica com o Dr. Marcus Yu Bin Pai. A consulta inclui diagnóstico detalhado e discussão sobre a indicação e o planejamento de um tratamento personalizado, que pode incluir PENS e outras modalidades integrativas.
Endereço: Al. Jau 687 – Jardim Paulista, São Paulo – SP.
Para mais informações ou para agendar uma consulta, entre em contato pelo WhatsApp: (11) 99160-4480.