ARTIGO

Dor Abaixo das Costelas na Corrida – Quando me preocupar?

A dor embaixo das costelas durante a corrida, tecnicamente conhecida como dor abdominal transitória relacionada ao exercício (DATRE), é uma das queixas mais frequentes entre corredores de todos os níveis. Estudos indicam que aproximadamente 60% dos corredores já experimentaram esse tipo de desconforto em algum momento de suas práticas esportivas.

Essa condição se caracteriza por uma dor aguda ou em pontada, localizada geralmente no lado direito ou esquerdo do abdômen, logo abaixo das costelas. A intensidade pode variar de um desconforto leve até uma dor incapacitante que força a interrupção da atividade física.

Embora seja comum, a dor sob as costelas durante o exercício ainda é pouco compreendida por grande parte dos atletas amadores. Muitos a tratam como algo “normal” da corrida, quando na verdade existem estratégias preventivas e tratamentos eficazes que podem permitir uma prática esportiva mais confortável e segura.

Principais Causas da Dor Abdominal na Corrida

Dor Lateral Transitória (DATRE)

A dor lateral transitória, também chamada de “dor do lado” ou “ponto do lado”, é a causa mais comum de desconforto abdominal durante a corrida. Esta condição ocorre devido à fricção entre as camadas do peritônio (membrana que reveste a cavidade abdominal) quando há tensão mecânica durante o exercício.

O mecanismo envolve o estresse repetitivo nos ligamentos que conectam o diafragma aos órgãos abdominais, especialmente o fígado e o baço. Durante a corrida, o movimento de rebote dos órgãos cria tensão nessas estruturas, resultando em dor localizada.

Isquemia Diafragmática

Durante o exercício intenso, o fluxo sanguíneo é redistribuído prioritariamente para os músculos esqueléticos dos membros. Isso pode causar uma redução temporária do suprimento sanguíneo para o diafragma, o principal músculo respiratório, resultando em dor tipo câimbra na região subcostal.

Tensão Muscular da Parede Abdominal

Os músculos abdominais, especialmente o oblíquo externo e o reto abdominal, podem sofrer contrações excessivas durante a corrida. A falta de condicionamento específico ou a fadiga muscular podem levar a espasmos e dor localizada sob as costelas.

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Fatores de Risco Identificados

Corredores iniciantes, pessoas que se alimentam próximo ao horário do treino, indivíduos com postura inadequada e aqueles que realizam respiração predominantemente torácica apresentam maior predisposição à dor abdominal transitória.

Causas Gastrointestinais

Problemas digestivos podem se manifestar como dor subcostal durante a corrida. O aumento da pressão intra-abdominal combinado com a redução do fluxo sanguíneo para o trato gastrointestinal pode desencadear cólicas, distensão gasosa e desconforto significativo.

Condições como refluxo gastroesofágico, gastrite e síndrome do intestino irritável podem ter seus sintomas exacerbados durante o exercício, simulando ou agravando a dor típica do “ponto do lado”.

Avaliação Diagnóstica

O diagnóstico da dor abdominal relacionada à corrida é fundamentalmente clínico, baseado na história detalhada do paciente e no exame físico. É essencial diferenciar a dor benigna e autolimitada das condições que requerem intervenção médica urgente.

Um médico especialista em medicina esportiva ou dor realizará uma anamnese completa, investigando características da dor como localização, intensidade, fatores de melhora e piora, relação com alimentação e momento de aparecimento durante o exercício.

Características clínicas diferenciais da dor abdominal na corrida
Tipo de Dor Localização Característica Conduta Inicial
DATRE (Ponto do lado) Subcostal direita ou esquerda Aguda, em pontada, relacionada ao movimento Reduzir intensidade, respiração diafragmática
Cãimbra diafragmática Central, abaixo do esterno Contratura muscular, melhora com repouso Alongamento, pausa no exercício
Origem gastrointestinal Difusa ou epigástrica Cólica, associada a alimentos Ajuste alimentar, avaliação gastroenterológica
Lesão muscular Localizada, ponto doloroso Dor à palpação, piora com movimentos específicos Repouso relativo, fisioterapia

Exames Complementares

Na maioria dos casos, a dor abdominal transitória não requer exames de imagem. No entanto, quando a dor persiste após o exercício, é acompanhada de outros sintomas ou não responde às medidas conservadoras, o médico pode solicitar:

  • Ultrassonografia abdominal para avaliação de órgãos sólidos
  • Radiografia de tórax para investigação de patologias pleuropulmonares
  • Exames laboratoriais (hemograma, provas inflamatórias, enzimas hepáticas)
  • Tomografia computadorizada em casos selecionados de dor crônica

Tratamento Não Cirúrgico

O tratamento da dor abdominal durante a corrida é predominantemente conservador, com excelentes resultados quando o protocolo adequado é seguido. A abordagem terapêutica envolve múltiplas estratégias que atuam em diferentes mecanismos da dor.

Medidas Imediatas Durante o Exercício

Quando a dor surge durante a corrida, algumas técnicas podem ser aplicadas para alívio rápido:

Técnica de respiração diafragmática: Reduzir o ritmo da corrida para caminhada e realizar inspirações profundas e lentas pelo nariz, expandindo o abdômen, seguidas de expiração prolongada pela boca. Este método relaxa o diafragma e normaliza a tensão nos ligamentos peritoneais.

Compressão manual: Aplicar pressão moderada com a mão sobre o local doloroso, flexionando levemente o tronco para o lado afetado durante a expiração. Esta manobra reduz a tensão mecânica sobre as estruturas irritadas.

Protocolo de Alívio Imediato em 4 Passos

1

Reduzir velocidade

Caminhar até alívio

2

Respiração profunda

Inspire 4s, expire 6s

3

Compressão local

Pressione ao expirar

4

Alongamento

Braço acima do lado afetado

Acupuntura Médica

A acupuntura médica demonstrou eficácia significativa no tratamento e prevenção da dor abdominal relacionada ao exercício. Esta técnica milenar, praticada por médicos treinados, atua na modulação dos impulsos nervosos e na liberação de endorfinas naturais.

Pontos específicos como Zusanli (E36), Neiguan (CS6) e Zhangmen (F13) são utilizados para relaxar a musculatura abdominal, melhorar o fluxo sanguíneo diafragmático e normalizar a motilidade gastrointestinal. O tratamento geralmente envolve sessões semanais de 30 a 40 minutos, com agulhas descartáveis estéreis.

Pacientes que realizam acupuntura preventiva relatam redução de até 70% na frequência e intensidade das crises de dor abdominal durante a corrida, permitindo treinamentos mais prolongados e confortáveis.

Dry Needling

O dry needling (agulhamento a seco) é uma técnica especializada que visa tratar pontos-gatilho miofasciais nos músculos abdominais e diafragma. Quando existem contraturas localizadas nessas estruturas, o dry needling promove liberação muscular imediata.

A técnica envolve a inserção de agulhas finas nos pontos-gatilho identificados pela palpação, causando uma resposta de contração local seguida de relaxamento. O procedimento é realizado por médicos ou fisioterapeutas especializados, com duração média de 15 a 20 minutos.

Fisioterapia Especializada

A fisioterapia motora desempenha papel fundamental no tratamento e prevenção da dor abdominal na corrida. Um programa individualizado inclui:

  • Fortalecimento do core: Exercícios para estabilização da parede abdominal, incluindo prancha, dead bug e exercícios com bola suíça
  • Alongamento diafragmático: Técnicas manuais para aumentar a flexibilidade do diafragma e músculos intercostais
  • Reeducação respiratória: Treino de respiração diafragmática e padrão respiratório coordenado com a passada
  • Liberação miofascial: Técnicas manuais ou com instrumentos para reduzir tensões na fáscia abdominal

Evidência Clínica

Estudos controlados demonstram que programas de fisioterapia com ênfase em reeducação respiratória e fortalecimento do core reduzem a incidência de dor abdominal transitória em até 65% após 8 semanas de tratamento.

Ondas de Choque

Para casos crônicos ou quando existe tensão miofascial persistente na parede abdominal, a terapia por ondas de choque pode ser indicada. Este tratamento não invasivo utiliza ondas acústicas de alta energia para promover regeneração tecidual, neovascularização e liberação de pontos-gatilho.

O protocolo típico envolve 3 a 5 sessões semanais, com duração de 10 a 15 minutos cada. A energia é aplicada diretamente sobre a região dolorosa, com ajustes conforme a tolerância do paciente. Estudos mostram melhora significativa na dor crônica da parede abdominal após o tratamento.

Terapia Medicamentosa

Em situações específicas, o médico pode prescrever medicações para controle da dor ou tratamento de condições subjacentes:

  • Analgésicos tópicos: Pomadas ou géis com anti-inflamatórios para aplicação local antes ou após o exercício
  • Antiespasmódicos: Medicamentos como hioscina para controle de cólicas abdominais relacionadas à atividade gastrointestinal
  • Relaxantes musculares: Indicados para espasmos severos da musculatura abdominal, sempre sob prescrição médica

Estratégias Preventivas

A prevenção da dor abdominal durante a corrida envolve múltiplos aspectos que devem ser incorporados à rotina do atleta. A implementação consistente dessas medidas reduz drasticamente a ocorrência do problema.

Nutrição e Hidratação

O agendamento correto das refeições é crucial. Recomenda-se evitar refeições volumosas nas 2 a 3 horas que antecedem o treino. Alimentos de fácil digestão, como frutas, torradas ou barras de cereais, são preferíveis quando o treino está próximo.

A hidratação deve ser mantida ao longo do dia, não apenas durante o exercício. A ingestão de pequenos volumes de água durante corridas longas é preferível a grandes volumes de uma só vez.

Treinamento Respiratório

O padrão respiratório coordenado com a passada é uma técnica eficaz. Respirar ritmadamente, coordenando inspiração e expiração com os passos (por exemplo, inspirar em 3 passos, expirar em 2), reduz a tensão assimétrica sobre o diafragma e ligamentos peritoneais.

Progressão do Treinamento

Corredores iniciantes ou aqueles que retornam após período de inatividade devem seguir uma progressão gradual de volume e intensidade. Aumentos súbitos na distância ou velocidade sobrecarregam estruturas ainda não adaptadas.

Guia de prevenção da dor abdominal na corrida
Fator Recomendação Evidência
Intervalo alimentar 2-3 horas antes do treino Redução de 40% na incidência
Aquecimento prévio 10-15 minutos de caminhada + alongamento dinâmico Preparação diafragmática
Postura corporal Tronco levemente inclinado à frente, ombros relaxados Menor tensão abdominal
Condicionamento do core 2-3 sessões semanais de fortalecimento Proteção musculoesquelética

Sinais de Alerta: Quando Procurar Atendimento Médico

Embora a maioria dos episódios de dor abdominal durante a corrida seja benigna e autolimitada, alguns sinais indicam necessidade de avaliação médica urgente. O reconhecimento desses sintomas é fundamental para evitar complicações.

Sinais de Alerta que Exigem Avaliação Médica

Dor que persiste após o exercício
Febre associada à dor abdominal
Dor intensa de início súbito
Sangramento gastrointestinal
Náuseas e vômitos persistentes
Abdômen rígido à palpação

Condições como apendicite, colecistite aguda, obstrução intestinal e pneumotórax podem se manifestar inicialmente como dor subcostal durante o exercício. A avaliação médica diferencial é essencial para descartar essas patologias.

Tratamentos Especializados da Clínica Dr. Hong Jin Pai

Na Clínica Dr. Hong Jin Pai, localizada na Al. Jaú 687, região central de São Paulo, oferecemos uma abordagem multidisciplinar para o tratamento da dor abdominal relacionada ao exercício. Nossa equipe é composta por médicos e fisioterapeutas especialistas em Dor, integrantes do Grupo de Dor da Neurologia e Ortopedia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Abordagem Integrada

Realizamos tratamentos não cirúrgicos personalizados, incluindo acupuntura médica, dry needling, fisioterapia motora, RPG e Pilates em salas individuais. Cada paciente recebe um protocolo específico baseado em sua condição clínica, objetivos esportivos e estilo de vida.

Outros tratamentos disponíveis incluem ondas de choque, laser de alta intensidade, mesoterapia, eletroestimulação, PENS e aplicação de toxina botulínica (Botox) para dor crônica e aguda.

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Perguntas Frequentes

O que causa dor embaixo das costelas ao correr?+
A causa mais comum é a dor abdominal transitória relacionada ao exercício (DATRE), também conhecida como “ponto do lado”. Ela ocorre pela fricção entre as camadas do peritônio e tensão nos ligamentos que conectam o diafragma aos órgãos abdominais. Outras causas incluem isquemia diafragmática, tensão muscular da parede abdominal e fatores gastrointestinais como alimentação inadequada antes do treino.

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Conclusão

A dor embaixo das costelas durante a corrida é uma condição comum, porém tratável, que afeta corredores de todos os níveis. Compreender os mecanismos envolvidos, identificar os fatores de risco e implementar estratégias preventivas adequadas permite uma prática esportiva mais confortável e prazerosa.

O tratamento não cirúrgico, incluindo acupuntura médica, dry needling, fisioterapia especializada e técnicas de reeducação respiratória, oferece resultados excelentes para a maioria dos pacientes. A abordagem individualizada, realizada por equipe especializada em dor, garante o melhor prognóstico.

Se você apresenta episódios frequentes de dor abdominal durante a corrida ou deseja otimizar seu desempenho esportivo com acompanhamento especializado, a Clínica Dr. Hong Jin Pai oferece avaliação completa e tratamentos personalizados. Nossa equipe de médicos e fisioterapeutas especialistas do Grupo de Dor do HC-FMUSP está preparada para ajudá-lo.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico especialista em Acupuntura e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP. CRM 158074 / RQE 65523, 65524, 655241

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