Mesoterapia para Dor Miofascial: Tratamento Minimamente Invasivo

A Síndrome Dolorosa Miofascial é uma das causas mais comuns de dores musculoesqueléticas crônicas, caracterizada pela presença de pontos-gatilho (nódulos dolorosos) nos músculos e na fáscia. Embora o tratamento convencional envolva frequentemente o uso de medicamentos orais sistêmicos, estes podem trazer efeitos colaterais indesejados, especialmente no sistema gastrointestinal e renal.

Neste cenário, a Mesoterapia — tecnicamente conhecida como Intradermoterapia — surge como uma opção terapêutica valiosa. Diferente da sua aplicação estética popular, a mesoterapia antálgica (para dor) foca na administração de baixas doses de medicamentos diretamente na área afetada, logo abaixo da superfície da pele. Esta abordagem permite uma ação farmacológica potente no local da dor com mínima absorção sistêmica, reduzindo drasticamente os riscos de efeitos adversos.

Este artigo explora em profundidade como a mesoterapia funciona para o alívio da dor miofascial, quais medicamentos são utilizados, o que esperar do procedimento e como ela se compara a outras intervenções médicas.

O que é a Síndrome Dolorosa Miofascial?

A dor miofascial é uma condição crônica que afeta o tecido conjuntivo que cobre os músculos (fáscia). Ela pode envolver um único músculo ou um grupo muscular. A característica clínica central é o desenvolvimento de pontos-gatilho (trigger points). Estes são pontos hipersensíveis dentro de uma banda tensa de músculo esquelético.

Quando pressionados ou estimulados, esses pontos causam dor local e, frequentemente, dor referida (dor que se manifesta em uma área distante da origem). Isso ocorre devido à sensibilização dos nervos periféricos e centrais. A rigidez muscular, a diminuição da amplitude de movimento e a fadiga muscular são sintomas acompanhantes frequentes, impactando significativamente a qualidade de vida do paciente.

Mecanismos de Ação da Mesoterapia

1. Efeito Farmacológico Local
A medicação é injetada na derme (1 a 4mm de profundidade). A derme age como um reservatório de liberação lenta, permitindo que o medicamento atue nos receptores de dor locais por mais tempo do que se fosse injetado no músculo profundo ou tomado via oral.
2. Efeito Reflexo (Estimulação)
A própria picada da agulha estimula as fibras nervosas da pele. Isso pode ativar mecanismos inibitórios na medula espinhal (Teoria do Portão da Dor), reduzindo a transmissão do sinal doloroso para o cérebro, independentemente do fármaco usado.
3. Neuroimunomodulação
A microlesão controlada e a presença do fármaco modulam a inflamação local, reduzindo substâncias que causam dor (como a Substância P) e promovendo a reparação tecidual.

Medicamentos Utilizados na Intradermoterapia

Ao contrário da crença popular de que mesoterapia envolve “coquetéis misteriosos”, a prática médica baseada em evidências utiliza fármacos consagrados, aprovados pelas agências reguladoras, mas aplicados por uma via diferente. A escolha da substância depende da avaliação clínica, do tipo de dor e das comorbidades do paciente.

  • Anestésicos Locais: (Ex: Lidocaína, Procaína). São a base da maioria das misturas. Além do efeito analgésico imediato, eles “quebram” o ciclo da dor, relaxam a musculatura e melhoram a circulação local (vasodilatação).
  • Relaxantes Musculares: (Ex: Tiocolchicosídeo). Utilizados especificamente para tratar a contratura muscular que define a síndrome miofascial e desativar os pontos-gatilho.
  • Anti-inflamatórios (AINEs): (Ex: Cetoprofeno, Piroxicam, Tenoxicam). Reduzem a inflamação nos tecidos moles. A vantagem da via intradérmica é evitar a passagem pelo estômago, reduzindo o risco de gastrite e úlceras.
  • Vasodilatadores: (Ex: Pentoxifilina, Buflomedil). Em casos onde há isquemia local (falta de sangue) contribuindo para a dor, estes fármacos ajudam a “lavar” os metabólitos tóxicos acumulados no músculo.

Nota importante: Corticosteroides raramente são usados em mesoterapia clássica para dor miofascial devido ao risco de atrofia da pele (dellen cutâneo) quando injetados superficialmente. Eles são mais comuns em infiltrações articulares profundas.

Tabela 1: Comparativo entre Tratamento Oral vs. Mesoterapia
Aspecto Tratamento Oral (Comprimidos) Mesoterapia (Injetável Local)
Distribuição do Fármaco Sistêmica (todo o corpo) Locorregional (apenas na área da dor)
Dose Necessária Alta (para garantir efeito no alvo) Baixa (microdoses)
Efeitos Gástricos Comum (gastrite, azia) Nulo ou irrelevante
Início de Ação 30 a 60 minutos (após absorção) Rápido (ação direta no tecido)
Frequência Diária (várias vezes ao dia) Semanal ou Quinzenal

Como é Realizada a Sessão?

O procedimento é minimamente invasivo e realizado em consultório médico, sem necessidade de internação ou jejum.

Passo a Passo da Sessão

1
Identificação: O médico palpa a região para localizar os pontos-gatilho e as bandas tensas musculares.
2
Assepsia: A pele é rigorosamente limpa com solução alcoólica ou clorexidina para evitar infecções.
3
Aplicação: Utilizando agulhas extremamente finas (4mm ou 13mm de comprimento), realizam-se múltiplas microinjeções na área dolorosa. A profundidade varia de 2 a 4 milímetros.
4
Finalização: Não há necessidade de curativos complexos. O paciente permanece em observação por alguns minutos e é liberado.

A técnica pode ser manual (seringa e agulha) ou assistida por pistolas mecânicas de mesoterapia, que garantem uma profundidade e volume de injeção precisos. Na prática de dor, a técnica manual é frequentemente preferida pois permite ao médico sentir a textura do tecido e ajustar a aplicação conforme a resposta do ponto-gatilho.

💡 Dica do Especialista em Dor

Após a sessão de mesoterapia, evite aplicar calor local ou massagear vigorosamente a área por pelo menos 24 horas. O calor causa vasodilatação excessiva que pode “lavar” o medicamento do local muito rapidamente, reduzindo o efeito de depósito que desejamos alcançar. Compressas frias podem ser usadas se houver desconforto no local das picadas.

Para Quem o Tratamento é Indicado?

A mesoterapia é particularmente útil para pacientes que não toleram medicação oral ou que necessitam de um complemento ao tratamento físico. As principais indicações incluem:

  • Dor lombar baixa (lombalgia) de origem muscular.
  • Cervicalgia (dor no pescoço) e torcicolo recorrente.
  • Síndrome dolorosa miofascial com múltiplos pontos-gatilho.
  • Tendinites e bursites superficiais associadas a contraturas.
  • Pacientes idosos polimedicados (para evitar interações medicamentosas sistêmicas).

Contraindicações e Segurança

Embora seguro, o procedimento não é isento de riscos e contraindicações. É fundamental uma avaliação médica prévia.

Tabela 2: Segurança e Sinais de Alerta
Categoria Detalhes e Condutas
Efeitos Colaterais Comuns Hematomas pequenos (equimoses), dor leve no local da injeção, vermelhidão passageira, coceira leve. Geralmente desaparecem em 2-3 dias.
Sinais de Alerta Vermelhidão que se expande (celulite infecciosa), calor intenso no local, febre, pus ou nódulos persistentes e dolorosos. Procurar atendimento médico imediatamente.
Contraindicações Absolutas Alergia conhecida aos fármacos (ex: alergia a lidocaína), infecção de pele no local da aplicação, distúrbios de coagulação graves, gravidez (salvo indicação obstétrica específica).
Contraindicações Relativas Uso de anticoagulantes (risco aumentado de hematomas), imunossupressão, medo excessivo de agulhas (fobia).

Resultados e Protocolo de Tratamento

A resposta à mesoterapia varia conforme a cronicidade da dor. Em condições agudas (ex: um torcicolo recente), 1 a 3 sessões podem ser suficientes. Para síndromes miofasciais crônicas, o protocolo geralmente envolve:

3 a 5
Sessões Iniciais

Média para observar melhora significativa na dor crônica.

7 dias
Intervalo Ideal

As sessões são geralmente semanais na fase de ataque.

Rápido
Alívio da Dor

Muitos pacientes relatam alívio horas após a aplicação.

É importante ressaltar que a mesoterapia não deve ser usada isoladamente em casos crônicos. Ela serve como uma “janela de oportunidade” analgésica. Ao aliviar a dor intensa, o paciente consegue aderir melhor à reabilitação física, alongamentos e correção postural, que são os pilares para a cura a longo prazo.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A aplicação da mesoterapia dói muito?

Não, a dor é geralmente descrita como leve e suportável. As agulhas são extremamente finas (similares às de insulina ou acupuntura) e a aplicação é superficial. Além disso, o uso de anestésicos na mistura ajuda a minimizar o desconforto durante o procedimento.

Qual a diferença entre mesoterapia e infiltração?

A principal diferença é a profundidade. A mesoterapia é intradérmica (muito superficial, na pele), usando baixas doses de fármacos. A infiltração clássica é profunda, visando atingir o interior de articulações, tendões ou o ventre muscular, geralmente com volumes e concentrações maiores de medicamentos.

Posso trabalhar logo após a sessão?

Sim. Como é um procedimento minimamente invasivo e não causa sedação sistêmica, o paciente pode retomar suas atividades laborais imediatamente, salvo se o trabalho envolver esforço físico intenso na região tratada.

Quantas sessões são necessárias para curar a dor?

Não existe um número fixo, pois depende da resposta individual. Em média, recomenda-se iniciar com um ciclo de 3 a 5 sessões semanais. A “cura” depende também da correção dos fatores causais (postura, ergonomia, estresse).

Os medicamentos engordam ou incham?

Geralmente não. Como os medicamentos são aplicados localmente e em microdoses, eles não costumam causar retenção hídrica sistêmica ou ganho de peso, efeitos que podem ocorrer com o uso crônico de corticoides orais.

Existe risco de infecção?

O risco existe em qualquer procedimento que perfure a pele, mas é extremamente baixo quando realizado em ambiente médico com técnicas de assepsia rigorosa e material estéril descartável.

Posso fazer exercícios físicos no mesmo dia?

Recomenda-se evitar atividades físicas intensas ou que envolvam sudorese excessiva e atrito na região tratada nas primeiras 24 horas para evitar irritação local e absorção acelerada do medicamento.

Qual médico realiza este procedimento?

A mesoterapia para dor é geralmente realizada por médicos Fisiatras (especialistas em Medicina Física e Reabilitação), Ortopedistas, Reumatologistas ou Médicos da Dor com treinamento específico na técnica.

A mesoterapia substitui a fisioterapia?

Não. Elas são complementares. A mesoterapia alivia a dor química e a inflamação, permitindo que a reabilitação física (exercícios, alongamentos) seja realizada de forma mais eficaz e menos dolorosa.

Posso ter alergia aos produtos?

Sim, embora raro. É essencial informar ao médico qualquer histórico de alergia medicamentosa antes do procedimento. O médico selecionará os fármacos que não apresentem risco de reação cruzada para você.

Ficam marcas na pele?

Podem ocorrer pequenos hematomas (roxos) nos locais das picadas, que desaparecem espontaneamente em alguns dias. Marcas permanentes são extremamente raras se a técnica for aplicada corretamente.

 

Dr. Marcus Yu Bin Pai

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